4. TRATAMENTO JURÍDICO-POLÍTICO
4.3 A Utopia Brasileira de Segurança e a América do Sul
Porém, devido às insistentes discussões controvertidas acerca da posição hierárquica dessa categoria de tratados, houve a edição de um novo parágrafo ao art. 5º, por força da Emenda Constitucional n. 45, de 8 de dezembro de 2004287.
Dessa maneira, antes da Emenda de n. 45 vigorar no ordenamento jurídico doméstico do Brasil, os tratados internacionais de direitos humanos, ainda não ratificados, eram aprovados ordinariamente, ou seja, por maioria simples, através de Decretos Legislativos, o que não os elevava, consequentemente, ao nível constitucional, tampouco “supra legal”, de acordo com a nomenclatura do Supremo Tribunal Federal.
Diante dessa perspectiva interpretativa em relação aos parágrafos 2º e 3º do art. 5º da CF/88 do Brasil, encontra-se o estado constitucional dos tratados de direitos humanos preservado, desde que observada as regras de recepção desses tratados, sua declaração material de direitos humanos e a presença de quórum qualificado de aprovação.
Finalmente, observa-se que o STF do Brasil optou por um desenvolvimento peculiar para tratar dos acordos internacionais, que versem sobre direitos humanos, ratificados pelo Brasil, outrora, sem a presença do quórum qualificado, semelhante ao rito de aprovação de emendas constitucionais. A solução encontrada pelo Corte foi apontar um estado “supra legal”, acima das leis ordinárias, hierarquicamente;
porém abaixo dos comando constitucionais, em que pese grande parte dos internacionalistas auferirem a essas normas o caráter de direito cogente, em virtude do direito costumeiro internacional que acometerias esses direitos.
4.3 A Utopia Brasileira de Segurança e a América do Sul
Conforme consta no Art. 4º da Constituição da República Federativa do Brasil as relações internacionais são regidas pelos seguintes princípios:
I - independência nacional;
II - prevalência dos direitos humanos;
III - autodeterminação dos povos;
287“Parágrafo terceiro:” Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais.”
106 IV - não-intervenção;
V - igualdade entre os Estados;
VI - defesa da paz;
VII - solução pacífica dos conflitos;
VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo;
IX - cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
X - concessão de asilo político288.
Conforme o parágrafo único: “a República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”.
O dialogismo entre a política, e normatização, da União das Nações Sul-americanas e o Constitucionalismo brasileiro relaciona-se, sobremaneira, ao disposto nesse artigo quarto da Constituição do Brasil. Considera-se que o disposto no parágrafo único, desse dispositivo, apresenta um considerável espaço entre a realidade e o que se visa alcançar, a realidade como se apresenta frente à perspectiva que se proclama atingir.
Conforme exposto no primeiro capítulo, sobre utopia, observa-se que a simples presença de espaço entre a concretude de como os fatos se apresentam e o ideal almejado não fundamenta, efetivamente, a condição utópica, por mais distante que seja entre o real e o idealizado. Precisa-se, portanto, de condições latentes que, por mais intangível que seja a realidade ideal, lhe confiram verossimilhança com os fatos reais, a fim de evitar-se a condição de devaneio, ficção ou trivial aspiração.
Precisa-se, também, de que o aspecto a ser idealizado insira-se em condições de mobilização do ímpeto humano em direção a concretude do “dever ser”, por mais intangível que essa condição possa ser. As utopias são intangíveis, por natureza. A ênfase deve recair sobre o desempenho ou caminho que a utopia propicia à sociedade, em vez do alcance de seu fim ou situação almejada de fato.
A integração latino-americana almejada por esse dispositivo legal constitui-se um ideal, por natureza, sobretudo a considerar as diversas assimetrias histórico-culturais que se apresenta nessa parte do continente americano. Como exposto outrora, houve distanciamentos étnicos, políticos, sociais e históricos que afastaram
288 Disponível em: planalto.gov.br/Constituição, acesso: 14 de Dezembro de 2016.
107 os Estados latino-americanos, substancialmente. Em relação ao Brasil a situação foi agravada pela perspectiva diversa de colonização, etnologia, idioma e da monarquia imperial destoante das demais republicas da região, no século XIX. Teme-se um Brasil imperialista até a atualidade, nesse caso, pela posição geopolítica e econômica natural que o Brasil ocupa na região.
Apesar de essa integração latino-americana, nos moldes constitucionais brasileiros, implicar substancial entusiasmo, apresenta-se como possibilidade verossímil, tanto por estar contida em uma Constituição nacional quanto pela capacidade de desenvolvimento real de seu conteúdo. A UNASUL apresenta-se como um dos patamares mais próximos, dessa aspiração constitucional, pois trata-se do regionalismo mais abrangente e complexo, em detrimento de outros blocos da região aos quais não gozam da mesma abrangência ou do mesmo grau de institucionalização e complexidade da UNASUL.
Embora a UNASUL não se desenvolva, propriamente, nos parâmetros que o dispositivo constitucional almeje, efetivamente; possui a prerrogativa de ensejar outros processos de regionalismo, na região, ainda mais abrangentes, em especial com relação aos países do Caribe e da América Central, em virtude de sua complexidade, pretensões e avanços.
O CDS apresenta-se como um dos fatores de complexidade e pioneirismo de cooperação, que possui uma das pretensões mais desafiadoras, o desenvolvimento de um modelo de segurança sul-americano, tendo como seu principal patrocinador e idealizador o Brasil, sobremaneira, a dar prosseguimento à utopia constitucional de sua Constituição nacional, no tocante ao parágrafo único, do artigo quarto.
Ainda de acordo com a Constituição brasileira de 1988, afirma-se que a segurança é concebida enquanto um direito social, o que se concebe no:
Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição289.
A previsão de que a segurança é um direito social, dimensiona a fundamentação do papel do homem na sociedade, ressaltando-se o princípio da
289BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: 1988.
108 dignidade humana, fundamento constitucional previsto no inciso III, art. 1º da Constituição Federal.
A Constituição brasileira erige a justiça social como um de seus fundamentos e princípio básico, conforme dispõe o Título I, fundamentando-se no artigo 3º, I e III que intenta: “[...] construir uma sociedade justa e solidária [...] e reduzir as desigualdades sociais e regionais” observando-se os princípios no artigo 170 que discorrem sobre “[...] III – função social da propriedade; [...] VII – redução das desigualdades regionais e sociais; [...]”290.
O princípio da justiça social anuncia que as pessoas tem a possibilidade de usufruir de bens essenciais para a vida em sociedade.
Diante do exposto anteriormente, analisa-se que o ambiente filosófico em que se desenvolveu o pós-positivismo propiciou o reconhecimento de que as Constituições possuem força normativa, expandindo sua jurisdição e elaborando as diferentes categorias da nova interpretação constitucional.
A esse respeito, a Constitucionalização faz com que a demanda por justiça seja uma exigência precípua da sociedade brasileira. A ascensão institucional do Poder Judiciário provocou, no Brasil, a judicialização das relações políticas e sociais.
Reyes291 analisa que a Constituição representa a “jurisdicização” da democracia. Coadunando a esse respeito, o novo Constitucionalismo latino-americano reafirma o corolário do conceito de Constituição como materialização da democracia. O novo Constitucionalismo latino-americano difere de forma, legítima, do constitucionalismo anterior pela natureza política das assembleias constituintes, também.
Em uma análise histórica, as Constituições pertencentes às nações latino-americanas destacaram-se por anunciar o liberalismo conservador, em que o povo não podia participar, de forma efetiva, do processo político.
Ressalta-se que o Constitucionalismo, mais democrático, deve priorizar a tradução fidedigna dos valores sociais, a estabelecer os mecanismos que possam relacionar a soberania e a essência do poder constituinte, entendido em seu sentido mais amplo como a fonte do poder que se sobrepõe às relações políticas. O neo- constitucionalismo reafirma a concepção revolucionária do constitucionalismo
290 Idem. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: 1988.
291 REYES, Manuel Aragón. La Constitución como paradigma. In: CARBONELL, Miguel. Teoría del neoconstitucionalismo. Ensayos escogidos. Madrid: Editorial Trotta, 2007, p. 32.
109 democrático, pois o dota de instrumentos capazes de possibilitar a emancipação e o progresso dos povos.
O desenvolvimento do Constitucionalismo democrático latino-americano deve superar os seculares problemas vivenciados pelas sociedades multiculturais, os quais não foram solucionados, anteriormente, por intermédio do Constitucionalismo clássico. Wolkmer292 defende que o novo Constitucionalismo, na América Latina, se dividiu em três ciclos, no qual o primeiro foi representado pela afirmação, nas Constituições Brasileira, de 1988 e Colombiana, de 1991, do ciclo social e descentralizador; o segundo ciclo se caracterizou por meio do Constitucionalismo participativo e pluralista, representado pela Constituição da Venezuela, de 1999. Em relação ao terceiro ciclo, encontra-se representado por meio das recentes Constituições do Equador, de 2008 e da Bolívia, de 2009.
Analisa-se que os textos dessas Constituições expressam um Constitucionalismo plurinacional comunitário, identificando-se a assunção de um paradigma único de Estado de Direito; reconhecendo-se a coexistência das experiências de sociedades interculturais, indígenas, comunais, urbanas e camponesas, associando-se às práticas de pluralismo igualitário jurisdicional, que repercute na convivência de instâncias legais de jurisdição ordinária estatal e jurisdição indígena-camponesa.
Observa-se que as Constituições da Venezuela, de 1999; Equador, de 2008 e Bolívia, de 2009 coadunam-se com o Neo-constitucionalismo democrático latino-americano, a romper a ordem jurídica anterior, materialmente, pois houve a afirmação da soberania popular, imanente à democracia participativa.
Uma das características do novo Constitucionalismo democrático latino-americano é a preocupação com a segurança293. A participação dos cidadãos, em matérias de políticas públicas de direitos fundamentais, assenta-se na ideologia desse constitucionalismo.
Esses avanços, nas Constituições, contribuíram para fundamentar a organização da UNASUL e a consequente criação do CDS, a consolidar a
292 WOLKMER, Antônio Carlos. Pluralismo e crítica do constitucionalismo na América Latina. In:
Anais do IX Simpósio Nacional de Direito Constitucional. Curitiba: Academia Brasileira de Direito Constitucional, 2010.
293 Sobre a fundamentação do direito ao ambiente equilibrado ver: (MORAES; MARQUES JÚNIOR, 2011, pp. 227-262).
110 perspectiva da lógica da segurança para a América do Sul. O campo da segurança pode ser compreendido enquanto uma novidade no âmbito da UNASUL.
O projeto de América do Sul que consta na perspectiva do tratado de criação da UNASUL, prioriza o viés da área de segurança e da cooperação a partir do conceito de ameaça à segurança concebido de um contexto regional, estabelecendo, o que é pioneiro no Cone Sul.
Por intermédio da criação do Conselho de Defesa Sul-Americano foi lançado o Plano de Ação Anual – PAA no ano de 2009, com a finalidade de construir uma zona de paz e de cooperação na América do Sul, buscando o desenvolvimento da identidade sul-americana de defesa. No PAA294, estabeleceu-se que a segurança se daria em quatro eixos temáticos: coordenação de políticas de defesa; a cooperação militar, ações humanitárias e operações de paz; a cooperação entre as indústrias de tecnologia de defesa; a formação e capacitação dos quadros de defesa regionais295.
Destaca-se, também, como aspecto complexo e inovador na UNASUL, em matéria de defesa, a criação do Centro de Estudos Estratégicos de Defesa – CEED.
com os objetivos de contribuir com a identificação dos desafios, fatores de risco e ameaça; de promover a construção de uma visão compartilhada em matéria de defesa e segurança regional, conforme os princípios e objetivos constitutivos da UNASUL e no Estatuto do CDS; de contribuir com a articulação das políticas de defesa e segurança regional.
Além dessas funções, o CEED realiza cursos e seminários, discutindo acerca variados aspectos sobre a implantação de um sistema para medir os gastos militares no continente sul-americano296.
De semelhante modo, no tocante ao desenvolvimento de um “modus operandi”, destaca-se a criação da Escola de Defesa Sul Americana – ESUDE, que tem a missão de construir a confiança mútua entre os países, ampliar a
294 Ver o plano anual de 2009.
295 Idem. Neoconstitucionalismo e constitucionalização do Direito. O triunfo tardio do Direito Constitucional no Brasil. Jus Navigandi, Teresina, ano 10, n. 851, 1 nov. 2005. Disponível em:
http://jus.uol.com.br/revista/texto/7547. Acessado em: 28.11.2016.
296 UNASUR. Unión de Naciones Suramericanas. Disponível em http://www.unasursg.org . Acesso em 29/11/2016.
111 transparência dos sistemas de defesa e contribuir para consolidar a cooperação internacional no campo da defesa297.
Esses esforços conjuntos de aperfeiçoamento nas academias enfatizam ainda mais a cooperação e o diálogo, a fim de se desenvolver o modelo sul-americano de defesa, conjuntamente. O próprio CDS, bem como a pretensão de criar-se identidades sul-americanas, em matéria de segurança e defesa constituem utopias que foram concebidas. Concomitantemente, a criação da UNASUL, o que perde a viabilidade sem os fóruns, as academias e demais oportunidades de diálogos entre os povos da região.
A criação da UNASUL consolidou uma instância que se caracteriza pela negociação de crises regionais. Trata-se de um fórum de coordenação, cuja vertente política se caracteriza pela expressão do novo regionalismo sul-americano.
Sem desconhecer as diferenças entre seus membros, a UNASUL apresenta o desafio para superá-las e para desenvolver a identidade sul-americana.
O aperfeiçoamento dessa organização implica importante desdobramentos geopolíticos e geoeconômicos, a contribuir para a formação de um polo sul-americano, com modelos autóctones, a contribuir com o sistema internacional. A UNASUL e o CDS tratam-se da forma primeira, para o Brasil, em termos de influência e de participação no mundo, além de desenvolvimento estratégico, sobretudo em relação à defesa regional autóctone.
Politicamente, existem, portanto, duas utopias do Brasil, em matéria de segurança para a América do Sul. Primeiramente, em relação ao próprio CDS, como abordado, houve varias diferenças de intenções e assimetrias entre o Brasil e os demais países da UNASUL, o que conclui-se que o próprio CDS e a concretização de uniformizar o tratamento da segurança no continente sul-americano, deveras heterogêneo, se trata, por si, de um ideal utópico, a inserir, nessa perspectiva, pretensões de desenvolvimento indentitário para a região, conforme normatização do CDS.
Em segundo lugar, destaca-se que a sociedade brasileira, marcada pela miscigenação, tolerância e sincretismo, marcas, também, da sociedade moderna,
297 ROCHA, Antonio Jorge Ramalho da. A Escola de Defesa Sul-Americana. Disponível em:
http://mundorama.net/2015/09/02/a-escola-de-defesa-da-america-do-sul-por-antoniojorge-ramalho/ . Acesso em 29/11/2016.
112 migratória e globalizada, pode colaborar com os seus modelos sociais, por meio de sua contribuição no CDS e na UNASUL.
O modelo brasileiro preza a paz, a destacar a diplomacia em detrimento dissuasão militar, necessário para afastar as animosidades e desconfianças com os países contíguos, outrora. Hodiernamente, pretende-se uma inserção internacional, pela colaboração com a América Latina, conforme a utopia constitucional brasileira, e com a comunidade internacional.
Conforme exposto no primeiro capítulo, sobre utopia, observa-se que a simples presença de espaço entre a concretude de como os fatos se apresentam e o ideal almejado não fundamenta, efetivamente, a condição utópica, por mais distante que seja entre o real e o idealizado. Precisa-se, portanto, de condições latentes que, por mais intangível que seja a realidade ideal, lhe confiram verossimilhança com os fatos reais, a fim de evitar-se a condição de devaneio, ficção ou trivial aspiração.
Precisa-se, também, de que o aspecto a ser idealizado insira-se em condições de mobilização do ímpeto humano em direção a concretude do “dever ser”, por mais intangível que essa condição possa ser. As utopias são intangíveis, por natureza. A ênfase deve recair sobre o desempenho ou caminho que a utopia propicia à sociedade, em vez do alcance de seu fim ou situação almejada de fato.
A integração latino-americana almejada por esse dispositivo legal constitui-se um ideal, por definição, sobretudo a considerar as diversas assimetrias histórico-culturais que se apresenta nessa parte do continente americano. Como exposto outrora, houve distanciamentos étnicos, políticos, sociais e históricos que afastaram os Estados latino-americanos, substancialmente.
Em relação ao Brasil, a situação foi agravada pela perspectiva diversa de colonização, etnologia, idioma e da monarquia imperial destoante das demais republicas da região, no século XIX. Teme-se um Brasil imperialista até a atualidade, nesse caso, pela posição geopolítica e econômica natural que o Brasil ocupa na região.
Apesar de essa integração latino-americana, nos moldes constitucionais brasileiros, implicar substancial entusiasmo, apresenta-se como possibilidade verossímil, tanto por estar condida em uma Constituição nacional quanto pela capacidade de desenvolvimento real de seu conteúdo. A UNASUL apresenta-se
113 como um dos patamares mais próximos, dessa aspiração constitucional, pois trata-se do regionalismo mais abrangente e complexo, em detrimento de outros blocos da região aos quais não gozam da mesma abrangência ou do mesmo grau de institucionalização e complexidade da UNASUL.
Embora a UNASUL não se desenvolva, propriamente, nos parâmetros que o dispositivo constitucional almeje, efetivamente; possui a prerrogativa de ensejar outros processos de regionalismo, na região, ainda mais abrangentes, em especial com relação aos países do Caribe e da América Central, em virtude de sua complexidade, pretensões e avanços.
O CDS apresenta-se como um dos fatores de complexidade e pioneirismo de cooperação, que possui uma das pretensões mais desafiadoras, o desenvolvimento de um modelo de segurança sul-americano, tendo como seu principal patrocinador e idealizador o Brasil, sobremaneira, a dar prosseguimento à utopia constitucional de sua Constituição nacional, no tocante ao parágrafo único, do artigo quarto.
114 CONCLUSÃO
No período anterior à chegada das naus portuguesas de Pedro Álvares Cabral, os índios viviam no território que chamavam de Pindorama, o que, na língua tupi, significa terra das palmeiras. No século XVI, chamava-se brasileiro aquele que comercializava pau-brasil.
Atualmente, o que se entende por Brasil possui perspectiva e dimensões diversas do que se imaginava outrora. Nos trezentos e vinte e dois anos que definiram o Brasil como território português transatlântico, estabeleceu-se vasta interligação entre as duas sociedades, e foram legados ao Brasil elementos significantes de sua identidade.
Em 1808, com a vinda da Corte Real Portuguesa para o Novo Mundo, houve o estreitamento da interdependência contextual da História e da sociedade luso-brasileira, o que resultou em um passado cultural comum. Indubitavelmente, a identificação entre esses dois países não mais seria a mesma. O Brasil nunca tinha sido tão português; nem Portugal, tão brasileiro.
Nas cidades brasileiras, principalmente no Rio de Janeiro, observavam-se fenômenos que iriam mudar, definitivamente, a economia, a política, a sociedade e a identidade nacional da colônia: a abertura dos portos, a regulamentação da Imprensa Régia, a criação do Banco do Brasil e de instituições de ensino.
Intensificavam-se nos portos brasileiros a chegada de naus e de embarcações carregadas de produtos e de indivíduos de diversas nacionalidades, destacando-se, em um primeiro momento, a presença inglesa, devido ao fim do monopólio colonial. A presença, no território brasileiro colonial, de ibéricos, de franceses, de alemães, de suíços, de escravos africanos contribuiu para a diversidade e para a miscigenação que caracterizam o país. Acrescido a isso, tem-se a relação de todos estem-ses povos com os índios brasileiros, os quais também possuíam certas divergências ideológicas e diferenças étnicas.
Essa conexão entre a América e a Europa, sobretudo a partir de 1808, foi responsável por um acentuado diálogo de povos e pela intensificação da miscigenação e da interação cultural, política e econômica. A interação entre todos os elementos humanos com a topografia dos trópicos, com o clima e com os
115 contextos políticos domésticos, acrescida da influência do que se vivia também no mundo, formou as características inerentes ao Brasil da época.
A presença da família real portuguesa, nos trópicos, modificou a sociedade brasileira, com seus costumes e identidades. As culturas do índio e da colônia eram cada vez mais consideradas selvagens e atrasadas. Os misticismos, o caráter exótico e a elevação à condição de Reino Unido a Portugal e Algarve conferiram ao Brasil condições atrativas para diversos aventureiros, nobres e artistas em busca de
A presença da família real portuguesa, nos trópicos, modificou a sociedade brasileira, com seus costumes e identidades. As culturas do índio e da colônia eram cada vez mais consideradas selvagens e atrasadas. Os misticismos, o caráter exótico e a elevação à condição de Reino Unido a Portugal e Algarve conferiram ao Brasil condições atrativas para diversos aventureiros, nobres e artistas em busca de