CAPITULO 2: ESPIRITUALIDADE E RELIGIOSIDADE NA VELHICE
4. Espiritualidade, Religiosidade E Envelhecimento
4.1. Ponto de partida
A temática da espiritualidade e religiosidade nos estudos sobre o envelhecimento é um campo de estudos que vem tomando dimensões cada vez maiores. Dentro desse contexto os estudos sobre as relações existentes entre o envelhecimento, a religiosidade e a espiritualidade têm a capacidade de abrir uma nova perspectiva para a abordagem do fenômeno da velhice. Propor que, ao se estudar a velhice, leve-se em conta elementos sobre a esfera do transcendente, é estabelecer uma ruptura com o paradigma positivista que nega qualquer inserção a esse tipo de temática por se tratar de algo “subjetivo” e de difícil clareza. Todavia, na condição de cientistas e não de místicos charlatões, alguns grupos de pesquisadores vem fazendo um enorme esforço para criar condições teóricas e metodológicas sobre a temática (Goldstein & Sommehalder, 2002; Rocha & Fleck, 2004; Roberto, 2004; Paiva, 2004; Alves, 2006; e, Freitas, 2006). O rigor e a cientificidade em suas abordagens vão abrindo caminho para que os pesquisadores possam olhar a espiritualidade e a religiosidade de um lugar científico.
Dentro dessa empreitada acadêmica, a definição dos conceitos utilizados para olhar o universo dos fenômenos que envolvem o transcendente é condição sine qua non para o desenvolvimento de pesquisas. Contudo, há uma série de dificuldades que fazem parte da natureza do objeto que se está estudando.43 Para estudar a espiritualidade e a religiosidade de idosos é importante estabelecer critérios teórico-metodológicos para a utilização dos conceitos. Com isso se faz necessário buscar a definição dos termos como, religião, religiosidade e espiritualidade. Os pesquisadores interessados em se debruçar sobre esse tema, ao fazerem uma revisão da literatura, terão pela frente uma diversidade de conceitos.
Como exemplo dessa diversidade de significados que perpassa o campo das ciências humanas, pode-se olhar para as definições sobre o conceito de cultura, personalidade, estrutura social etc. Constatado essa pluralidade, resta ao pesquisador utilizar aquelas definições com a qual esteja mais próximo. Sendo que, essa proximidade é expressa não por um espaço geográfico, mas sim por uma relação de empatia e interesse intelectual que faz do pesquisador um sujeito inserido dentro de uma tradição teórica acompanhando as discussões e reflexões a respeito dos conceitos que está utilizando para pensar uma dada realidade. Certamente que num campo multidisciplinar como é o da Gerontologia, esse tipo de relação, entre pesquisador e linha teórica utilizada, será construída de forma diferente. No entanto, é de suma importância para o trabalho científico que esses conceitos sejam abordados a partir de suas elaborações históricas dentro do campo da ciência.
Assim quando falarmos sobre esses conceitos estamos evocando os seguintes significados:
1. Religião: “sistemas articulados de crenças e de explicação do mundo, que podem se manifestar, nos casos mais fechados, em forma de dogmas ou, em casos mais abertos, em forma de representações coletivas” (Carvalho, 1994:4).
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Diferentemente das ciências exatas e biológicas, as ciências humanas se deparam com um objeto que, por suas características próprias, exigem uma abordagem diferenciada. No estudo da realidade da vida cotidiana ou “a realidade por excelência” é importante utilizar um instrumental teórico metodológico que permita ao pesquisador captar os sentidos presentes nos discursos dos sujeitos (Duarte Junior, 1985: 15).
2. Espiritualidade: “... a maneira como um determinado indivíduo internaliza, desenvolve, de um modo sempre idiossincrático, aquela particular via ou modelo de união proposto pela religião a que adere” (Carvalho, 1994:4).
3. Religiosidade: “comportamentos e crenças associados a religião” (Goldstein & Sommerhalder, 2002:950), e como aponta as autoras: “ uma busca por significado do ponto de vista do que é sagrado” ( Goldstein & Sommerhalder, 2002:951).
4. Espiritualidade: “... a capacidade do indivíduo de se ligar consigo mesmo, com as outras pessoas e com o seu ser superior...” (Goldstein & Sommerhalder, 2002:951).
Apresentamos os conceitos elaborados por Carvalho (1994), um estudioso das religiões afro-brasileiras e um pensador das questões sobre espiritualidade e modernidade e os conceitos de Goldstein & Sommerhalder (2002) estudiosas do fenômeno da espiritualidade e religiosidade na velhice. Buscamos nos apoiar em dois conceitos de espiritualidade, pois, o uso de ambos se dá sem nenhuma contradição teórica e talvez seja possível pensar em uma complementariedade.
É muito comum se atribuir questões relativas à transcendência na esfera cotidiana e a participação no mundo divino à segunda metade da vida (Goldstein & Neri, 1993). Tem sido desenvolvidas uma série de pesquisas que buscam estabelecer relações entre religiosidade e o aumento da idade. As teorias que explicam essas relações são várias, todavia, de acordo com Goldstein (1993)44, pode-se ter uma visão profunda dessas discussões focalizando três fontes teóricas: teorias sobre o desenvolvimento psicológico, teoria sobre o desenvolvimento da religiosidade e a teoria de stress e cooping. Seguindo essa linha de pensamento apresentaremos uma visão geral sobre essas fontes teóricas.
4. 2. A Teoria do Desenvolvimento.
De acordo com Goldstein (1993) há uma série de teorias desenvolvidas pela psicologia para dar conta do desenvolvimento do indivíduo. Procuramos focar nosso olhar na teoria de Erikson (1998). Na visão do autor o desenvolvimento do ser humano pode ser pensado como um processo “epigenético”. Esse termo é próprio da
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Optamos por seguir a direção teórica apontada por Goldstein, pois, dentro do campo da religiosidade e espiritualidade nos estudos com idosos, a autora é uma das principais referências nacionais.
embriologia e foi utilizado para pensar e explicar os estágios do ser humano. Na visão de Erikson há um forte componente evolucionista. O autor pensa o desenvolvimento como estágios que tem suas fases interligadas uma a outra de forma que, cada estágio contém um elemento do estágio anterior: “... num estágio epigenético, nós acreditamos, ‘depois’ deve significar apenas uma versão posterior de um item prévio, não a sua perda” (Erikson, 1998: 57). Faremos uma descrição sintética dessas fases para a contextualizar uma forma de olhar o envelhecimento enquanto o produto do processo de desenvolvimento humano.
Cada estágio e “modos” psicosexuais da vida do indivíduo traz em seu núcleo central um conflito expresso por uma antítese. Desta contradição de um elemento “sintônico” e sua contrapartida “distônico” é possível emergir as “forças básicas” característica de cada estágio. Estas são atributos do qual o ser humano é formado. Também se fazem presentes no esquema do autor as patologias centrais de cada estágio.
Erikson partiu das idéias de Freud sobre a sexualidade infantil buscando desenvolver sua teoria sobre o desenvolvimento humano. Para tanto utilizou as cinco fazes psicosexuais clássicas e acrescentou a estas mais três fases. A primeira fase é a “oral” que acontece na infância mais especificamente no período de bebê. Regida pela oposição confiança versus desconfiança é desta resolução que vem a esperança ou caso não tenha sido satisfatório advém o retraimento. A segunda fase acontece na infância inicial é chamada de “anal”. O conflito presente nesta etapa está ligado a autonomia versus vergonha e dúvida de onde sobrevém à vontade ou na sua negativa a compulsão. A terceira fase, ou fase “fálica” acompanha cronologicamente a idade de brincar. A crise presente neste momento é expressa na relação envolvendo iniciativa versus culpa que tem como solução o propósito, caso contrário tem-se a presença da inibição. O período de “latência” é a quarta fase que culmina na idade escolar. O conflito é estruturado em torno da idéia de diligência versus inferioridade. Deste conflito resulta a
competência ou patologicamente a inércia. A “puberdade” é o momento da
adolescência. Nesta quinta fase a crise se estabelece entre a identidade versus confusão podendo emergir a idéia de fidelidade no caso de resolução ou repúdio na sua impossibilidade. A sexta fase é a “genitalidade” que vem na idade adulta jovem. A oposição presente é a da intimidade versus isolamento. Como resultado positivo deste conflito sobrevém o amor ou a exclusividade. A “procriatividade” presente na idade
adulta é sétima fase. A crise gira em torno dos opostos generatividade versus
estagnação. O cuidado vem como resolução dessa antítese que tem a rejeição quando
não solucionada. O oitavo45 e ultimo estágio é a “velhice” (generalização de modos sensuais). A contradição que emerge neste estágio está relacionada à integridade versus
desespero. A sabedoria é a força básica que sobrevém desta fase na sua impossibilidade
surge o desdém.
Como observado em casos clínicos, na velhice a sensação de desespero está ligada a idéia de estagnação. A fala de um envolvimento vital do indivíduo idoso com a situação é o elemento gerador desta sensação. As qualidades dos outros estágios, nesse momento, assumem novos valores. Para Erikson, há o fato de neste estágio poder encontrar indivíduos com um entendimento mais profundo da existência, contudo não necessariamente significa uma vivência desprovida de medos em relação à vida e a morte: “O ego que funciona melhor não sintetiza o eu consciente” (Erikson, 1998:57).
4.3. Estudos sobre a Religiosidade.
Como apontou Moberg (1965) a religião é um motivo de divergência entre gerontólogos e geriatras que estudavam o envelhecimento em sua época. Era justamente onde o autor enxergava a presença de preconceitos por parte dos pesquisadores sobre o tema. Para melhor se compreender a relação entre envelhecimento e religião, seria necessária a superação desses obstáculos. Dando continuidade a essa proposta, Alves (2006) chama a atenção para o fato de que antigos preconceitos em relação ao tema tem sido derrubados por meio de pesquisas que empregam metodologias apropriadas ao assunto. Na Gerontologia, esses estudos são desenvolvidos por teóricos da Psicologia em diálogos com pesquisadores das áreas das Ciências da Religião, Antropologia, Filosofia e Sociologia. Freitas (2006) enfatiza um cuidado para que os erros do passado, que estavam nessas disciplinas, não sejam retomados pelos pesquisadores. As pesquisas demonstram que há uma estreita relação entre religião e saúde física e mental no idoso, assim como, no bem estar do cuidador e na sua relação com o idoso. A religião também tem um papel nas relações familiares. A mesma importância é observada quando se pesquisa esse tema em relação às instituições filantrópicas que
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De acordo com a teoria de Erikson há ainda um nono estágio onde o sujeito tendo estabelecido sua identidade psicossocial, procura uma relação existencial com toda a humanidade (Erikson, 1998).
cuidam do idoso que, como demonstram as pesquisas, são em sua maioria mantidas por grupos religiosos (Freitas, 2006).
4.4. Stress e coping.
Pargament (1997) é um importante teórico dentro dessa linha de pesquisa. O autor propôs um modelo de compreensão da religião tendo como base a idéia de que a religião possibilita diferentes significações acerca da realidade. Desta forma, as pessoas religiosas buscam significar a sua vida por meio do sagrado. Essa significação capacita ao indivíduo entender as situações em suas vidas e lidar com as exigências. Esse é o conceito de “enfrentamento” ou coping. Nessa teoria deve-se levar em conta os acontecimentos e as situações de vida. O stress é um termo muito utilizado no senso comum e na literatura sobre “enfrentamento” recebe uma atenção especial. O estresse é um importante fator com o qual o indivíduo se depara e do qual tem de utilizar de seus recursos de enfrentamento para lidar com a situação.
“Virtually everyone is involved in a search for some sort of significance in life. Coping is the process that people engage in to attain significance in stressful circumstances. Stressful events do not simply happens. People actively approach, avoid, anticipate, and appraise situations in life according to their implications for significance. In the face of negative events, people are not helpless. They bring an orienting system, a general frame of reference for viewing and dealing with the world that helps ground and direct them through difficult times. A key task of coping is to translate this general orienting system into methods of coping specifically suited to the distinctive demand and challenge of the particular situations. ” (PARGAMENT, 1997: 90).
4.5. Desdobramentos.
No momento em que o individuo passa pelo processo de envelhecimento é comum se deparar com situações que o colocam frente a algumas questões que exigem uma tomada de posição existencial. Essas situações são caracterizadas como “eventos estressores” (Goldstein & Sommerhalder, 2002: 950), que com o tempo de vida passam a se tornar cada vez mais presentes para o indivíduo. A capacidade do idoso de elaborar um sentido para essas experiências, varia de acordo com a natureza da situação e com as experiências de cada indivíduo. São exemplos dessas situações: as limitações impostas
pelo envelhecimento biológico, a não utilidade dos idosos pelo mercado de trabalho, a perda de familiares e amigos e a proximidade da morte.
A convivência com as perdas é um importante momento no envelhecimento, já que, desde que o ser humano vem ao mundo ele passa diariamente por um processo de perdas e ganhos ao longo de sua vida. A partir da meia-idade as perdas passam a ser mais presentes (Bianchi, 1991). O termo “perda” adquiriu ao longo do seu uso histórico uma conotação pejorativa, principalmente quando se trata da velhice. Pode-se abordar a velhice além das “perdas”, mostrando que também há “ganhos”. Essa visão pode ser entendida como uma tomada de posição ética frente à visão negativa que o envelhecimento adquiriu no campo científico. É preciso haver um equilíbrio entre as duas tendências porque negar a existência das perdas é se posicionar num pólo oposto ao formulado pela geriatria médica e não dialogar com importantes teorias da área biológica.
A forma como os indivíduos idosos “lidam” com os “eventos estressores” é muitas vezes orientada pela prática religiosa do sujeito (Pargament, 1997). No caso do Brasil, que possui uma matriz religiosa plural (catolicismo, protestantismo, judaísmo, religiões afro-brasileiras e as religiões indígenas) (Landin, 1989), a utilização da crença como recurso, é constante entre adultos e idosos (Goldstein & Sommerhalder, 2002). Ao fazer a leitura da sua experiência com base num sistema religioso, o indivíduo passa a ressignificar sua experiência, podendo colocá-la a seu favor, num “... transformar nossas perdas em ganhos sob o aspecto do desenvolvimento espiritual” (Bianchi, 1991: 68).
A espiritualidade também pode ser utilizada como recurso frente aos “eventos estressores”. Como exemplo dessa afirmação apresentamos a experiência do professor Hermógenes. De acordo com o professor, a doença que ele teve na meia idade foi elemento definitivo para o despertar de sua espiritualidade na velhice (Andrade, 2001). Aos 40 anos, Hermógenes foi vítima de uma doença respiratória que o deixou totalmente debilitado. Os médicos lhe aconselharam a não ir contra o diagnóstico, pois seu quadro era irreversível. Foi nesse momento que Hermógenes se deparou com o
Yoga. Por meio da leitura de um livro de hatha-yoga, iniciou o processo de “cura” de
individual um exemplo de como lidar com esse tipo de evento e hoje, por meio de palestras e publicações de livros, é tido como um orientador espiritual da população idosa.
A trajetória do professor Hermógenes pode ser entendida como um exemplo daquilo que Bianchi preconiza: “... a espiritualidade para idosos deveria começar na meia-idade, pois, é lá que encontramos experimentalmente nossa própria mortalidade” (Bianchi 1991, 68). Assim, além da dimensão desse despertar espiritual, é possível ver as palestras e os livros publicados pelo professor Hermógenes como a expressão de uma necessidade da velhice que é a de compartilhar de suas experiências (Calache, 1993: 03).