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Representações Sociais da violência contra a mulher e adolescentes

Capítulo 3 – Representações Sociais

3.3 Representações Sociais da violência contra a mulher e adolescentes

A teoria das RS constitui um conjunto de proposições que tem origem coletiva, e que possibilita compreender o que determinados grupos pensam, como agem e que sentido atribuem a uma série de fenômenos. Assim, essa teoria permite desvelar como se estruturam as RS elaboradas por adolescentes sobre a violência contra a mulher, considerando as três dimensões apontadas por Moscovici como constituintes das mesmas, a saber, informação, campo da representação e atitude (Castro, 2002).

A informação refere-se aos conhecimentos que um grupo tem sobre o objeto social, no caso da violência contra a mulher busca-se saber quais informações os/as adolescentes dispõem sobre esse tema, o que conhecem acerca do mesmo, e se são capazes de reconhecer a presença desse tipo de violência em seus próprios relacionamentos afetivos. O campo da representação remete a ideia de imagem sobre um aspecto preciso do objeto representado, ou seja, as imagens que eles/elas têm da mulher agredida, de seu agressor e da prática desse tipo de violência. Já a atitude se refere à tomada de posição acerca do objeto, isto é, quais posições os/as adolescentes tomam diante da violência contra a mulher, em que medida eles/elas são favoráveis ou contrários a essa prática, em que medida aceitam ou rejeitam esse tipo de violência nas suas próprias relações íntimas.

As representações sociais, por constituírem-se em uma teoria que tem como foco os grupos, como eles interpretam a realidade, como dão significado as suas vidas, como guiam

suas condutas, tornam-se meios eficazes para o estudo de uma série de fenômenos, pois seu grande diferencial é o de conceber o objeto social de maneira não apriorística (Moscovici, 2010). Isto significa que o objeto, nesse caso a violência contra a mulher, é estudado de maneira dinâmica, considerando como os/as atores/atrizes sociais o constroem em sua práxis, o compartilham em seu grupo de pertença e a partir daí guiam suas condutas (Ribeiro, 2011). Esse posicionamento remete às três funções básicas das representações apresentadas por Jodelet (1984), ou seja, a função cognitiva de investigação da novidade, a função de interpretação da realidade e a função de orientação das condutas e das relações sociais. Assim, ao se estudar as RS elaboradas por adolescentes sobre a violência contra a mulher, é possível visualizar como eles/elas capturam cognitivamente esse fenômeno, ou seja, como o interpretam e quais significados lhe atribuem, tornando-o apreensível pelos sentidos e criando uma realidade cotidiana. Também possibilita compreender como esses conhecimentos produzidos pelos/as adolescentes acerca da violência, ou seja, essas representações, tornam-se orientações práticas para suas condutas e comportamentos mediante o fenômeno apreendido.

As RS destacam-se ainda por envolverem um campo genérico de significados compartilhados, espaço de sabedoria, memória, tradição e senso comum. Em seus fundamentos encontra-se um núcleo estável e permanente sustentado pela cultura e pela memória dos grupos. Assim, as RS elaboradas por um grupo constituem-se em um meio para compreensão da estrutura e do conteúdo acerca de diferentes objetos reconhecidos socialmente (Santos, Scarparo, Hernandez, Herranz, & Blanco, 2013). No que se refere à violência contra a mulher, a teoria das RS possibilita o acesso aos conhecimentos e modos de pensar presentes no público juvenil a respeito desse fenômeno, e que sofrem influência de significados historicamente construídos acerca da mulher e de seu papel nos relacionamentos afetivos.

As RS também vão permitir apreender o objeto social em relação com o contexto sócio-histórico de sua produção. No caso do presente estudo, sabe-se que a violência contra a mulher é um fenômeno que se encontra ancorado nas relações de gênero, marcadas pela dominação masculina ao longo da evolução humana (Ribeiro, 2011). Por isso torna-se relevante estudar tal objeto à luz da teoria das representações sociais, pois esta permite um maior suporte no entendimento das influências históricas, da ideologia de gênero e do poder masculino sobre a mulher, e como isto se atualiza nas atitudes, comportamentos e comunicações entre os atores sociais ainda hoje, neste caso, os/as adolescentes.

Outras funções importantes das representações sociais podem ser encontradas nos dois mecanismos responsáveis por sua gênese e que foram explicados anteriormente, a objetivação e a ancoragem. A objetivação, caracterizada por tornar concreto aquilo que é abstrato, transforma um conceito em imagem identificável, dotada de concretude. A ancoragem, por outro lado, atua como um processo que integra o novo em uma rede de significados existente, dando-lhe sentido (Araújo, Coutinho, & Pereira, 2009). Desse modo, apreender as representações sociais elaboradas pelos/as adolescentes sobre a violência contra a mulher, permite conhecer como esse fenômeno lhes aparece, tornando possível percebê-lo e falar sobre ele, ou seja, como o objetivam, o tornam real, inclusive tomando por base seus próprios relacionamentos como o namoro e/ou o ficar; e também possibilita identificar as redes de significado que eles/elas tecem em torno dessa temática, ou seja, como a ancoram nos conhecimentos que já possuem e nos valores e práticas sociais existentes.

As representações sociais também possibilitam ao pesquisador a compreensão do modo como os sujeitos sociais apreendem os acontecimentos do cotidiano, os dados do meio ambiente e as informações presentes no seu contexto social (Jodelet, 1984). Mas, essa apreensão não acontece de modo passivo, pois em toda representação sujeito e objeto encontram-se imbricados, e o sujeito ao representar um objeto, traz nessa construção toda a

carga ideológica, simbólica e sociocultural do grupo ao qual pertence, e que mantém relação ativa com o objeto (Moscovici, 2010). Nesse sentido, as representações sociais elaboradas por adolescentes sobre a violência contra a mulher encontram-se impregnadas de aspectos históricos e ideológicos de como são forjadas as relações de gênero, e como essas são significadas no seu imaginário social, e comunicadas em seus discursos. Desse modo, acessar as representações sociais de adolescentes sobre esse fenômeno, permite observar toda uma influência sociocultural compartilhada e que está contida em seus processos internos individuais.

Outra função importante das representações sociais refere-se ao papel que detêm na formação de condutas e na predição de comportamentos. Segundo Moscovici (1978), as representações constituem uma preparação para a ação, pois conduzem o comportamento e, principalmente, porque remodelam e reorganizam os elementos do contexto social em que o comportamento deve ter lugar. Assim, o estudo das representações sociais elaboradas por adolescentes sobre a violência contra a mulher possibilita observar suas condutas sobre esse fenômeno de uma forma mais ampla, considerando também os relacionamentos afetivos que mantêm e que podem envolver esse tipo de prática.

Considerando que a violência contra a mulher é um fenômeno complexo e multifacetado, pois se encontra ancorado em aspectos históricos das relações de gênero, da ideologia patriarcal, da assimetria de poder entre os sexos, torna-se relevante apreendê-lo com base em uma teoria que se constitua de um arsenal de conhecimentos, por meio dos quais é possível ter acesso à estruturação cognitiva de um grupo social acerca desse fenômeno, atravessada pelas estruturações sociais (Ribeiro, 2011). Assim, ao se acessar as representações sociais de um determinado grupo, nesse caso adolescentes, sobre a violência contra a mulher, é possível apreender o que eles/elas pensam sobre esse fenômeno e como esse saber contribui para a construção de uma realidade prática. Por meio da perspectiva dessa teoria, o estudo da

violência contra a mulher pode ser compreendido sob diversos aspectos como crenças, atitudes, comportamentos e regulações sociais.

Porém, dado o fato de que a temática “violência contra a mulher” é muito ampla, pois pode referir-se a inúmeros tipos de violência como as que ocorrem no mercado de trabalho, nos lares, na saúde, na escola, a presente pesquisa delimitou como seu objeto de estudo as representações sociais da violência contra a mulher nas relações íntimas de afeto, ou seja, aquelas relações em que há envolvimento afetivo-sexual entre as partes, como o casamento, o namoro e o ficar. Assim, a questão norteadora desta pesquisa foi: Quais representações sociais da violência contra a mulher nas relações íntimas de afeto são elaboradas por adolescentes? E a partir dessa questão emergiram outras, tais como: Quais os principais conteúdos que emergem das RS elaboradas pelos/as adolescentes acerca desse tipo de violência? Esses/as adolescentes são capazes de identificar esse tipo de violência em seus próprios relacionamentos afetivos?