3.4 0/n0DEL0 TEORlCO
CAPÍTULO 4 A VALIDAÇÃO DO MODELO
Nos dias de hoje embora haja muitas pesquisas em diversas áreas do conhecimento aplicado, sente-se a falta de uma maior segurança em matéria de metodologia quando se trata de investigar situações concretas. Aiém disso, no piano teórico, a retórica sem controle corre solta. Há um crescente descompasso entre o conhecimento usado na resolução de problemas reais e o conhecimento usado apenas de modo retórico ou simbólico na
esfera cultural".
MICHELTHIOLLENT [1998, p. 10]
4.1 PROCEDl/nENTOS mETODOLOGlCOS
Elaborado o modelo teórico, buscou-se utilizá-lo em uma situação real, complexa o suficiente para: (a) verificar, no conjunto das etapas, seu comportamento e (b) aperfeiçoá-lo pelo uso passo-a-passo, detectando suas insuficiências localizadas e adequando-o às especificidades de cada situação, ou seja, aplicando, avaliando e corrigindo, conforme o andamento, passo a passo, da implantação.
0 método mais adequado a este tipo de verificação é a pesquisa-ação.
Ela é definida como "um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a solução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo." (THIOLLENT, 1998, p. 14).
Segundo o mesmo autor, esse método, amplamente aplicado nos diversos campos de atuação social, se presta também ao estudo das "propostas 'eficientizantes' das áreas organizacional e tecnológica”, sendo que. no caso, "visa resolver problemas de ordem aparentemente mais técnica como. por exemplo, introduzir uma nova tecnologia ou
desbloquear a circulação da informação dentro da organização". Nessa situação, no plano ético, a pesquisa-ação deve ser desenvolvida sem interferências ou manipulações, sobretudo as ligadas à estrutura de poder da organização.
A pesquisa-ação visa o relacionamento entre dois tipos de objetivos:
(a) objetivo prático: "soluções” para auxiliar o agente (ou ator) na sua atividade
transformadora da situação.
(b) objetivo de conhecimento: ohXzx informações de dificil acesso, melhorando o nivel
de conhecimento que se tem da situação.
Isso é exatamente o que se pretende: entender melhor como o corpo técnico de uma organização adquire e pratica o conhecimento em Ergonomia (visando aperfeiçoar o modelo) "solucionando” assim seus problemas em relação ã área.
Mas esse método de pesquisa não se limita à ação e à participação. "Com ela é necessário produzir conhecimentos, adquirir experiência, contribuir para a discussão ou fazer
avançar o debate acerca das questões abordadas. Parte da informação gerada é
divulgada, sob formas e por meios apropriados, no seio da população. Outra parte
da informação, cotejada com resultados de pesquisas anteriores, é estruturada em
conhecimentos. Estes são divulgados pelos canais próprios às ciências...". (THIOLLENT, 1998, p. 22)
0 autor ainda define que o método da pesquisa-ação é composto pelos seguintes aspectos (por ele denominados de instrumentos):
A. Fase Exploratória - consiste, por um lado, no conhecimento do objeto do estudo e na hierarquização dos problemas que o compõem e, por outro lado, nos meios disponíveis para estudá-lo: a constituição da equipe com a consideração dos interesses envolvidos, a cobertura institucional e financeira, etc.
B. Tema da Pesquisa - é a designação do problema prático e da área de conhecimento a serem abordados. Busca-se enunciar o objetivo da pesquisa de forma direta, precisa e inteligível para todos os envolvidos. A formulação pode
ser descritiva ou normativa, mas deve resultar do consenso entre os interesses e as limitações dos pesquisadores e dos demais atores envolvidos, sem o que se corre o risco de iniciar um processo não participativo ou que resulte em soluções superficiais.
C. A Colocação dos problemas - Trata-se da definição da problemática na qual o tema escolhido tenha sentido para ser tratado. A problemática é o modo de colocação do problema de acordo com o marco teórico-conceitual adotado. 0 problema diz respeito, segundo o autor, textualmente:
"à relação entre um elemento real e um elemento explicativo inadequado ou à relação entre dois elementos explicativos decorrentes do mesmo fato. Se houvesse apenas um elemento não seria um problema, mas um tema". (THIOLLENT, 1998, p. 53)
D. 0 Lugar da Teoria - Estruturação de uma "moldura teórica” para contenção e criação de referência para as atividades de cunho prático que certamente estarão presentes na pesquisa, devido à sua índole empirista. 0 papel da teoria, nesse caso, consiste também em gerar idéias, hipóteses ou diretrizes para orientar a pesquisa e as interpretações.
E. Hipóteses - Na pesquisa-ação, as hipóteses são, de fato, diretrizes para o desenvolvimento da pesquisa, uma vez que se busca o encaminhamento coletivo de uma situação, excedendo o âmbito das suposições formuladas pelo pesquisador (que caracterizam as hipóteses na pesquisa quantitativa). Dessa forma, o grupo de pesquisa deixa de ter o ônus de formular precocemente as hipóteses, e de a elas permanecer visceralmente ligado no transcorre da pesquisa, mas constrói diretrizes que contribuem para a diminuição da construção de matérias confusas ou da perda de foco no processo da pesquisa. F. Seminário - É o elemento central para exame, discussão e tomada de decisões
acerca do processo de investigação. Reúne os principais membros da equipe de pesquisadores e dos grupos implicados no problema objeto da pesquisa. Nele são desenvolvidas tarefas de definição, registro, reflexão, comunicação e divulgação do processo de pesquisa e dos seus resultados parciais e finais.
G. Campo de Observação e Amostragem - É a delimitação do campo de observação empírica, objeto de discussão entre os Interessados e os pesquisadores. Cabem três posições, consideradas as características de cada pesquisa; (a) abranger toda a população envolvida; (b) utilizar amostragem com critérios estatísticos e (c) utilizar critérios de representatividade qualitativa, equivalentes às "amostras intencionais” da pesquisa convencional.
H. Coleta de Dados - Na pesquisa-ação, a coleta de dados é realizada por grupos de observação que buscam, no mínimo, respostas às indagações presentes nas etapas do estudo. A coleta é feita diretamente junto à população envolvida e segue os critérios determinados no item anterior, com uso de questionários, entrevistas e outras técnicas correntes nas ciências sociais e visa alimentar as atividades do Seminário.
I. Aprendizagem - Diferentemente da pesquisa convencional, na pesquisa-ação
ocorre, no transcorrer da pesquisa, processo de aprendizagem que envolve a todos os que nela estão envolvidos, seja pelas discussões em conjunto, pelas negociações entre as partes, pelo necessário nivelamento de contiecimentos em relação a certas questões diretamente envolvidas na problemática, entre outras. Isso pode ocorrer internamente à equipe de pesquisa ou ser promovido por especialistas externos chamados a intervir em pontos específicos do processo. A construção desses "canais de aprendizagem” se inicia na preparação da pesquisa e pode ser enriquecida em pontos específicos da pesquisa.
J. Saber Formal/Saber Informal - É a consideração, no âmbito da pesquisa, de que os pesquisadores têm determinado tipo de conhecimento (formal), expresso através de certo tipo de linguagem (técnica) e que a população envolvida no problema em estudo tem outro tipo de conhecimento (procedural) e o expressa com sua linguagem própria (coloquial). A articulação entre esses dois tipos de conhecimento sobre o problema é de interesse para a pesquisa-ação e, para que isso ocorra, é necessária a criação de procedimentos que promovam a troca entre as partes.
K. Plano de Ação - Uma pesquisa-ação deve contar com um plano de ação que estruture os procedimentos informais (conversas, encontros informais, etc) que
normalmente a compõem. Este Plano deve conter, com precisão, os principais interessados, um diagnóstico interinstitucional, os tomadores de decisão, os objetivos e suas metas, bem como os instrumentos de avaliação de resultados e os mecanismos de participação da população implicada, da incorporação de suas sugestões e da continuidade das ações.
L. Divulgação interna e Externa - Excedendo ã essencial divulgação do andamento da pesquisa e das decisões a todos os atores envolvidos, é necessário que haja um programa perene de divulgação externa junto aos diferentes setores interessados por canais formais e informais. A síntese e a conversão em linguagem adequada são de suma importância para a eficácia da comunicação nessa instância.