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7- Eça de Queirós e as viagens

1.2 A viagem da vida

Outra aceção metafórica que é atribuída à viagem é a de percurso existencial, a vida como jornada, a que se associa a componente da memória que evoca essa caminhada pela vida. Ora, justamente, nas duas obras que nos importa analisar, o leitor é, desde o início da narrativa, convidado por ambos os narradores a fazer essa “viagem

44 retrospetiva da memória” (Cunha, 1997: 25), levada a cabo por eles mesmos, enquanto protagonistas das histórias que vão contar:

Eu chamo-me Teodoro – e fui amanuense do Ministério do Reino. Nesse tempo vivia eu à Travessa da Conceição nº 106, na casa de hóspedes da D. Augusta, a esplêndida D. Augusta, viúva do major Marques. (OM, 81)

Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em Teologia, autor de uma devota Vida de Santa Filomena, e prior da Amendoeirinha. Meu pai, afilhado de Nossa Senhora da Assunção, chamava-se Rufino da Assunção Raposo – e vivia em Évora com a minha avó, Filomena Raposo... (AR, 11)19

O tratamento desta simbologia da vida, e reversamente também da morte20, como uma viagem, filiada na tradição judaico-cristã,21 traduz-se igualmente numa aprendizagem que origina alterações nos valores e nos comportamentos do indivíduo. É justamente o caso de Teodoro e de Teodorico que partem para uma viagem geográfica, a cujas experiências se vão sobrepondo as vivências de uma viagem interior, psicológica que, no final da narrativa, irá exaltar as suas consciências, permitindo-lhes tirar daí ilações de caráter moral.

O prólogo d’ OM corrobora esta simbiose entre a viagem e a aprendizagem através do diálogo dos dois amigos exortando um à viagem e outro à aprendizagem moral:

Iº Amigo: (...) Partamos para os campos do Sonho, vaguear por essas azuladas colinas românticas onde se ergue a torre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos recobrem as ruínas do Idealismo... (...)

2º Amigo: Mas sobriamente, camarada, parcamente!... E como nas sábias e amáveis Alegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade discreta... (OM, 79)

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No caso d’ AR, o prólogo do narrador-protagonista, desde logo, denuncia essa viagem da memória: “Decidi compor, nos vagares deste Verão, na minha Quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso), as memórias da minha vida – que neste século, tão consumido pelas incertezas da Inteligência e tão angustiado pelos tormentos do Dinheiro, encerra, penso eu e pensa o meu cunhado Crispim, uma lição lúcida e forte.” (AR, 7).

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Veja-se em O Mistério da Estrada de Sinta a forma como o mascarado mais alto, durante a narração da sua parte da história, se refere à morte de Cármen a bordo do iate de Lord Grenley: “Não! A tua morte será uma perpétua viagem: viverás nas grutas transparentes de luz, guardarás os tesouros misteriosos, visitarás as cidades de coral que luzem no fundo do mar, amarás o corpo encantado de algum louro príncipe, outrora pirata normando! Andarás dispersa no elemento, sombra infinita, alma de água!” (Queirós, 2003: 187)

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Simbologia extensiva a outras culturas e filosofias que a perfilham nas suas crenças religiosas, como é o caso, por exemplo, do Confucionismo.

45 Encontramos um procedimento idêntico no prefácio d’ AR, escrito pelo próprio Teodorico, em várias curtas passagens:

(...) por esse tempo minha tia, D. Patrocínio das Neves, mandou-me do Campo de Santana onde morávamos, em romagem a Jerusalém; (...) depois voltei – e uma grande mudança se fez nos meus bens e na minha moral. (...) Esta jornada à terra do Egipto e da Palestina permanecerá sempre como a glória superior da minha carreira. (AR, 7)

A reforçar o que acabámos de dizer parece estar a transição do capítulo IV para o capítulo V, n’ AR. Nos últimos parágrafos do capítulo IV encontramos Teodorico no Cairo, pronto a embarcar no vapor “El Cid Campeador” para encetar a jornada de regresso, e no início do capítulo V, encontramo-lo já em Portugal, decorridas duas semanas de viagem. É, portanto, subtraído à narração da viagem o caminho de regresso, dada a escassa importância que tem no universo diegético. No entanto, apesar da elipse sobre este troço do percurso, no início do capítulo V, como se se tratasse de um registo fílmico, porque “o movimento é o coração da viagem” (Seixo, 1998: 13), ainda encontramos o protagonista em trânsito, agora na tipóia do “Pingalho”, dando assim a ideia de continuidade da caminhada de regresso ao ponto de partida, a casa da titi, onde a partir deste momento, se irá concentrar a intriga:

Duas semanas depois, rolando na tipóia do “Pingalho” pelo Campo de Santana, com a portinhola entreaberta e a bota estendida para o estribo, avistei entre as árvores sem folhas o portão negro da casa da titi! (AR, 231)

A presença do conceito de vida como uma caminhada é reforçada também ao longo d’ OM e d’ AR, através da visão dos próprios protagonistas, que se reflete nos seus discursos como narradores. Vejamos alguns exemplos.

N’ OM, depois de ceder à tentação de tocar a campainha e, com isso, assassinar o mandarim, a personagem que representa a figura do diabo faz uso de uma retórica com ressonâncias místicas, alusiva ao percurso da alma, quando afirma: “Amanhã são os funerais. Que a sabedoria de Confúcio, penetrando-o, ajude a bem emigrar a sua alma!” (OM, 97)

46 Mais à frente, permanecendo, afinal, preso à sua rotina diária na pensão da D. Augusta, apesar de ter tocado a campainha, Teodoro divaga sobre as suas antigas ambições, utilizando um vocabulário que se associa à temática das viagens:

Mas tais regalos pareciam-me tão inacessíveis, tão nascidos dos sonhos – como os próprios milhões do Mandarim. E pelo monótono deserto da vida, lá foi seguindo, lá foi marchando a lenta caravana das minhas melancolias... (OM, 101) (sublinhado nosso)22

No final da narrativa, Teodoro faz uma reflexão sobre a sua condição errática no desfecho de um percurso em busca da solução para os tormentos da sua consciência:

E agora o mundo parece-me um imenso montão de ruínas onde a minha alma solitária, como um exilado que erra por entre colunas tombadas, geme, sem descontinuar... (OM, 191)

De forma semelhante, no final do capítulo IV d’ AR, quando o barco onde vai Teodorico se cruza com o barco onde vai a freira, em direções opostas, separando para sempre os seus destinos, o comentário de Teodorico sobre este desencontro estabelece uma comparação entre o cruzamento das duas embarcações e os percursos das suas vidas, também com rumos opostos:

E quando nestas águas os nossos peitos se cruzavam e, sentindo a sua concordância, batiam mudamente um para o outro – o meu barco corria com vela alegre para o ocidente, e o barco que a levava, lento e negro, ia a remos para oriente... Desencontro contínuo das almas congéneres – neste mundo de eterno esforço e de eterna imperfeição! (AR, 229)

Ainda outro exemplo nesta linha de pensamento, encontramo-lo quando Teodorico recebe a derradeira herança que lhe coube da tia Patrocínio, um óculo, depois da enorme reviravolta que a sua vida levou com a troca dos embrulhos e a sua consequente expulsão da casa da Dª Patrocínio. Ele olha através do óculo, “como da borda de uma nau que vai perdida nas águas” (AR, 260), numa clara alusão à sua viagem existencial na qual, naquele momento, ele se encontrava justamente à deriva e sem rumo. O óculo e o chapéu de cortiça, para junto do qual rebola o óculo depois de arremessado por

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Esta imagem da caravana associada à vida como viagem/marcha é também utilizada por Fradique Mendes: «Todos nós que vivemos neste globo formamos uma imensa caravana que marcha confusamente para o Nada» (Queirós, 2002a: 92).

47 Teodorico, são os símbolos de dois momentos cruciais da sua jornada pela vida - como a personagem nos diz “emblemas das minhas duas existências” - representando aqui o óculo a mudança, a viragem no rumo de uma existência para outra bem diferente, onde desaparece toda a esperança de uma herança que lhe solucionasse os problemas financeiros com que se debatia.