• Nenhum resultado encontrado

Delineamento, procedimentos, instrumentos e análise

3 CAPÍTULO TEMÁTICO: a voz que con-soa

3.2 PERCURSO METODOLÓGICO

3.2.2 Delineamento, procedimentos, instrumentos e análise

Foi realizada uma pesquisa empírica, de abordagem qualitativa, fundamentada no método de estudo de caso exploratório-descritivo, que tem como objetivo obter uma visão mais acurada sobre o problema de pesquisa, embasando futuros trabalhos, assim como identificar as múltiplas manifestações do fenômeno e descrevê-lo de forma diversa e sob diferentes pontos de vista (GIL, 2009). A escolha metodológica deu-se, em parte, pela exigência de uma metodologia empírica para argumentação de projeto de tese no Programa de Pós-Graduação em Distúrbios da Comunicação Humana (PPGDCH) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), exigência essa que atende aos critérios de cientificidade dos trabalhos acadêmicos.

O estudo de caso foi definido por Yin (2005) como forma de investigação empírica de um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto de vida real, principalmente quando os limites entre fenômeno e contexto não são claros, sendo

um estudo aprofundado de um ou mais casos – casos múltiplos, a partir de uma construção efetuada pelo pesquisador.

Nesse tipo de pesquisa, utilizam-se diversas fontes, tendo como objetivos: levar conhecimento especializado para lidar com o fenômeno estudado; identificar todos os dados relevantes; examinar interpretações rivais; ponderar e comprovar o grau dos achados. Como critérios de escolha por essa metodologia, destacam-se, nesta tese, a relevância dos dados, as possíveis interpretações e as ponderações. Por sustentar-se em contextos e aprofundamentos, por embasar-se em “não precisão” de delimitação entre fenômeno e contexto e por ser conferido ao pesquisador o processo de construção, pareceu-nos uma escolha metodológica possível, considerando-se o viés teórico psicanalítico dado ao trabalho.

A nomenclatura “casos”, utilizada neste escrito, não se refere à perspectiva clínica da Psicanálise. Enfatiza-se que se trata de uma leitura teórica cuja interação outrora citada refere-se à afetação no corpo e no psiquismo infans, de sujeitos em vias de constituir-se psiquicamente, por meio dos endereçamentos dos agentes do Outro, aqui representados pelas mães do estudo. Considerados terceiro termo na relação “corpo materno-corpo infans”, tais endereçamentos serão lidos com base no constructo teórico psicanalítico, no a posteriori que permitiu a este trabalho inscrever-se como efeito de uma experiência de leitura, situada nas discussões da autora durante a escrita desta tese.

A escolha dos participantes do estudo deu-se por conveniência de acesso aos mesmos. Inicialmente, contatou-se a supervisora da área de Neonatologia do Programa de Residência Médica do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), também professora do Departamento de Pediatria da UFSM e do PPGDCH, a fim de possibilitar o primeiro contato com a equipe responsável pelos cuidados com os bebês recém-nascidos desse hospital. Uma vez realizado tal contato, agendaram-se dois encontros entre a pesquisadora e a equipe, a fim de averiguar os critérios de inclusão dos bebês no estudo e iniciar o contato com as mães dos mesmos – ainda em internação hospitalar decorrente do nascimento de seus filhos.

Para averiguação dos critérios, a equipe médica aferiu os resultados dos exames relativos à audição, visão e doenças genéticas dos neonatos. Em relação à audição do bebê, foi verificado o resultado da Triagem Auditiva Neonatal (ou exame de Emissões de Otoacústicas Evocadas Transientes e/ou Potencial Evocado

Auditivo de Tronco Encefálico). Essa triagem é obrigatória por lei e gratuita, no Brasil, desde 2010, sendo mais conhecida como Teste da Orelinha. Quanto à verificação da visão, atentou-se ao resultado do Teste do Olhinho (exame de rotina nos recém-nascidos no HUSM), conferindo aos bebês o fato de não terem nenhum obstáculo ao desenvolvimento da visão. Quanto à possibilidade de portarem doenças genéticas, foi descartada por meio da detecção neonatal de Fenilcetonúria- PKU, popularmente conhecida como Teste do Pezinho. Nesse exame se detectam precocemente doenças metabólicas, genéticas e infecciosas, doenças que podem causar alterações no desenvolvimento neuropsicomotor do bebê.

Uma vez indicados os possíveis participantes, a pesquisadora visitou os leitos no alojamento conjunto da maternidade, em setembro de 2014, a fim de, brevemente, explanar o intuito do trabalho e a possibilidade de contato posterior para apresentação da pesquisa. Durante os dois momentos de visitação, em diferentes quartos, mostraram-se interessadas em conhecer o estudo 10 mães, das quais se obtiveram os contatos telefônicos. Após 15 dias do primeiro encontro, contataram-se as mães para verificação da permanência do interesse. Das 10 mães contatadas, cinco mantiveram-no; para essas, foram agendadas visitas em suas residências. Antes da realização da visita, duas delas manifestaram desistência da participação.

Assim, às três mães que concordaram em participar da pesquisa, foi apresentado o estudo por meio de explanação oral da pesquisadora sobre os objetivos, a justificativa, os procedimentos, o detalhamento do método, os riscos e benefícios, o acompanhamento e a assistência, assim como a liberdade de recusa ou desistência da participação, em qualquer tempo, dando início ao Processo de Consentimento Livre e Esclarecido (PCLE). Nesse momento, também foram buscadas as informações necessárias aos critérios de inclusão das mães: audição, língua falada, convívio com os bebês, deficiência mental e episódio de surto psicótico, com ações observacionais e questionamento oral.

Esse primeiro encontro resultou em três sujeitos com declarada intenção de participação na pesquisa, os quais realizaram a formalização de assinatura dos Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) – anexos A e B – após leitura e apresentação oral dos mesmos. Foram dois termos assinados por cada uma das mães nesse momento: um especificando a participação da mãe no estudo (Anexo A)

e outro especificando a participação do bebê no estudo (Anexo B). Mesmo após a assinatura dos termos, consentindo participação, houve mais uma desistência, permanecendo os participantes descritos.

Formalizadas as participações, iniciaram-se as visitações domiciliares. Durante o primeiro encontro, em novembro de 2014, foi realizada uma entrevista não-estruturada buscando evidenciar a história do bebê por meio do relato materno. A partir dessa data, instaurou-se o processo longitudinal de acompanhamento dos casos, nas residências, para registro das ações interacionais entre mães e bebês. Foram realizados encontros mensais, de novembro de 2014 a setembro de 2015, totalizando 11. Cada encontro teve duração aproximada de 30 minutos e as interações foram principiadas pelas mães por meio de brinquedos do próprio bebê ou levados pela pesquisadora, dispostos em brincadeiras com os lactentes. Sendo livres, as interações incluíram espontaneamente momentos de trocas alimentares e a presença de outras pessoas da família, como o irmão de M, que será referido como IM.

As cenas de interação foram registradas por meio de filmagens e de gravações de áudio. Além disso, após cada visitação, ocorreram alguns registros complementares em diário de campo, no qual foram inclusas percepções da pesquisadora acerca das trocas registradas. Desse modo, denota-se a triangulação instrumental da pesquisa: observações da interação, registradas em áudio e vídeo; entrevistas, registradas em áudio; e diário de campo, registrado a punho/de forma escrita. Após os 11 meses de coleta, foi realizada nova entrevista não-estruturada com cada uma das mães para registro da percepção sobre a experiência de participação no estudo.

Como exposto, o percurso longitudinal compreendeu o período de um a 11 meses dos bebês, tendo início, a partir do segundo mês de vida, os encontros interacionais. Optou-se por não realizar encontro no primeiro mês a fim de evitar excesso de invasividade, espaçando-se um período mínimo para o estabelecimento das trocas e rotinas entre mães e filhos. O período foi projetado visando ao registro de produções sonoras e efeitos de fala que circularam durante os processos constitutivos pela linguagem e pela pulsão.

A análise, cuja técnica de interpretação seguiu a proposta do estudo de caso, compreendeu o cruzamento dos materiais registrados. Os materiais de áudio

passaram pela análise perceptiva acústica da pesquisadora. Destaca-se o tratamento de análise de todos os registros por comparações constantes, um método desenvolvido para sustentar a “teoria fundamentada” (grounded). Para tanto, o pesquisador reúne e compara um volume de informações que emergem do processo de análise, o que permite reconstruir a experiência pela via teórica. (GIL, 2009).

A leitura teórica realizada pela autora deu-se por referência a sua formação psicanalítica, na qual fundamentou a especificidade do objeto de estudo − a voz nos primórdios da constituição psíquica − em suas especificidades. Para tanto, foram feitos recortes para as análises conforme os momentos constitutivos dos sujeitos. Desse modo, serão inclusos, na apresentação dos materiais e em sua discussão, excertos retirados das trocas entre mães e seus bebês quando estes tinham: um, quatro, oito e 11 meses de idade, tempos cronológicos demarcados pelos operadores lógicos da estruturação psíquica.

Na análise proposta, não se trata de testar uma teoria, mas de desenvolvê-la mediante processos determinados, que incluem a interpretação do pesquisador e a troca entre diferentes sujeitos. Por esse motivo, incluímos P como participante deste estudo, autora e pesquisadora cuja presença implicou, além das leituras empreendidas, efeitos na própria “cena de coleta” a que se propôs.