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CAPITULO 2: ESPIRITUALIDADE E RELIGIOSIDADE NA VELHICE

1. A velhice

O envelhecimento da população é um fenômeno que acontece em nível mundial. Por meio do desenvolvimento de tecnologias de saúde e controle de qualidade da vida, os técnicos da saúde conseguiram prolongar o tempo de vida do indivíduo e melhorar sua qualidade. Uma dentre várias características que acompanharam aumento desta população é a “feminização da velhice” (Camarano, Kanso e Mello, 2004: 29). O envelhecimento brasileiro é um fenômeno que, para ser entendido numa dimensão mais complexa, tem de ser visto pela questão de gênero, pois, como sugere as pesquisas demográficas, quanto mais velho o segmento, maior é o número de mulheres. Essa característica é mais forte nos centros urbanos, onde 55% da população de idosos são de mulheres, e na grande maioria, são viúvas. No caso das áreas rurais os homens são a maioria. Alguns dados sobre a longevidade desses segmentos populacionais apresentam uma diferença considerável, uma vez que a esperança de vida da população idosa masculina teve um aumento de 58,5 para 67,5 anos (dados de 1980 a 2000). No caso das mulheres idosas, a esperança de vida é de 76 anos (Camarano, Kanso e Mello, 2004: 37).

As principais causas de morte na população brasileira de idosos são as doenças do aparelho circulatório, neoplasias (tumores), doenças no aparelho respiratório, doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas. Esses dados são importantes, pois corroboram para desvincular o fenômeno do envelhecimento da questão da morte. Envelhecer não é sinônimo de morrer: “A velhice desemboca sempre na morte. Mas

raramente ela acarreta a morte sem que intervenha um elemento patológico” (Beauvoir, 1990:46).

A Gerontologia e a Geriatria são as disciplinas que foram criadas no século XX para estudar especificamente o envelhecimento. A Geriatria teve, enquanto especialidade da Medicina, seu nome formalizado em 1909, pelo médico Ignaz L. Nascher, fundador da Sociedade de Geriatria de Nova York. A Geriatria atua num campo delimitado pela área médica onde são feitos o manejo e a prevenção das doenças ligadas ao envelhecimento (Jeckel-Neto, 2000). No caso da Gerontologia, foi Elie Metchnicoff, o primeiro a nomear essa disciplina em 1903, ressaltando sua importância para o século XX (Neri, 2001). Caracterizado a priori como um campo multidisciplinar, a Gerontologia produz o conhecimento sobre o envelhecimento a partir da interdisciplinaridade das áreas que a compõem. A Biologia, a Psicologia e as Ciências Sociais são as matrizes teóricas que geram o saber para essa interseção disciplinar, visando explicar as modificações presentes no processo do envelhecimento a partir de seus determinantes genético-biológicos, psicológicos, sociais e culturais.

A vida do ser humano pode ser pensada teoricamente por meio de várias perspectivas, assim perceber a velhice é uma questão de “ponto de vista”, o que implica em assumir que ela não é um dado da natureza (Debert, 1998). Para compreender melhor essa afirmação é necessário entrar na discussão sobre a relação entre natureza e cultura. Por hora, é suficiente compreender que olhamos para o envelhecimento como o produto de uma cultura que constrói através da fronteira entre natureza e cultura, uma relação entre o caráter biológico e a lógica cultural. Nesta perspectiva o processo biológico de envelhecimento do corpo é um fenômeno percebido na sociedade ocidental como universal, ou seja, um dado da natureza que se apresenta ao homem sendo significado conforme sua lógica cultural.

Essa idéia é corroborada pela visão biológica que percebe o envelhecimento como um processo de declínio do organismo. Nesta visão o ser humano é um sistema fechado que está em equilíbrio e conforme o tempo, vai se desestabilizando. Beauvoir (1990) relata que várias foram as explicações apresentadas para dar suporte a essa idéia, como a involução das glândulas sexuais no século XIX, a arteriosclerose no século XX, a diminuição dos tecidos ativos provocando a diminuição da regeneração celular. Desta

leitura é possível observar a existência de uma correlação entre doença e velhice onde o envelhecimento é visto como parte da natureza algo inerente, dado.

Como comenta Beauvoir (1990:17), o fenômeno do envelhecimento pode ser apreendido por, pelo menos três pontos de vista, biológico, psicológico e existencial. A dimensão social faz parte do ponto de vista existencial. A autora destaca que pela complexidade do fenômeno e seu caráter dinâmico é mais fácil apreendê-lo quando o olhar é multidisciplinar: “A velhice não é um fato estático; é o resultado e o prolongamento de um processo...”. Com essa ênfase na multidisciplinariedade do olhar sobre a velhice, é possível construir um conhecimento e uma abordagem mais integral do fenômeno do envelhecimento. Seguindo esta idéia, apresentaremos uma síntese das diferentes perspectivas sobre a velhice buscando enfatizar a forma pela qual o fenômeno é apreendido sobre os diferentes olhares.

Para entender o envelhecimento a partir de seu funcionamento biológico é necessário evocar uma análise que parta do nível celular em direção a todo o organismo. Nesta perspectiva o envelhecimento é um momento em que a lógica interna do organismo e seus ritmos de duração (ritmos metabólicos, ciclo de sono e vigília, ciclo menstrual e etc.) indicam uma diminuição de funcionalidade e uma menor probabilidade de sobrevivência. A idade biológica funciona como um indicador de tempo para o indivíduo que, de acordo com o momento da vida, demarca sua finitude. O processo que determina esse tempo chama-se “senescência” ou “envelhecimento biológico”:

O envelhecimento é um processo típico de uma grande quantidade de formas de vida e que se expressa de maneira variável conforme o grupo, espécie, etc. Apesar destas diferentes maneiras, considera-se o envelhecimento como sendo o processo biológico pelo qual ocorrem as alterações das características morfológicas e fisiológicas no organismo vivo ao longo do tempo. (JECKEL-NETO, 2000: 16).

As teorias biológicas que buscam explicar o envelhecimento podem ser vistas, de acordo com Saavedra (2000), como pertencentes a dois grupos. Essa divisão é feita com base em dois critérios utilizados para explicar o fenômeno do envelhecer: o desgaste do organismo e a determinação genética. Há diversas teorias que explicam a velhice como conseqüência do desgaste do organismo, como exemplo a da teoria do

wear and tear (teoria dos radicais livres), “teoria do dano oxidativo”, “teoria integrada

“teoria do corpo descartável”. Somando a idéia de desgaste do organismo estão as teorias que explicam o envelhecimento como resultado de “acidentes ao acaso”, são elas: “teoria do envelhecimento por mutações”, “teoria da catástrofe do erro” e “teoria da acumulação de mutações”. Contrapondo-se a essas duas linhas estão as teorias que explicam o envelhecimento a partir de sua natureza geneticamente determinada: “teoria do desenvolvimento” ou longevity-assurance hypotesis (“hipótese dos genes para assegurar a longevidade”), “hipótese da pleiotropia antagonística”, “hipótese da senescência programada” e a “teoria adaptativa da senescência”. A maioria dessas teorias e hipóteses são testadas em estudos com drosophila (espécie de mosca), camundongos e algumas são realizadas com humanos, como é o caso da teoria do envelhecimento por mutações. Essa teoria sustenta que, no desenvolvimento de doenças degenerativas em mamíferos ocorre a radiação ionizante que acarreta vários tipos de danos nos cromossomos.

Na perspectiva social o conhecimento produzido sobre o envelhecimento permeia vários campos do saber, como a Sociologia, o Serviço Social, a Pedagogia, a Estatística, a Filosofia, as Ciências da Religião e a Antropologia. Cada área do conhecimento constrói sua pergunta sobre o envelhecimento de forma particular e de acordo com suas teorias. As definições sobre o envelhecimento devem ser procuradas em cada disciplina. Com a finalidade de ilustrar essa diversidade de olhares, apresentaremos recortes de alguns trabalhos que abordam a temática do envelhecimento.

É por meio de uma análise das transformações econômicas, sociais, políticas e ideológicas que a Sociologia procura entender o papel da velhice na sociedade ocidental. No seu trabalho sobre a imagem dos idosos na mídia, Stempansky (2003) procura compreender o processo de construção e reconstrução da identidade do idoso brasileiro nas últimas décadas do século XXI. Para isso abordou propagandas publicitárias feitas sobre idosos e jovens e o papel de idosos nas telenovelas. Uma importante constatação foi a distinção de gênero na construção da imagem do idoso. Parafraseando a autora, a felicidade sexualizada, elegante e bem sucedida dos idosos produzida pela mídia, é masculina. A combinação da alta performance física (virilidade) com mercadorias produtoras de valores (automóveis, bebidas caras, produtos sofisticados etc.) marcam essa imagem do velho que está sempre com mulheres jovens. Já a idosa aparece como figura importante dentro dos quadros familiares (avós). Essa

pesquisa faz um importante tipo de reflexão sobre a sociedade brasileira e suas definições de papéis de gênero. Objetar as imagens da velha como “guardiã da tradição” (avó) e do velho como “ícone de sucesso” (conquistador e rico) permite perceber dois pontos importantes. Um deles é a distância entre a imagem que a mídia produz e a realidade do idoso brasileiro. O outro é a representação criada pela mídia sobre um modelo ideal ligado a sexualidade, poder e decisão para o homem e a manutenção da tradição para a mulher.

Partindo de uma perspectiva filosófica Bosi (1979) trabalha a questão da velhice do ponto de vista da memória. Analisando as narrativas dos velhos residentes da cidade de São Paulo ela faz uma caracterização do contexto em que vivem os idosos brasileiros. No prefácio do livro de Bosi (1979: XVIII), escrito por Marilena Chauí, são ressaltados alguns pontos importantes da pesquisa: “... que é ser velho, pergunta você. E eu respondo: em nossa sociedade, ser velho é lutar para continuar sendo homem”. Essa luta seria realizada contra a opressão cotidiana que sofrem os indivíduos idosos. De acordo com Chauí, ser velho, num contexto da sociedade capitalista, é ter uma sobrevida, ausente de “projetos”, impossibilitado de ter lembranças. Uma velhice atribuída por um outro que oprime. É na relação social entre o “eu” oprimido, nesse caso os velhos, e o “outro” opressor que se pode apreender uma série de sentidos atribuídos ao papel do idoso.

Na perspectiva antropológica, o trabalho de Gusmão (2003) busca caracterizar os processos produzidos na estrutura da sociedade brasileira que são organizadores das relações entre indivíduos de diferentes gerações. Para a autora, os velhos, assim como as crianças, são seres “marginais” dentro duma ordem “adultocentrica” que rege a lógica da sociedade moderna. Essa sociedade é marcada por um “projeto futuro” para si mesma. De acordo com esta idéia, o “hoje” e o “agora” são categorias de peso. Os indivíduos idosos como sujeitos sociais “destituídos” de espaço de fala reconhecida e sem utilidade produtiva refletem a lógica opressora de uma ordem social estabelecida com base no modelo capitalista de sociedade centrado na produção.

Numa compilação de estudos sobre povos tradicionais de diversas partes do mundo, Simmons (1970) apresenta como a questão do envelhecimento é tratada de diferentes formas. O pretensioso e interessante trabalho de gabinete desse antropólogo,

reúne informações de 71 povos tradicionais de diferentes continentes e tem como intenção demonstrar qual o sentido atribuído à velhice nessas diferentes culturas. Essas informações são organizadas em tópicos como o prestígio, os direitos de propriedade, as atividades políticas e civis, o uso do conhecimento mágico e religioso, a função da família e as reações diante da morte. Apesar de uma visão geral, é possível identificar empiricamente que diferentes povos se relacionam de forma específica com o envelhecimento atribuindo, conforme a lógica cultural de cada grupo, diferentes sentidos a esse fenômeno. Desta forma, o envelhecimento passa a ser percebido como um fenômeno biológico particular que se expressa de diferentes formas, conforme o contexto sócio-cultural.

A partir dessa pequena descrição é possível observar a importância das diferentes perspectivas para a abordagem da velhice. Contudo, apesar de ser clara essa importância, a construção de uma interdisciplinaridade para a abordagem da velhice é um problema que ainda não está bem solucionado.

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