FAIXA ETÁRIA DOS AGRESSORES
5- A ESCOLA NO PROCESSO DE ENFRENTAMENTO DA EXPLORAÇÃO SEXUAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES: O CASO DE JURUTI – OESTE
DO PARÁ.
A prevenção primária é a maneira mais econômica, eficaz e abrangente de se evitar a violência contra crianças. Através da prevenção primária atua-se para modificar condutas e formar novas culturas, sensibilizando e mobilizando a sociedade (ABRAPIA, 2002).
O objetivo desta seção centra-se em descrever e analisar os dados coletados no curso da pesquisa exploratória, assim como advindos das entrevistas semiestruturadas feitas junto a ex-conselheiros tutelares e aos profissionais de educação do município de Juruti(PA), observando a partir destes dados se as escolas públicas municipais realizam ações de enfrentamento à exploração sexual contra crianças e adolescentes.
Segundo pesquisa realizada na Secretaria Municipal de Educação de Juruti-PA, o sistema educacional de ensino do município possui um total de cento e trinta e sete (137) instituições escolares. Além desse total, há também mais duas (02) escolas de nível médio administradas pela Secretaria de Estado de Educação – SEDUC. Do total das escolas municipais, a maioria está localizada no meio rural, perfazendo uma soma de cem (100) unidades, doze (12) estão localizadas no meio urbano e há vinte e cinco (25) casulos situados em áreas rurais e urbanas.
As escolas selecionadas para fazerem deste trabalho, um total de cinco (05), localizam-se todas no meio urbano. A nomeação destas unidades de ensino ocorreu de forma não planejada a priori, mas sim a partir de uma pesquisa que realizei na Secretaria Municipal de Educação, a fim de verificar se lá havia arquivo de cópias dos PPP das escolas, pois caso houvesse, por meio da leitura de tais documentos poderia verificar quais escolas possuíam projetos de ação acerca do enfrentamento da exploração sexual ou da violência sexual contra crianças e adolescentes enfocando outras tipologias.
Uma vez estando na SEMED, fui recebida com muita atenção pela atual Diretora de Ensino que está há pouco tempo no cargo. Conversei com ela sobre a pesquisa que ora desenvolvo e solicitei sobre a possibilidade de ter acesso às cópias dos PPP das escolas municipais e, assim, saber, quais escolas possuíam projetos de ação no combate
do problema exposto, o que certamente, viabilizaria um melhor andamento das investigações. No entanto, as escolas não encaminham copias desse documento para a SEMED. Isto posto, a Diretora de Ensino, já contendo em suas mãos a lista de escolas municipais existente no município fez a seleção das escolas a serem pesquisadas e, logo em seguida, recebi um documento expedido pela Secretária Municipal de Educação autorizando os(as) gestores(as) dessas escolas a me receberem.
Uma vez de posse do referido documento fui às escolas, me apresentei e entreguei o documento aos(as) gestores(as) e tive uma conversa informal com os(as) mesmos(as), sintetizando a finalidade e objetivo da pesquisa de doutorado. Os(as) responsáveis pelas escolas me receberam com muita atenção e dialogaram sobre o quanto é importante estarmos informados sobre tudo o que diz respeito a essa forma de violência que tantas crianças e adolescentes sofrem.
Na ocasião solicitei aos(as) gestores(as) a possibilidade de ter acesso ao PPP, em que logo fui atendida. Porém, ao fazer a leitura nesses documentos, verifiquei que não havia expresso em nenhum deles projeto de ação elaborado pelas escolas que vislumbrasse o enfrentamento à exploração sexual contra crianças e adolescentes. Os projetos existentes são oriundos de outras instituições, tais como, Conselho Tutelar, secretaria Municipal de Saúde e CRAS, que têm as escolas como parceiras no combate de tal fenômeno. No entanto, observei que todas as escolas possuem projetos de ação relacionados à questão da sustentabilidade do meio ambiente.
Feita a observação de que estas escolas não tinham projetos específicos sobre o tema em foco, perguntei aos(as) gestores(as), se a escola, além das parcerias existentes, trabalhava de outra forma sobre o fenômeno da exploração sexual contra crianças e adolescentes, onde tive como resposta que trabalhava sim, porém esta ação era desenvolvida mais em sala de aula pelos(as) professores(as). Dessa forma, houve então a necessidade de dialogar com os(as) professores(as), ação que ficou agendada para acontecer em outra data, visto que, o período em que estava fazendo estas investigações (penúltima semana do mês de junho/2015), as escolas estavam realizando o calendário de provas com os discentes.
O período de entrevistas agendado e acordado pela pesquisadora e pelos(as) gestores(as) escolares aconteceu na segunda semana do mês de agosto, ficando disponível um dia para cada escola. Foi um trabalho de espera, paciência, diálogos, entrosamento com os sujeitos com o objetivo de sensibilizá-los a participar da pesquisa.
Esta não foi uma tarefa fácil de ser realizada, pois mesmo observando o interesse que os sujeitos possuíam em querer saber sobre o tema da pesquisa, havia certa resistência em falar sobre o mesmo. Por ser este um tema complexo a ser investigado, necessário se faz, sem perder de vista a objetividade, construir um entrosamento de confiança entre a pesquisadora e os sujeitos da pesquisa objetivando garantir o máximo possível informações que correspondam a realidade investigada. Ainda assim, a maioria ficava em silêncio e, dos cento e quarenta e cinco profissionais da educação lotados no total das cinco escolas, de forma aleatória, entrevistei treze (13) profissionais (11 professores(as), 01 coordenador(a) pedagógico(a) e 01 gestor(a), os quais são identificados neste trabalho pelas letras do nosso alfabeto. É importante dizer que os(as) gestores(as) receberão nome fictício.
Antes de dar continuação sobre a entrevista realizada com os citados sujeitos, importante se faz contextualizar, em linhas gerais as escolas que fazem parte desta pesquisa, as quais são identificadas também pelas letras do nosso alfabeto (A, B, C, D, E). A escola A, está localizada no bairro do Centro e, segundo fala da(o) gestor(a) Socorro, este é um bairro que, na conjuntura atual não apresenta notícias de problemas sociais e urbanos graves como sofrera no auge da implantação da Mina Alcoa.
Conforme fala do(a) gestor(a) Socorro, antes da chegada do Projeto Alcoa, Juruti não tinha tanta marginalidade, violência, prostituição, mendigos, problemas com drogas e favelas. Depois que a mina foi instalada, as coisas desandaram, de tal forma, que a gente não sabia mais o que fazer. Chegou muita gente para cá trazendo muitos problemas. [...] Na época, enfrentamos aqui na escola problemas relacionados às drogas e à violência sexual. [...] fazíamos tudo que se podia fazer para ajudar nossos alunos e nossas alunas a não sofrerem com esses problemas. [...] Fazíamos muitas palestras para lhes prevenir contra esses problemas. [...] foram dias bem difíceis.
A escola B está localizada em um bairro de periferia, formado devido o aumento populacional que a cidade sofreu em virtude da implantação da Mina Alcoa. A partir de relato oferecido pelo(a) gestor(a) desta escola, de codinome Geovane, a maioria da população adveio do meio rural, movida, sobretudo, pelo sonho da melhoria da qualidade de vida. Porém, o sonho virou pesadelo, pois o aumento desordenado da população no meio urbano, fez com que, problemas que antes existiam em pouca proporção, de repente ganharam um volume muito grande. Entre esses problemas, sem
dúvida, está a violência sexual contra crianças e adolescentes, sendo a violência intrafamiliar aquela que mais se tem notícia.
A escola C está situada em um bairro vizinho ao bairro do Centro e, de acordo como o que foi dito por um(a) dos(as) coordenadores(as) pedagógicos(as), este bairro não apresenta índice alarmante de vulnerabilidade social. Porém, casos de violência acontecem e a escola é muito preocupada com questões que, de qualquer forma, prejudique a vida dos seus alunos. No que diz respeito a violência sexual contra crianças e adolescentes, a escola procura estar atenta as informações que apontem caminhos que levem a ajudar a resolver a problemática. Como por exemplo, a escola participa de palestras esclarecedoras sobre o tema e, no dia 18 de maio se organiza para contribuir para a prevenção dessa forma de violência.
A escola D, conforme fala do(a) orientador(a) educacional, está situada em um bairro relativamente violento. Há muitas notícias de adolescentes cometendo infrações, de pessoas brigando na rua, de violência doméstica. Também, às vezes se ouve conversas de crianças ou de adolescentes que estão sofrendo violência sexual de alguma forma. Em relação a escola E, esta localiza-se no bairro do Centro e é considerado um bairro tranquilo.
Em linhas gerais, estas cinco escolas juntas, possuem um total de dois mil, seiscentos e oitenta e nove (2.689) alunos e alunas com matricula efetiva. Os níveis de ensino oferecido são: Educação Infantil, Ensino Fundamental I e II e Educação de Jovens e Adultos. A maioria dos discentes que estudam nessas escolas é procedente de bairros diversificados e pertencem a famílias economicamente pobres. Também, a maioria possui bolsa família.
Destarte, após está síntese inicial sobre os dados coletados na pesquisa exploratória, passo a discorrer e analisar de que forma estas escolas vêm desenvolvendo as ações de enfrentamento sobre a exploração sexual contra crianças e adolescentes, a partir das falas dos sujeitos. Para tanto, organizei o roteiro da entrevista conforme os seguintes eixos: A) Dados pessoais e de formação; B) Entendimento/conhecimento sobre o fenômeno da violência sexual contra crianças e adolescentes; C) Formação continuada; D) Ação de enfrentamento: trabalho docente; E) Papel da escola e; F) Políticas públicas e legislação. Este roteiro de entrevista foi elaborado de acordo com as indagações que iam surgindo durante as pesquisas exploratórias, assim como no decorrer da realização das próprias entrevistas.
5.1. Entendimento sobre o significado da violência sexual contra crianças e adolescentes
A Mina Juruti foi implantada no início do ano 2000, momento em que houve um acréscimo nas notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes. Em vista disso fez-se necessário verificar se escolas desenvolveram ou desenvolvem projetos de ação que tivessem ou tenha como objetivo contribuir para o fortalecimento da rede de enfrentamento à exploração sexual contra crianças e adolescentes. Assim, ainda que os sujeitos da pesquisa tenham sido selecionados de forma aleatória, houve preocupação em entrevistar aqueles que já tivessem tempo de serviço na rede municipal de ensino compatível com o período da implantação da Mina Juruti.
A partir do quadro acima exposto, observa-se que dos treze (13) sujeitos entrevistados, apenas 03 (três) não correspondem ao tempo delimitado. No entanto, não os descartei do processo por considerar que suas falas poderiam ser importantes para melhor esclarecimentos sobre como as escolas, por meio dos(as) professores(as) têm trabalhado no combate ao fenômeno em destaque.
A maioria dos sujeitos entrevistados possui graduação completa em Pedagogia, um (01) em História, um (01) em Letras e Literatura, um (01) possui nível superior incompleto em Letras e Ensino de Inglês e um (01) com graduação em Pedagogia, História e Geografia. Este quadro de sujeitos apresenta, mesmo que a proporção em relevo seja a formação em Pedagogia, me oferece possibilidade de analisar como esses profissionais da educação tratam o tema da violência sexual contra crianças e adolescentes em suas salas de aula.