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A VIDA EM PALAVRAS

No documento Dilemas da (sobre)vida: o aborto (páginas 45-49)

Neste momento, nos preocupamos em delinear o processo de transformação do conteúdo registrado em áudio para o formato escrito, sendo este último nosso composto documental. A primeira etapa do trabalho, adotada por muitos pesquisadores que lidam com entrevistas, é a transcrição.

Comumente, transcrição é o nome dado ao ato de converter o conteúdo gravado na fita em um texto escrito. Nisso está contida a ideia de estabelecer uma cópia escrita perfeita e fiel da gravação – ipsis literis. Uma passagem completa dos diálogos e sons como eles foram captados, incluindo referências aos ruídos ou barulhos independentes da entrevista (campainhas, telefones, risos, latidos de cachorros) e mantendo os erros de linguagem. De regra, pessoas que criticam a consideração do texto convencional escrito, dos documentos grafados, acabam por exigir uma transcrição absoluta como se fosse possível registrar os acontecimentos como eles realmente ocorreram. A mesma

posição positivista frente aos documentos convencionais, muitas vezes, é cobrada quando se trata de documentos feitos pelos oralistas, que, segundo uma visão conservadora e retrógrada, deve ser passada “palavra por palavra”. (MEIHY & RIBEIRO, 2011, p. 107)

Nosso objetivo, contudo, não se restringe à reprodução linear do dito, pronunciado verbalmente, embora consideremos esta etapa fundamental para os procedimentos seguintes. Neste sentido, o trabalho somente começa com a transcrição e o que vem em seguida incorpora elementos textuais, éticos, estéticos e processuais que merecem o devido destaque.

Após a transcrição literal de cada uma das entrevistas gravadas em áudio, o passo seguinte foi ouvir novamente o material, tendo como suporte o texto transcrito. Ao ouvir o registro acompanhando o texto transcrito, relembramos elementos que, acoplados ao caderno de campo e a nossa memória do vivido, concorrem para novo momento, a textualização, quando é possível suprimir o que sobra, como o formato pergunta-resposta, já que nossa finalidade é uma narrativa em primeira pessoa.

É impressionante o quanto este passo do processo é significativo ao comparar os dois produtos: o primeiro transcrito e o segundo textualizado. A leitura não apenas é mais fluida, mas se faz de melhor entendimento do narrado. Ainda assim, guarda limites como passagens da história que se repetem e não são significativas na conclusão, afinal não podemos esquecer que o momento de entrevista envolve a oralidade e seus pressupostos e performances.

Por sinal, a performance narrativa é elemento que pretendemos levar à incorporação textual, acionando registros do caderno de campo e dos sentidos compartilhados durante a entrevista. Mas como fazê-lo?

A resposta nos é dada a partir da transcriação, suporte que emerge da tradução literária e que foi transcriado por José Carlos Sebe Bom Meihy, atento à prática textual da história oral e que com sensibilidade que lhe é própria, ressignificou o conceito a partir da práxis.

A gênese do conceito tem como terreno o trabalho minucioso de Haroldo de Campos, poeta concretista e teórico da tradução. Este, por sua vez, bebeu em proposições que complexificaram a tradução. Ao lidar com diferentes línguas, estava posta a necessidade de traduzir, o que está tão distante da literalidade quanto a prática de seu sentido implícito.

Assim, é providencial a proposta de tradução como crítica, uma vez que antes mesmo de operar a transposição linguística, é necessário conhecer o texto a ser traduzido e reconhecer o contexto ao qual a tradução irá se operar. No caso da tradução, conhecer o autor e sua realidade sócio-histórica facilita o processo, assim como reconhecer o mesmo no que diz respeito à língua traduzida. Somente assim, o sentido expresso no dito será incorporado e significado a contento.

Ao propor a crítica no processo tradutório, Haroldo de Campos imprime responsabilidade ao tradutor, que se transforma em autor também.

A tradução da poesia (ou prosa que a ela equivalha em problematicidade) é antes de tudo uma vivência interior do mundo e da técnica do traduzido. Como que se desmonta e se remonta a máquina da criação, aquela fragílima beleza aparentemente intangível que nos oferece o produto acabado numa língua estranha. E que, no entanto, se revela suscetível de uma vivissecção implacável, que lhe revolve as entranhas, para trazê-la novamente à luz num corpo linguístico diverso. Por isso mesmo a tradução é crítica. (CAMPOS, 2015, p, 14)

Ou seja, não se trata apenas de fazer um trabalho mecânico, mas um procedimento pautado em minúcias e tratamentos procedimentais e teóricos que permitem a aproximação do resultado esperado, qual seja, de sua recepção pelo público não necessariamente afeito aos procedimentos da pesquisa.

A poesia era o desafio maior e a plasticidade do traduzir implicava o entendimento e, mais que isso a possibilidade de transformá-lo em compreensível pelos receptores. Estava claro que a tradução palavra por palavra não dava conta da empreitada. Basta que tentemos fazer o mesmo com qualquer música em outra língua para notarmos o quanto estamos distantes do sentido do que foi dito.

Ao conceber a palavra falada e a escrita como línguas distintas, Meihy partiu para a transcriação em história oral, buscando avançar no sentido do dito para além do registrado literalmente.

Consagrando o princípio elementar de que existem diferenças entre uma situação (língua falada) e outra (língua escrita), nota- se que o mais importante na transposição de um discurso para o outro é o sentido que, por sua vez, implica intervenção e desvios capazes de sustentar os critérios decisivos. Por outro ângulo, a incorporação do indizível, do gestual, das emoções e do silêncio, convida à interferência que tenha como reconhecimento do texto procedido pela conferência e pela autorização determina se o colaborador se identificou ou não com o resultado. É essa a grande prova da qualidade do texto final. (MEIHY & HOLANDA, 2010, p. 139)

A ideia é traduzir o sentido do dito e, assim, nos vemos diante de uma situação que evoca a colaboração, ou seja, a ideia de trabalhar conjuntamente. Isto se opera vivamente, na medida em que a cada história ouvida e registrada é retornada ao entrevistado para que este possa intervir. O processo é longo e exige mediação, mas o resultado atinge o que intentamos desde o início: a identificação.

Em nossa experiência, os resultados foram múltiplos. Houve casos de identificação imediata e outros que demandaram cuidados e reparos, o que demonstra justamente a importância deste processo colaborativo.

Quando um colaborador sugere mudanças é onde percebemos não o erro, mas onde nossa tradução não correspondeu ao sentido impresso na fala. A possibilidade de dialogar e colaborar nos investe das roupagens do tradutor.

No processo dialógico, chegamos ao documento final, afinado com os sentidos outros e, portanto, atinentes ao que buscamos, uma narrativa em primeira pessoa. A certeza de que falamos através do outro é pautada pela validação, já que cada história que nos serve de mote é autorizada por seu protagonista.

PARTE II

INTERSUBJETIVIDADE

Uma das características dos trabalhos de história oral é a intersubjetividade. Uma vez que o eixo procedimental é a realização de entrevistas, está posto desde o início o contato com o outro. Um outro que se dispõe a nos contar sua história para que possamos atingir nossos objetivos acadêmicos. Há uma inegável troca de experiências nesse processo que, por mais que se pontue a necessidade de distanciamento do “objeto de pesquisa”, implica no reconhecimento de realidades desconhecidas, muitas vezes íntimas, e remete indiscutivelmente ao trato com a subjetividade.

Por mais que seja comum considerar que a objetividade total é inalcançável e mesmo discussão superada, frequentemente os oralistas são criticados por admitir o quanto este processo implica nos resultados dos documentos produzidos, bem como nas análises realizadas.

Considerando este como fator determinante de nosso estudo, optamos por apresentar nesta seção as narrativas que dão contornos ao trabalho como um todo, envolvendo nosso próprio relato etnográfico, além nas histórias de vida coletadas por meio das entrevistas.

No documento Dilemas da (sobre)vida: o aborto (páginas 45-49)

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