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A vertente experimental da criação moderna

No documento Guy Debord e as aventuras do sujeito (páginas 61-64)

1.1. Entre surrealismo e dadaísmo: a raiz do movimento situacionista

1.1.2. A vertente experimental da criação moderna

Mas o modernismo não se reduz à sua figura negativa. Há que ter também em conta uma faceta que lhe cabe essencialmente: a construção52, ou seja, a vertente experimental e metódica da criação moderna que se opõe à subjetividade abstrata da imaginação romântica. É por isso que Debord não faz parte do grupo dos dadaístas, ainda que lhes reconheça, sob o ponto de vista da decomposição cultural, um papel insuperável e revolucionário. Sob essa mesma perspetiva, Debord rejeita o surrealismo, assimilando-o a um «suplemento» que prolonga artificialmente o processo pelo qual se decompõe a cultura burguesa. O ideário programático debordiano, que se distancia simultaneamente (ainda que por motivos opostos) das vanguardas dadaísta e surrealista, incide sobre os «problemas de uma verdadeira vida a construir». Trata-se, portanto, de um programa construtivista que transborda as fronteiras das esferas culturais da modernidade. Para o implementar, há que recorrer, de acordo com Debord, a «métodos superiores de enriquecimento da vida». Quais são eles? Eis uma pergunta importantíssima. Com efeito, é pela via de uma solução sintética — a construção de situações — que podemos responder à questão, que acima colocámos, de saber em que medida se institui o situacionismo como uma vanguarda relativamente à posição surrealista. No que se segue, urge, pois, comparar os meios de que ambos se servem para pôr em prática os respetivos projetos de intervenção na vida quotidiana.

No que tange à avaliação situacionista do surrealismo, que é globalmente negativa, também se torna necessário confrontá-la com o ponto de vista (igualmente adverso à dita corrente) de Henri Lefebvre. Enquanto este a critica pelo seu desprezo pela realidade (identificando-o, aliás, com a repulsa pelo trabalho53), Debord, ainda que não enjeite completamente essa crítica, retoma-a nos seus próprios termos, i.e., sem subscrever a identificação lefebvriana. Na verdade, não perfilha, contrariamente àquele filósofo marxista, o culto prometeico do homo faber. Nesse mesmo desprezo pelo real, portanto, vê outra coisa. Qual? A obnubilação ocultista da existência. Como diria Debord, na sua polémica com Breton e os surrealistas, tanto o automatismo psíquico como a exploração do acaso não são senão «métodos inferiores de empobrecimento da vida». Acabámos de pôr entre aspas o que constitui objetivamente uma exemplificação da técnica do desvio, que não há que confundir

52 Cf. ADORNO, 1970: 36. 53 Cf. LEFEBVRE, 1958: 37.

_______________________________________________________________________ com o plágio. Embora remonte, pelo menos, a Lautréamont, tornou-se visível, em grande escala, com a I.S., a sua generalização teórico-prática. Trata-se de uma citação que se deforma intencionalmente — e sem respeito pela propriedade intelectual —, tornando-a, deste modo, um instrumento cultural da luta de classes54, o que a distingue da escrita automática, cujo psitacismo lhe retira força revolucionária.

Além do contraste entre as duas técnicas supracitadas, o desvio e o automatismo, devemos acentuar as diferenças entre surrealistas e situacionistas a partir de uma nova oposição: «exploração do acaso» versus «deriva». Enquanto a primeira, para Debord, se configura como «uma situação passiva e reacionária» [1957: 296 (HASNI)], a segunda, pelo contrário, organiza-se ativamente sob o princípio de que existe um relevo psicogeográfico do território (em especial, urbano55), tendo em vista o desmantelamento das fronteiras entre atmosfera e habitação. Nesse domínio improvável da psicogeografia, a deriva surge como um processo capaz de estimular a criação de um estilo de vida incompatível com os critérios utilitários subjacentes às deslocações diárias da multidão. Consequentemente, provoca-se a emergência, em pleno quotidiano, do que é novo e se furta à classificação psicossociológica. Assistimos a um fenómeno de «estrangeiramento» [DEBORD, 1956: 268 (PROI)], que não se deixa reduzir, todavia, à arbitrariedade onírica do passeio surrealista.

Apesar das diferenças que devemos discernir entre os três vanguardismos, não podemos esquecer o traço que lhes é maiormente comum: a grande empresa — antirromântica — de desmistificação da obra de arte (com vista à sua dissolução vital). A essa semelhança nuclear podemos acrescentar a seguinte: a condenação irreversível dos dualismos do Ocidente — em prol de um entendimento monista da existência56. No entanto, impõe-se, para já, um breve balanço dessas mesmas dissemelhanças. Tal como o surrealismo se furta à condição de mero apêndice do dadaísmo57, também o situacionismo se recusa a ter, relativamente àquele, qualquer estatuto ancilar. Na realidade, Guy Debord opõe-se simultaneamente a ambos os movimentos, embora a oposição se justifique em termos distintos: contra o dadaísmo, invoca a urgência revolucionária de um conteúdo programático, i.e., positivo; e, contra o surrealismo, convoca a repulsa pela atitude escolar e doutrinária. Efetivamente, um programa de ação não pretende ser um sistema metafísico, i.e., que explique as relações entre o pensar e o ser. Neste sentido, deve-se a um impulso especulativo a exploração surrealista do inconsciente, que visa à descoberta do mecanismo último do pensamento. Mas trata-se de uma exigência cognitiva

54 Cf. DEBORD, 1956: 225 [LLN8MOD]. 55 Cf. DEBORD, 1956: 253 [LLN9THE]. 56

Cf. BÉHAR & CARASSOU, 2005: 222.— Embora os autores reconheçam o monismo como um elo que liga

os surrealistas aos dadaístas, ignoram que essa chave se aplica, de igual modo, à posição conceptual dos situacionistas.

_______________________________________________________________________ que é totalmente alheia às preocupações dos situacionistas, cuja expressão paradigmática prima, antes de mais, pela assunção da impossibilidade de uma doutrina que lhes seja própria. Deste ponto de vista, aproximam-se dos dadaístas que estão nos antípodas do sistematismo58, mas deles se afastam por causa do seu individualismo59. Enquanto fator que inibe a agência coletiva e, por consequência, bloqueia a intervenção política, nunca poderia merecer o assentimento da I.S., à qual cabe a defesa, além disso, de uma hipótese revolucionária, de base marxista, de que o dadaísmo (pese embora o berlinense60) nada quer saber61. Aqui, entre os situacionistas e os dadaístas, instala-se a distância, ainda que se encurte, entretanto, a dos primeiros, neste particular, em relação aos surrealistas. Tanto estes como aqueles, ao contrário dos dadaístas62, se organizam institucionalmente em nome de um ideal disciplinar de militância, culminando ele, inevitavelmente, num exercício rotineiro — e quase religioso — de exclusões e demissões63. (Em boa verdade, tanto Breton como Debord se comportaram, sob o prisma das suas interações com os membros dos respetivos grupos, como autênticos «machos dominantes»64.) Se bem que a I.S. tenha proposto um modelo anti-hierárquico de organização social, toda a história institucional desta extrema vanguarda do século XX reflete, acima de tudo, uma política sectária65, i.e., que se manifesta às avessas das suas diretrizes revolucionárias. Nelas, são visíveis as marcas dadaístas66, aplicando-se-lhes doravante uma grelha de leitura que pouco deve — ou quase nada — à revolta romântica, i.e., ao duplo conflito — que habitualmente se estabelece — entre o artista e o burguês, por um lado, e, por outro, entre o indivíduo e a sociedade. É muito mais vasto, de facto, o enquadramento

situacionista da revolução. Em última instância, trata-se de contribuir (como já diziam os

letristas) para o «estabelecimento consciente e coletivo de uma nova civilização» [DEBORD, 1954: 133 (POT1POLNE)], com o consequente abatimento dos alicerces que sustentam 58 Cf. id.: 103. 59 Cf. id.: 78. 60 Cf. id.: 68-75. 61 Cf. id.: 188. 62 Cf. id.: 168.

63 Estamos perante uma prática que remonta, aliás, à época da I.L., sendo igualmente desse tempo o princípio que se invoca para a justificar: «É melhor mudar de amigos do que de ideias» [DEBORD, 1955: 201 (POT22POR)]. — Eis-nos diante do que parece ser o desvio de um velho provérbio latino (Amicus Plato, sed

magis amica veritas), mas cujo sectarismo distorce o sentido original dessa máxima «aristotélica», i.e., que

tão-somente pretende ilustrar a consciência da probidade intelectual. Devido a uma espécie de «jacobinismo

existencial», não há probidade, porém, para letristas e situacionistas, que não seja integral. Como cobre a

totalidade da existência, recusa-se, à partida, qualquer distinção sectorial que sirva de álibi para eventuais desfasamentos entre o pensamento e a vida.

64 Cf. ROSS, 1997: 76. — A propósito das relações dos situacionistas com Debord, há até quem nelas discirna o papel contrarrevolucionário do «culto da personalidade» (GILMAN-OPALSKY, 2011: 121). Embora o próprio Debord despreze, como sabemos, esse mesmo culto, por força da sua raiz espetacular, não lhe é indiferente, de um ponto de vista pragmático, o seu estilo de liderança, o qual contraria, claro está, o posicionamento teórico da I.S., porque se trata de uma organização que pretende ser uma «Conspiração dos Iguais».

65 Cf. PERNIOLA, 1972: 46-50.

_______________________________________________________________________ atualmente a ocidental. É neste preciso contexto, finalmente, que devemos compreender a dantesca «declaração de guerra» de Guy Debord: «A destruição foi a minha Beatriz»67 [1989: 1663 (PAN1I)]. Em todo o continente das vanguardas, são palavras que ilustram uma vontade subversiva maior, i.e., sem par entre os seus contemporâneos.

No documento Guy Debord e as aventuras do sujeito (páginas 61-64)

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