Para terminar, gostaríamos de acrescentar que, mesmo querendo fugir ao Realismo- Naturalismo, Eça não consegue desviar-se de determinadas coordenadas ideológicas que presidiam ao romance de tese, como é o caso do pendor da literatura para a intervenção social. A literatura nunca deixou de ter, para o autor d’ Os Maias, uma finalidade pedagógica a que nem OM nem AR escapam. No entanto, nestas duas obras esta intenção é veiculada através de estratégias narrativas ausentes do registo realista. A mais evidente é a escolha de um narrador autodiegético como origem da comunicação narrativa, cujo discurso se orienta para a transmissão de um ensinamento moral, conforme é bem visível em ambos os textos, onde encontramos vários indicadores que apontam para a moralidade que aguarda o leitor no epílogo das histórias.
119 Neste caso, OM não podia ser mais explícito logo no prólogo onde, pela voz do 2º Amigo, somos informados de que a história que vamos conhecer será concebida “como nas sábias e amáveis Alegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade discreta...” (OM, 79). Efetivamente assim acontece, pois o narrador vai revelando, em determinados momentos da narrativa do seu passado, onde foi colocado numa trama de natureza alegorizante, uma aguda consciência da moralidade que o seu testemunho final encerra. Claramente assumida a sua posição de ulterioridade relativamente aos eventos que está a relatar, Teodoro impõe a sua imagem de narrador, em detrimento da imagem da personagem, o que lhe permite pontuar o seu discurso com reflexões amadurecidas pela aprendizagem que foi acumulando até ao momento de contar a sua história. (Reis, 1984: 181-190) Revela, por isso, desde o início, uma nítida perceção da fragilidade da vontade humana, que é também a sua, para preservar a integridade moral diante da ganância de bens materiais. Atentemos, justamente, nas suas palavras quando acaba de receber as letras com os milhões herdados do mandarim:
Apoiei-me à varanda: e ri, com tédio, vendo a agitação efémera daquela humanidade subalterna – que se considerava livre e forte, enquanto por cima, numa sacada de quarto andar, eu tinha na mão, num enveloppe lacrado de negro, o princípio mesmo da sua fraqueza e da sua escravidão! Então, satisfações do Luxo, regalos do Amor, orgulhos do Poder, tudo gozei, pela imaginação, num instante, e de um só sorvo. Mas logo uma grande saciedade me foi invadindo a alma: e, sentindo o mundo aos meus pés, - bocejei como um leão farto.
De que serviam por fim tantos milhões senão para me trazerem, dia a dia, a afirmação desoladora da vileza humana?... E assim, ao choque de tanto oiro, ia desaparecer a meus olhos, como um fumo, a beleza moral do Universo. Tomou- me uma tristeza mística. (OM, 105)
Não é tanto a lição moral que Teodoro explicita no final, como corolário da sua aprendizagem - “E a vós, homens, lego-vos apenas, sem comentários, estas palavras: «Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!»” (OM, 191) - mas sobretudo a reflexão posterior sobre a precariedade moral do ser humano, que regista a sua consciência. A própria conduta do protagonista, ao longo da narrativa, destituída de critérios éticos e de valores morais, em favor de uma atitude de arrogância, prepotência e devassidão, vai dando consistência a essa reflexão. Observe-se, por exemplo, este comportamento:
120 - Para, animal! – berrei, ao cocheiro.
A parelha estacou. Procurei em redor com a pálpebra meio cerrada alguma coisa para comprar – joia de rainha ou consciência de estadista: nada vi; precipitei-me então para um estanco:
- Charutos! De tostão! De cruzado. Mais caros de dez tostões! - Quantos?... – perguntou servilmente o homem.
- Todos! – respondi com brutalidade.
À porta, uma pobre toda de luto, com o filho encolhido ao seio, estendeu-me a mão transparente. Incomodava-me procurar os trocos de cobre por entre os meus punhados de oiro. Repeli-a, impaciente: e, de chapéu sobre o olho, encarei friamente a turba. (OM, 111)
A intenção de moralizar ganha força sobretudo na tomada de consciência do protagonista perante o seu crime. A partir do momento em que Teodoro assassina o mandarim, começa a emergir no seu espírito uma consciência acusadora que bem cedo ele reconhece, não pela perseguição fantasmagórica, mas porque ela representa o horror de um crime que ele cometera e que vitimara um velho:
E, todavia, não era esta impertinência de um velho fantasma pançudo, acomodando-se nos meus móveis, sobre as minhas colchas, que me fazia saber mal a vida.
O horror supremo consistia na ideia, que se me cravara então no espírito como um ferro inarrancável – que eu tinha assassinado um velho! (OM, 119)
Todos estes elementos preparam o trajeto final onde Teodoro constrói a sua moralidade e a dirige àqueles que, no fundo, são iguais a ele; por isso remata a sua lição com uma atitude cética em relação à humanidade, porque tem a certeza de que a estigmatiza a mesma falência moral e a mesma debilidade anímica que acabaram por conduzir os destinos da sua vida.
Relativamente a Teodorico Raposo, a intenção moralizadora parece estar desde logo expressa no seu prólogo, antes de começar a narração da história propriamente dita. A frase que abre esse prólogo não podia ser mais explícita:
Decidi compor, nos vagares deste Verão, na minha Quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso), as memórias da minha vida – que neste século, tão consumido pelas incertezas da Inteligência e tão angustiado pelos tormentos
121 do Dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu cunhado Crispim, uma lição lúcida e forte. (AR, 7)
No entanto, ao contrário d’ OM, n’ AR predomina a focalização interna do protagonista, que mantém o leitor no tempo em que os factos ocorreram, preso ao pensamento do herói da diegese que está a viver a história e que, portanto, tem um limitado grau de compreensão desses factos. (Reis, 1984: 190-204) Apesar disso, quando estamos perto do final, aflora a consciência de Teodorico, ainda num momento atormentado da sua vida, para nos dar a primeira lição de moral: a inutilidade da hipocrisia. Esta moralidade dá lugar ao verdadeiro ensinamento, que é o que afinal encerra a narrativa, pois trata-se do resultado de uma aprendizagem mais amadurecida pelo tempo e pela experiência adquirida, transmitida num momento de estabilidade e serenidade existenciais – a coragem de afirmar sobrepõe-se à defesa da ética:
Agora, pai, comendador, proprietário, eu tinha uma compreensão mais positiva da vida: e sentia bem que fora esbulhado dos contos de G. Godinho simplesmente por me ter faltado no oratório da titi – a coragem de afirmar! (AR, 270)
O “descarado heroísmo de afirmar”, fazendo prevalecer a mentira e a hipocrisia, é, por conseguinte, a lição definitiva, porque é a que melhor serve as ambições do protagonista, expressas logo no seu prólogo: ser aceite no seio da burguesia liberal, nem que para isso tenha de ter a coragem de defender a mentira, pois:
só da Burguesia Liberal, omnipresente e omnipotente, se alcançam, nestes tempos de semitismo e de capitalismo, as coisas boas da vida, desde os empregos nos bancos até às Comendas da Conceição. Eu tenho filhos, tenho ambições. Ora, a Burguesia Liberal aprecia, recolhe, assimila com alacridade um cavalheiro ornado de avoengos e solares (AR, 10).