3 LÍNGUA E LÍNGUA INGLESA: CONSTRUÇÕES E PERCEPÇÕES
3.1 PENSANDO LÍNGUA
3.1.3 A “Virada multilíngue” e a “Virada translíngue”
“O monolinguismo é a exceção no mundo. O multilinguismo é a norma no mundo.” 69 Jennifer Jenkins
“A diversidade está no coração da humanidade, é a norma da vida”70 (CANAGARAJAH, 2017, informação verbal), mas é vista como problema na maioria das sociedades por causar, entre outras “confusões”, dificuldades de comunicação e equívocos. Assim, em prol da busca pela “garantia” do entendimento mútuo, a humanidade criou conceitos de homogeneidade e monolinguismo, a ponto de alguns estados-nação proibirem a comunicação em outras línguas que não a nacional.
Conforme mencionado anteriormente neste capítulo, o monolinguismo é uma ideologia criada no Iluminismo e reforçada pela Linguística tradicional, uma vez que tornaria o ensino de línguas mais fácil, com base na crença que os indivíduos de uma _______________
68 Real proficiency is when you are able to take possession of the language, turn it to your advantage, and make it real for you.
69 Monolingualism is the world exception. Multilingualism is the world norm.
70 Diversity is in the humanity heart, it’s a norm in life.
dada nação teriam uma dada língua e compartilhariam de uma mesma gramática.
Mesmo esses indivíduos, que vivem em um contexto nacional comum, possuem backgrounds diferentes, diferentes experiências de vida construídas na e por meio da linguagem.
O advento da globalização, que não é recente ou pós-moderno, conforme já explanado anteriormente, exerce impactos significativos na linguagem e na comunicação entre as pessoas, estimulando a diversidade e a superdiversidade e promovendo o multilinguismo.
Podemos considerar várias formas de globalização se pensarmos em modernidade e pós-modernidade: a mobilidade global decorrente de movimentos de conquistas e de colonização na modernidade, a mobilidade e interação das pessoas decorrentes de guerras e de processos de industrialização, e mais recentemente, o evento da internet no que chamamos de pós-modernidade, que proporciona a interação de falantes de línguas diversas sem as fronteiras de tempo e espaço, tornando a humanidade muito mais multicultural e multilíngue. Assim, o multilinguismo não é algo que as pessoas tenham ou não, mas é o que o meio proporciona ou não, pois os repertórios linguísticos operam em domínios espaciais e sociais, globais, nacionais, regionais e locais que se mesclam. Como observa Menezes de Souza (2017), antes tínhamos a noção de que existia um repertório específico atrelado a cada grupo social e território específico, mas hoje percebemos que a pluralidade se torna cada vez mais aparente, anulando a ideia de língua nacional e “falante nativo”, já que cada indivíduo utiliza repertórios comunicativos diferentes, conforme os grupos e situações de interação.
Presente nos contextos urbanos desde tempos remotos, o multilinguismo não é uma “descoberta” da Linguística Aplicada no final do Modernismo. Embora considerado o tópico “du jour” das análises críticas em Linguística Aplicada, como aponta May (2014, p. 3) ao descrever “as formas como as pessoas de contextos diferentes e mistos usam, desempenham e negociam identidades através da linguagem”71 (MAKONI; PENNYCOOK, 2012, p. 449), o multilinguismo ainda é pouco considerado, em especial no campo de ensino de línguas maternas e estrangeiras, mesmo com as ondas migratórias. May (2014, p. 2-3) aponta três ironias em relação _______________
71 the ways in which people of different and mixed backgrounds use, play with and negotiate identities through language.
ao que chama de “virada” em direção ao multilinguismo: a primeira diz respeito à falta de historicidade da Linguística Aplicada ocidental ao considerar o multilinguismo como um produto pós-moderno ou do final da modernidade; a segunda se refere à falta de interesse ou engajamento em questões relacionadas ao multilinguismo no ensino de línguas, uma vez que a área de Aquisição de Segunda Língua (SLA) e a indústria TESOL continuam a tratar o ensino de línguas como um processo não tocado pelo conhecimento e uso de línguas de pessoas que não fazem parte desse contexto; a terceira ironia refere-se ao fato de a área tradicional de estudos de SLA e TESOL ignorarem essa “Virada multilíngue” por partirem de uma visão de Linguística Aplicada Crítica com a qual raramente se engajam ou, quando o fazem, segundo May, não o fazem com seriedade, ou o fazem sem um interesse genuíno.
A “Virada multilíngue” tem desafiado concepções monolíngues que dão base a nacionalismos linguísticos e a políticas linguísticas e educacionais, uma vez que a educação bi/multilíngue prevê as línguas e a diversidade linguística como recursos que garantem a cidadania, a participação democrática, a mobilidade social e cultural ou as negam (ARCHANJO, 2016, p. 48-49).
May (2014, p. 4) ressalta que, na área de Linguística Aplicada Crítica e da análise sociolinguística, essa nova perspectiva já mostrou impactos em conceitos importantes para o ensino de línguas:
Ela tem desafiado, cada vez mais, concepções de línguas limitadas, unitárias e reificadas, e noções relacionadas de ‘falante nativo’ e ‘língua materna’, defendendo, ao invés disso, entendimentos fluidos mais complexos de ‘voz’
(MAKONI; PENNYCOOK, 2007, 2012), ‘língua como prática social’ (HELLER, 2007) e uma ‘sociolinguística de recursos móveis’.72 (BLOMMAERT, 2010).
O linguista define o bi/multilinguismo como um fenômeno mais “complexo, dinâmico e poroso que reflete as práticas discursivas múltiplas adotadas por bi/multilíngues através de uma gama de modalidades em uma extensão ampla de contextos e com muitos e diferentes interlocutores”73 (MAY, 2014, p. 9). Essa concepção de bi/multilinguismo tem sido ressaltada em estudos recentes de _______________
72 It has increasingly challenged bounded, unitary, and reified conceptions of languages and related notions of “native speaker” and “mother tongue, ” arguing instead for the more complex fluid understandings of “voice” (MAKONI; PENNYCOOK, 2007, 2012), “language as social practice”
(HELLER, 2007), and a related “sociolinguistics of mobile resources” (BLOMMAERT, 2010).
73 complex, dynamic, and porous phenomenon than this, reflecting the multiple discursive practices adopted by bi/multilinguals across the full range of modalities, in a wide range of contexts, and with many different interlocutors.
translinguismo (CANAGARAJAH, 2013; GARCÍA; WEI, 2014; BLACKLEDGE;
CREESE; TAKHI, 2014, entre outros), cuja conceituação de língua e suas implicações para o ensino e aprendizagem já foram brevemente explanadas no início deste capítulo.
As teorias sobre multilinguismo têm sido recentemente questionadas, em especial por estudiosos do translinguismo como os acima citados, que percebem no multilinguismo “monolinguismos separados”, ou seja, uma noção que, conforme apontado por Cook (1999), leva à concepção cognitiva de que temos compartimentos cognitivos separados para línguas separadas, com tipos de competência diferentes para cada língua.
Canagarajah (2013, p. 7) explica que o termo multilinguismo conceberia a relação entre as línguas de forma aditiva, ou seja, uma língua “completa” seria adicionada a outra/s para formar a competência multilíngue. Para ele, o termo multilíngue não engloba as interações dinâmicas entre línguas e comunidades, e a orientação multilíngue continuaria refletindo um paradigma monolíngue.
[...] os usuários não têm competências separadas para cada língua separadamente rotulada (como se assume na linguística tradicional), mas uma proficiência integrada que é diferente em modo (não apenas grau) dos entendimentos tradicionais da competência multilíngue.74 (CANAGARAJAH, 2013, p. 6).
Considerando que as comunidades e a comunicação sempre foram heterogêneas, o translinguismo busca quebrar os binários mono/múlti e úni/plúri – dicotomias que geraram orientações reducionistas de comunicação e competência, a fim de conceber as relações de linguagem em termos mais dinâmicos. A esse respeito o linguista esclarece que
[a]queles que são considerados monolíngues são tipicamente proficientes em múltiplos registros, dialetos e discursos de uma dada língua. Mesmo quando falam ou escrevem em uma ‘língua’ única, eles ainda têm que se comunicar em relação a diversos outros códigos no ambiente. A própria ‘língua’ é constituída de recursos de locais diversos.75 (CANAGARAJAH, 2013, p. 8).
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74 users don’t have separate competences for separately labeled languages (as it is assumed by traditional linguistics), but an integrated proficiency that is different in kind (not just degree) from traditional understandings of multilingual competence.
75 Those who are considered monolingual are typically proficient in multiple registers, dialects, and discourses of a given language. Even when they speak or write in a single “language, ” they still
Para o translinguismo, “os recursos semióticos do repertório de alguém ou em sociedade interagem de uma forma mais próxima, se tornam parte de um recurso integrado e reforçam um ao outro. As línguas se misturam de maneiras transformativas, gerando novos significados e gramáticas.”76 (CANAGARAJAH, 2013, p. 8).
Lee (2018, p. 3) relaciona muitos dos estudos que caracterizariam e/ou refletiriam a “Virada translíngue”, realizados a partir do ano 2000: estudos sobre translinguismo (BAKER, 2011; CREESE; BLACKLEDGE, 2010; GARCÍA, 2009c;
GARCÍA; WEI, 2014; WILLIAMS, 1994), sobre prática translíngue (CANAGARAJAH, 2013), sobre práticas de língua transglóssicas (SULTANA; DOVCHIN, 2017;
SULTANA et al., 2015), sobre disposições translíngues (CANAGARAJAH, 2013;
HORNER et al., 2011; LEE; JENKS, 2016), sobre codemeshing (CANAGARAJAH, 2006; YOUNG, 2004), sobre languaging polilíngue (JORGENSEN, 2008), sobre multilinguismo fragmentado (BLOMMAERT, 2010), sobre metrolingualismo (OTSUJI;
PENNYCOOK, 2010; PENNYCOOK, 2010; PENNYCOOK; OTSUJI, 2015) e sobre pós-multilinguismo (GRAMLING, 2016). Segundo Lee, independentemente do rótulo utilizado, todas essas correntes teóricas têm em comum a preocupação com a fluidez e negociabilidade da língua/linguagem; sobre o prefixo trans-, em translinguismo, ele explica:
Trans- em vez de sugerir algo que vai entre, como em transfer, transportation, transition, ou translation, pode também invocar uma agitação epistêmica sobre as categorias a serem atravessadas, como em transgênero, transubstancial, ou, é claro, translíngue.77 (LEE, 2018, p. 3).
Blackledge e Creese (2017, p. 250) ressaltam a dimensão ideológica do translinguismo, uma vez que atitudes e crenças relacionadas à comunicação não são fixas, mas, ao contrário, podem ser alteradas na e pela interação comunicativa. Citam García e Leiva (2014), que diferenciam o translanguaging de outras práticas fluidas de languaging por ser transformador, com o potencial de problematizar determinadas hierarquias que dão a certas práticas mais valor do que a outras, como, por exemplo, _______________
have to communicate in relation to diverse other codes in the environment. That very “language” is constituted by resources from diverse places.
76 The semiotic resources in one’s repertoire or in society interact more closely, become part of an integrated resource, and enhance each other. The languages mesh in transformative ways, generating new meanings and grammars.
77 Trans- instead of suggesting something of a going-in-between, as in transfer, transportation, transition, or translation, can also invoke an epistemic upheaval of the categories being traversed, as in transgender, transubstantial, or, of course, translingual.
a hierarquia do professor de inglês nativo sobre o não nativo. Não acredito que um mundo sem hierarquias ou lutas pelo poder seja possível ou ideal, uma vez que é diante de desafios e conflitos que mais aprendemos, mas, como professora de língua inglesa “não nativa” e formadora de professores também “não nativos”, só vejo preconceito, discriminação, intolerância, falta de confiança, insegurança, inferiorização, entre outros aspectos negativos que possam ser gerados ou estar relacionados à hierarquia do professor de língua inglesa como “falante nativo” sobre o “não nativo” e, consequentemente, à perpetuação do colonialismo e da concepção de língua como um produto comercializado no mundo globalizado capitalista neoliberal.