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2.3.4 0 Envolvimento dos Trabalhadores

COMPORTAMENTO DE EQUIPE E DE GRUPO

2.3.6 Programas Corporativos de Ergonomia

Desde seu surgimento, foram crescentes os esforços em pesquisa e geração de conhecimento em ergonomia. Inicialmente esses estudos eram voltados para o projeto de ferramentas e postos de trabalho associados à revisão de procedimentos organizacionais que visavam a redução ou prevenção do desconforto do trabalhador com reflexos na redução dos níveis de absenteísmo e aumento da produtividade.

A partir de certo momento dessa evolução, pela constatação pelas empresas de que essas ações se mostravam promissoras do ponto de vista do retorno sobre o investimento, começaram a surgir atividades de cunho corporativo na área, sob a forma de programas de ergonomia em empresas e em grupos empresariais, compostos por diretrizes e normas ergonômicas relativas a esforços, posturas, condições ambientais e organização do trabalho. A idéia norteadora desses programas é a educação dos funcionários da empresa nos princípios da ergonomia, utilizando o programa corporativo na melhoria da saúde e do bem estar e, conseqüentemente, na produtividade e na qualidade.

Como seu surgimento é recente, dentre as empresas que, de fato, implantaram programas de ergonomia dissociados de seus programas de saúde ocupacional, apenas umas poucas tornaram públicas as características e os resultados das suas experiências.

Em 1999, 0 National Instítute of Working Life, um centro sueco de pesquisa,

desenvolvimento e treinamento em vida laborai, organizou em Estocolmo o Seminário Internacional de Iniciativas Corporativas em Ergonomia no qual algumas empresas apresentaram seus programas.

Participaram do seminário várias empresas do ramo automobilístico como a Volvo, a Wolkswagen, a Saab, a Peugeot, a Rover z a Ford, além de empresas de outros ramos

Dentre os programas de ergonomia apresentados, o da Ford Motor Company, bem

exemplifica o perfil dos programas atualmente em curso nas grandes corporações.

No seu artigo, Josepti Bradley (1999) apresenta o posicionamento da Fordzm relação à

ergonomia, uma síntese fiistórica da inserção da ergonomia na empresa e os principais componentes do programa Ford, batizado Ford Global Frgonomics Process.

Para a Ford, a ergonomia se Incumbe de examinar a Interação entre o trabalhador e o

ambiente de trabalho com a consideração de que sendo ela, a interação, fraca, a habilidade do trabalhador para realizar suas tarefas fica comprometida. No curto prazo, isso representa desconforto para o trabalhador. No longo prazo, doenças e mutilações se mostram como problemas também para a empresa. Em síntese, o posicionamento da empresa é de que o trabalho mal planejado é prejudicial para o trabalhador e para a empresa.

0 encontro da empresa com a ergonomia se iniciou em 1989 através de simples projetos de pesquisa que envolveram alguns de seus setores e a Universidade de Michigan em Ann Arbor. 0 sucesso dos resultados alcançados levou, ainda no final de 1989, à criação do embrião do programa de ergonomia da Ford, com treinamento de funcionários nos Estados Unidos e no Canadá. Em 1990, o material didático então em uso foi traduzido para o espanhol e inserido nas unidades industriais da empresa no México. Em 1995, a ergonomia foi escolhida como uma das áreas a ser globalizada, ou seja, disseminada em todas as unidades da empresa, no âmbito do projeto "Ford2000' e foi então criado o

“ Global Ergonomics Tearrí' composto por representantes da área médica, de operação,

de segurança e de higiene industrial para avaliar a realidade do processo ergonômico em suas unidades industriais.

Mais tarde, em 1996, como resultado de wokshop de ergonomia realizado na Europa,

são criados comitês locais de ergonomia em várias unidades industriais como "pilotos” para a implantação da rede que se encontra atualmente em funcionamento.

" The Globa! Ergonomics Tearrl’ é a atual designação dessa rede. É a seguinte sua visão

sobre os esforços em ergonomia;

"Through the effective use of ergonomics. Ford will be a global leader in providing a highly productive work environment for all employees worldwide that is safe, injury/illness free, and facilitates continual improvement of quality and total cost for today and in the future” (BRADLEY, 1999, p. 34)

A visão se apóia em três requisitos; (a) a ergonomia deve perpassar todos os níveis da companhia; (b) a ergonomia deve co-existir com os processos correntes e (c) a ergonomia deve ser desenvolvida com abordagem participativa.

“ FordMotor Company Global Ergonomics Process é composto por três partes que estão

alinhadas com a área de saúde e segurança no trabalho. São elas:

Global Ergonomics Strategies

Avaliação e aperfeiçoamento das regulações locais e globais para fins de incorporação aos processos em uso. Atuação nas linhas consideradas criticas: necessidade de treinamento especializado, necessidade de comunicar os conteúdos da ergonomia e a necessidade constante de revisar e aperfeiçoar processos.

Sumário das principais tarefas: (a) coordenar o desenvolvimento e a manutenção do registro dos processos ergonômicos globais, dos bancos de dados e dos sistemas de comunicação; (b) desenvolver e atualizar o “ Office Facility Managers Manual'-, (c) participar das equipes de análise de valor; (d) prover suporte técnico

e normas como recursos para a evolução das equipes interdisciplinares de manufatura, dos fóruns de manufatura e das equipes de engenharia simultânea; (e) trabalhar com os coordenadores de ergonomia no desenvolvimento dos parâmetros para avaliação ergonômica e (f) participação na evolução e no desenvolvimento de ferramentas para análise ergonômica avançada.

Managing Ergonomics Events

Identificação, avaliação e correção de tarefas que apresentam risco ergonômico, envolvendo as equipes locais e a equipe global da companliia.

0 processo é discutido em um livro chamado “An Ergonomics Process e consiste

de duas partes: Implementação do Processo e Ciclo de Evolução das Tarefas.

The Job Improvement Cycle

É um ciclo para solução de problemas composto por seis passos: (1) identificar tarefas prioritárias; (2) Avaliar o stress da tarefa; (3) Desenvolver soluções; (4) Implementar soluções; (5) Documentar os projetos e (6) Prover manutenção aos projetos.

Para a implementação desse processo, pilotos são desenvolvidos em cada país, nas unidades da companhia.

Comitês locais do programa são criados com o seguinte sumário de atividades:

□ Passo 1: Assegurar o comprometimento das lideranças (gerência e representações dos trabalhadores) com a realização de reunião para (a) mostrar o que é a ergonomia, sua importância e o que ela proporciona; (b) apresentar em linhas gerais o programa de ergonomia da companhia, os procedimentos e as normas para sua implantação e funcionamento e (c) discutir e examinar leis locais e contratos que podem afetar a implementação do processo.

□ Passo 2: Implementação do comitê local com o treinamento dos membros selecionados entre os trabalhadores e os administradores. 0 coração desse processo consiste na criação de equipe mista igualitária composta por trabalhadores e administradores.

□ Passo 3: Desenvolvimento da missão do comitê local (em sintonia com as diretrizes do programa global), incluindo: (a) as metas gerais do processo ergonômico; (b) os objetivos para os quais o comitê local trabalhará e (c) as estratégias que serão utilizadas para alcançar os objetivos. É também nesse

passo que é estabelecida a equipe de trabalho do comitê local (que se encarregará de seu cotidiano) e as normas para seu funcionamento.

□ Passo 4: Após a incorporação de um pouco de experiência, é recomendável que o comitê local realize um novo encontro (reunião das lideranças) para apreciar os resultados e realizar ajustes.

□ Passo 5; Periodicamente, o comitê local deverá ser avaliado em dois níveis: do processo e dos usuários. No nível do processo ele é auditado utilizando-se as ferramentas específicas da companhia. Em relação aos usuários, programa de avaliação que inclua a sua participação e a análise de dados e informações coletadas (sobre incômodos, desconfortos, patologias, absenteísmo, etc).

Além das instâncias e mecanismos acima apontados, o programa de ergonomia da companhia dispõe do "Ergonomic Prevention Process', um roteiro de princípios

ergonômicos utilizado de forma pró-ativa no desenvolvimento de produtos, no planejamento e no layout da planta e dos postos de trabalho visando a prevenção de problemas ergonômicos.