5 A VISÃO DOS PROFISSIONAIS DO CAPS SOBRE A RELAÇÃO
5.2 Elementos do processo de trabalho que impactam a saúde mental dos
5.2.1 A violência na interface com o mundo do trabalho
A violência é um fenômeno social de grande impacto na subjetividade contemporânea, e vem aumentando nos últimos anos. Segundo Delgado (2012), nos últimos 10 anos a experiência da atenção primária de saúde, articulada ou não com os CAPS, tem se defrontado com os desafios da violência, seja como barreira de acesso, seja pelos agravos psicossociais decorrentes de violência doméstica, violência armada, conflitos entre grupos pelo controle de territórios ou comportamentos violentos associados ao consumo de álcool e de outras drogas.
Como já salientado, a OMS considera a violência um problema de saúde pública. Nesse sentido Seligmann (2011) enfatiza a necessidade de se ampliar o enfoque da temática da violência incluindo a violência laboral, que podem ser encontradas tanto no trabalho quanto na sociedade. Vejamos como a violência aparece nos relados dos interlocutores:
[...] Há também situações de violência no trabalho que favorecem o transtorno como o caso de um taxista que foi sequestrado durante o trabalho e desenvolveu fobia de dirigir. Estou atendendo uma senhora empregada doméstica que já sofreu vários assaltos a caminho do trabalho; ela veio a desenvolver depressão. E outros casos de síndrome do pânico motivados pelo aumento da violência (A).
No momento tem uma paciente em especial, que está em sofrimento mental decorrente do mundo do trabalho. Ela era gerente de uma loja de eletrodomésticos, extremamente ativa que dava conta de todas as áreas da loja [...] Então, ela era única gerente de toda a loja. Ora, o ideal é que tivessem outros gerentes. Mas a empresa percebeu que ela tinha todo esse conhecimento fez dela a gerente que administrava o setor de venda, de estoque, pessoal, e inclusive da parte contábil da empresa. Então essa empresa foi se expandindo e montando várias filiais nas periferias da cidade. Nessa nova condição da empresa, a paciente em questão foi vítima de vários assaltos nessas filiais, pois a empresa não tinha segurança. Mas, somando-se a toda essa responsabilidade gerencial, ela sofreu um assalto numa das lojas – assalto com reféns – onde essa trabalhadora sofreu várias agressões físicas e emocionais, ficando várias horas nesta condição de refém. Ela chegou a ser internada em hospital. Depois desse episódio ela chegou a desenvolver vários problemas emocionais: fobias, síndrome do pânico, paranoia (mania de perseguição), passou a ter problemas de relacionamento familiar. Toda essa situação provocou o seu afastamento do trabalho – ela esta afastada há dois anos. E mesmo em tratamento aqui no CAPS, ela não
consegue sequer passar perto da loja que antes trabalhava (C). (informação verbal).
O relato do entrevistado A expressa sobremaneira a presença da violência nos interstícios da vida contemporânea, incidindo de modo danoso no trabalho e na vida social. Na fala de A, o impacto da violência no trabalho refere-se às condições de trabalho precárias como elemento desencadeante do sofrimento mental, que expõe sobremaneira os sujeitos às situações de violência, como acontece com os profissionais da área de segurança. O relato também menciona a violência social que se espraia no cotidiano das pessoas, ocasionando sérios agravos à saúde mental, como depressão, transtornos ansiosos, e outros.
Um ingrediente importante no processo de sofrimento descrito por C é a exigência da polivalência na execução das tarefas. Na contemporaneidade, a flexibilização dos processos de trabalho traz a exigência de um profissional polivalente (ANTUNES, 2006), com um perfil generalista, capaz de assumir funções antes de responsabilidade de outros trabalhadores, como mais uma pressão que se coloca sobre os seus ombros. O relato sugere que, aliado à pressão e à polivalência nas tarefas realizadas, a violência social foi um fator importante para a produção do adoecimento mental da usuária. Desse modo, como antes referido, um elemento isolado ou vários elementos associados podem colaborar para o desencadeamento dos agravos mentais.
Na atualidade, há uma pressão maior por resultados, ocasionando a deterioração das relações de trabalho. Os depoimentos destacam as relações de trabalho permeadas pelo autoritarismo e violência psicológica, muitas vezes gerando situações de assédio moral e sérios danos à saúde mental dos indivíduos. Assim, a violência pode ocorrer no ambiente de trabalho na forma de agressões físicas, violência psicológica e/ou assédio moral – o chamado bullying.
[...] Trato de outro caso, um jovem rapaz, que trabalha em um hospital privado de grande porte aqui em Belém. Bem, ele sofria bullying no trabalho, pois ele é homossexual e os colegas de trabalho não aceitam tal orientação sexual. Ele é um jovem muito inseguro, e possivelmente em decorrência do bullying ele se isolou ainda mais no trabalho, possivelmente aceitando, ou melhor, introjetando a discriminação de sua sexualidade no trabalho. Afirmo que o trabalho foi o disparador do adoecimento mental (depressão moderada) porque o rapaz não traz dificuldades de relacionamento, por exemplo, na família, na escola ou na academia (J).
Tem um jovem rapaz que há pouco tempo entrou para a polícia, que almejava tal profissão, mas que se defrontou com uma realidade completamente diferente daquela que ele almejava, de seus valores morais, como um choque entre o seu ideal de ser policial e a realidade profissional. Ele, por não aceitar participar de corrupções, passou a ser visto pejorativamente pelos colegas como "o certinho!". Assédio moral mesmo! Com o tempo, vivenciando algumas situações de corrupções de colegas e que tinha de fazer "vista grossa" para isto, ele começou a se recriminar por sua conivência com tais situações, mesclando sentimentos de medo por pensar em enfrentar os seus colegas, e começou a apresentar sinais de transtorno de adaptação. Ele se sentia impotente diante de toda essa condição; ele era o errado por ser o certo! (G). (informação verbal).
Seligmann (2011) chama a atenção para se evitar a individualização da temática, como parece ocorrer quando o paciente de J introjeta a discriminação oriunda do ambiente organizacional, o que pode impedir a constituição de resistências coletivas à exploração. A violação dos próprios valores, como consta no relato de G, está na raiz de muitos processos de adoecimentos vinculados ao trabalho e, nesses casos, a depressão constitui um dos agravos mentais mais encontrados na clínica, ao lado dos distúrbios psicossomáticos frequentes, desencadeados pelo trabalho, como a doença coronariana e a hipertensão arterial.
A violência, articulada à precarização do trabalho, é um componente que aparece na quase totalidade dos relatos da pesquisa. Talvez, devido ao agravamento da crise econômica, a violência tenha se tornado uma das faces mais tenebrosas do transtorno mental (tal como a Hidra de Lerna32) sendo um dos sinais mais evidentes da “questão social” e seu rebatimento na subjetividade contemporânea. O enfoque da OMS para a violência social como problema de saúde pública parece ser um indício do que se sugere.
Destarte, a problemática da violência requer urgência no debate sobre a agenda da saúde mental e sua interface com outros dispositivos de intervenção social, dentre eles a saúde do trabalhador. Porem, o seu enfrentamento deve caminhar na direção dos determinantes econômico-sociais que lhe dão sustentação. Assim, a atuação profissional deve articular-se criticamente à dimensão política da clínica em saúde mental, pois estas são indissociáveis.