“Não se nasce mulher, torna-se mulher”, é o que Simone de Beauvoir ensina em sua famosa obra O Segundo Sexo, publicada em 1948. Para a filósofa, há uma distinção entre sexo e gênero, pois, o primeiro nada mais é que um fator biológico de como o corpo humano é constituído, enquanto o segundo é uma construção social moldada, historicamente, pela manifestação de padrões e comportamentos disseminados nas sociedades.55
A frase, assim como a obra no todo, é muito utilizada na pauta da luta feminista por evidenciar um olhar para a construção social do gênero a fim de entender as profundas desigualdades que essa construção gera para as mulheres.
53PEREIRA, Gabriela Cotta e VIAL, Giovanna Martins. Refúgio e gênero: precisamos falar sobre mulheres
refugiadas. Disponível em: https://www.migramundo.com/refugio-e-genero-precisamos-falar-sobre-mulheres- refugiadas/. Acesso em: 22 jul. 2020.
54Do grego, patriarkhēs, com tradução literal “a regra do pai”. É a estrutura de poder social, na instância pública
e privada, centralizada no homem. Disponível em: https://www.google.com.br/. Definições de Oxford Languages para a busca <patriarchy etymology>. Acesso em: 22 jul. 2020.
55SANTOS, Magda Guadalupe dos. Simone de Beauvoir. “Não se nasce mulher, torna-se mulher” – Sapere Aude – Revista do Departamento de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo
Horizonte: PUC Minas, v. 1, n. 2, p. 108-122, 2010. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/SapereAude/article/view/2081/2250. Acesso em: 10 ago. 2020.
Para compreender a vulnerabilidade da mulher refugiada é necessário entender que, historicamente, a desigualdade de gênero afeta as mulheres sob vários aspectos, como o acesso à educação, trabalho e principalmente no que tange à violência que sofrem pelo fato de serem mulheres, em qualquer âmbito social.
Para Ofelia Morales,
analisar a migração feminina desde a perspectiva de gênero significa reconhecer que as diferenças entre homens e mulheres não correspondem a uma explicação biológica, mas a uma construção mental da sociedade e as relações de poder estabelecidas.56
A construção social dos papéis de gênero segue reforçada com ideias arcaicas de masculinidade57 e a visão muito comum, que se consolidou historicamente como tradicional,
de que o papel principal das mulheres é o de ser esposa, mãe e cuidadora.
Morales ainda afirma que “as mulheres sempre foram tidas como agentes passivos dos processos migratórios, e não enquanto atores sociais, [...] isto é consequência do estereótipo criado em torno delas como sendo dependentes com ênfase em seu papel de esposa e mãe”.58
Um dos fatores que colaboram para essa construção de papéis de gênero é o acesso à educação. O Relatório Global de Monitoramento da Educação, produzido pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, traz um ponto importante relacionando a escolaridade feminina e o casamento infantil, evidenciando uma face da violência de gênero:
In many low-income countries where child marriage is prevalent, girls are withdrawn from school to get married once they reach puberty. They then face practical barriers to education, including stigma, forced exclusion from school, and social and moral norms that confine them to their homes. Most countries with high early marriage rates are fragile, experiencing humanitarian crises and displacement. In such contexts, the early marriage trap is perpetuated because families see it as a
56MORALES, Ofelia Woo. La migración de las mujeres: um proyecto individual o familiar? - REHMU Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, Brasília: CSEM, v. 15, n. 29, 2007, p. 25-26.
57Masculinidade é o conjunto de características e comportamentos que a sociedade atribui e valora ao sexo
masculino, de maneira estereotipada, restritiva e muitas vezes nociva. Ou seja, para serem reconhecidos perante à sociedade como homens, estes precisam provar sua masculinidade constantemente, sendo essa “prova” basicamente a contraposição a tudo que é considerado feminino, como fragilidade, emoção e afeto.
58MORALES, Ofelia Woo. La migración de las mujeres: um proyecto individual o familiar? - REHMU Revista
way to protect their daughters, while going to school exposes them to risks, and the outcomes of schooling are highly uncertain.5960
Já em relação ao mercado de trabalho, o último relatório do Banco Mundial que analisa leis e regulamentos que afetam a oportunidade econômica das mulheres em 190 economias, mostra que países da Europa e da Ásia Central possuem vários trabalhos proibidos de serem realizados por mulheres, como por exemplo o Cazaquistão e a Rússia, que proíbem mulheres de trabalharem em duzentos e dezenove e quatrocentos e cinquenta e seis tipos de trabalho, respectivamente. Embora muitos países tenham promulgado reformas para buscar a igualdade de gênero, as mulheres têm, em média, apenas três quartos dos direitos legais concedidos para homens.61 Esses são apenas alguns dados contemporâneos para ilustrar a
disparidade de oportunidades e direitos entre mulheres e homens.
A última edição do relatório da ONU, intitulado Progresso das Mulheres do Mundo, aponta que dos 185 países analisados, apenas 77 apresentam legislação explícita proibindo o estupro marital e, dentre os países restantes, 34 não criminalizam esse tipo de estupro e nem sequer permitem que as mulheres possam realizar uma queixa criminal nesse sentido em face do seu cônjuge; relata que 137 mulheres são assassinadas por dia, no mundo todo, por um membro da própria família; atualmente, o número de mulheres e meninas que casaram-se antes de completar dezoito anos chega a 650 milhões; ao menos 200 milhões de mulheres e meninas vivas hoje, sofreram mutilação genital feminina, tradicionalmente praticada em vários países da África sendo que, em alguns desses a legislação proíbe a prática apenas em meninas menores de dezoito anos.62 Tais dados estatísticos nos revelam uma realidade
excludente, insegura e discriminatória para as mulheres.
59Em muitos países de baixa renda, onde o casamento infantil é predominante, as meninas são retiradas da
escola para se casar quando atingem a puberdade. Elas então enfrentam barreiras práticas à educação, que incluem estigma, exclusão forçada da escola e normas sociais e morais que as confinam dentro de casa. A maioria dos países com altas taxas de casamento precoce são frágeis e passam por crises humanitárias e de deslocamento. Nesses contextos, a armadilha do casamento precoce é perpetuada porque as famílias o veem como uma maneira de proteger suas filhas, enquanto a escola as expõe a riscos, e os resultados da escolaridade são altamente incertos. (UNESCO, 2019, p.22, tradução nossa)
60UNESCO. Global education monitoring report 2019 – Gender report. 2019. 74 p. p. 22. Disponível
em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000368753/PDF/368753eng.pdf.multi. Acesso em: 27 jul. 2020.
61B A N C O M U N D I A L , Wo m e n , B u s i n e s s a n d t h e L a w 2 0 2 0 . 2 0 2 0 . 7 9 p . p . 1 e 9 .
D i s p o n í v e l e m
https://openknowledge.worldbank.org/bitstream/handle/10986/32639/9781464815324.pdf. A c e s s o e m : 2 0 j u l . 2 0 2 0 .
62ONU Mulheres. Progress of the World's Women 2019-2020 . 2020. 285 p. p. 27 e 178-179.
Nota-se que a violência de gênero é uma violação dos Direitos Humanos que acontece de maneira recorrente e sob vastos aspectos, seja no contexto familiar, no mercado de trabalho, na sociedade de forma geral e até nas instituições estatais. Essas violências encontram ainda mais espaço no cenário de migração, repleto de mulheres e meninas que buscam refúgio e encontram-se desamparadas, em situação de vulnerabilidade.
A atenção à questão de gênero foi amplamente abordada na Declaração de Nova York para Refugiados e Migrantes, de 2016, aderida por 193 governos. O documento, além de reiterar o compromisso de proteger os direitos humanos independentemente do status da migração, compartilhando a responsabilidade de resgatar, receber e acolher essas mulheres, também se compromete a garantir que as políticas migratórias sejam sensíveis à questão de gênero e abordem a tutela dos direitos das mulheres e meninas. Pontos relevantes tratam do combate à violência sexual e de gênero, além de reconhecer o direito a serviços de saúde sexual e reprodutiva.63
Fato é que, mesmo com todos os esforços e ratificação de tratados, declarações e convenções em âmbito internacional para proteger os direitos humanos, o olhar para a desigualdade de gênero no contexto da migração é recente e necessita constante debate e compromisso estatal cooperativo para que se possa minorar o problema. Trata-se de um problema social histórico e visível em diferentes sociedades e contextos, razão da necessária projeção específica para a situação narrada.