3. A viagem inversa
3.1 A vida vem em ondas, como o mar
Nada do que foi será De novo do jeito que já foi um dia Tudo passa, tudo sempre passará A vida vem em ondas, como um mar Num indo e vindo infinito Lulu Santos e Nelson Motta
O poeta Manoel de Barros (2001, p. 75) afirmou que precisamos desnaturalizar o mundo para poder compreendê-lo melhor:
É preciso desformar o mundo: tirar da natureza as naturalidades. Fazer cavalo verde, por exemplo.
Para narrar desandei a pensar e a me desformar, em movimentos intermitentes, mas constantes, como as ondas do mar, imensas, que podem nos fazer submergir ou quem sabe, levar até às mais belas praias desconhecidas. Rememorar o vivido instaura em nós uma sensação difusa de saudade e escrever sobre ele é um modo de criar oportunidades para encontros inusitados e surpresas. Sinto o tempo, neste momento de revisitação do passado e das experiências vividas, como uma vastidão em movimento. Girando, girando, projetando-se à minha frente como em um filme,
rebobinando o século39.
Benjamin ressaltou que nunca podemos recuperar totalmente o que foi esquecido.
E talvez seja bom assim. O choque do resgate do passado seria tão destrutivo que, no exato momento, forçosamente deixaríamos de compreender nossa saudade (1987, p. 104-105).
Segundo minha orientadora Corinta Geraldi a memória tem suas artimanhas.
Esquecemos; muito se perde e é irrecuperável, permanece o que, por ter sido significativo, peculiar, marcante, tenha permanecido enganchado em seus labirintos(GERALDI, 2006,
39 BUARQUE, Chico. Lola. In: BUARQUE, C. Francisco. Rio de Janeiro: BMG Ariola, 1987. 1 disco sonoro.
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p.212). O professor João Wanderley Geraldi (2006, p.62) afirma que contamos a nós
mesmos com palavras. Somos nossas palavras. O filósofo Jorge Larrosa, amigo de Corinta
Geraldi e de João Wanderley Geraldi, apresentado a nós por este casal de professores, também nos ensina:
Somente o combate das palavras ainda não ditas contra as palavras já ditas permite a ruptura do horizonte dado, permite que o sujeito se invente de outra maneira, que o eu seja outro [...] A fidelidade às palavras é reaprender continuamente a ler e a escrever (a escutar e a falar) (2003, p. 40).
Nos labirintos da memória, o pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que
a gente voa quando começa a pensar...40
Quando comecei a pensar provocada pela necessidade de registrar em uma
novela de formação as motivações para a realização desta pesquisa educacional,
algumas memórias brotaram. De modo semelhante ao de uma mina d água que vi manar do chão, na minha infância, no sítio da Dona Jaci, uma querida amiga de minha mãe, que me tratava como filha e me oferecia doces de goiaba e de abóbora feitos por ela mesma. Que delícia de recordação! Sinto até a saliva aumentar, por lembrar dela e daqueles doces ofertados como um gesto de carinho e amizade!
Observando-me em minhas próprias memórias percebo, como Cecília, que eu
não tinha este rosto de hoje 41. A vida está passando assustadoramente rápido. Pedro,
nosso primeiro filho já completou 24 anos! Que susto! Parece que foi ontem que vivemos seu nascimento no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM), na UNICAMP42. Ingressou na universidade em 2010 para cursar Engenharia Eletrônica 43,
exatamente no mesmo ano em que iniciei o Curso de Doutorado em Educação na
40 RODRIGUES, Lupicínio. Felicidade. Intérprete: Caetano Veloso. In: Homenagem a Lupicínio Rodrigues.
Rio de Janeiro: Som Livre-RCA, 1978. 1disco sonoro, Lado A, faixa 4.
41 MEIRELES, Cecília. Retrato. In: MEIRELES, Cecília. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987, p.
84.
42 CAISM - Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher, atualmente denominado Hospital da Mulher
Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti, ligado à Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP.
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UNICAMP. Uma situação bastante singular na vida de mãe e filho: fizemos matrícula em curso universitário no mesmo ano.
Por volta de 2007-2008 o meu trabalho de memória passou a sofrer uma certa intensificação, pelo fato de estar envolvida com a investigação narrativa, em nível de mestrado, realizada na PUCC. Rememorei algumas das experiências do tempo da graduação em História, cursada entre os anos de 1981-1984. Também me pus a refletir sobre a primeira pós-graduação, um mestrado em História, realizado entre os anos de 1987-1989, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da UNICAMP.
Tempos decisivos em minha caminhada pessoal e social. Durante esse período fiz escolhas que repercutiram e direcionaram a minha vida: ingressei na carreira do magistério público estadual em 1985; tranquei a matrícula no mestrado em História em 1989 e concentrei minhas energias no trabalho desenvolvido no Departamento de Formação do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região.
Trabalhando no Sindicato conheci João Roberto Leite, um dos dirigentes, por quem me apaixonei e que mais tarde viria a se tornar meu companheiro. Em 1990, após o nascimento de nosso primeiro filho, pedi exoneração do cargo de professora efetiva na rede estadual de ensino. Também me desliguei do Sindicato dos Metalúrgicos, por ter me casado com João.
No Sindicato tive o privilégio de trabalhar com pessoas valorosas e comprometidas com a justiça social, opção de vida que nos aproximou e permitiu a criação de vínculos afetivos duradouros, que se expandiram para além do local de trabalho. Nesse tempo e espaço conheci Eliezer Mariano da Cunha e João Zinclar Lima Silva, dois diretores com quem trabalhei e por quem desenvolvi admiração e respeito. Estes dois trabalhadores são sujeitos desta pesquisa.
Depois de ter me desligado do Sindicato e do magistério vivi um período dedicada à vida familiar, aliando trabalhos esporádicos de formação em grupos de Educação Popular, especialmente os ligados aos movimentos sindicais. Retornei ao magistério público estadual no ano de 2000, novamente pela via do concurso público, quando nosso segundo filho, Davi, já estava com 4 anos de idade.
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Durante os anos de 2003 e 2004 participei de um trabalho coletivo singular e marcante de renovação e de recriação das experiências de Educação Popular, agora no interior de uma instituição pública: a Secretaria Municipal de Educação de Campinas (SME). Situação inédita em minha vida, pois as ações anteriores no campo da Educação Popular estiveram circunscritas às entidades de trabalhadores ou a instituições civis dedicadas à Educação Popular. A experiência desenvolvida na SME foi tema de minha pesquisa em nível de mestrado em Educação, como mencionado no capítulo 2.
Os anos de 2003 e 2004 foram vividos intensamente no movimento de invenção coletiva de um projeto de alfabetização de jovens e adultos, fundamentado nos princípios da Educação Popular. Implementado através da parceria entre a Secretaria Municipal de Educação de Campinas (SME) e o Ministério da Educação (MEC), após o início do primeiro mandato do governo Lula 44, em 2003, período no qual foi criada a
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI). Através da SECADI novos aportes financeiros foram destinados aos municípios que apresentassem projetos destinados à alfabetização de jovens e adultos. O governo municipal de Campinas, no período de 2001-2004, exercido pelo Partido dos Trabalhadores45, teve como Secretária Municipal de Educação a professora Corinta
Maria Grisolia Geraldi46. Ela e toda a sua equipe gestora empenhou grandes esforços
para que um novo projeto fosse desenvolvido na cidade. Dulcinéia de Fátima Ferreira Pereira, amorosamente chamada por nós de Dulce, e eu, fomos convidadas para coordenar o projeto, ao qual, após muitas rodadas de diálogos entre todos os envolvidos, passou a ser chamado de LETRAVIVA. Uma experiência na qual foram exuberantemente expandidas agorabilidades impregnadas de novas sensibilidades, de novos encontros com pessoas que hoje vivem em mim. Uma das pessoas que tive o
44Pela via da eleição direta Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do Partido dos Trabalhadores e de
partidos coligados, foi eleito Presidente da República Federativa do Brasil, em 27 de outubro de 2002, sendo empossado em 01 de Janeiro de 2003 para o seu primeiro mandato de quatro anos como Presidente da República.
45 Foi eleito para Prefeito de Campinas, pelo Partido dos Trabalhadores, para a gestão de 2001-2004, o
arquiteto Antônio da Costa Santos, o qual foi assassinado em 10 de setembro de 2001, sendo sucedido por Izalene Tiene, a vice-prefeita, também do Partido dos Trabalhadores. Até o momento atual não foram esclarecidas as causas e os responsáveis pelo assassinato do prefeito Toninho do PT.
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privilégio de conhecer durante a realização do trabalho foi a educadora popular Maria Iva Lopes Silva, também sujeito desta pesquisa. No projeto LETRAVIVA ela foi responsável pelas visitas aos grupos e as reuniões semanais de formação com as educadoras da região sudoeste da cidade. Dulce, Maria Iva e eu nos tornamos amigas e parceiras em diferentes trabalhos de formação de educadoras e educadores, tanto em Campinas como em cidades da região.47
No LETRAVIVA48 organizamos o processo de formação dos educadores e
educadoras de modo dialógico e compartilhado. Não começamos com um pacote pronto no primeiro Curso de Formação Inicial, realizado em Setembro de 2003. Pelo contrário, esse curso foi proposto e vivido como um convite e desafio para que todas as pessoas participantes se envolvessem na sua criação: formadoras, formadores, educadores, educadoras, estagiários e estagiárias.
Com essa proposta e atitude buscávamos criar uma vivência que pudesse servir de referência para ser experimentada nos grupos, em parceria com educandas e educandos. Buscávamos criar uma possibilidade de alfabetização de jovens e adultos que tomasse como ponto de partida os saberes e as histórias de vida dos educandos e dos educadores.
Desafiamo-nos a construir coletivamente novas e outras possibilidades nas relações vividas nos espaços educativos, tentando criar o que Paulo Freire chamou de
inédito-viável, pois compreendemos a alfabetização como um processo de construção
de possibilidades para a vida se expressar da forma mais abrangente possível. Sujeitos
47 Um exemplo é o trabalho de Formação Inicial e Continuada dos educadores e educadoras do
Programa Brasil Alfabetizado, realizado na cidade de Várzea Paulista, entre os anos de 2005-2007, do qual participamos Maria Iva e eu. Ainda em Várzea Paulista trabalhei no Programa Construir o
Aprender, de Formação Continuada de Educadores da Secretaria Municipal de Educação, durante o
ano de 2009. Dulce participou como colaboradora. Na Secretaria Municipal de Educação de Rio Claro, no ano de 2009, trabalhei no Programa de Formação Continuada de Educadores e Educadoras. Ainda hoje sou convidada para atividades esporádicas, como é o caso dos Simpósios de Educação. Em Rio Claro Dulce e eu participamos de algumas das atividades de planejamento do programa de formação.
48 O processo de Formação dos Educadores e Educadoras do LETRAVIVA foi estudado em nossa
investigação de mestrado Diálogos com quem ousa educar, educando-se e os depoimentos disponibilizados aqui foram publicados nesse trabalho, em 2009. Um recorte dessa produção, organizado sob a forma de artigo, escrito em parceria com Dulcinéia de Fátima Ferreira Pereira foi apresentado no I Congresso Internacional da Cátedra UNESCO de Educação de Jovens e Adultos, entre os dias 20 a 23 de Julho de 2010, em João Pessoa, PB. Apresentamos aqui uma parte da versão reescrita do referido artigo.
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cognoscentes produzem conhecimento a partir de competências linguísticas que trazem consigo de suas vivências e de suas práticas sociais. Para nós, como ensina Regina Leite Garcia, alfabetização é um processo contínuo, que acompanha o processo
mais amplo de busca e construção de conhecimentos inerente a todo ser humano que vive numa sociedade letrada (GARCIA, 1992, p. 10). O processo formativo, sob este ponto de
vista, comporta três dimensões: ética, estética e política.
Em nossos estudos e debates, anteriores ao primeiro Curso de Formação Inicial, Dulcinéia de Fátima Ferreira Pereira, Romualdo Dias49 e eu, começamos a esboçar
algumas ideias a serem apresentadas no Curso, conectando as dimensões ética, estética e política.
A dimensão estética está relacionada ao movimento de criação, experimentado no tempo e espaço da vivência do processo educativo. Levávamos para o debate a formulação de que há um estilo de educar e ensinar articulado ao estilo de vida do educador, da educadora. E esse estilo se manifesta no modo como vivemos, como nos relacionamos e como expressamos a nossa criatividade.
A dimensão política vincula-se ao trabalho de construção de possibilidades para a vida se manifestar com toda a sua potência. Assim, o ato de educar é também um modo para se gerar e inventar poder. A pessoa que aprende a ler e escrever, consegue certa liberdade antes interditada, pois desenvolve o poder da leitura, da escrita, da comunicação em múltiplas opções. E esse é um tipo de empoderamento muito significativo para a pessoa jovem e adulta.
A dimensão ética reporta ao cuidado que cada educador, educadora, desenvolve em sua relação com educandos e educandas, quando faz o convite para fazer da própria vida uma obra de arte. Aprender criando, inventado, era nossa proposta. Assumindo o ato educativo encharcado de significado, tanto para educandos como para educadores e educadoras.
O movimento estético da criação, no processo de aprendizado da língua escrita, depende do cuidado e da prudência para se defender a vida em qualquer lugar,
49 Prof. Dr. Romualdo Dias, da UNESP, campus Rio Claro, foi assessor pedagógico da SME durante a
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sobretudo onde está mais ameaçada. E o grupo social dos adultos analfabetos revela uma segregação impossível de esconder. A prudência e o cuidado, portanto, são princípios éticos para educadores e educandos que se lançam no movimento de criação no contexto do processo educativo.
Problematizamos também durante os vários cursos de formação a questão do poder que há na palavra. A palavra como instituinte dos modos nos quais são expressas as relações sociais. A dimensão estética, política e ética é manifesta no próprio modo de utilização da palavra. E isto não é difícil de compreender, visto que por meio dela construímos os sentidos para a vida e ressignificamos permanentemente o nosso modo de ser e estar no mundo.
Dessa perspectiva, assumimos que a nossa relação com a palavra é também movimento de criação. Ela se apresenta como uma possibilidade, dentre outras, para expressarmos vivências de alegria, prazer, sofrimento, dor, como também de nossa percepção do contexto social. Pela palavra manifestamos indignação, nossa compreensão da justiça ou ausência dela, da iniquidade, do privilégio, da solidariedade, da compaixão.
Com esse tipo de reflexão organizamos o processo educativo como um movimento de criação, de tal modo que a apropriação da leitura e da escrita estivesse a serviço da geração de novas possibilidades para a vida se manifestar.
Aprendemos com Paulo Freire que os discursos sobre igualdade não são exatamente necessários, pois ela se manifesta na forma como nos relacionamos, como atuamos e interferimos no mundo. Reconhecendo educandos e educandas como sujeitos de sua aprendizagem, problematizamos as relações hierárquicas muitas vezes existentes no contexto educativo, para lembrar que o diálogo promove a aproximação das pessoas e favorece a partilha dos saberes, todavia para que tal situação possa vir a existir é necessário que desde o princípio vá ficando cada vez mais claro que, embora
diferentes entre si, quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma- se e forma ao ser formado (FREIRE, 2003, p. 23).
Através dos registros escritos de algumas educadoras do LETRAVIVA podemos vislumbrar movimentos significativos nas suas vidas. Notamos lacunas e contradições,
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como é próprio das ações humanas, mas ao mesmo tempo, a disponibilidade e abertura para releituras e recriações.
Como forma de nos aproximarmos da compreensão e vivência que algumas educadoras estavam experimentando apresentamos a seguir a narrativa de uma delas, a educadora Raquel:50
A experiência que vivo no Projeto LETRAVIVA é muito rica. Nas salas de aula, junto aos educandos, com a visão de mundo que eles trazem, mais aprendo do que ensino. Não há como não nos envolver com os problemas deles. Em uma dessas situações, Dona S. procurou-me e, confidencialmente, pediu para eu arrumar uma condução para levá-la a Campos do Jordão visitar um filho que estava internado. Segundo ela, o hospital da PUCC havia transferido o rapaz para um hospital de lá, há três meses, e eles nunca tinham podido ir vê-lo. Sentia-se machucada, ferida, por não poder estar por perto, dando apoio, pois ele estava doente, longe e sozinho.
Fiquei preocupada. Procurei a comunidade que me prometeu a coleta de um dia da missa, para ajudar nas passagens. O tempo foi passando. O Natal se foi e eu não consegui dar esse presente a ela. A ajuda demorou muito e, numa certa noite de aula, fui avisada que o filho da Dona S. havia morrido. Senti-me um fracasso! Não consegui ajudar Dona S. ver o filho com vida. Quando terminei a aula era tarde para ir sozinha ao cemitério dos Amarais. Prometi a mim mesma que no dia seguinte, logo cedo, levaria minha filha à rodoviária e depois iria ao velório.
Às sete da manhã, liguei para a casa dela e soube que o enterro seria às 8 horas. Não pude chegar a tempo, e assim, não consegui estar com ela naquela hora difícil. À noite, quando cheguei para a aula, Dona S. estava lá! Fiquei perplexa! Ela havia enterrado o filho naquele dia... Quando fui abraçá-la, me disse com voz entrecortada: Pedi para atrasarem o enterro meia hora para ver se a senhora chegava...
50 Algumas dessas narrativas foram apresentadas na dissertação de mestrado e, para aquela
investigação, o Comitê de Ética em Pesquisa da PUCC não autorizou a identificação dos sujeitos. Por esse motivo aqui também foram mantidos os nomes fictícios.
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Essa dor calou mais forte. Fiquei muito mal! Senti-me incapacitada, pequena, de novo fracassada. Fiz um apelo junto à Equipe de Apoio e todos contribuíram com um pequeno valor. Rifei uma camiseta do LETRAVIVA, mais a coleta da missa. Juntei tudo e levei a nossa pequena ajuda à Dona S., agora para ajudar a pagar as despesas do enterro.
Fatos como esse não param de acontecer no dia a dia do LETRAVIVA e, para o nosso povo tão sofrido, a nossa presença no meio deles é por demais importante.
Raquel - 15 de Julho de 2004
Marta também foi uma educadora do LETRAVIVA que produziu muitos textos. A seguir compartilhamos um deles:
RELATO DE UMA ATIVIDADE COM O GRUPO
Nos dias 24, 25 e 26 de agosto deste, trabalhamos com o grupo a letra da música A Sopa de Sandra Peres51. Brincamos, cantamos, e vimos como podemos brincar com as palavras. Então construímos juntas a nossa sopa. A sopa que cada uma colocava o ingrediente que queria, que achava gostoso e até mesmo engraçado, colocar tal coisa na sopa. A sopa do grupo ficou assim:
A NOSSA SOPA
O que que tem na nossa sopa? O que que tem na nossa sopa? Será que tem mandioca Será que tem pipoca Será que tem jiló
Será que tem caldo Knorr? É 1, é 2, é 3.
Será que tem chuchu Será que tem umbu Será que tem pimentão
51 TATIT, Paulo; PERES, Sandra. A sopa. Intérprete: Grupo Palavra Cantada. In: PALAVRA CANTADA.
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Será que tem cenoura Será que tem cebola
Será que tem mandioquinha Será que tem coxa de galinha? É 1, é 2, é 3.
Será que tem sapato Será que tem trapo Será que tem abacaxi Será que tem xixi? É 1, é 2 é 3.
É interessante como pequenas coisas podem mexer e transformar a vida das pessoas. Algumas diziam que estavam até sentindo o cheiro, o gosto da sopa. A C. uma das educandas gostou tanto daquele jeito de fazer a sopa, que não se contentou em tê-la apenas nas folhas de seu caderno e na imaginação. Chegando em sua casa ela preparou uma deliciosa sopa. Depois ela nos contou que sua filha perguntou se ela estava ficando louca, pois, naquela tarde estava fazendo muito calor para tomar sopa.
A C. ainda viveu uma outra experiência a partir daquela simples sopa. Naquele final de semana, aconteceu outra briga entre ela e o seu marido. Ele novamente a maltratou e a ofendeu, dizendo que era prá ela ficar calada, porque ela não sabia de nada, e gritou novamente fique calada sua... . E ela calou e foi dormir super-magoada com ele. Mas desta vez ela sentia algo diferente nela. Quando chegou a madrugada ela decidiu que não precisava mais ficar chorando, lamentando, pois ela tinha certeza que podia escrever algo que expressasse aquilo que estava sentindo e pensava não poder dizer. Então ela