3.1 A CRIAÇÃO DA BITCOIN
3.1.2 A VOLATILIDADE DA BITCOIN
A Bitcoin registou ao longo do tempo uma grande valorização, sendo a sua principal característica a alta volatilidade. O seu valor equiparou-se ao dólar americano em 2011, e em março de 2017 excedeu o valor de uma onça de ouro33. À data de julho de 2019 existem mais de 17 milhões de Bitcoins em circulação, sendo que o número máximo em circulação atingiu os 21 milhões de Bitcoin. Uma Bitcoin representa cerca de 10 mil euros, sendo possível adquirir apenas uma parte da mesma. A possibilidade de adquirir uma pequena parte da moeda foi inicialmente desenvolvida tendo em mente que esta poderia ser altamente valorizada, o que efetivamente veio a acontecer, e por isso uma grande parte das transações de Bitcoin correspondem a uma fração desta. Na tabela infra podemos verificar algumas unidades de medida da Bitcoin.
Unidade
Valor em BTCBTC 1
Cent-Bitcoin (cBTC) 0,01Mili-Bitcoin (mBTC)
0,001Micro-Bitcoin (μBTC)
0,000001Finney
0,0000001Satoshi
0,00000001Figura 4 – Unidades de medida da Bitcoin. Fonte: MARTINS (2018, p.60).34
33MARTINS, P. (2018). Introdução à Blockchain, ob. cit., p. 56.
15 A sua volatilidade é visível nos valores mínimos e máximos que a moeda já atingiu: o valor mínimo foi em meados de 2013, representando cerca de 58 euros, e o valor máximo deu-se em dezembro de 2017, atingindo cerca de 17 mil euros.
O gráfico infra exprime a evolução do valor da moeda ao longo do tempo, onde se pode observar uma grande oscilação.
Figura 5 - Evolução do valor da Bitcoin. Dados do dia 6 de julho de 2019. Valores em USD. Fonte: https://coinmarketcap.com/pt-br/currencies/bitcoin/
O dinheiro eletrónico não é propriamente uma novidade para nós, não fosse este estar presente até no pagamento que fazemos através do cartão de débito. Da mesma forma, conhecemos os pagamentos online, que podem ser encontrados na mais simples transferência bancária feita através do acesso à plataforma digital do nosso banco.
Assim, a parte revolucionária da Bitcoin prende-se na ausência de uma terceira entidade que regule a transação em causa. Com este facto, surge um eventual problema: como é controlada a transação, e como podem os indivíduos ter confiança nas suas transações?
3.2 A BLOCKCHAIN
A blockchain é um tipo de registo distribuído no qual todas as transações são verificadas e gravadas em que todos os participantes da rede têm acesso. As transações não podem ser alteradas uma vez gravadas na
16 rede35. A blockchain36permite verificar a fiabilidade das transferências de moeda virtual. Trata-se de uma rede de computadores espalhados pelo mundo que verificam, em simultâneo, transferências em blocos de criptografia. Nenhum dos computadores sabe qual a transferência que está a validar, assim como nunca é o único dispositivo a verificar a mesma. A transparência e verdade da transferência não dependem apenas da validação de um computador, mas sim de vários, garantindo assim uma verificação totalmente imparcial. O criador da moeda utilizou a blockchain com o intuito de ter uma espécie de Livro Razão37 público, que organize e sequencie toda a informação relacionada com a moeda. Esta rede descentralizada tem o poder de registar informação que não pode ser alterada posteriormente.
Cada bloco que faz parte da rede contém a identificação da carteira origem da transferência, o valor da transferência e a identificação da carteira destino. Um bloco também é composto por dois hash38,
nomeadamente o próprio e o do bloco anterior. O facto de cada bloco possuir o hash do bloco anterior é o que permite encaixar os blocos em cadeia, formando assim a dita blockchain. O processo de criação de blocos em cadeia está ilustrado na imagem seguinte:
Figura 6 - Processo de criação de blocos na rede blockchain. Fonte: https://cryptobeginners.info/blog/what-is-blockchain/
Com esta tecnologia, se o hash de um bloco for alterado, o bloco seguinte fica imediatamente bloqueado sem saber onde se alocar. A validação de que os hashes encaixam em blocos anteriores designa-se por Proof
35WATANABE, H., FUJIMURA, S., NAKADAIRA, A., MIYAZAKI, Y., AKUTSU, A., & KISHIGAMI, J. J. (2015). Blockchain contract: A complete consensus using blockchain, IEEE 4th Global Conference on Consumer Electronics (GCCE). Disponível em: https://doi.org/10.1109/GCCE.2015.7398721, acedido em 6 de julho de 2019, pp. 577–578.
36Blockhain é uma Cadeia de Blocos, em que a cada bloco corresponde uma transação de moeda virtual.
37Um Livro Razão é um conjunto de registos contabilísticos de uma empresa que utiliza o método das partidas dobradas, em que estão registadas todas as transações que ocorrem na própria empresa. PACHECO, A. V. (2018). “Bitcoin”, ob. cit., pp .68-73.
38Um hash é uma impressão digital, um código, através do qual é possível identificar cada bloco, sendo que cada bloco tem o seu
17
of Work39. Este sistema de segurança torna bastante difícil a adulteração dos blocos, porque isso significa alterar todos os blocos após o primeiro que for alterado. Assim, se um bloco é adulterado, este não contém a informação que deveria para pertencer à cadeia. A imagem seguinte ilustra o que acontece quando um utilizador altera um dado bloco:
Figura 7 - Consequências da adulteração de blocos na rede. Fonte: https://cryptobeginners.info/blog/what-is-blockchain/
Além do sistema referido, também o facto de estarmos perante uma rede descentralizada torna o processo mais seguro. Como já referimos anteriormente, a blockchain funciona em sistema peer-to-peer, não sendo necessário um intermediário nas transações.
Quando um novo utilizador entra na rede, este recebe todo o histórico de transações até ao dia. Portanto, quando é produzido um novo bloco, ele é distribuído por toda a rede e cada um dos utilizadores pode verificar se o hash daquele bloco não foi adulterado. Caso os utilizadores verifiquem que o mesmo se encontra correto, adicionam o novo bloco à rede. A segurança é, portanto, aumentada, porquanto para ser aceite na rede um bloco corrompido, os interessados teriam que conseguir controlar 51% da rede, o que é praticamente impossível40.
Este controlo de 51% da rede á também designado por 51% Attack, que consiste num ataque informático que implica uma força computacional (hashing power) superior a 51% da força computacional existente na rede blockchain41.
39Esta validação processa toda a informação e verifica qual o bloco anterior que vai encadear no novo bloco, validando assim o hash
anterior. Este processo demora cerca de 10 minutos, e é exatamente o tempo de criação de um novo bloco na cadeia.PACHECO, A. V. (2018). “Bitcoin”, ob. cit., pp .68-73.
40PACHECO, A. V. (2018). “Bitcoin”, ob. cit., pp .68-73.
41CORREIA, G. C. (2017). BITCOIN: As inconsistências do modelo. Dissertação de mestrado, Instituto Superior de Gestão, Lisboa, Portugal.
18 3.2.1AS VANTAGENS DA BLOCKCHAIN
3.2.1.1A descentralização, a fiabilidade, a confiança, a transparência e a segurança da rede
GOLOSOVA e ROMANOVS apresentam no seu paper algumas vantagens e desvantagens associadas à tecnologia blockchain, sendo essa mesma informação que iremos analisar de seguida42. A tecnologia por detrás da blockchain baseia-se num sistema descentralizado, e esta característica é a principal vantagem da tecnologia. Deixa de ser necessário trabalhar com uma terceira entidade ou com um administrador central. O sistema trabalha sem intermediários e todos os utilizadores da rede tomam decisões, ao invés de as mesmas serem centralizadas numa única pessoa ou entidade. Cada transação efetuada é gravada na rede, e o histórico das transações está disponível para todos os utilizadores, sendo que o mesmo não pode ser adulterado ou apagado, garantindo assim a fiabilidade da informação. Este tipo de sistema atribui certas características à tecnologia da
blockchain, como transparência, imutabilidade e confiança. A confiança no sistema é baseada na crença de dois ou mais utilizadores, que não se conhecem entre si. A imutabilidade é conseguida em todas as transações aceites e partilhadas na rede. Depois de a transação estar gravada na blockchain, não será mais possível alterá-la ou apagá-alterá-la. Toda a informação presente na rede blockchain é inalterável e indestrutível. A transparência do sistema é conseguida através do processo de cópia de transações. Cada transação é copiada para todos os computadores pertencentes à rede, e cada utilizador pode observar as transações, e validar a “honestidade” das mesmas. O alto nível de segurança da rede é conseguido porque cada utilizador entra na rede individualmente e recebe uma identidade única, associada à sua conta. A última vantagem associada à rede apresentada pelos autores é o processamento mais rápido. Nos métodos tradicionais a transação leva bastante tempo a ser processada e efetuada na organização bancária. O uso da tecnologia blockchain ajuda a reduzir o tempo de processamento de aproximadamente 3 dias para vários minutos ou até segundos43.
3.2.1.2A Blockchain como resposta aos problemas de intermediação
O método de relação de confiança intermediada, em qual se baseiam as sociedades mais desenvolvidas economicamente, é completamente contrário ao método utilizado pela blockchain sendo esta, como já vimos, totalmente descentralizada e, por isso, não aporta qualquer intermediação nas relações económicas44. É certo que os modelos económicos baseados na intermediação tiveram sucesso até então e, talvez por isso, ninguém os questione. Todavia, será que são os modelos ideais e perfeitos para a sociedade moderna?
42GOLOSOVA, J., & ROMANOVS, A. (2018). The Advantages and Disadvantages of the Blockchain Technology, Conference
Paper. Disponível em:
https://www.researchgate.net/publication/330028734_The_Advantages_and_Disadvantages_of_the_Blockchain_Technology, acedido em 18 de setembro de 2019.
43GOLOSOVA, J., & ROMANOVS, A. (2018). The Advantages and Disadvantages of the Blockchain Technology, ob. cit.
19 A intermediação, tal como a conhecemos, é sinónimo de lentidão e de despesa, visto que pressupõe a existência de múltiplos agentes numa relação económica. Como exemplo, temos uma transferência bancária, em que nela participam o banco emissor e o banco recetor, a rede bancária e ainda o utilizador. Além disso, o tempo que demora até que o indivíduo recetor tenha o dinheiro na sua conta, e os custos que a transferência provoca, são fatores que desincentivam o uso deste método de pagamento45. Partilha da mesma opinião o Parlamento Europeu, que referiu no seu Relatório sobre moedas virtuais que a tecnologia associada à
blockchain pode reduzir os custos operacionais e de transação para os pagamentos e para as transferências de fundos, podendo chegar a uma redução de custos a nível mundial na ordem dos 20 mil milhões de euros46.
Um modelo assente na intermediação também é um sistema vulnerável a falhas e pouco firme. Se o sistema de um intermediário falhar, todos os agentes da cadeia são afetados, e não podem continuar a transação enquanto o problema não é solucionado. Seguindo o exemplo da transferência bancária, se a plataforma online
bancária for hackeada, não só os seus utilizadores não podem efetuar transferências, como ainda correm o risco de serem burlados47.
Apesar do contributo que teve e continua a ter nas relações económicas, a intermediação apresenta problemas de lentidão, provoca grandes custos nos seus utilizadores e é bastante vulnerável a falhas. A forma possível de eliminar estes problemas é a redução (ou até mesmo eliminação) do número de intermediários. É o que acontece na blockchain, visto que esta é integralmente descentralizada e não implica qualquer intermediário. É importante referir que o sistema presente na blockchain só funciona se existir uma relação de confiança direta no mecanismo que está implícito ao sistema. Ao contrário do modelo de intermediação, a confiança é depositada num algoritmo e não em seres humanos ou organizações. A credibilidade no sistema descentralizado é superior à do sistema tradicional, dado que não está em causa o critério humano48.