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3- O FENÔMENO DA EXPLORAÇÃO SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES: UMA ABORDAGEM TEÓRICA

3.2. A violência sexual contra crianças e adolescentes

De conformidade com a Associação de Notícias de Direitos da Infância – ANDI (2002), citado no Guia Escolar (2011, p. 23),

A violência sexual contra crianças e adolescentes tem origem nas relações desiguais de poder. Dominação de gênero, classe social e faixa etária, sob o ponto de vista histórico e cultural, contribuem para a manifestação de abusadores e exploradores. A vulnerabilidade da criança, suas dificuldades de resistir aos ataques e o fato de a atual revelação do crime não representar grande perigo para quem o comete são condições que favorecem sua ocorrência.

Historicamente, Petersen e Grossi (2011) nos dizem que, a violência, em suas mais diversas formas de expressão, sempre esteve presente na história de crianças e adolescentes. Embora pareça ser um problema contemporâneo, ela é fruto de um processo histórico que colocou a criança em lugar de pouca atenção e visibilidade, tanto no âmbito da família como da sociedade e do poder público, fato que se justifica por não ter sido a criança por muito tempo, considerada como sujeito de direito e merecedora de proteção.

No prefácio da obra História social da criança e da família (2006, 2. Ed.), de Philippe Ariès, Maisons-Laffitte, argumenta que no contexto da velha sociedade tradicional da França,

[…] essa sociedade via mal a criança, e pior ainda o adolescente. A duração da infância era reduzida a seu período mais frágil, enquanto o filhote do homem ainda não conseguia abastar-se; a criança então, mal adquiria algum desembaraço físico, era logo misturada aos adultos, e partilhava de seus trabalhos e jogos. [...] A transmissão dos valores e dos conhecimentos, e de modo mais geral, a socialização da criança, não eram, portanto nem asseguradas nem controladas pela família. A criança se afastava logo de seus pais, e pode-se dizer que durante séculos a educação foi garantida pela aprendizagem, graças à convivência da criança ou do jovem com os adultos. A criança aprendia as coisas que devia saber ajudando os adultos a fazê-las. A passagem da criança pela família e pela sociedade era muito breve e muito insignificante para que tivessem tempo ou razão de forçar a memória e tocar a sensibilidade. [...] Se ela morresse então, como muitas vezes acontecia, alguns podiam ficar desolados, mas a regra geral era não fazer muito caso, pois uma outra criança logo a substituiria. A criança não chegava a sair de uma espécie de anonimato. (MAISON-LAFFITTE 1973, p.vix apud ARIÈS, 2006.)

Está lógica que permeou a vida da criança e do adolescente não considerando suas particularidades, fez-se presente em muitas sociedades, dentre as quais insere-se o Brasil. Fuziwara e Fávero (2011) esclarecem que a primeira imagem que tivemos de crianças não indígenas em território brasileiro foi a das que vieram nas caravelas e ficaram órfãs no percurso, sendo exploradas sexualmente e também obrigadas a realizar trabalhos forçados na embarcação. Nesse ponto, Priore, destaca:

Analisar a história da criança brasileira é dar de cara com um passado que se intui, mas que se prefere ignorar, cheio de anônimas tragédias que atravessaram a vida de milhares de meninos e meninas. O abandono de bebês, a venda de crianças escravas que eram separadas de seus pais, a vida em instituições que no melhor dos casos significavam mera sobrevivência, as violências cotidianas que não excluem os abusos sexuais, as doenças, queimaduras e fraturas que sofriam no trabalho escravo. (PRIORE, 1991, p.3)

Ramos (2013), também nos fala sobre essa história,

É de conhecimento geral que, apesar de o Brasil ter sido “descoberto” oficialmente em 1500, suas terras só começaram a ser povoadas a partir de 1530. No entanto, poucos sabem que, além dos muitos homens e das escassas mulheres que se aventuraram rumo à Terra de Santa Cruz nas embarcações lusitanas do século XI, crianças também estiveram presentes à epopeia marítima [...] Grumetes e pajens eram obrigados a aceitar abusos sexuais de marujos rudes e violentos. Crianças, mesmo acompanhadas dos pais, eram violadas por pedófilos. (RAMOS, 2013, p. 19)

Lamentavelmente, a violência sexual é um quadro que tem retratado a vida de muitas crianças e adolescentes ao longo da História do Brasil. Muitos púberes continuam sendo vítimas de toda sorte de violação dos seus direitos, como por exemplo, a violação da sua integridade física, psicológica, moral, afetiva, por meio da violência sexual, o qual para Ferreira e Azambuja (2011), constitui-se um dos graves problemas de saúde pública.

Christiane Sanderson (2005) ao definir abuso sexual contra crianças, diz que esse ato inclui quaisquer atos sexuais imposto a criança e ao adolescente por qualquer pessoa dentro do âmbito da família, ou fora dela, que abuse de sua posição de poder e confiança. Assim a autora o define, com sendo,

O envolvimento de crianças e adolescentes dependentes em atividades sexuais com um adulto ou qualquer pessoa um pouco mais velha ou maior, em que haja uma diferença de idade, de tamanho ou de poder, em que a criança é usada como objeto sexual para a gratificação das necessidades ou dos desejos, para a qual ela é incapaz de dar um consentimento consciente por causa do desequilíbrio do poder, ou qualquer capacidade mental ou física. (SANDERSON, 2005, p. 17)

A violência sexual ocorre na maioria das vezes, numa atmosfera de segredo familiar. E ainda, de acordo com Ferreira e Azambuja (2011) é na fase inicial da vida, quando a dependência da criança é bem maior em relação aos adultos, que muitos púberes sofrem as primeiras manifestações de violência contra elas. Também, segundo as autoras, entre todas as formas de violência, a sexual intrafamiliar costuma apresentar maiores dificuldades de manejo, por isso, torna-se responsável por sequelas que acompanham a vítima ao longo de toda a sua vida.

Além disso, pela dinâmica da violência não ser simples, Fuziwara e Favero (2011) consideram que por conta dos laços e cumplicidades que circundam o ato da violência, esta é uma trama difícil de ser trabalhada imediatamente, posto que, em

muitos casos, outros adultos protegem a família do agressor, gerando assim, mais medo, culpa e angústia na vítima.

Ao fazer uma análise do pensamento de Furniss (1993, p.37- 41) a violência sexual intrafamiliar contra crianças e adolescentes é considerado síndrome do segredo para a própria vitima e para a família, e síndrome da adição para o adulto que abusa, sendo que esta síndrome está diretamente interligada. De um lado está a criança que, por receio de não ter credibilidade na revelação dos abusos sofridos estabelece um comportamento silente, pois tem medo de não ser protegida pelos adultos, assim como possui medo de sofrer represálias por parte do agressor. Por outro lado está a família, que por sua vez, resiste em não querer romper com o “equilíbrio da unidade familiar”, temendo pelas possíveis perdas afetivas e econômicas, entre outras perdas. Por último, está o adulto agressor, para o qual a síndrome da adição representa uma compulsão, uma gratificação de seus desejos e impulsos.

Quaglia, Marques e Pedebos (2011), dizem que,

Na prática do abuso sexual intrafamiliar, as crianças podem vir a aceitar a situação e até se adaptar a ela para suportar a violência ocorrida. Entram na dinâmica da chantagem (ameaças) ou dos favores, dos presentes e dos privilégios do adulto abusador. Muitas vezes a criança consegue fazer a revelação do abuso, mas é desacreditada por parte de seus cuidadores, que a acusam de mentir. Nesse sentido, a criança volta atrás em seu relato e passa a ter que se adaptar a essa ultrajante realidade. (QUAGLIA; MARQUES; PEDEBOS; 2011, p. 265)

Segundo o Guia Escolar (2011), a violência sexual intrafamiliar, é qualquer relação de caráter sexual entre um adulto e uma criança ou adolescente ou entre um adolescente e uma criança, quando existe um laço familiar (direto ou não), ou relação de responsabilidade. A violência intrafamiliar e/ou extrafamiliar se expressa de diversas formas e, Azevedo e Guerra (1988, p. 13) as classificam como: não envolvendo contato físico (abuso verbal, exposição a filmes obscenos, voyeurismo); envolvendo contato físico (passar a mão, manipulação de genitais, contato oral-genital e anal, etc.) e envolvendo contato físico com violência (estupro, brutalização, etc). Há também as situações de pedofilia e exploração sexual que podem ocorrer, inclusive, por meio da internet.