CAPÍTULO 2 A ‘REVELAÇÃO’ COMO SOCIÓLOGO
IV. O mito e o sentido de Casa-Grande & Senzala
Vale, pois, lembrar que a eclosão do movimento denominado de ‘Revolução de 30’ certamente foi favorável ao desenvolvimento do pensamento sociológico. Surgem, logo nos primeiros anos desta década, grandes ensaios de interpretação da realidade brasileira. Basta ver os trabalhos de Gilberto Freyre Casa-Grande & Senzala (1933), Caio Prado Júnior Evolução
Política do Brasil (1933) e de Sérgio Buarque de Holanda Raízes do Brasil (1936), para ficar
apenas entre os mais consagrados.
Também foi significativa a mobilização de esforços para a implantação da nova disciplina no sistema universitário brasileiro. Lembremos da criação dos cursos de Ciências Sociais na Escola Livre de Sociologia e Política (1933), na Universidade de São Paulo (1933), na Universidade do Distrito Federal (1935).
A resolução provisória das tensões que marcaram os anos 20, proposta pela Revolução, representou uma convocação dos esforços intelectuais para pensar a nação brasileira. Era um episódio importante para a renovação cultural, política e intelectual do país.
A rigor, a ‘Revolução de 1930’ é o rearranjo das frações da classe dominantes, a instauração de um novo padrão de dominação. É, pois, a manifestação política do processo reestruturação da economia nacional de substituição das atividades agrário-exportadoras para um padrão urbano industrial de acumulação.
Com efeito, na sucessão de Washington Luis foram explicitadas as disputas regionais acumuladas ao longo da República Velha que, rigorosamente, desde o Governo de Arthur Bernardes manifestavam-se na vida política do país.
O estopim da crise foi o lançamento de Julio Prestes, político paulista, como candidato governista a sucessão presidencial. Ao indicá-lo, Washington Luis, também paulista, quebrou o
pacto no qual se acordava o revezamento da presidência entre mineiros e paulistas. Foi, pois, então que, sob a liderança do estado de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba se articularam num movimento de oposição denominado Aliança Nacional Libertadora. Lançaram então a candidatura de Getúlio Vargas para a Presidência da República. (FAUSTO, 1975) (FAUSTO, 1985)
A divisão regional refletia na arena política a pressão contra a hegemonia da burguesia cafeeira, cuja base essencial era representada pelo estado de São Paulo. Isso ocorria, pois, no mesmo momento em que o setor cafeeiro ficou profundamente afetado pela crise mundial de 1929. (FAUSTO, 1985: 422)
Julio Prestes, o paulista, venceu as eleições, mas o resultado foi contestado pela Aliança que, em poucos meses, antes mesmo da posse do candidato vitorioso, articulou com sucesso um movimento político militar a fim de depor Washington Luis. O movimento foi deflagrado no dia 3 de outubro de 1930 e, exatamente um mês depois, o Governo foi entregue a Getúlio Vargas, após deposição de Washington Luis.
Em Recife, a Aliança encontrou alguma resistência por parte das forças legalistas, que se haviam colocado de prontidão ao surgirem as primeiras notícias da revolução. A vitória dos revolucionários, contudo, foi garantida pelo apoio popular à insurreição. Já na manhã do dia 5 de outubro, o movimento havia triunfado em Pernambuco, antes mesmo que os reforços provenientes da Paraíba chegassem a Recife. No dia seguinte, a posição dos revoltosos se consolidou quando o presidente do estado, Estácio Coimbra, abandonou o governo e o país em direção ao auto-exílio em Portugal.
Com efeito, Freyre interrompeu suas aulas na Escola Normal de Pernambuco exatamente devido ao ‘Golpe de 30’. Segundo seu testemunho, voluntariamente acompanhou o governador de Pernambuco Estácio Coimbra em seu auto-exílio:
Estácio não admite que eu não o acompanhe. Está triste. Na intimidade,
mais do que triste: abatido. Vejo-o todas as noites, de camisolão, como um menino, rezar. Rezar e chorar. (FREYRE, 1975: 248)
O oligarca fragilizado representado por Freyre nas páginas do seu diário mais parece ser uma metáfora da queda do poder dos líderes regionais após a centralização política imposta sob a coordenação de Getúlio Vargas em 1930.
Pois é em plena viagem de auto-exílio, em apoio ao oligarca combalido pela Revolução, que Freyre diz ter definido o desejo de escrever Casa-Grande & Senzala (FREYRE, 1973: 25) (FREYRE, 1975: 248-249)
Dias difíceis, sem deixarem de ser um tanto românticos, os que estou passando em Lisboa, com um fato único, duas únicas camisas, dois pares de meia. Tudo faço para evitar convites de amigos elegantes, jantares com condessas, ‘cock-tails’ em embaixadas. Convites que implicam em viver eu uma vida para a qual não estou economicamente apto. Disfarço quanto possível minha situação. Nada de pedir a qualquer amigo rico ou remediado que me empreste dinheiro.
Não maldigo a angústia em que estou obrigado a viver, nestes dias de Lisboa, já dominado desde o Senegal, onde ficamos uns dias – pelo afã de escrever um livro que seja um grande livro, revivendo, o mais possível, o passado, a experiência, o drama da formação brasileira. Um drama demasiadamente humano. Um capítulo que não se escreveu da História ou da Aventura do Homem. (FREYRE, 1975: 249)
Aqui encontramos os elementos com os quais Freyre compôs o mito de origem de seu grande livro: a imagem da obra lhe veio em Senegal, numa longa viagem de exílio em direção a Portugal após o Golpe de 30. Note-se o caráter quase épico desta representação: o livro lhe surge na mente numa viagem em que sai do Brasil, passa pela África em direção a Portugal. O itinerário é significativo. Freyre desejava, afinal, dizer: o Golpe parecia convidá-lo para um retorno às origens do Brasil, um caminho de volta à vida intra-uterina da nação.
Os acontecimentos políticos pareciam arremessar Freyre para um retorno essencial, uma viagem intelectual ao passado da nação. O livro que seria sobre a história da infância no Brasil passa a ter como tema a infância do Brasil. (ADAMI, 2002)
E não apenas o itinerário da viagem é assim significativo. Freyre procurava demonstrar que pessoalmente também realizava uma espécie de retorno íntimo às origens culturais, às formas de sociabilidade fundadoras da cultura brasileira.
Faz questão de ressaltar que o livro foi imaginado e realizado em meio a grandes dificuldades. Seus testemunhos nos fazem crer que fora, na época, vítima do dolorido afastamento da terra natal, de vinganças políticas (a exoneração da cadeira de sociologia, a destruição da casa de seus pais no Recife), de dificuldades econômicas.
Segundo seu relato, especialmente as dificuldades econômicas exigiram um retorno para formas fundamentais de sociabilidade e expressão cultural que estariam na origem da formação
brasileira. Com efeito, a ‘dureza’ dos primeiros meses de exílio exigiam dele o afastamento da vida fidalga e a aproximação da vida ‘rústica’ e ‘folclórica’:
Essa angústia [do exílio e da falta de dinheiro] me faz conviver menos com a gente burguesa do que com a plebe rústica e folclórica: em Lisboa, entre saloios, fadistas, mulheres das chamadas vida alegre, de uma das quais, mulata de Angola, já aprendi que na África ‘senzala’ é ‘sanzala’, ‘massangana’ é ‘massangano’. No Brasil, há muito convivo com gentes de xangô, em Pernambuco, e de candomblé, na Bahia, e de macumba em Niterói. Com babalorixás como Adão do Recife e Martiniano do Bonfim da Bahia. Com negras quituteiras. Com mulatas quase do mesmo tipo das que Lafcadio Hearn amou voluptuosamente em Martinica. Com barcaceiros alagonanos que me ensinaram a fumar maconha, sem o perigo de resvalar em ‘amok’. Com ‘gangs’ de adolescentes desajustados. Com operários recifenses ingenuamente entusiastas do P.C. Com cariocas boêmios, tocadores de violão. Com gentes de clubes populares afro-brasileiros, de Carnaval, no Rio de Janeiro e no Recife. Com gentes de trabalho, em velhos engenhos do Nordeste e fazendas dos arredores de Petrópolis; e, ao mesmo tempo, com os velhos senhores, velhos senhores decadentes, já evitados pelos próprios netos; senhores velhos dos quais tenho chegado a ser quase um substituto de netos e bisnetos ingratos. Também com velhas baronesas brasileiras, velhas iaiás, ex-escravas. Venho recolhendo de vários deles confissões preciosas. Agora estou fazendo o mesmo em Lisboa, com condessas, com sábios e com prostitutas. Com prostitutas, aos goles de ginja. Com negras de Angola que comparo com as que conheci no Senegal francês.
(FREYRE, 1975: 249)
Continuo na mais crua pobreza e quase incapaz de aceitar convites ilustres e, por isso mesmo, vivendo uma vida muito mais plebéia que burguesa, bebendo mais ginja nas bodegas do que vinho do Porto nos salões de fidalgos que me honra com sua amizade sem saber de minha extrema penúria. (FREYRE, 1975: 251)
Num contexto em que festas e “encontros fidalgos” eram evitados, Freyre dizia-se arremessado para a vida plebéia, cuja experiência de convívio voluntário no Brasil já lhe fora positiva. Porém, agora transformava suas experiências plebéias remotas e recentes num contato quase sistemático, por meio do qual recolhia subsídios para escrever sua grande obra.
Em Portugal, as pesquisas para sua obra compreenderam também a consulta aos livros e documentos na Biblioteca Nacional de Lisboa, no Museu Etnológico e em coleções particulares. Mas Freyre permaneceu apenas poucos meses em Portugal com o ex-governador combalido.
Logo depois, a convite da Universidade de Stanford, ministrou aulas nos Estados Unidos acerca da história do Brasil.
O próprio Freyre observava que estas aulas foram fundamentais para a estruturação de
Casa-Grande & Senzala:
Foi na Universidade de Stanford que tomou corpo o meu projeto desse livro: um livro que fosse uma nova reconstituição, uma nova introspecção e uma nova interpretação de uma sociedade de origem européia desenvolvida com elementos extra-europeus de etnia e de cultura, em espaço tropical; e à base de uma organização patriarcal e escravocrática de economia, de família, de convivência. Impossível, como autor de ‘Casa-Grande & Senzala’, esquecer-me dos dias que então passei à sombra das palmeiras da acolhedora Stannford: foram dias decisivos para o livro projetado.(FREYRE apud GIUCCI;
LARRETA, 2002: 711 e 712)
As notas das aulas em Stanford, consultadas por Larreta e Giucci (2003b), de fato revelam que o curso ministrado nos Estados Unidos por Freyre acabou sendo decisivo para a conformação da obra. Dois pontos do plano de aulas são importantes nesse sentido: o primeiro, previa a discussão acerca dos antecedentes europeus da sociedade brasileira. Nele, Gilberto Freyre dedicou-se a caracterizar a cultura, a vida social e as condições econômicas de Portugal na Idade Média. O segundo ponto, voltado para a caracterização do tipo de colonização promovida por Portugal no Brasil e seus efeitos para a vida social e cultural brasileiras. (GIUCCI; LARRETA, 2002: 727) Ambos os pontos do programa figuram em Casa-Grande & Senzala, sobretudo, no primeiro e no terceiro capítulos.
Em 1932, depois da estadia na Europa e da passagem nos Estados Unidos Freyre, retornou ao Brasil. Foi então que efetivamente redigiu seu livro Casa Grande & Senzala, também, segundo sua versão, em meio a grandes adversidades econômicas. Passou um tempo no Rio de Janeiro (onde fez ainda suas últimas pesquisas na Biblioteca Nacional) e então voltou ao Recife para concluir o texto da obra, isolado na casa que seu irmão lhe emprestara, vivendo da venda de frutas (mangas e jacas) que o pomar lhe oferecia com generosidade. Nada mais telúrico. (FREYRE apud GIUCCI; LARRETA, 2002:711 e 712)
Não julgamos necessário reconstituir, para os fins desta análise, as polêmicas em torno do lançamento de Casa-Grande & Senzala. Não trataremos ainda de analisar profundamente aqui o conteúdo desta obra. Ainda que muitas leituras e interpretações de Casa-Grande & Senzala sejam possíveis (numerosos estudos comprovam isso), o nosso objetivo é de apenas fazer notar que
Freyre, neste livro, decifrou um dos dilemas brasileiros fundamentais da década propondo uma revelação dos mecanismos de auto-regulação da sociedade brasileira. Trata-se, pois, de uma tese sociológica por excelência. Para isso, lançou mão dos instrumentos conceituais e metodológicos que estavam ao seu alcance para revelar que o modelo de organização social brasileiro era eficientemente auto-regulado.
Freyre realizou, em Casa-Grande & Senzala, uma interpretação do patriarcalismo, compreendido como instituição fundadora e civilizadora do país, responsável tão simplesmente pelo equilíbrio social. A unidade nacional, os caldeamentos cultural e racial são, segundo o autor, produtos de uma dinâmica particular instituída pelas complexas relações sociais desenvolvidas no interior da casa-grande e que teve como unidade básica a família patriarcal. (BASTOS, 1986)
Freyre quis, pois, afirmar o lugar importante que ocupa o patriarcado na organização e no equilíbrio da sociedade brasileira. Nesse sentido, ele não estabelece distinção entre formas de dominação e de socialização, entre Estado e Sociedade. No momento mesmo em que a autoridade dos oligarcas entra em declínio, Freyre, sob o discurso histórico sociológico, a legitima e diz que dela deriva ‘a identidade nacional’ e o equilíbrio social. Parece oferecer os fundamentos para novas formas de pacto político. (BASTOS, 1986) (PAULA, 1990)
Em Casa-Grande & Senzala Freyre, afinal, conseguiu articular - sob a afirmação sociológica do fenômeno do patriarcalismo - estrutura social e identidade nacional. Sugeriu assim as relações existentes entre Estado & Sociedade no Brasil. Decifrou o dilema dos anos 20 e deu um salto para uma nova etapa dos estudos sociais, já que ultrapassou o modelo da ideologia do Estado Autoritário. Ultrapassou também um modelo de ação cultural regionalista. (BASTOS, 1986)
CAPÍTULO 3
ENTRE O RECIFE E O RIO DE
JANEIRO
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I. No Recife, sociologia para estudantes de Direito
No dia 1o de julho de 1935, Gilberto Freyre foi nomeado, por Anísio Teixeira, professor de
sociologia e antropologia da nova Universidade do Distrito Federal (UDF).1 Não obstante, adiou seu
embarque para o Rio por várias vezes. Atrasou, conseqüentemente, o início de seus cursos na UDF: as aulas na Universidade começaram em 1o de agosto e Freyre só iniciou suas atividades docentes
em 11 de setembro.
Segundo confessava aos amigos, algumas dificuldades o impediram de assumir imediatamente as aulas. Dizia ter sido vítima, naquele período, de uma incômoda crise de furunculose, ao mesmo tempo em que se debatia com o excesso de trabalho resultante da elaboração de Sobrados e Mucambos (1936). Porém sua justificativa principal referia-se à necessidade de honrar um compromisso com os alunos da Faculdade de Direito do Recife, para os quais preparara um curso de sociologia.2
Algumas pistas sugerem que, durante o ano de 1934, Freyre mobilizou consideráveis esforços com o propósito de implementar uma cadeira de sociologia na Faculdade de Direito. Teria, segundo algumas notas jornalísticas, enfrentado forte oposição de professores da própria Faculdade de Direito.3 Chegou a acionar sua rede de amigos cariocas a fim de obter uma autorização especial
1 O contrato de nomeação de Gilberto Freyre está disponível no acervo do Centro de Documentação da Fundação
Gilberto Freyre - Recife/PE.
2 Ver carta de Gilberto Freyre a Fernando de Azevedo datada de 06/08/1935 – Acervo do Instituto de Estudos Brasileiros
da USP. Também disponível em: (DIMAS, 2000).
junto ao Ministro da Educação Gustavo Capanema4 para introduzir a nova disciplina no currículo e
ocupar temporariamente as funções docentes na Faculdade. 5
É bem possível que esta autorização tenha sido liberada tardiamente, exatamente na época em que iniciavam as aulas da UDF. Se esta hipótese for verdadeira, Freyre teria ficado dividido entre seus novos compromissos e a antiga pretensão na Faculdade de Direito do Recife, para a qual dedicara tanto empenho.
Diante deste impasse, Freyre parece ter decidido adiar ao máximo seu embarque para o Rio de Janeiro. Procurou, ao menos, iniciar as atividades na Faculdade de Direito do Recife. Sua Aula Inaugural foi, pois, proferida no dia 9 de agosto e mereceu grande destaque na imprensa local - sobretudo no Diário de Pernambuco que lhe dedicou, na manhã seguinte, uma matéria de primeira página.6
A matéria jornalística destacou, em primeiro lugar, o sucesso de público da conferência. Além dos numerosos estudantes, noticiou-se a presença de professores das Escolas Superiores do Recife, dos Secretários da Agricultura e da Fazenda do Estado, de um juiz federal e de
representantes de outras autoridades federais e estaduais. 7
Nesta matéria comentou-se, também com entusiasmo, que Gilberto Freyre teria recusado convite para ministrar a aula inaugural da Universidade do Distrito Federal por optar pela abertura do curso de sociologia na Faculdade de Direito do Recife. O episódio, cujos dados ao nosso alcance não nos permitem confirmar (não sabemos se Freyre fora, de fato, convidado para ministrar Aula Inaugural da UDF), é registrado no jornal pernambucano como se fosse uma vitória da província sobre a capital da República na posse de um dos mais ilustres intelectuais brasileiros, o escritor de
Casa-Grande & Senzala.
A citada nota jornalística não deixou ainda de destacar trechos da conferência de Freyre a partir dos quais podemos, ainda que de modo bastante limitado - e na ausência de outras fontes mais seguras -, reconstituir parte da fala de Freyre:
4 Gustavo Capanema (Pitangui/MG - 1900-1985) assumiu o Ministério da Educação em 1934 e permaneceu no cargo
durante todo o período do Estado Novo. Era então assessorado por um grupo de intelectuais entre os quais os ‘três Andrades’: Carlos Drummond de Andrade, Mario de Andrade e Rodrigo de Mello Franco de Andrade. Ver site: www.cpdoc.fgv.br
5 Ver cartas de Rodrigo de Mello Franco de Andrade a Gilberto Freyre datadas de 28/08/1934 e 14/11/1934 – Acervo do
Centro de Documentação da Fundação Gilberto Freyre - Recife/PE.
6 Diário de Pernambuco, Recife, 10/08/1935, p. 1. 7 Diário de Pernambuco, Recife, 10/08/1935, p. 1.
... entra o Sr Gilberto Freyre a apreciar o papel da Sociologia no mundo intelectual contemporâneo e lembra que em 1890, na Faculdade de São Paulo, Paulo Egydio se referia à Sociologia como a uma ciência recém- nascida. (...) Nega o conferencista a existência de Sociologias particularizadas – de uma Sociologia educacional, de uma Sociologia médica, de uma Sociologia rural. Diz também que não existe uma Sociologia marxista nem fascista. Para Gilberto Freyre a Sociologia se acha num terreno alheio a competições, de crenças, de políticas, de classes. É ciência, e como tal, está isolada de determinadas influências do meio e de tempo. O que há é, muita vez, a coincidência da Sociologia aclarar ou interpretar fatos e documentos humanos de maneira a colaborar nesta ou naquela obra social. 8
Ao assinalar o esforço de Paulo Egydio9, Freyre inscreveu sua mobilização favorável à
introdução da cadeira de sociologia no curso de Direito dentro de uma tendência no meio jurídico brasileiro inaugurada ainda no século XIX.
Segundo a síntese feita pelo jornal, a sociologia foi então apresentada por Freyre aos futuros juristas como uma disciplina que, a despeito de sua formação recente, não se fragmentou segundo objetos e demandas políticas. Ao contrário, foi definida como ciência una, imparcial capaz de orientar ações sociais.
Certamente estes alertas de Freyre quanto à natureza do conhecimento sociológico eram uma tentativa de evitar as freqüentes confusões entre sociologia e socialismo, por exemplo. A sociologia, quis dizer o autor, conquistara, já naquela época, legitimidade científica necessária para discutir aspectos da realidade brasileira sem incorrer em perspectivismos políticos e ideológicos.
Nesse sentido, a abertura do curso de sociologia da Faculdade de Direito do Recife foi um importante episódio de promoção pública da nova disciplina sociológica, de sua natureza e de suas contribuições.
A rigor, a disciplina iniciada por Freyre na Faculdade de Direito do Recife não era sociologia
geral, mas introdução ao estudo de sociologia regional. O programa de aulas do curso, Freyre o
introduziu afirmando que o conhecimento sociológico elementar era pré-requisito para o
8 Diário de Pernambuco, Recife, 10/08/1935, p. 1.
9 Paulo Egydio foi professor na Faculdade de Direito de São Paulo no final do século XIX. Inaugurou a introdução das
idéias de Durkheim no ambiente acadêmico brasileiro. Ofereceu cursos livres de sociologia e escreveu vários compêndios dedicados à apresentação das idéias de Durkheim entre os estudantes de direito. São eles: A propósito da
teoria de Durkheim (1899), Contribuição para a historia philosophica da sociologia (1899), Do conceito das leis sociologicas (1900) e Estudos de sociologia criminal (1900). Ver: (ALVAREZ, 2000) (MEUCCI, 2000).
acompanhamento das aulas.10 Entretanto, revelou, ainda assim, alguma disposição para esclarecer
dúvidas básicas dos alunos aconselhando-os a anotarem e entregarem suas indagações aos seus auxiliares. Tais dúvidas seriam esclarecidas em sessões especiais, fora do período normal de aulas.11
Observa-se, no programa desta disciplina, que o curso visava a aplicação dos conceitos e