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III.1. A problemática da relação da Psicanálise com a cultura vienense:

Neste capítulo será feita uma breve exposição da formação intelectual de Freud de modo a determinar a sua incidência na criação da psicanálise. Não se trata, como já antecipamos em nossa introdução, de um preâmbulo histórico e basicamente extrínseco em relação à problemática teórica que estamos abordando, uma vez que se vincula à idéia fundamental que a inspira e estrutura: a teoria psicanalítica é uma articulação original de elementos científicos e filosóficos heterogêneos que produzem uma permanente tensão no desdobramento do texto freudiano e esta tensão irá alimentar, tanto a polissemia de seus conceitos fundamentais, quanto o equilíbrio dinâmico de seu discurso. Isso explica, em parte, não apenas a diversidade de interpretações suscitadas pela obra freudiana e a diversidade das correntes psicanalíticas que nela buscam justificar as suas opções teóricas, como também a polêmica acerca de seu significado cultural. Portanto, por seu caráter de obra aberta, obra na qual se entrecruzam diversas vertentes do pensamento filosófico e científico modernos, a abordagem da gênese do pensamento freudiano – isto é, a determinação das influências intelectuais que sustentam e legitimam a sua investigação – não é estranha, mas antes complementa e elucida a sua análise conceitual interna.

O universo da psicanálise é extraordinariamente amplo, complexo e confuso. No entanto, na diversidade de perspectivas dos que se inspiram em idéias e práticas psicanalíticas ou, ainda, dos que reivindicam superficialmente o termo “psicanálise” para designar as suas concepções psicológicas, devemos

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Sobre esta temática fascinante do inconsciente como avesso da metafísica moderna, ver: VAYSSE, Jean-Marie. L’Inconscient des modernes. Essai sur l’origine métaphysique de la

psychanalyse. Paris, Gallimard, 1999

nos restringir aos que reconhecem explicitamente a sua filiação freudiana. Por este critério excluímos os dissidentes de primeira hora, aqueles que romperam com os postulados fundamentais do freudismo – como é o caso notório de Adler, Jung e, posteriormente, de Reich e dos neofreudianos – assim como as inúmeras escolas de psicoterapia que, buscando inovações na técnica, embora reconheçam a influência freudiana, concebem sua posição teórica e prática como tendo com ela rompido ou ultrapassado numa outra direção. Isso significa que o critério adotado não é o de uma estrita continuidade efetiva, como o seguimento fiel de um conteúdo doutrinário ou mera acomodação à ortodoxia, mas é a assunção de uma continuidade formal e explícita, bem como a preservação de um núcleo conceptual básico e de grande potencial heurístico. O modo de interpretar este núcleo básico pode variar consideravelmente, desde que a referência comum freudiana possa servir como mediação dessas diferenças, de modo que podem ser incluídos no freudismo ou no campo psicanalítico, todos aqueles que, ainda não se enquadrando na disciplina da instituição legitimista que é a IPA, reivindicam a sua filiação a Freud.

Apesar, portanto, de algumas correntes terem introduzido modificações mais ou menos substanciais no corpo teórico freudiano, podemos indubitavelmente considerá-las como pertencentes ao campo psicanalítico, no qual podemos incluir, de acordo com Elizabeth Roudinesco, ao menos seis vertentes importantes: o “Annafreudismo”, o “Kleinismo”, a “Ego Psychology”, a “Self Psychology” , o “Grupo dos Independentes ou Middle Group” e o “Lacanismo”. São correntes que, apesar do antagonismo e, às vezes, através deste mesmo do antagonismo, aceitam essa pertinência ao freudismo e, assim, contribuem no estabelecimento de uma comunidade científica e de uma tradição de pesquisa capaz de forjar um mínimo denominador comum teórico. O que estamos caracterizando como campo psicanalítico, poderia ser aproximado ao que Thomas Kuhn definiu como sendo a ciência normal ou paradigmática

(...)a pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas(...) reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica específica como proporcionando os fundamentos para a sua prática posterior. Embora raramente na sua forma

original, hoje em dia essas realizações são relatadas pelos manuais científicos elementares e avançados. Tais livros expõem o corpo da teoria aceita, ilustram muitas (ou todas) as suas aplicações com observações e experiências exemplares.167

De acordo com este critério há, sem dúvida, um campo psicanalítico que, apesar de suas profundas diferenças internas, se constitui – na diversidade de suas instituições, freqüentemente marcadas por grande e recíproca animosidade – como um espaço de interlocução que é possibilitado pelo reconhecimento de certos conceitos e concepções que possibilitam que as divergências, mesmo quando não se orientam para um consenso ou dele se afastam, sejam razoavelmente comensuráveis. A comprovação direta dessa unidade na diferença pode ser estabelecida através do exame de obras que visam explicitar ou propor uma certa homogeneização conceitual ou lexical, como os manuais introdutórios e os dicionários. A comprovação indireta dessa unidade do campo psicanalítico pode ser encontrada em obras que enfatizam mais as diferenças, como os manuais de história da psicologia ou de teoria da personalidade que, adotando um ponto de vista externo à história da psicanálise, trata de modo claramente diferenciado apenas os “dissidentes” (Adler, Jung) e/ou os “neofreudianos” (Horney, Formm, Sullivan), sem entrar nos detalhes das polêmicas que poderiam ser consideradas como internas.168 Quanto às histórias da psicanálise, as dissidências e divergências são apresentadas em relação à concepção freudiana, o que permite, em função da intencionalidade e da radicalidade das divergências, demarcar

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Cf.: KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo, Perspectiva, 1975. p. 29. Não obstante, da mesma forma que ocorre com o popperianismo revisionista de Lakatos, a psicanálise não é aceita por Kuhn como uma ciência e nem mesmo num sentido pré- paradigmático, porque é considerada , por ele, simplesmente como uma técnica.

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Podemos tomar como exemplos, um tanto aleatórios, manuais de história da psicologia de orientação behaviorista como: MARX, Melvin e HILLIX, William. Sistemas e teorias em

psicologia. São Paulo, Cultrix, 1974. Que traz uma pequena referência às divergências de Rank

e Ferenczi. Ou um manual de teoria da personalidade de orientação eclética como: BISCHOF, Ledford. Interpretación de las teorías de la personalidad. Méx., Trillas, 1973.

aproximadamente quais seriam as fronteiras do freudismo.169 Porém, mesmo quando se quer aclarar os traços distintivos de uma corrente – como é o caso notório do lacanismo, que criou novos conceitos e um novo vocabulário, engendrou uma nova prática e se organizou em instituições independentes com novas formas de transmissão e formação – o referencial que se utiliza é interior ao espaço comum do freudismo, como quando se busca distinguir entre a proposta lacaniana de “retorno a Freud” e a proposta annafreudiana de estabelecer uma “canônica freudiana”. Portanto, se há uma identidade epistêmica da psicanálise, ela deve ser interrogada dentro desses limites do freudismo, ainda que eles nem sempre sejam muito nítidos. 170

Por isso, é no texto freudiano – e em sua intenção de demarcar um lugar científico específico no globus intellectualis – que devemos buscar uma definição de psicanálise. Uma definição que podemos facilmente encontrar em qualquer manual introdutório: trata-se, em primeiro lugar, de um método de investigação que aborda um conjunto de fenômenos psíquicos como os sintomas, os sonhos, os atos falhos e os chistes; em segundo lugar, é um método que se efetiva num tratamento ou numa práxis clinica, que se propõe obter, através de certos procedimentos técnicos, a cura de alguns tipos de distúrbio, sobretudo as neuroses; e, finalmente, é uma concepção da

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Podemos tomar como exemplo duas histórias da psicanálise. Ver, MANDOLINI GUARDO, Ricardo. Historia general del psicoanálisis de Freud a Fromm. Buenos Aires, Ciordia, 1969. Neste caso mais da metade do livro é constituída por uma exposição das idéias freudianas e de sua evolução, a partir da qual são determinadas a ortodoxia (Abraham, Anna Freud) e as dissidências de forma indiscriminada (de Adler a Ferenczi, de Jung a Klein), distinguindo significativamente, numa seção à parte, os “culturalistas” ou neo-freudianos. Ver também, WYSS, Dieter. Las escuelas de psicología profunda. Desde sus princípios hasta la actualidad. Madrid, gredos, 1975. Obra intelectualmente superior à primeira que embora adote critérios epistemológicos discutíveis, também agrupa como “Escola de Freud” desde Abraham à Psicologia do Ego (Hartmann, Kris , Loewenstein), de Ferenczi à Melanie Klein e deixa Adler, Jung e os neo-freudianos à parte. Desse modo parece corroborar a nossa definição do campo psicanalítico.

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Cf.: MILLER, Jacques-Alain. “O que é ser lacaniano?” Dora. Revista de Psicanálise e

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