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A violência contra a mulher nas relações íntimas de afeto

Capítulo 2 – Violência contra a mulher

2.2 A violência contra a mulher nas relações íntimas de afeto

As agressões e abusos nas relações íntimas de afeto, consideradas como relações em que há envolvimento afetivo-sexual entre as partes como casamento, namoro ou ficar - relação afetiva comum entre os jovens, em que costuma haver menos cobrança e compromisso, (Nascimento, 2009) - representam mais um tipo de violência que incide sobre a mulher, e que está relacionado com o sistema patriarcal. Para Souza (2010), a violência nas relações íntimas refere-se a agressões deferidas por pessoas que mantém ou mantinham um relacionamento afetivo, um vínculo emocional, com a pessoa que foi agredida. Geralmente, nesses casos, o agressor é o marido ou ex-marido, companheiro ou ex-companheiro, namorado ou ex-namorado. Esse tipo de violência é um processo que pode acontecer antes, durante ou após o estabelecimento de uma relação formal, e pode ocorrer dentro ou fora do espaço delimitado como doméstico ou familiar (Cantera, 2004). É sempre um ato intencional, que por ação ou omissão, visa a causar na mulher danos físicos, emocionais, econômicos, sociais, jurídicos, atentando contra sua liberdade e desenvolvimento enquanto pessoa (Cantera, 2003).

A violência contra a mulher nas relações íntimas de afeto pode acontecer de variadas formas, e geralmente, é classificada em tipos como violência física, violência psicológica ou emocional, e violência sexual. A violência física é a mais perceptível e também é a forma de mau-trato mais denunciada. Refere-se ao emprego da força sobre o corpo da vítima, seja por meio das mãos, exemplificado por golpes e empurrões, ou por meio de objetos como armas de fogo, facas, cigarros, ácidos, que deixam no corpo efeitos como hematomas, queimaduras, fraturas, mutilações, lesões, entre outros (Cantera, 2005; Schraiber, Oliveira, Falcão, & Figueiredo, 2005; Souza, 2010; Strey et al, 2004). Inicialmente, os agressores atacam suas parceiras em locais de difícil visualização, como na barriga, nos seios, na parte inferior das coxas, a fim de não deixar pistas. Quando as agressões passam a acontecer em locais mais visíveis, isto significa que a violência já está instaurada há bastante tempo. Esse tipo de violência também não acontece de modo imediato, mas é um processo lento, que não se percebe a princípio. Pode começar com pequenas ações, como o controle das roupas que a mulher utiliza e da checagem de seu telefone que, muitas vezes, não são percebidas como violência, mas como demonstrações de cuidado. Porém, quando esse controle aumenta, essas ações tendem a evoluir para os atos de agressão física de fato (Vilá & Tordera, 2011).

Já na violência psicológica ou emocional, o homem busca prevalecer sobre a vontade da mulher e anular sua capacidade de tomar decisões. Consiste em um atentado contra a dignidade e identidade da mulher, que se manifesta por meio de insultos, burla, estigmatização verbal, crítica humilhante, ameaças, entre outros (Cantera, 2005; Minayo, 2006; Oliveira & Souza, 2006; Souza, 2010). Entre as diversas formas pelas quais essa violência pode acontecer, é comum a desqualificação da mulher devido a sua aparência física ou modo de se vestir, que pode ocorrer em casa ou diante de outras pessoas, inclusive amigos. Registra-se também a prática de afastá-la de seus familiares ou amigos para que não receba influência dos mesmos; depreciar sua capacidade intelectual ou para criar os filhos; ignorar

suas necessidades materiais e de afeto; levantar suspeitas sobre traição, seguidas de ameaça constante (Vilá & Tordera, 2011). Assim como a violência física, a psicológica também é progressiva, ou seja, não começa repentinamente (Araújo et al, 2004), mas por meio de pequenos ataques e insultos verbais, até prosseguir-se ao controle psicológico (Vilá & Tordera, 2011).

No que se refere à violência sexual, esta se caracteriza pela imposição de determinados tipos de atos ou relações sexuais que atentam contra a saúde, a dignidade e a liberdade da mulher (Cantera, 2005; Schraiber et al, 2005). É um tipo de agressão que costuma estar silenciada, porque muitas mulheres têm dificuldade de reconhecê-la como violência, pelo fato de que é o próprio marido ou namorado quem as obriga a manter relações sexuais (Araújo et al, 2004; Vilá & Tordera, 2011). Outro fator que também impede a denúncia é a dificuldade, ou até mesmo a vergonha, que a mulher tem de falar do abuso sexual a terceiros, que poderão não dar crédito, duvidar da veracidade da sua acusação, ou mesmo culpá-la pela violência sofrida (Contreras et al, 2010). Entre os tipos mais frequentes de violência sexual destacam-se: obrigar a mulher a manter relações sem o seu consentimento, por meio de coação ou ameaças; ter de fazê-lo em situações humilhantes, com outras pessoas ou em presença de outros; impedir o uso de preservativo, o que aumenta o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis como AIDS, sífilis, gonorreia, condiloma genital, herpes genital, além do risco de gravidez indesejada (Contreras et al, 2010; Minayo, 2006; Souza, 2010; Vilá & Tordera, 2011).

Além desses três tipos de violência, que são considerados mais comuns, ainda há outras agressões contra a mulher nas relações conjugais, namoros ou “ficar”, como as violências patrimonial e moral. A primeira é caracterizada pela retenção, subtração ou destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais,

bens, valores, entre outros; e a segunda é representada por calúnia, difamação e injúria (Brasil, 2006).

Todos os exemplos de violência apontados até aqui podem ser considerados como fruto de um sistema social baseado no patriarcado, que toma as mulheres como seres subalternos, subservientes e à disposição do homem. A este é outorgado o direito sobre a sexualidade, o corpo e os comportamentos femininos. Essa ordem patriarcal aparece como uma realidade natural, e tem se sustentado ao longo do tempo, até que o sistema ideológico que a torna legítima é criticado pelo feminismo (Cantera, 2005). Assim, nos últimos tempos, o patriarcado tem entrado em crise junto com a ordem familiar e matrimonial construídos sobre o mesmo, mas isto não anula automaticamente todos os seus efeitos (Castells, 1997; Pateman, 1993).