5 A VISÃO DOS PROFISSIONAIS DO CAPS SOBRE A RELAÇÃO
5.2 Elementos do processo de trabalho que impactam a saúde mental dos
5.2.5 Relacionamentos interpessoais no ambiente de trabalho
Outro componente que apareceu nos relatos dos profissionais sobre o cotidiano laboral dos usuários como potencializador do sofrimento psíquico ou até de adoecimento no trabalho foi a qualidade dos relacionamentos interpessoais entre os trabalhadores; e entre estes e a chefia.
A perseguição da excelência no ambiente laboral se faz presente e acaba por produzir um clima de competitividade entre os pares, desembocando em uma feroz rivalidade entre os trabalhadores. Retomemos o relato (agora resumido) de D citado anteriormente, como exemplo que melhor expressa a fragilização das relações interpessoais permeadas pela competitividade no trabalho entre seus pares:
[...] Além do ritmo alucinante de trabalho, e da pressão da chefia, ela referiu que se sentia perseguida no trabalho, pois como há um leque variado de hierarquias nos postos de trabalho, desde aquele trabalhador que serve o público, aquele que fica no caixa, até aquele que gerencia o processo de trabalho; então ela sentia que queriam o lugar dela que era o de caixa (muito cobiçado); porém era uma competição desenfreada onde todos queriam tomar o lugar de todos. [...] Mas como ela precisava do emprego [...] ela acabou se submetendo àquelas exigências de ritmo e pressão [...]. Toda essa vivência – de pressão e competição no trabalho [...] a fragilizaram muito emocionalmente, ficando deprimida com sintomas persecutórios (D). (informação verbal).
As relações institucionais competitivas, com o esfacelamento dos espaços de convivência solidários e a submissão do trabalhador aos ditames da organização do trabalho, parecem apontar para as observações de Alves (2011) sobre o que ele denomina de captura da subjetividade, pois se trata de apropriar-se da própria subjetividade do trabalhador, definindo o processo no qual o trabalhador acaba sendo o carrasco de si e do outro, esfacelando seus traços de autenticidade.
Outro item que compôs a esfera dos relacionamentos interpessoais, presente nos depoimentos como produtor de sofrimento psíquico no ambiente de trabalho, diz respeito ao autoritarismo e insensibilidade ao sofrimento do trabalhador:
Tem um caso que eu me lembro de uma trabalhadora embaladora de compras de uma grande loja aqui de Belém. Então essa trabalhadora estava com problemas emocionais na família e seu trabalho não acolheu essa demanda; muito pelo contrário, só fez piorar sua situação. Ela teve que ficar afastada do trabalho; entrou de benefício apresentando depressão, com ideias suicidas. Esse caso me chamou a atenção porque o trabalho não se colocou com um dispositivo que pudesse entender a situação da trabalhadora; é como se as pessoas que trabalhassem tivessem de deixar fora do trabalho sua dimensão de humanidade (G).
[...] Eu estou acompanhando um policial militar, que ao ser exigido levar laudo ou atestado do serviço até sua instituição, requer que tenhamos muito cuidado com os termos contidos nos referidos documentos, pois ele tem medo, pela disciplina institucional, de receber uma suspenção ou baixa de seu local de trabalho (C).
Ela está afastada do emprego e tem medo de retorno, pois acha que vai ser demitida. De minha parte, eu tento orientá-la a ver outras possibilidades de emprego, que ela não fosse sofrer tanto, que desse pra ela conciliar com os estudos e que tivesse mais a ver com ela, apesar de saber o quanto é difícil achar tal emprego. E tem outro agravante. Na situação que ela se encontra, tomando medicamento, achar emprego formal que vá ao encontro das suas expectativas é mais difícil ainda, pois os empregadores são muito preconceituosos. É uma situação muito difícil, mesmo (D). (informação verbal).
Os relatos acima denunciam o clima no ambiente de trabalho, permeado de preconceitos e de autoritarismos, centrado unicamente nas necessidades institucionais, excluindo a dimensão subjetiva do trabalho, como bem expressa o relato de G: “[...] é como se as pessoas que trabalhassem tivessem de deixar fora do trabalho sua dimensão de humanidade” ou como no sintético depoimento de E, já citado, que critica a intensificação das tarefas impostas pelo processo de trabalho ao trabalhador “[...] é como se ele (o trabalhador) fosse uma “maquininha!”. A exigência institucional de deixar “porta afora” a singularidade do trabalhador não passa de uma ilusão, como se fosse possível, pois, como postula a dialética marxista, o indivíduo é uma totalidade que se realiza ao mesmo tempo em que se exterioriza pelo trabalho. O homem aparece no trabalho como um todo, atravessado por determinações do mundo do trabalho, familiares e pessoais que dão concretude à sua biografia, e jamais como um átomo solto no universo, visto que, segundo Lukács (1989, p. 24-25) “[...] a totalidade concreta é, pois, a categoria fundamental da realidade”
A cisão entre a afetividade e o trabalho é uma característica do modo de produção capitalista, que se impõe através da apropriação privada dos meios de produção. Como assinala Codo (1993, p. 37): “[...] Ao apresentar o trabalho ao trabalhador como um elemento estranho, o ser humano fica impedido de exercer a sua transcendência, a possibilidade de hominização fica sitiada na reprodução da força de trabalho: comer, dormir, fornicar, atividades que coabitamos com os animais” .
Mais especificamente no depoimento de D, percebe-se que há uma peculiaridade que aparece na totalidade dos relatos, que é o preconceito social direcionado às pessoas acometidas pelo transtorno mental, notadamente o estigma de “doente mental”, que envolve a “doença” mental e o sofrimento daí decorrente, como elemento que está por trás do fenômeno da sua não publicização. Lembremos que, com o advento da sociedade burguesa, ocorre uma mudança do estatuto social da loucura, em que a concorrência entre as instâncias médica (a loucura como “desrazão”, logo doença) e jurídica (a loucura como “desrazão”, logo perigo) foi um dos efeitos observados, no qual o indivíduo portaria, além de sua “patologia mental”, o
estigma da periculosidade. Apesar dos avanços para a garantia do estatuto de cidadania ao portador de transtorno mental, o estigma ainda persiste – e o faz sofrer.
Essa provável subestimação do sofrimento e a falta de acolhimento daquele que sofre só piora o seu estado, conforme apontou Dejours (1994), quando afirma que a “solidão” do trabalhador diante da organização do trabalho que lhe leva a sofrer é uma das forças potencializadoras desta situação. Diante disto, o sofrimento psíquico e os adoecimentos mentais não têm visibilidade institucional, na medida em que não há pedido de afastamento por necessidade de saúde; ou quando o sujeito em sofrimento nega ou esconde a sua condição de transtorno, o que acaba dificultando a alguma ação que coloque o assunto em pauta para debate nas relações de trabalho. Estes artifícios o levam ainda mais ao sofrimento ou até ao adoecimento por falta de uma intervenção mais rápida, além de poder caracterizar subnotificações, prejudicando que se tome alguma medida institucional.
Esses recursos individuais constituem modos de garantir proteção à identidade pessoal e profissional, pois ao não publicizar a sua situação, ele permanece protegido no anonimato. Tornar sua situação pública através de notificação formal, ao contrário, pode expô-lo ainda mais, e a consequência pode ser, dentre outras, o desemprego, como bem demostra o relato a seguir:
[...] Às vezes as pessoas adoecem no ambiente de trabalho, mas elas têm dificuldades de serem respaldadas pelo próprio médico da empresa, em prol do próprio interesse da empresa. O próprio medo do desemprego dificulta a ida dessas pessoas ao serviço de saúde mental; elas ficam “titubeando” na procura do serviço. Mesmo com a possibilidade do beneficio do INSS, as pessoas se sentem pressionadas e demoram a procurar ajuda, com o medo de que seu quadro psiquiátrico seja descoberto e isso possa vir a servir de aval às futuras demissões (B). (informação verbal).
Diante do estigma e das ameaças que rondam o mundo do trabalho na atualidade, como o desemprego, o trabalhador é levado a “[...] uma atitude de fechamento em uma autonomia máxima [...] de silêncios frente à hierarquia superior e, às vezes, frente aos próprios colegas [...]. É a individualização máxima do sofrimento no silêncio e sinal de que as defesas coletivas não são mais eficazes” (DEJOURS, 1994, p. 90).
Não bastasse o desgaste causado pelo sofrimento ou adoecimento mental do trabalhador, este ainda é objeto de todo um processo de culpabilização de sua nova condição, quer seja pelo resultado de seu trabalho, quer como o único responsável por sua situação de sofrimento.
Netto (2011), ao analisar o papel do Estado no capitalismo monopolista, ressalta a estratégia estatal, fiel ao ideário liberal de individualização dos problemas sociais; e em face da questão social, o Estado, através das políticas sociais, opera no sentido da individualização dos problemas, deslocando o foco dos problemas sociais para os problemas individuais, ao
mesmo tempo em que converte os problemas da estrutura social e econômica em problemas de ordem natural. Vejamos os seguintes depoimentos:
[...] Olha, nós ainda estamos presos a uma visão individualista sobre o sujeito. É como se a responsabilidade ficasse somente a cargo do usuário. É como se coubesse somente a ele a busca por um melhor trabalho, somente a ele coubesse a melhora em seu tratamento. Enfim, o sujeito como centro de si mesmo (D).
[...] O desemprego tem mobilizado muitos de nossos usuários. O desemprego está mexendo muito com o comportamento do usuário, uma vez que ele não se reconhece como um ser produtivo, e assim contribui, devido ao peso social de sua doença mental, para a precarização da sua família (B). (informação verbal).
Os depoimentos dos entrevistados denunciam a correlação entre as expectativas sociais, a culpa e o sofrimento daí decorrente, uma vez que o usuário, por não corresponder a um comportamento esperado socialmente, dito “normal”, responsabiliza-se pelos seus fracassos, experimentando sentimentos de culpa por “não se reconhecer como um ser produtivo”, pois é portador de uma doença mental. Desta feita, tais situações levam o indivíduo a vivenciar uma desfiliação da sociedade, a fragilização dos vínculos societários, o que lhe confere uma identidade psicossocial carregada de culpa e estigma, produzindo um intenso sofrimento mental.
Destarte, percebe-se que o transtorno mental indica que está havendo algum sofrimento não conciliável com a organização de trabalho, e muitas vezes nem é percebido como sendo de ordem psíquica ou deflagrado pela sua relação patogênica com o trabalho. E, ainda que o perceba, os dirigentes institucionais não dão a atenção necessária aos aspectos subjetivos, banalizando o sofrimento vivenciado e naturalizando o trabalho desprovido de sentido.