INTERDISCIPLINARIDADE 163 6.1 Perspectiva interdisciplinar da EA
2 FUDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.2 A vida universal um sistema integrado e pulsante
A vida, no seu sentido universal, é um sistema integrado e pulsante, em permanente processo de criação e recriação, desenvolve-se através de uma complexa rede de relações e conexões (visíveis ou não) entre os vários sistemas vivos, envolvendo na sua composição infinita, tudo que há na terra e no cosmo, seja isto, do alcance ou não da compreensão humana.
É impossível citar todos os conceitos sobre a vida universal e depois escolher o mais coerente, completo, científico, profundo, belo e poético.
A vida concebida como um todo unificado é simples e complexa, singular e integrada universalmente, sistêmica, transparente e profunda. Seu centro, não está aqui, nem ali ou acolá, mas em si própria.
Refletir a vida, enquanto sistema pulsante possibilita várias interrogações, como por exemplo: a vida, enquanto complexo sistêmico, significa que tem um coração central? Definir e localizar, cientificamente esse coração ou centro capacita o homem evitar o colapso da vida na Terra? O homem é um dos embriões do sistema vida, nasce e desenvolve-se conectado ou isolado ao processo de evolução desse sistema? O homem, ao simples fato de nascer e tocar algo passa a fazer parte do sistema vida, o que acontece então, quando este mesmo homem cresce? O sistema vida cuida do sistema humano e vice-versa? Na relação vida e homem, este, é um ser integrado, integrador e integrante?
A vida universal acontece espontaneamente, não espera que o homem responda a tantas e outras questões. Seu tempo vital é precioso e curto, logo, é indispensável ao ser humano, o desenvolvimento de uma consciência ecológica profunda que o torne consciente de que é um sistema vivo conectado aos demais do seu habitat natural, para tanto é fundamental que vivencie o resgate de sua vida ontológica, possibilitando o sentir e perceber-se integrado as mais variadas formas de expressão da natureza e incorporar todas as sensações biológicas e psicossociais de um instante de vinculação vivido com os elementos da terra e do cosmo. O homem precisa, portanto, aprender ou reaprender a pulsar junto com o movimento natural da vida, conhecer e ter o prazer de seus sabores, seus cheiros, seus odores, seu calor, enfim de tudo que há no seu universo, eliminando a fronteira entre homem e natureza, criada infelizmente com a formação de uma sociedade antropocêntrica.
Tecer sobre a vida conduz, além de um pensar reflexivo, a sentimentos de cuidados com a terra e com o homem, os quais são difíceis deserem expressos somente por
escritos e palavras. Assim, recorre Seabra (2009, p. 26) ao citar Heideggere e Gratão, que bem dizem:
[...] Desejaria que a escrita - grafhia - deste texto fosse como quem escava ou como quem lavra a terra para plantar. Semear sementes no ato de caminhar e no cuidar das mãos. Pés no chão e mãos que plantam e (a)acolhem. Cuidar a Terra. O cuidado possui uma dimensão ontológica que entra na constituição do ser humano. O cuidado é sempre subjacente “a tudo o que o ser humano empreende, projeta e faz...; cuidado subministra preliminarmente o solo em que se move toda interpretação do ser humano (HEIDEGGER, 1989 apud SEABRA, 2009, p. 26).
[...] Esta dimensão desperta-nos para a consciência de profunda unidade com a Terra. Ser Terra. Sentir que somos Terra nos faz ter os pés no chão - “nos faz fincar os pés na Terra- faz-nos desenvolver nova sensibilidade para com a Terra (GRATÃO, 2008, p. 235apud SEABRA, 2009, p. 26).
Reforçando o pensamento dos autores referendados acima vale destacar ainda, a profunda reflexão de Dardel (1952, p. 2-3):
La Terra est une écriture à déciffrer [...] La Terra réveèle à l’homme sur se condition humaine et son destin. Ce n’est pas d’abord un atlas ouvert devant ses yeux, c’est un appel qui monde du sol, de l’onde ou de la fôret, une chance ou un refus, une puissance, une présence.
Essa citação, traduzindo o mais fiel possível seria: "A Terra é uma gravação a ser decifrada [...] A Terra revela para o homem sobre sua condição humana e seu destino. Isso não é essencialmente um atlas aberto diante de seus olhos é um chamado ao mundo de solo, de onda ou de floresta, uma oportunidade ou uma negação, de um poder, uma presença.” A vida é construída a cada instante vivido, em um constante começar de novo, não faz stop para questionar o seu começo, meio, fim ou seu centro. Ela é autônoma, ou seja, naturalmente movimenta-se, realiza ações de pulsar em ritmos diferentes, ora com movimentos suaves ou acelerados, ora contraindo-se ou retraindo-se, ora abrindo ou fechando seu coração ou centro, bombeando água, respirando gases, aquecendo e esfriando, gerando calor, frio, vida e morte, em uma permanente ação de doar e receber fluxos, diversificando-se em cores, sabores, odores e tantas outras expressões.
O homem está inserido nesse movimento de formação da vida, é parte da totalidade do universo, é filho da terra, logo, tem um coração uni e diverso ou universo, ou seja, tem um coração de terra, água, fogo, ar, verde, bicho, etc.
A vida universal se expressa na natureza, como um todo integrado, não em pedaços. Ela está compreendida em uma complexa rede de sistemas interligados entre si, os quais interagem com seus próprios elementos internos e como o conjunto ambiental externo. Por exemplo, ao apreciar a água límpida de um pequeno córrego, imediatamente nos é
reproduzido a imagem de um rio, pois, se o córrego existe, de alguma forma é sabido que está ligado a um rio e, chegando até este, se imagina qual seria seu curso, ou seja, onde nasce, quais seus caminhos percorridos, onde deságua ... em outro rio, uma lagoa ou no mar?
O exemplo traz uma reflexão sobre a possibilidade de uma visão ampliada do córrego, enxergá-lo de forma sistêmica e integrada e assim, construir ou perceber a paisagem, na qual está inserida, como um todo integrado, incluindo o homem como integrante da mesma. Isso acontece através da visualização da amplitude do córrego, suas potencialidades naturais e alternativas adequadas de explorá-las. A prévia preocupação em fazer e como fazer uso desse recurso hídrico, de maneira a preservar a qualidade de suas águas, significa, no mínimo, acreditar que há vida dentro do rio, em seu entorno e na existência de uma relação de dependência e interdependência entre o Homem e a Natureza.
Essa percepção ambiental justifica a importância da manutenção das condições ambientais geradoras de vida, a partir de uma visão integrada da paisagem, a exemplo do córrego, este, deve ser visto na sua amplitude e não como parte isolada, fragmentada do restante da paisagem que é formada por elementos naturais e sociais.
É infinita a discussão acerca da vida universal e, como foi dito anteriormente, o tempo é precioso e curto, tendo em vista o acelerado processo de desvalorização da mesma, através de ações degradantes do meio ambiente, natural e cultural, realizadas pelo ser humano, sem qualquer respeito a si próprio e aos demais sistemas viventes.
Na análise sobre a vida universal, Capra (1996, p. 29) quando na apresentação da “ecologia profunda” como novo paradigma emergente, expressa que “A vida se encontra em seu próprio cerne [...]” e a partir desse pensamento diz que o novo paradigma supera a metáfora cartesiana, destacando a concepção de Descartes (apud CAPRA, 1980, p. 55), quando dizia que “Toda a filosofia é como uma árvore.”. “As raízes são a metafísica, o tronco é a física e os ramos são todas as outras ciências.” e para isso reforça que “Hoje, a mudança de paradigma na ciência, em seu nível mais profundo, implica uma mudança da física para as ciências da vida.” (CAPRA, 1996, p. 29)
A mudança de paradigma, segundo Capra (1996, 27), “[...] requer uma expansão não apenas, de nossas percepções e maneiras de pensar, mas também de nossos valores.” Para tanto complementa dizendo:
[...] Toda a questão dos valores é fundamental para a ecologia profunda; é, de fato, sua característica definidora central. Enquanto que o velho paradigma está baseado em valores antropocêntricos (centralizados no ser humano), a ecologia profunda está alicerçada em valores ecocêntricos (centralizados na Terra). É uma visão de mundo que reconhece o valor inerente da vida não-humana. Todos os seres vivos são membros de comunidades ecológicas ligadas umas às outras numa rede de interdependências. Quando essa percepção ecológica profunda torna-se parte de nossa consciência cotidiana, emerge um sistema de ética radicalmente novo. (CAPRA, 1996, p. 28).
A literatura da Teoria dos Sistemas confirma que Ludwig von Bertalanffy é a primeira referência do pensamento sistêmico, embora não tenha visto a realização de sua teoria. Assim reforça Capra (1996, p. 55) dizendo:
No entanto, durante as duas décadas depois de sua morte, em 1972, uma concepção sistêmica de vida, mente e consciência começou a emergir, transcendendo fronteiras disciplinares e, na verdade, sustentando a promessa de unificar vários campos de estudo que antes eram separados. Embora essa nova concepção de vida tenha suas raízes mais claramente expostas na cibernética do que na teoria geral dos sistemas, ela certamente deve muito às concepções e ao pensamento que Ludwig Von Bertalanffy introduziu na ciência.
Uma visão integrada da vida universal requer o desenvolvimento de uma concepção transdisciplinar da ciência resgatando sua unidade e quebrando paradigmas tradicionais da disciplinaridade que travam a ampliação do olhar científico. Este, precisa evoluir ou resgatar sua transdisciplinaridade, proporcionar reflexões sobre a necessidade de mudanças no estilo de viver da sociedade atual, favorecer acesso e direcionamento para uma consciência ecológica profunda sobre o funcionamento sistêmico da vida universal, atuar mais crítica e ativa nas políticas públicas ambientais que envolvem as questões socioambientais, contribuindo para a uma educação ambiental de percepção humana, enquanto unidade integrada em uma totalidade global.
A vida universal é biocêntrica, possui um movimento cíclico, gira em torno de si mesma e seu centro é ela mesma. Não é fragmentada, mas formada por partes integradas e o homem é apenas uma delas, assim como o rio, o céu, o ar, os vulcões, as sementes, os sons do vento, o calor e brilho do sol, a luz das estrelas, a lua, o sorriso das crianças, o abraço entre irmãos, o beijo amoroso, o afago a um animal, o sal do mar, as artes criadas pela mente e pelas mãos. Tudo que nela existe está conectado entre si e dentro de si, ligados como uma grande teia, que pode ser frágil e forte, dependendo de como acontece a troca entre os fios que a compõem. A vida tem uma regência musical espontânea e movimenta-se naturalmente, obedecendo leis próprias de vinculação entre seus elementos, muitas vezes ocultas da visão humana, como uma biodança ou dança da vida.
Quando esses vínculos são potencializados, dentro de um pensar ecológico mais profundo sobre a integridade da vida universal, é possível um ser humano, mesmo adulto, perceber sua responsabilidade quanto ao cuidado com a vida que corre no rio, no mar, nas lagoas, nos pequenos córregos, nas matas, nos mangues e compreender que qualquer ação sua interfere na vida de cada sistema da paisagem, inclusive no seu, pois tudo está ligado, através de um único fluxo vital que circula no seio da grande família ecológica. Isso provoca uma reflexão sobre a capacidade de apreender de uma criança e ajuda a brotar esperanças para uma possibilidade de EAI, como mostra a Figura 4.
Figura 4 - Percepção Integrada da Paisagem Parcial do Baixo Curso do rio Cocó