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A Inter-relação entre O Credo Social, O Plano para Vida e Missão da Igreja e a Ação Pastoral da Comunidade Metodista do Povo de Rua

I. A vertente social no movimento Wesleyano.

João Wesley creu e pregou o Evangelho de forma integral. Não negava a importância dos aspectos individuais da salvação e da vida nova, mas reafirmava o sentido social da fé.

As comunidades metodistas não dispensavam seu sentido missionário como agentes de proclamação, entretanto, eram ensinadas a levar em consideração as realidades concretas da sociedade em que viviam as pessoas. Segundo Wesley88, o meio ambiente onde as pessoas vivem carece também da transformação evangélica (Colégio Episcopal, 1995,p. 25). Desta forma, se percebe que o metodista propõe e vivenciou o evangelho de forma integral: pessoal e social; individual e comunitário.

Barbieri89 comenta que o metodismo em sua origem não foi meramente uma alternativa eclesiástica, mas um movimento de renovação espiritual (BARBIERI, 1983, p.3) que por sua característica de movimento religioso foi interpretado pelos contemporâneos de Wesley como uma religião de fervor, de ânimo exaltado, de entusiasmo desmedido, associado ao individualismo; isto porque o movimento metodista dialogava e convivia com sociedades religiosas de tendências carismáticas. Para refutar seus críticos e opositores, comenta Barbieri, Wesley apresentou a série de sermões baseados no Sermão da Montanha onde afirma em Mateus 5:13-16 “ser sal e ser luz” é indicação de Jesus aos seus discípulos que eles devem viver em contato com o mundo, e aplica da seguinte forma: esforçar-me-ei para que o mostrar ao cristianismo é essencialmente uma religião social; e que reduzi-la tão só a uma expressão solitária é destruí-la, e que ocultar esta religião é impossível e completamente em oposição ao propósito do seu Autor (BARBIERI, 1983, p. 9).

Apontou-se acima que Wesley90 vivia e proclamava o Evangelho numa dimensão integral. Também que ele considerava que a mensagem evangélica era, por sua natureza, intrinsecamente social, e foram esses elementos norteadores que, segundo Bonino, construíram a identidade profética de Wesley que inspirou suas ações concretas na sociedade londrina do

século XVIII em favor das viúvas, das crianças que não tinham acesso à escola, cooperativas de crédito, agência de empregos entre outras ações voltadas à pessoa humana e ao meio em que ela se insere, como comenta Bonino91:

Não falta a Wesley a nota profética relativa aos graves problemas da nascente sociedade industrial. Destacamos dois deles como mostra. O primeiro é a pobreza, a respeito da qual Wesley se manifesta freqüentemente [...] Wesley não se limita a comprovar a terrível situação em que muita gente vive e se encontra, senão que rechaça as explicações tradicionais da pobreza como destino ou como conseqüência de preguiça ou vício. Tais explicações são perversas e diabolicamente falsas [...} denuncia a privatização da propriedade que deixa milhares de camponeses sem terra. Critica a avareza que busca prosperar a qualquer preço.

Magali Cunha92 evoca R. Niebuhr no texto “A responsabilidade da igreja93 pela sociedade”, no qual a autora aprofunda a questão da responsabilidade como a condição de ser capaz e ser requerido a prestar contas de alguma coisa a alguém. E comenta que o conceito de responsabilidade tem lugar no contexto das relações sociais.

E, tendo-se apontado que a pregação Wesleyana não apelava à individualização na construção de uma religiosidade anticomunitária, mas antes pelo contrário, era marcada pela dimensão profética da denúncia, é possível extrair expressões que demarcam e corroboram a dimensão social de pressão metodista, a partir do segmento denominado Documentos94 na edição comemorativa dos 100 anos do Credo Social Metodista, destacando a vida e o bem-estar das pessoas como fundamento do sentido e razão da igreja na sociedade em que estão inseridas:

1. Dignidade das pessoas na família, leis sobre o divórcio, regulação apropriada do casamento, e residências (1918); pureza no casamento para o homem e a mulher; divórcio nos ensinamentos de Cristo (1934); proteção da família pelo padrão de elevada moral do homem e da mulher; orientação da juventude sobre o casamento/paternidade; exigência de exame pré- nupcial; legislação para regulamentação de lares desfeitos , moralização da vida social e uniões ilegais; provisão de habitação adequada para todas as famílias, tanto nos perímetros urbanos

como rurais (1960). Três ordens: familiar, econômica, e política (1970); descanso semanal, santificação do domingo; salário que garanta a subsistência do trabalhador rural ou urbano, e

circunstâncias que assegurem dignidade à pessoa humana95; previdência social que assegure aposentadoria condizente e proteja o trabalhador desempregado (1970).

Atenção às questões que envolvem agentes de desintegração familiar tais como a prostituição, o jogo de azar, as múltiplas formas de dependência química; daí o chamamento à

instrução dos jovens com respeito à sexualidade, à paternidade e a pureza do casamento. Por outro lado apontando a condição da Igreja em apoiar leis justas que propiciem certas seguranças aos lares desfeitos. É do espírito do Credo (1988) o cuidado com o trabalhador de ambos os sexos, a carga horária por eles empenhadas e a condenação ao tipo de trabalho que ofereça risco ao trabalhador. Por outro lado, reconhece a necessidade de atenção aos idosos e às populações sobrantes da indústria, quer por desemprego ou acidente do trabalho.

É pertinente que se introduza o pensamento de Zygmunt Bauman para dialogar com as preocupações já constituídas no Credo (1988) da Igreja Metodista, especialmente no que concerne às questões que envolvem as populações sobrantes, a desigualdade social entre a condição urbana e rural, bem como a repercussão deste desequilíbrio na vivência urbana, na dignidade da vida das famílias e dos sujeitos urbanos:

Hoje a exclusão não é percebida como resultado de uma momentânea e remediável má sorte, mas como algo com toda a aparência de definitivo. Além disto, neste sentido a exclusão deve ser uma via de mão única. É pouco provável que reconstruam as pontes queimadas no passado. E são justamente a irrevogabilidade deste despejo e as escassas possibilidades de recorrer contra essa sentença que transformam os excluídos hoje em classe perigosa. A exclusão irrevogável é a conseqüência direta, embora imprevista, da decomposição do Estado social, que hoje se assemelha a uma rede de poderes constituídos, ou melhor, a um ideal abstrato. O declínio e colapso do Estado anunciam definitivamente que as oportunidades de redenção irão desaparecer. [...] Hoje apenas uma linha sutil separa os desempregados crônicos, do precipício, do buraco negro das sub-classes; gente que não se soma a qualquer categoria social legítima, indivíduos que ficam fora das classes , que não desempenham alguma função reconhecida, provada, útil, ou melhor indispensável, em geral realizadas por membros normais da sociedade; gente que não contribui para vida social.[...} Os produtos descartados por essa nova extraterritorialidade, por meio de conexos e espaços privilegiados, habitados ou utilizados por uma elite que pode se dizer global são os espaços abandonados e desmembrados, nos quais os pesadelos substituem os sonhos, e perigo e violência são mais comuns que em outros lugares. Para tornar a distância intransponível, e escapar do perigo e perder ou contaminar a pureza local, pode ser útil reduzir a zero a tolerância e expulsar os sem teto de lugares nos quais eles poderiam não apenas viver, mas também se fazer notar de modo invasivo e incômodo, empurrando-as para esses espaços marginais, off-limitis, nos quais não podem viver nem se fazer ver96.

2. O clamor pela justiça como marca do testemunho metodista e sua responsabilidade com os mais fracos da sociedade e os despossuídos.

Direitos iguais e justiça para todos (1918); Justiça rápida e econômica em todas as camadas sociais (1934 e 1960); A natureza social procede da criação e sua realização é alcançada na vida em comunidade (1970) Destaca-se que no último credo há um avanço pelo encaminhamento de que o conceito de comunidade é identificado como o local onde se fará e

construirá o senso de justiça. Esta postulação também é abrigada noutro segmento seguinte como postula o de 1960: Um programa educativo que leve o homem do campo a consciência de suas relações com Deus, com o solo e com as riquezas naturais, consciência de seus deveres com a família, igreja e bem-estar da comunidade.

E se repete no Credo de 1970: A natureza social procede da criação e sua realização é alcançada na vida em comunidade.

Nesta perspectiva recorremos a Sygmunt Bauman e seu pensamento no texto Comunidade, no qual ele indica que a formação da comunidade nos tempos denominados sólidos, tinha uma dimensão construtiva e estável. Nos tempos líquidos ela representa por um lado segurança e identidade aos sujeitos, por outro uma força coercitiva de normas, regras, e padrões, que nem sempre são bem-vindos na sociedade contemporânea.

Nos tempos sólidos havia um círculo familiar, social, e de trabalho nos quais as pessoas circulavam de estágios em estágios e as famílias propunham casamentos de uniões duradouras, as relações entre os amigos eram preservadas por longos períodos e sobre um eixo imutável de família, trabalho, igreja, clube se constituía o mundo das pessoas. E neste sentido a experiência em comunidades era uma relação bem decidida e preservada entre as pessoas. Nos tempos líquidos relações interpessoais estão sujeitas a mutações constantes e se tornam cada vez mais instáveis e não absolutas. O eixo da estabilidade que sustentava os tempos sólidos ruiu, e a marcas de concretude da vida foram retiradas, e isto redimensionou o conceito de comunidade para uma busca neste espaço de identidade e de sentido.

O tipo de incerteza, de obscuros medos e premonições em relação ao futuro que assombram os homens e mulheres no ambiente fluido e em perpétua transformação em que as regras do jogo mudam no meio da partida sem qualquer aviso ou padrão legível, não une os sofredores: Antes os divide e os separa. As dores que causam aos indivíduos não se somam, não se acumulam nem se condensam numa espécie de causa comum que possa ser adotada de maneira mais eficaz unindo as força e agindo em uníssono. A decadência da comunidade nesse sentido se perpetua; uma vez instalada, há cada vez menos estímulos para deter a desintegração dos laços humanos e para procurar meios de unir de novo o que foi rompido. A sina de indivíduos que lutam em solidão pode ser dolorosa e pouco atraente, mas firmes compromissos a atuar em conjunto parecem prometer mais perdas do que ganhos97.

A perspectiva de construção da identidade adotada pela Igreja Metodista lançará luz sobre temáticas que diziam respeito a vivência humana, daí a relevância de sua análise no processo evolutivo, considerando evidentemente que o Credo de 1970 tem marca mais eclesiocêntrica em relação aos primeiros cujas ênfases eram destacadamente sobre temas

sociais, ou da experiência humana em sua complexidade de vivência no coletivo.

Por outro lado, os credos registram a construção de posicionamentos em linha preventiva, não curativa. Ou seja, eles procuravam apontar causas, ou possíveis focos, em que não havendo intervenção adequada do Estado ou da Igreja, esses denominados pontos problemáticos poderiam acarretar em complicadas e injustas estruturações sociais.

Para exemplificar tal assertiva, aponta-se, por exemplo, alguns temas ainda hoje vigentes, como problemas humanos e urbanos, que recebem outra roupagem, e outra linguagem descritiva, mas cuja natureza e essências foram apontados nas citações, tais como:

 A indicação da necessidade de capacitação do povo para a participação política. O estímulo aos agricultores na formação de cooperativas e da constituição de movimentos em favor da justiça na aplicação do preço dos produtos extraídos da terra pela mediação humana. Com isto, instando o segmento de agricultores a se organizar e a exercer pressão de suas intenções no mercado de consumo. Fato que hoje é amplamente conhecido através dos veículos de comunicação social que expõem, não raro, a espoliação do agricultor em favor dos grandes produtores mecanizados e globalizados.

 A vida urbana e a vida rural já eram contrapontos bem apontados nos primeiros credos, considerando que deveria haver uma justiça em busca do bem-estar que fosse do alcance tanto do cidadão urbano como do cidadão rural. Esta equiparação reclamada apontava que as cidades seriam fortes centros de atração de capital e atenção do Estado, em detrimento do atendimento ao campesino.

 A dimensão ecológica é apontada, mas é centrada no homem do campo, quando na verdade hoje é o homem urbano que precisa ter consciência da terra, de como cuidá- la.

 A forte preocupação dos credos com a atenção aos pobres e às forças que constroem a pobreza. Os credos mostram de forma bem objetiva que a dimensão da ação eclesial é voltada aos pobres e que para a extinção da pobreza na construção de uma paz social, a Igreja deveria não só se associar ao governo, mas exigir dele intervenções que tivessem como horizonte os pobres e a erradicação da miséria. Por outro lado, aponta também um instrumento de pressão política e ação social eficaz a organização de entidades congêneres, atentas à pobreza, de tal forma que em rede

elas pudessem ter maior expressão e visibilidade. E que para isto, se necessário, que houvesse parceria com outras denominações cristãs.

Recorre-se a Viv Grigg que, em sua prática entre populações marginalizadas em espaços urbanos na Ásia, identifica em sete grandes tópicos o perfil da pobreza, tais como:

1. De natureza religiosa e espiritual – opressão de demônios e religiosidade imprópria às necessidades das pessoas;

2. Moradias ilegais (invasões, favelas, e becos);

3. Ambiente sem saneamento básico (coleta de lixo, coleta de esgoto e suprimento saudável de água);

4. Saúde98precária e falta de alimentação (desnutrição); 5. Educação;

6. Subemprego e desemprego;

7. Relações sociais falidas (indiferença dos vizinhos, guerras entre quadrilhas, casamentos prematuros e ilegais, famílias separadas e imoralidade) (GRIGG, sd, p. 102).

Ainda dentro desta forte dimensão no conteúdo dos documentos, são apontadas duas causas que propiciam espaço à fomentação de pobreza e da miséria, a saber: a falta de Cristo no coração das pessoas, e a falta dos pobres a ocupar a atenção dos cristãos. Destarte, estas duas causas constituem os elementos fundantes para instalação de uma sociedade distante da paz.

Uma constatação notória é que as forças políticas, teológicas, eclesiológicas e sociais que constituíram os primeiros credos, foram sendo abandonadas aos poucos em respeito ao senso de serviço intramuros, ou seja, o Credo mais recente é mais eclesiocêntrico apontando a preparação para a cidadania a partir dos membros das congregações.

Como afirma o Credo Social99: A igreja Metodista reconhece sua tarefa docente de capacitar os membros de suas congregações para o exercício da cidadania plena. O propósito primordial dessa missão é servir ao Brasil através da participação ativa do povo metodista na formação de uma sociedade consciente de suas responsabilidades.

Os primeiros postulam por uma leitura crítica do mundo e os últimos revelam por um cuidado com a manutenção e não contaminação da Igreja com os valores e práticas mais comuns e até degradantes, que acontecem na sociedade na qual estão inseridas e no mundo.

A partir desta constatação pode-se reconhecer que os primeiros Credos são mais combativos das causas da degradação e comprometimento da sociedade. Nos últimos, aponta-se certo encolhimento e um cuidado demasiado em proteger fronteiras individuais e familiares tentando manter as comunidades das diferentes Igrejas assépticas diante do contato com a sociedade em geral.

Em se tratando da Comunidade Metodista do Povo de Rua e sua inspiração bíblica, teológica, pastoral, se pode apontar antecipadamente que a Ação Pastoral que será posta à população em Situação de Rua – CMPR - será alimentada pelo forte preconceito da Igreja diante daqueles que dela não são, pois a pastoral será evangelizadora100, e sua metodologia repetirá na sua prática os conteúdos e ações pertinentes à vida da igreja local com toda a sua teologia e liturgia, não necessariamente ligadas ao passado e à história de sua confissão, com pouco engajamento no cotidiano dos sujeitos envolvidos.

Este entendimento de um redirecionamento das intenções da Igreja Metodista pode ter sua origem e inspiração na nova configuração da Igreja pela absorção do conceito da Nova Igreja, agora forjada no Plano de Dons e Ministérios, sendo esta uma possibilidade que se aponta para novas pesquisas a partir deste recorte.

A seguir abre-se o quadro comparativo do Credo Social e o Plano para a Vida e Missão da Igreja:

II. Quadro Comparativo dos Documentos: Credo Social e Plano para Vida e