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HISTÓRIA DO PROJETO

No documento Dilemas da (sobre)vida: o aborto (páginas 49-200)

“Dilemas da (sobre)vida: o aborto”. Este é o título da minha tese de Doutorado. Como cheguei até aqui é o que pretendo apresentar...

Tudo começou ainda durante o Mestrado, realizado entre 2007 e 2011, cuja dissertação é intitulada: “Padecer no paraíso? Experiências de mães de jovens em conflito com a lei”. Ao trabalhar a temática da maternidade e lidar com a experiência adversa de mães de jovens em conflito com a lei, deparei-me com situações e leituras que permanentemente apontavam para a necessidade de questionar o estatuto da maternidade enquanto função inequívoca de todas as mulheres.

Durante a escrita da dissertação procurei esboçar esta preocupação, mas sabia que havia ainda muito a dizer. A maternidade é uma questão que precisa ser apurada com cuidado e atenção, levando em conta as nuances que a permeiam. Sabia, contudo, que naquele

momento sinalizava tal necessidade e de alguma forma a contemplava ao tratar de um tipo específico e não convencional de maternidade.

Percebia, ainda, que não tinha tratado a questão de gênero em sua amplitude, uma vez que a experiência dos pais dos adolescentes não era abordada a não ser de maneira indireta. Esta se mostrou lacuna a ser futuramente problematizada.

Ao fim do Mestrado, me preparei para dar continuidade a estas reflexões e iniciar uma nova pesquisa, que poderia ser melhor desenvolvida no Doutorado. Foi neste momento que o tema do aborto veio à tona. Em diversas ocasiões, havia pensado nesta como questão importante para refletir sobre a maternidade e a experiência das mulheres na contemporaneidade. Em 2011, ainda não tinha claro como levaria esta ideia adiante, mas não demorou para que delineasse um projeto de pesquisa cujo tema central era o aborto.

Fazendo uma retrospectiva, acredito que o interesse pelo tema, para além das reflexões sobre a história das mulheres, as questões de gênero e a maternidade, tenha a ver com o fato de ser mulher, mãe e ter pensado em minha trajetória, em diferentes momentos, sobre a questão do aborto.

Acredito, sinceramente, que toda mulher com vida sexual heterossexual ativa tem entre suas preocupações a gravidez. Esta possibilidade está presente literalmente a cada mês e o simples atraso da menstruação causa verdadeiro pavor o que, mesmo indiretamente, torna o aborto elemento relevante. Não como opção, pois a gravidez não planejada, por frequente que é mesmo entre as mulheres que se “previnem”, depende das situações que estas vivem em relação a sua família, relacionamento afetivo, momento da vida de estudos ou trabalho, sem contar os inúmeros casos em que isto envolve a exigência do cuidado da família pré-existente, bem ou mal estruturada.

Refletir sobre a história das mulheres, portanto, significa pensar na experiência da maternidade e suas consequências para a vida, algo que ficou nítido durante a pesquisa do Mestrado e estimulou a reflexão sobre minha própria vida.

Desde a adolescência tive conhecimento de métodos contraceptivos e em alguns momentos lancei mão de diferentes alternativas. Todas passíveis de erro. Nas vezes em que minha menstruação atrasou, a despeito de minha vontade íntima de ter filhos, pensei no futuro. O que deveria fazer? Talvez o aborto fosse uma opção. E, se fosse o caso, sabia de alguns meios para fazê-lo. Diziam que tomar medicamentos com bebida alcoólica dava certo. Chá de canela também era algo que podia ser utilizado e admito já

ter tomado sem saber se realmente estava grávida. Possivelmente não, uma vez que nada comprova que estes recursos sejam eficazes.

Como mostra o trabalho de Arendt, Assis e Motta (2012), a experiência ou opção pelo aborto é algo subjetivo e que pode ser relativizado em sua intensidade pelas próprias mulheres. Em pesquisa realizada na zona periférica de Florianópolis com mulheres das classes populares, a ideia de aborto se mostrou multifacetada, podendo ser reconhecida como simples atraso das “regras” e admitindo a utilização de métodos caseiros para “fazer descer” a menstruação, ou mesmo sendo interpretada como erro e pecado quando a gravidez se encontra em estado avançado e os artifícios utilizados imprimem maior intervenção no corpo das mulheres.

O que os relatos nos mostram são práticas culturais de redescrição da hegemonia médico religiosa, que insiste em descrever o aborto de uma única maneira. Mas, as mulheres implodem os sentidos do aborto. (Diniz, 2012, p. 13)

Além disso, em minha própria experiência, fui mãe por duas vezes sem o ter planejado. Seguir adiante não foi decisão fácil e nem sem dilemas. Mas posso dizer com convicção que pude decidir o que fazer e, nesta perspectiva, tive o apoio necessário para que as gestações fossem sem maiores turbulências. Ainda assim, são inegáveis as mudanças que uma gravidez provoca no corpo e na vida de uma mulher. Sua rotina, seus planos, seu futuro fica definitivamente comprometido. Certamente, é a mulher quem de fato sabe o que vai acontecer e se pode lidar com tantas mudanças.

Falar da minha própria vida aqui não tem importância a não ser pelo fato de que sou mulher e sei o que é uma gravidez não planejada. Sei também o que é ser mãe. E sei que são muitos os casos e histórias de mulheres que merecem ser observados menos objetivamente, uma vez que esta é uma experiência que envolve inúmeras questões. O tema, no entanto, é tratado geralmente como algo factual e sem a complexidade que merece.

Pensando nisso, meu projeto de pesquisa tinha como foco inicialmente as mulheres que vivenciaram abortos induzidos. Mas o universo do aborto vai muito além das mulheres e requer atenção no que diz respeito à militância - favorável e contrária -, aos mecanismos jurídicos que determinam a legalidade ou criminalização do aborto, aos debates da arena política que movimentam ações práticas e leis, às questões religiosas que permeiam decisões e consequências no âmbito da vida privada, às relações de

gênero que estruturam a vida social dos sujeitos na contemporaneidade e, neste esteio, ao papel dos homens nesta experiência, que resulta sempre de relacionamentos entre mulheres e homens. Por fim, aos significados atribuídos à maternidade e ao aborto enquanto prática que atravessa tempos e espaços.

Tinha em mãos, portanto, uma questão de inegável relevo social e, como historiadora e oralista, fui delineando o projeto de maneira que pudesse dar conta de contemplar esta complexidade. Tracei as linhas condutoras da pesquisa através de redes de entrevistados que permitiriam acessar experiências plurais sobre o aborto induzido. Esta escolha define meu corpus documental e o método de elaboração e análise das fontes produzidas. Também dá os contornos éticos e estéticos dos resultados esperados da pesquisa.

Até que a pesquisa se tornasse factível, muita estrada estaria pela frente e os desafios se colocaram deste o início. Mesmo sabendo ser o aborto assunto presente na vida das mulheres, seja por sua possibilidade ou descarte total, a condição de criminalização impunha obstáculos indiscutíveis. Afinal, falar sobre algo que é visto como crime e pecado não é tarefa das mais fáceis. Sem contar a necessidade de proteger àqueles que se disponibilizassem a contar suas experiências e contribuir com a pesquisa.

O primeiro passo foi acionar grupos que se manifestam publicamente sobre o tema. E foi assim que fiz a primeira entrevista com uma das integrantes do grupo Católicas pelo

Direito de Decidir. Mesmo que a entrevista versasse sobre a história de vida da

colaboradora, esta era uma interlocutora que carregava a responsabilidade de difundir um discurso a respeito do assunto. O aceite para a entrevista se deu sem maiores problemas e a sensação de êxito desta primeira investida deu fôlego para continuar. Os próximos passos não seriam tão simples. Acionaria pessoas de minha própria relação e convívio para a realização de entrevistas e, por mais que isto pareça fácil, foi onde encontrei os maiores dilemas éticos. Como pedir a alguém que me confiou tal experiência que me recontasse a história, desta vez, para um estudo?

Apesar das dificuldades, tentei. E, após alguns esforços, tive o apoio e o entendimento necessários. Fiz entrevistas com pessoas queridas e que compreenderam não apenas minha necessidade enquanto pesquisadora, mas a importância que seus relatos poderiam ter em debates públicos.

Foi também através de amigos que consegui contatos com pessoas que poderiam fazer parte deste processo. Curiosamente, as entrevistas com pessoas para mim desconhecidas tinham fluência mais fácil, de ambas as partes.

Com o andamento da pesquisa, emergiu a importância do papel masculino nas experiências de aborto e, apesar da maior dificuldade em encontrar colaboradores homens, estes foram surgindo de diferentes maneiras, inclusive através de situações inusitadas. Quando percebi, em 2015, tinha realizado mais de dez entrevistas e cada uma trazia inúmeras indagações!

O acompanhamento de disciplinas da pós-graduação também foi fundamental para o aprofundamento de questões, especialmente relacionadas ao debate sobre gênero, às religiosidades, à saúde e, ainda, a elementos teóricos no que tange à elaboração dos documentos provenientes das entrevistas.

Ponto que merece atenção diz respeito a necessidades éticas que envolvem o anonimato de grande parte dos colaboradores. Por este motivo, os detalhes acerca das condições em que se deu cada uma das entrevistas, por tocarem diretamente este aspecto, não serão expostos nesta apresentação. Embora saiba que tais informações têm importância para explicar a trajetória da pesquisa, optei por abordá-las quando da apresentação de cada narrativa, indicando os pontos principais de sua realização e as escolhas visando a garantir a preservação da identidade das pessoas envolvidas. A exceção, ou seja, a identificação dos colaboradores se dará de acordo com sua solicitação ou papel desempenhado no contexto, como é o caso de militantes ou participantes de movimentos sociais ligados ao tema.

Gradativamente, foram ficando mais claras as redes de entrevistados e como estas poderiam se organizar para viabilizar sua análise futura. Dada a especificidade do assunto, a formação das redes se deu de forma diferente do usual e até mesmo inesperada. Sendo assim, temos as que se formaram por indicação, conforme o mais corriqueiro, mas também as que construí a partir do teor das experiências narradas. Para além da abordagem de gênero, central ao discutir o aborto, temas como a saúde, o direito e a religião merecem atenção específica. Além disso, o estabelecimento do diálogo com a produção acadêmica impele a uma reflexão histórica, bem como uma contextualização que permita identificar de onde falamos e quais elementos remetem à longa duração, já que nos atemos a um fenômeno social que pode ser observado em diferentes contextos.

Desta forma, posso dizer que nos últimos quatro anos adaptei o projeto inicial às transformações suscitadas pelas condições da pesquisa. Impossível passar despercebida por tantas histórias de vida, cada qual com particularidades que influíram tanto em meu modo de pensar o tema como de conduzir as entrevistas e o estudo como um todo. Um profundo sentimento de respeito – existente desde o princípio – passou a pautar a reflexão de maneira ainda mais enfática. Como em toda pesquisa, que indiscutivelmente não consegue atingir imparcialidade total - como o cientificismo gostaria - está posta minha percepção sobre o tema do aborto e sobre a prática da pesquisa. Evidente que, como parte do trabalho e mesmo da proposta teórica em que me amparo, há o compromisso em observar as diferentes versões, inclusive aquelas com as quais não me identifico imediatamente. É indispensável imprimir nestes casos o mesmo respeito pelas convicções que as norteiam.

Busquei, assim, desde a elaboração do projeto inicial, incluir as perspectivas contrárias à descriminalização do aborto. De certa forma, consegui atingi-la, afinal dentre os colaboradores há narrativas que se posicionam contrariamente a esta prática. Uma das lacunas, entretanto, estava na dificuldade em conseguir entrevistar pessoas que não somente são contrárias ao aborto, mas que se manifestam publicamente desta maneira. As tentativas nesta direção se deram inicialmente através de contatos via redes sociais. Obtive apenas um retorno positivo que, infelizmente, não se efetivou. Credito esta recusa à publicidade que pode me expor da mesma maneira que nossos entrevistados em potencial. Por ser um veículo de contatos, mas também de expressão de opiniões pessoais, é possível que o contato tenha sido invalidado por me posicionar em postagens públicas como favorável à descriminalização do aborto.

Antes de parecer um problema, a situação exposta demonstra os desafios da pesquisa e a parcialidade embutida nas escolhas procedimentais e posicionamentos políticos. Poucas situações mostraram tão bem como esta a necessidade de flexibilizar projetos de pesquisa, especialmente os de história oral, e a premência de pensar a questão da alteridade.

Embora saiba do grande número de pessoas que não se organiza em grupos, mas são contrárias ao aborto, inclusive do meu convívio, até quase o final da pesquisa não havia me debruçado sobre a possibilidade de entrevistar quem se manifestasse contrariamente ao aborto através das redes sociais independentemente de se associarem a grupos militantes. Duas situações apontaram para novas alternativas.

A primeira se deu durante a participação em um evento, onde durante a discussão que se seguiu à apresentação dos integrantes da mesa, entre os quais eu estava como palestrante - uma colega professora da instituição tomou a palavra para expressar seu posicionamento contrário ao aborto e sua disposição em fazê-lo através de seu ofício como docente. Neste momento, manifestou sua intenção em nos conceder uma entrevista.

A segunda situação ocorreu na última semana do mês de novembro de 2016, quando foi divulgada pela imprensa a decisão do STF a respeito da prisão preventiva de funcionários e médicos de uma clínica clandestina no Rio de Janeiro. Embora a decisão em si tenha sido parcial e em nada definitiva sobre a legislação que rege o aborto, a maneira como a imprensa “publicizou” o caso, especialmente através das manchetes das notícias, sugeriu a existência de uma lei que descriminalizaria o aborto nos três primeiros meses de gestação.

O que se seguiu e que pude acompanhar através das redes sociais foi a

viralização de memes e comentários que discutiam o tema do aborto. De um lado,

pessoas e movimentos organizados favoráveis à descriminalização ponderaram sobre a questão e reforçaram seus posicionamentos; de outro lado, pessoas e grupos fizeram o mesmo defendendo ideias que refutam o aborto enquanto um direito.

Neste contexto, me utilizando de página privada do Facebook me expressei, acreditando fazê-lo de forma lúcida e dialoguei com conhecidos que concordavam ou não com as ideias que publiquei. Também me senti confortável em desencadear discussões em

timelines de conhecidos. Embora sempre haja a possibilidade de debates inflamados, um

deles me chamou a atenção pelo teor das postagens que apontaram, inclusive, para questões como o respeito à opinião alheia e aos problemas que podem se colocar quando “levamos para o lado pessoal” tais assuntos.

Alguns pontos merecem especial destaque: percebi o grande número de pessoas de meu convívio que se manifestam através das redes sociais para expor seus sentimentos e opiniões quando o assunto as toca “pessoalmente”. O tom assertivo das manifestações e a disposição em defender pontos de vista sobre o tema do aborto denotam sua relevância social e, sobretudo, a necessidade de um debate esclarecido.

Neste contexto, retomei o projeto inicial e percebi a necessidade ainda mais evidente de registrar este discurso que atinge número expressivo de pessoas. Além disso, cogitei a possibilidade de fazê-lo em tempo hábil para a finalização do trabalho, o que

infelizmente não foi possível em função das agendas dos possíveis colaboradores e a minha, com prazos já exíguos em relação à entrega da tese.

Reflexão que anima a análise da pesquisa diz respeito não apenas à constatação esboçada até aqui, que confirma os termos do projeto inicial. Enfrenta pontos determinantes que podem contribuir para a investigação de modo geral. Na ocasião, não pude acompanhar nenhuma postagem em que mulheres falam sobre experiências pessoais de aborto. A maioria das manifestações favoráveis se pautava em dados e informações de pesquisas que mostram o assunto como uma demanda não atendida devidamente. Frases de efeito foram amplamente compartilhadas sem, contudo, serem acompanhadas do “eu fiz aborto e sei do que estou falando”.

Além disso, é interessante notar outra particularidade: pessoas que sabemos terem vivenciado a experiência do aborto em sua trajetória não costumam se manifestar, seja contra ou a favor. Uma de nossas colaboradoras mencionou seu desconforto diante do que se passa nas redes sociais, afirmando sua decisão em ignorar, ao menos publicamente, a discussão. Podemos inferir que o mesmo possa acontecer com outras mulheres que passaram pela situação.

No que tange ao movimento oposto, o das pessoas que se posicionam contra o aborto, há diversos relatos de mulheres que contam seus dramas pessoais de superação em relação à maternidade não planejada, o que parece encorajar manifestações afloradas contra o aborto.

Complementando o cenário, acompanhei também opiniões de homens, tanto em postagens pessoais quanto em comentários sobre o assunto. Embora minha apreciação não tenha sistematização e tão somente reflita uma observação momentânea é notável entre os homens as mais diversas opiniões, assim como ocorre entre as mulheres. Esta constatação, ainda que simplória, reforça a dedicação em incorporar à pesquisa o olhar masculino.

Por fim, algo que indica uma tendência nos discursos observados está relacionado à repetição de argumentos, tanto de homens quanto de mulheres. O que os diferencia é geralmente seu olhar sobre o tema.

Quando favoráveis à descriminalização do aborto, notamos a reverberação de resultados de pesquisas como estatísticas e falas de especialistas, sem contar frases de efeito que versam sobre a necessidade de discutir o tema, tais como: “É uma questão de saúde

pública”, “Só mulheres pobres morrem, enquanto as ricas abortam em segurança”, “O Estado é laico”, “Meu corpo, minhas regras”...

Quando contrários ao aborto, é comum o compartilhamento de opiniões que são reforçadas por imagens, em geral que retratam fetos utilizados para estudos, nem sempre ou quase nunca resultantes de abortos induzidos, já que este é um acontecimento que raramente chega a público. Tais imagens são acompanhadas de textos de teor que transita por elementos religiosos e éticos e amparam argumentos como: “Esta é uma vida”, “Todos tem direito à vida”, “Quem faz um aborto não respeita a vida”. Em alguns casos, as posições são mais incisivas: “Quem aborta deveria ter sido abortada”, “Isso é coisa de quem não tem responsabilidade”, “Isso é coisa de mulher que faz sexo sem pensar nas consequências”, “Quem aborta não tem instinto materno”.

Posicionamentos mais ponderados surgem em relação ao aborto legal: “Concordo com o aborto em caso de estupro”, “Se o feto não tem vida, tudo bem abortar”.

É importante verificar que nos casos de argumentos contrários, comumente se atesta o “eu acho” ou “concordo”, enquanto nos que defendem o aborto enquanto um direito há tentativas na direção de atestar tal situação com embasamento menos parcial, já que amparados em casos modelares ou dados mais ou menos circunstanciados. Menos que enfatizar o que possivelmente possa atender nossa opinião, tais constatações favorecem a reflexão sobre o tema do aborto.

Ao longo do processo de pesquisa, situações inusitadas se fizeram presentes. A principal delas está ligada à responsabilidade de conduzir um trabalho sobre este assunto. Por duas vezes fui acionada para prestar auxílio a mulheres que se viram diante da necessidade de interromper gestações não planejadas. Foram momentos delicados em que pude perceber o quanto é emergencial a necessidade de se discutir o tema de forma clara publicamente. Não pude ajudar, mas espero que estas mulheres tenham encontrado o apoio necessário. De qualquer modo, fica claro que ao enfrentar o tema, ainda que no universo teórico, assumo um papel que se delineia a cada passo: o de discutir de maneira plural, clara e profunda o tema do aborto.

A trajetória da pesquisa fica, assim, exposta com o intuito de dar cores ao trabalho que, a despeito dos formalismos necessários e fundamentais, envolveram sujeitos e subjetividades. A discussão teórica e metodológica, por seu turno, oferece o revestimento científico indispensável para a análise que pretendo realizar, com o fito de

contribuir, em meio a tantas outras investidas sobre o tema do aborto, atentando para sua subjetividade, historicidade e contemporaneidade.

NARRATIVAS

A seguir serão apresentadas 16 histórias de vida que tiveram como mote comum

No documento Dilemas da (sobre)vida: o aborto (páginas 49-200)

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