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CAPÍTULO 3 – A VERDADE E A MENTIRA

3.1 A VERDADE E A MENTIRA

3.1.3 A verdade e a democracia

A discussão sobre a relação da democracia com a verdade vem de longe. Desde sua criação como regime de governo. Platão, como lembra Ian Shapiro (2006, p. 250), não via a democracia que era praticada até então, como amiga da verdade. Na realidade, inúmeras razões ele tinha para tanto, dentre as quais se destaca a perda de seu Mestre Sócrates e a forma de entender como ideal o governo dos filósofos. Para Platão a democracia era como um navio comandado por um capitão (governo) míope, semissurdo e incompetente e a tripulação (o povo) totalmente incapaz de entender de navegação. O professor de ciências políticas da Universidade de Yale afirma que é possível, e até mesmo provável, que negociatas, transações imorais, favorecimentos possam existir em determinado Estado que adota o regime democrático, entretanto, os integrantes do Governo nunca conseguem se livrar completamente do dever de dizer a verdade, até mesmo porque há uma natural fiscalização dos partidos de oposição e outros que interessam a disputa do poder no

107 Alguns filósofos afirmam que o niilismo teria três fases, a saber: a) niilismo passivo, no qual

passivamente o homem marcharia para o nada, para a morte da razão e da existência; b) niilismo ativo, em que o homem reagiria e buscaria a destruição da moral e da metafísica e dos excessos do racionalismo platônico/kantiano; c) fase da criança, em que homem ganharia a liberdade e

inauguraria uma nova escala axiológica. Essas três fases se identificariam com a fase do camelo, na qual o homem carregaria toda a pesada carga de sua existência apolínica; a fase do leão, em que bravamente se rebelaria contra esta ordem racional e, por fim, a fase da criança livre, na qual ele pudesse refazer a sua escala de valores em busca de sua própria felicidade.

próximo processo eleitoral. A competição pelo poder acaba cumprindo uma excelente tarefa de ajudar a fiscalizar o regime democrático na sua relação com a verdade, assim, “a democracia sai-se melhor que as alternativas existentes” por institucionalizar mecanismos de fiscalização e controle do governo.

Ainda na relação democracia x verdade, ganham destaque duas obras de Hannah Arendt: Entre o passado e o futuro (ARENDT, 2017) e Crises da república (ARENDT, 2010). Na primeira obra mencionada, Hannah Arendt dedica o capítulo 7 para tratar da verdade e da política. Após afirmar que a relação das duas não é lá muito amistosa, procura fazer uma diferenciação entre a verdade factual e a verdade racional. A primeira, ligada necessariamente aos fatos que pretende relatar, sendo exigível a correspondência entre ambos; ou seja, o relato e os fatos. A segunda, existente mais no campo da interpretação e da reflexão filosófica, formadores de uma opinião, que pode estar correta ou não. Trabalhando com a verdade factual, afirma Arendt o seu caráter despótico, pois fatos são inegáveis e estão “além de acordo e

consentimento, e toda conversa sobre eles” (ARENDT, 2017, p. 268), mesmo que esta

conversa seja travada pelo poder. Não se fala aqui nos segredos estratégicos, ou omissões táticas acobertadas pelas razões de Estado, outro ponto polêmico no campo das mentiras e verdades políticas. Fala-se em mentiras praticadas pelo poder objetivando a manipulação das massas, a formação de uma opinião pública fraudada pela mentira. 109 Por outro vértice aponta o judiciário e as universidades como fontes de resistência onde as verdades são praticadas de forma mais efetiva.

Na segunda obra, Crises da república, Hannah Arendt dedica o primeiro capítulo a versar sobre “A mentira na política”, artigo que, na realidade, são considerações sobre uma passagem trágica na história dos Estados Unidos da América que culminou na renúncia do presidente Richard Nixon.

O até então secretário de defesa dos Estados Unidos Robert S. McNamara encomendou, em junho de 1967, aos serviços secretos de informação um relatório completo sobre a real situação da guerra contra o Vietnam. Foram quarenta e sete volumes perfazendo um total de 14 mil páginas. Por este documento desnudou-se “as

extravagantes dimensões do comprometimento dos altos escalões do governo com a

109 Interessante questão vem à tona: seria possível o Estado praticar fake news? Cremos na

possibilidade para a hipótese da opinião pública fraudulentamente formatada pelo Estado manifestar- se através de um processo de consulta popular, por exemplo.

inveracidade em política, e devido à concomitante extensão a que se permitiu proliferar a mentira por todos os setores civis e militares do governo”, afirma Arendt.

Falsas contagens de corpos, adulteração dos relatórios de perdas das forças americanas, avanços territoriais de conquistas inexistentes; ou seja, o sigilo estratégico, ou arcana imperii, serviu antes de tudo para o embuste, a falsidade deliberada e a mentira descarada.

Neste episódio há alguns destaques interessantes. O primeiro deles diz respeito a Daniel Ellsberg, um analista do Pentágono que vazou para a imprensa este relatório secreto afirmando que o presidente dos Estados Unidos da América estaria traindo a Constituição.110 O segundo, o drama inicial do New York Times que sofreu grandes pressões do governo de Nixon para não dar a devida publicidade aos fatos apurados sob pena de corte das verbas de publicidade do Governo. As graves pressões ameaçavam drasticamente a saúde financeira do jornal. Sem a publicidade oficial a possibilidade de falência era enorme. O terceiro destaque vai para as batalhas jurídicas travadas. Algumas decisões judiciais proibindo a publicidade dos documentos secretos e outras declarando a efetividade da Emenda Primeira da Constituição americana. As batalhas chegaram até a Corte Suprema americana que acabou por decidir por seis votos a três que as decisões que proibiam dar publicidade as informações eram inconstitucionais diante a liberdade de expressão, de imprensa e de informação garantidas pela Primeira Emenda da Constituição americana.111

O que ninguém poderia imaginar é que o escândalo sobre trapaças, mentiras, fraudes realizadas pelo Governo americano na Guerra do Vietnam e que foram comprovados pelo Pentagon Papers se repetiria de forma quase idêntica 39 anos após. Bradley Manning, integrante do Exército dos Estados Unidos da América, invadiu os computadores do Pentágono e copiou centenas de documentos considerados ultrassecretos pelo Governo americano. Neles constavam a comprovação de ataques contra civis desarmados, manipulação de dados e informações, fraudes, adoção de tortura e outros crimes de guerra, relacionados com

110 Há uma interessante semelhança entre a conduta de Daniel Ellsberg, Bradley Manning e de

Edward Snowden; três pessoas que tiveram acesso

111 Disponível em: <http://http://www.washingtonpost.com/wp-

srv/politics/special/watergate/part1.html>. Acesso em: 04/06/2019. Ver ainda:

<http://educacao.globo.com/artigo/watergate-e-o-impeachment-de-nixon.html> Acesso em: 04/06/2019. Ver ainda: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_Watergate>. Acesso em: 04/06/2019.

os conflitos armados no Oriente Médio, mais precisamente Afeganistão e Iraque. De posse destes documentos remeteu-os a Julian Assange, cidadão australiano e fundador do site WikiLeaks,112 que iniciou a publicação em parceria com grandes jornais internacionais, tais como New York Times, The Guardian, The Washington Post e Der Spiegel. O Governo americano, sob a batuta de Obama, passou a cuidar do caso como grande traição de guerra. Assim, determinou a imediata prisão de Manning Bradley, torturando segundo a mídia. Quanto a Assange, misteriosamente duas mulheres reclamaram na Suécia, sede da WikiLeaks, que Assange não usara preservativo nas relações sexuais, as quais foram consensuais. Sentindo temor por sua vida, Assange entregou-se em Londres passando a viver em prisão domiciliar, após alguns pedidos de asilo político.

Como se não bastasse novo escândalo mundial sacudiu as fundações da Casa Branca, ainda sob a administração Obama. Edward Joseph Snowden, americano da Carolina do Norte, analista de sistemas dos setores de segurança americanos, tornou público, juntamente com o The Guardian e com o Washington Post, a existência real de um sistema ultrassecreto utilizado pelos Estados Unidos da América para colher informações consideradas estratégicas no mundo inteiro. Com computadores de grande porte e sistemas de última geração, conseguia informações de praticamente todos os países que, de uma forma ou de outra, pudessem interessar, não só no aspecto de segurança (antiterrorismo) como também no aspecto econômico, inclusive de grandes empresas e aglomerados econômicos.

Nesta mesma linha de pensamento, Norberto Bobbio publicou Democracia e

segredo (2015a). O pensador italiano de Turim inicia sua pequena grandiosa obra

afirmando que a democracia é o governo do poder visível cujos atos se desenrolam em público e sob o controle da opinião pública. Ela (a democracia) se contrapõe a todo e qualquer governo autocrático em que o exercício do poder é subtraído dos olhos dos súditos. Entretanto, não nega Bobbio que o segredo possa existir mesmo em regimes considerados democráticos. Não como estratégia de se alcançar o poder,

112 A WikiLeaks é uma organização fundada pelo australiano Julian Assange voltada à implementação

de uma maior transparência nas gestões governamentais em todo o mundo; ou seja, dar ampla publicidade a documentos e provas de qualquer natureza relacionados a atos administrativos, decisões, comandos, ordens etc. considerados ilegais ou fraudulentos e assim praticados. Com simpatizantes no mundo inteiro, ganhou grande notoriedade por ter tornado público cerca de 92 mil documentos considerados secretos que versavam sobre as incursões militares dos Estados Unidos da América no Oriente Médio, mais precisamente Afeganistão e Iraque.

ou mesmo de mantê-lo, ou ainda de subtrair vantagens pessoais. O segredo pode existir em duas circunstâncias específicas: a) quando ocorrem hipóteses em que surja o paradoxo entre a liberdade individual e a segurança do Estado. Assim, um interesse constitucionalmente protegido pode ser preservado através do segredo desde que esta conduta não fira ou lese qualquer outro direito constitucionalmente protegido; b) quando ocorre o paradoxo em que na exceção é permitida para que se salve a própria regra, como ocorre, por exemplo, nos instrumentos de defesa do Estado Democrático, vale dizer, na “legítima defesa da democracia”. (BOBBIO, 2015a, p. 75).

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