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3 CAPÍTULO TEMÁTICO: a voz que con-soa

3.3 LEITURAS E RECORTES

3.3.4 A voz que ressoa articulada

Neste momento de leitura, atentamos a alguns demarcadores do contorno do vazio do Outro, corpo infans que se enforma onde a voz ressoou articulada. Pelos recortes que empreendemos no décimo segundo mês de vida dos bebês, ou seja, quando eles tinham 11 meses de idade, observamos que os traços sonorizados por eles podem ser usados como escrita do sujeito, porque retornam articulados. (VORCARO, 2017a, no prelo).

Os bebês estão agora em posição bastante diferenciada. Olhemos algumas cenas: quando MF pergunta se a bolacha está boa, F responde um enfático “lá”. Quando M quer pegar o gravador e é proibido pela mãe, ele emite: “sai”. Os bebês parecem, agora, poder circular, por meio da linguagem, entre os significantes.

Nesse momento, percebemos as bordas do corpo delimitadas, formando unidade. M, por exemplo, reconhece os limites por onde seu corpo pode transitar. Em uma cena, ele chega até a porta engatinhando, a porta está aberta e ele para antes de sair por ela, olhando para P; MM então pergunta: “vai passear?”, e ele parte em direção ao pátio. Percebemos que a circulação se dá pelo apoio na língua, do mesmo modo como, na seção anterior, vimos o choro de F estancar-se pela fala de MF. Agora, no entanto, é o sujeito que permite situar-se nos espaços simbólicos a ele ofertados.

Ele também formula seus próprios espaços simbólicos onde as brincadeiras estão presentes. Uma brincadeira ocorre entre M e seu irmão, IM. IM começa a fazer barulho de carrinho, convocando M a olhá-lo. Ele olha, mexe no carro de bebê, um pouco distante de IM, e empreende algumas vocalizações, iniciando uma troca entre os irmãos. M mexe no brinquedo, olha para o irmão e vocaliza. Ele joga com os significantes na relação com o irmão.

Da mesma forma, quando MF briga com F para que ela não pegue o gravador, F pega uma boneca de pelúcia que está em cima do sofá e simula uma briga com ela, verbalizando, nos tons maternos repreensivos, “frases” com as quais faz ao objeto aquilo que ela mesma sofreu. Observamos F identificada com o

discurso do Outro, mas vivenciando ativamente aquilo que viveu passivamente. Quando a mãe diz que a boneca vai chorar, ela a atira ao chão, retornando para as tentativas de pegar o gravador. A mãe reluta, ela novamente pega a boneca e a sacode, produzindo vocalizações que novamente soam repreensivas. A mãe dá o bico de F para a boneca, F o pega da boneca e coloca em sua boca; depois, volta a retornar para a boneca, enunciando vocalizações em ondas melódicas mais amenas.

Do mesmo modo que o corpo é Um, as vocalizações dos 11 meses de idade já têm seus contornos bem delimitados: quando MF diz “não mexer”, F diz “nã”; quando MM diz à M que não pode mexer no gravador, com um enfático “não”, ele vocaliza “ão”. As referências ao papai são, agora, mais claras também. Quando MF questiona a F onde está o papai, primeira fala que dirige à filha diante das gravações de P, F logo emite um “Papa”. Quando MM pronuncia “ai, ai”, M repete, empreendendo uma brincadeira com a roda do carrinho de bebê. Quando o irmão diz “scui, scui” para chamar sua atenção, ele diz “i”, demarcando o elemento fonético final da fala do irmão.

Vimos que a instância Ideal de Eu incide nas manifestações do agente materno ao infans, as quais demandam uma imagem, que é moldada pelas exigências parentais, exigências de que o grito, para além de ter um significado, torne-se língua. Nisso, o bebê exercita suas primeiras manifestações linguísticas, mesmo que nele se revele um sujeito que tensiona as letras no andamento e as modula no timbre específico que assumirá na enunciação. (VORCARO, 2017a, no prelo).

Propostos a trabalhar o con-soar, neste capítulo, pelo movimento do olhar, relativo ao fazer-se objeto do desejo para o Outro, observamos que é no tempo concomitante ao que as palavras se enunciam, coladas à língua, que a mãe começa a oferecer seu filho como objeto de gozo ao outro. Percebemos, nas falas de MF, a mãe destinada a ofertar as produções de F à P: “mostra para a tia P que tu sabe dar beijo”, ao que F faz um movimento labial.

Do mesmo modo, a mãe quer que ela fale o nome da irmã, do papai. Ela goza por meio do corpo de F, na medida em que ele pode ser oferecido ao olhar do outro. Também pede que F conte coisas do seu cotidiano para a tia P, como quando foi ao médico fazer exames. Solicita, ainda, que ela cante a música “pintinho amarelinho”,

ao que F faz os gestos da música, olhando para P, evidenciando que responde à demanda materna. MF pede que ela cante também a música, ao que F vocaliza, ritmando a mesma. MM também quer que M se mostre: “mostra o que tu apronta aqui pela frente”; “dança”; atira beijo”; “diz o ê pra tia”.

Todavia, mesmo que passem pelo gozo materno, oferecendo-se à P, notamos que, em muitos momentos, é numa posição de enunciação que se situam os bebês participantes, mesmo que ainda não digam Eu. Em uma cena, MF mostra para F a tia P. F olha e sorri para P, logo olha para a janela, enunciando: “auau”; quer mostrar algo à P. Essas são produções vocais manifestamente endereçadas ao interlocutor, produções capazes de conduzir o olhar de P.

Podemos, aqui, situar a passagem entre um sujeito que fala e outro que escuta, mas principalmente a passagem entre um sujeito e ele mesmo, como aponta Porge (2012, 2014). Como dissemos, para poder falar, é preciso que o sujeito torne sua voz inaudita. Essa voz exerce a função de constituição do vazio do sujeito diante do vazio do Outro. (LACAN, 2005/1962-63).

Em nossas observações, chamaram-nos a atenção as associações empreendidas pelos bebês. Em uma cena, F caminha, apoiada no sofá, e encontra um livro, ela o abre e começa a balbuciar como se contasse histórias “babababa”. Depois de ter deixado o livrinho, acha um segundo e propõe-se a levá-lo até o outro. As associações estão presentes nas verbalizações também. Em muitos momentos, F tenta pegar o gravador de P, dizendo “papa”, ao que a mãe explicita que “não é o rádio do papai”. Observamos, nessas cenas, os significantes em articulação, a remissão de um a outro. O saber inconsciente trabalha com tudo que irá se articular a ele como significante. (VORCARO, 2017a, no prelo).

Nos lugares de passagem significantes, situamos outras vocalizações de M e de F. Em uma vocalização extensa, por exemplo, F “lê” um livrinho, pronunciando “abô puiéé” (07:58-08:10). Ela faz pausas, escande sua vocalização e vai em busca de algo que parece associar com sua leitura. Parece-nos, aqui, precipitar-se o corte descontínuo do sujeito, forma essencial em que aparece o Inconsciente e pela qual Lacan (1998/1964) liga o sujeito ao significante. Essa é a dimensão do corte enunciativo em que algo aparece na fenda, por meio de uma função pulsativa do inconsciente.

Na passagem entre um sujeito e ele mesmo, manifesta-se alguma coisa que aprofunda o significante, que está além, e que faz dele uma voz. (LACAN, 1999/1957-58, p. 355). Essa voz toma consistência na transmissão, porque se refere ao lugar que se apagou e que dá vazão para que outro significante se coloque em seu lugar. Desse modo, temos aqui um sujeito que fala e que empresta voz a seu Inconsciente (MELMAN, 1992, p. 49). Esse sujeito comparece em cada intervalo da voz escandida que nele ressoou.