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Falar da mulher refugiada é falar de um processo de desigualdades profundas. No Brasil, essas desigualdades se manifestam diariamente através da violência de gênero64. O país registrou, apenas em 2018, cento e oitenta casos de estupros e estupros contra vulneráveis, por dia, e mais de mil casos de feminicídio.6566

São estatísticas que, aliadas à desigualdade entre homens e mulheres, quase

63Declaração de Nova York para Refugiados e Migrantes. Nova York, 2016, p. 5 e 10.

64Especialmente a violência sexual e reprodutiva, e sua ligação com a dominação do corpo da mulher,

objetificado para satisfazer o desejo sexual masculino e, procriar mesmo quando esta não é a vontade dela.

65Números subnotificados, pois muitas vítimas de estupro não denunciam o crime por medo e/ou vergonha e

também, a lei de feminicídio (Lei 13.104/15) é relativamente nova, de modo que, por equívoco, o feminicídio pode ser qualificado como homicídio.

66FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Estatísticas. Disponível em:

“normalizada” na sociedade, compõe questionamentos em relação à proteção da mulher em situação de refúgio.

Dados do CONARE apontam que entre o período de janeiro de 2017 até junho de 2020, foram concluídas 60.152 decisões de refúgio no Brasil, sendo essas decisões divididas como 67,9% de refugiados reconhecidos, 19,7% de casos extintos ou arquivados e 12,3% de casos de indeferimento da solicitação de refúgio. Os pedidos são oriundos de noventa e cinco nacionalidades, sendo a Venezuela a nacionalidade com maior número de decisões. A faixa etária predominante varia de dezoito a sessenta anos, e as mulheres são quase 38% desse contingente.67

A Cartilha para Solicitantes de Refúgio no Brasil68, elaborada pelo ACNUR, orienta que ao chegar no Brasil, solicitantes de refúgio passam por um processo, que se inicia com a oficialização do pedido de refúgio. Este deve ser feito dentro do território brasileiro, a qualquer momento, perante a Polícia Federal ou autoridade migratória na fronteira. A solicitação é gratuita e as informações prestadas pelo solicitante são confidenciais. Após registrar a solicitação na PF, o solicitante recebe um protocolo provisório que servirá como documento de identidade que prova a situação migratória regular da pessoa, válido por um ano e renovável até que seja proferida decisão do CONARE sobre o pedido de refúgio. Com este protocolo, o solicitante tem direito a obter Carteira de Trabalho (CTPS) e o Cadastro de Pessoa Física (CPF), e acessar os serviços públicos disponíveis no Brasil.

O solicitante fornecerá detalhes dos motivos que o levaram a sair de seu país, em entrevista pessoal com funcionário do CONARE ou da Defensoria Pública da União, sendo- lhe oferecido intérprete de idiomas quando necessário e podendo o solicitante escolher o sexo do entrevistador – único detalhe do processo que se atenta à questão de gênero e se preocupa em oferecer um ambiente “confortável” para a refugiada mulher. O solicitante também poderá ter a segunda entrevista, com acompanhamento jurídico oferecido pelas organizações parceiras do ACNUR, qual sejam as Caritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro e de São Paulo e o Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH).

Após análise e decisão do CONARE, o solicitante que for reconhecido como refugiado, tem o direito de permanecer no país e obter o Registro Nacional de Estrangeiros (RNE), documento de identidade dos estrangeiros no Brasil. Quando o pedido de refúgio é 67ACNUR. Decisões Plenária Conare. 2020. Disponível em: https://bit.ly/3iNbP9N. Acesso em: 27 jul. 2020. 68ACNUR. Cartilha para Solicitantes de Refúgio no Brasil. 2015. 112 p. p. 12-15 e 20-21. Disponível em:

https://www.acnur.org/portugues/wp-content/uploads/2018/02/Cartilha-para-Solicitantes-de-Ref%C3%BAgio- no-Brasil_ACNUR-2015.pdf. Acesso em: 29 jul. 2020.

negado, o solicitante pode apresentar recurso para o Ministro da Justiça no prazo de quinze dias a partir da notificação da decisão, em último grau de jurisdição. Caso o recurso seja negado, dá-se por terminado o processo administrativo de refúgio, e o solicitante fica submetido a buscar a permanência regular no Brasil através da solicitação do visto temporário, por exemplo, de trabalho, estudo ou de acolhida humanitária. Lembrando que em momento algum o solicitante pode ser devolvido para seu país de origem ou para onde possa ser vítima de violações de direitos humanos, e ainda, que não pode ser punido por entrada irregular em nosso país.

Assim, quando questionamos como o Brasil, país com números significativos de violência contra a mulher, acolhe refugiadas que temem constantemente por suas vidas e integridade física e que, muitas vezes fogem de seus países para escapar justamente da violência de gênero, infelizmente, não há resposta simples nem solução imediata. A atenção às questões de gênero se dá através da conscientização, da criação de normas jurídicas e a educação da matéria. Esses caminhos são longos, mas possíveis, para enfrentar o problema.

3.2.1 Medidas e projetos para superar as dificuldades da mulher refugiada no Brasil: reconhecimento e alcance de direitos

Por ser posterior às convenções e protocolos internacionais sobre o tema, a legislação brasileira para a matéria de refugiados, Lei 9.474/97 e Lei 13.445/17, adotam a definição ampla de pessoa refugiada e isso projeta o Brasil como país avançado quanto à tutela dos direitos humanos dos refugiados. Em que pese à questão de gênero, também apresentamos respostas estatais no âmbito de proteção e assistência às mulheres, através da adesão aos tratados internacionais, acordos e projetos que versam sobre a matéria, como exemplificado a seguir.

Em fevereiro de 2018, países e territórios da América Latina e do Caribe reuniram-se em Brasília para discutir iniciativas, experiências e práticas realizadas no campo de proteção de pessoas solicitantes de refúgio, deslocadas e apátridas na região. Além de reforçar pontos como a importância do princípio de non-refoulement e a busca de soluções duradouras para os deslocados, o objetivo do evento também foi estabelecer princípios entre os governos para que haja, entre os Estados, melhor coordenação sobre a migração internacional. Dentre os 100 pontos descritos no documento, uma seção é exclusiva sobre prevenção e resposta à violência

sexual e de gênero.

Alguns pontos da seção relativa às questões de gênero incluem:

71. A criação de uma Rede Regional de Espaços Seguros com diferentes atores para prevenir, detectar e combater incidentes de violência sexual e de gênero, bem como o acesso de pessoas sobreviventes a serviços especializados de proteção e assistência, durante todo o ciclo de deslocamento.

[…]

73. A criação de casas de acolhida para mulheres e crianças sobreviventes de violência sexual, de gênero e outros tipos de violência.

74. Priorização de sobreviventes de violência sexual e de gênero na implementação de um Mecanismo de Proteção de Trânsito (PTA) para facilitar seu acesso à proteção internacional em terceiros países.69

Já a Cartilha para Solicitantes de Refúgio no Brasil, elaborada pelo ACNUR, expressa que é direito dos solicitantes não sofrer violência sexual ou de gênero, informando o canal de atendimento para denúncias e assistência:

No Brasil, homens e mulheres têm os mesmos direitos e toda forma de violência contra a mulher, em razão do gênero ou da orientação sexual é crime. A mulher vítima de violência tem o direito a receber assistência médica e formalizar sua denúncia através do telefone 180 ou em delegacias de polícia especializadas em atendimento à mulher.70

No início deste ano, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, órgão do Ministério Público Federal, firmou com o ACNUR “um memorando de entendimentos com vistas ao fortalecimento da promoção e da defesa de direitos de refugiados e apátridas no Brasil.”71 A parceria tem o intuito de identificar as necessidades específicas de proteção às pessoas em deslocamento, reconhecendo que a efetivação dos direitos humanos, civis, sociais, econômicos e políticos dessas pessoas, em situação de vulnerabilidade, é um esforço cooperativo de todas esferas institucionais. Os compromissos firmados também incluem a “contribuição para o fortalecimento das políticas nacionais de assistência, representação e patrocínio legal a favor dos solicitantes da condição de refugiado, com uma abordagem

69MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. Os 100 pontos de Brasília: Contribuições da América

Latina e do Caribe para o Pacto Mundial sobre Refugiados. Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/pt- BR/notas-a-imprensa/18295-os-100-pontos-de-brasilia-contribuicoes-da-america-latina-e-do-caribe-para-o- pacto-mundial-sobre-refugiados. Acesso em: 25 jul. 2020.

70ACNUR. Cartilha para Solicitantes de Refúgio no Brasil. 2015. 112 p. p. 6. Disponível em:

https://www.acnur.org/portugues/wp-content/uploads/2018/02/Cartilha-para-Solicitantes-de-Ref%C3%BAgio- no-Brasil_ACNUR-2015.pdf. Acesso em: 29 jul. 2020.

71MPF. PFDC e Acnur firmam parceria para promoção e defesa de direitos de refugiados e apátridas. 2020.

Disponível em: http://www.mpf.mp.br/pfdc/noticias/pfdc-e-acnur-firmam-parceria-na-promocao-e-defesa-de- direitos-de-refugiados-e-apatridas. Acesso em: 22 jul. 2020

transversal de idade, gênero e diversidade”.72 Ainda que no plano normativo, o Brasil tenha participado e obrigou-se internacionalmente ao cumprimento das recomendações aludidas.

No plano social, importante destacar a campanha “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, uma mobilização civil global e que no Brasil dura 21 dias, tendo início no Dia Nacional da Consciência Negra e encerramento no dia Internacional dos Direitos Humanos, 20 de novembro e 10 de dezembro, respectivamente. A campanha conta com a colaboração de agências da ONU, inclusive do ACNUR, ONG's e organizações sociais, com intuito de gerar consciência, compartilhar informação e inovação para prevenir e eliminar a violência contra mulheres e meninas em todo o mundo, tanto de maneira geral quanto no âmbito de deslocamento e refúgio.73 O que vem dando voz às questões e à causa feminina nesse âmbito.

Na área de empregabilidade, desde 2016 o Grupo Mulheres do Brasil promove a inserção de refugiados no mercado de trabalho e conta com um projeto exclusivo para mulheres, chamado “Empoderando Refugiadas”. O projeto, que ao final de 2019 já havia atendido 110 mulheres, oferece treinamento, capacitação, workshops e até mentoria individual feita de forma voluntária por outras mulheres, além de firmar parcerias com empresas, visando a inserção dessas mulheres no mercado de trabalho.74

Por outro lado, as refugiadas ainda revelam a insuficiência dessas políticas para dar conta da violência e violações de direitos que sofrem. Depoimentos coletados na pesquisa realizada por Marisa Andrade na cidade de São Paulo, destacam

diversas situações em que as refugiadas, ao se dirigirem a um órgão público a fim de requererem algum tipo de atendimento, foram ignoradas em suas solicitações. Em razão do desconhecimento, por ignorância, discriminação e ou preconceito, os agentes públicos agem com descaso junto aos refugiados, negando o atendimento aos mesmos.75

Logo, podemos apurar que os esforços existem, porém, o Estado ainda não cumpre

72MPF. PFDC e Acnur firmam parceria para promoção e defesa de direitos de refugiados e apátridas. 2020.

Disponível em: http://www.mpf.mp.br/pfdc/noticias/pfdc-e-acnur-firmam-parceria-na-promocao-e-defesa-de- direitos-de-refugiados-e-apatridas. Acesso em: 22 jul. 2020

73ACNUR. Acnur promove agenda nacional para celebrar “16 Dias de Ativismo contra Violência de Gênero”.

2018. Disponível em: https://www.acnur.org/portugues/2015/11/26/campanha-dos-16-dias-de-ativismo- comeca-no-rio-com-refugiadas-empoderadas/. Acesso em: 29 jul. 2020.

74ACNUR. Projeto Empoderando Refugiadas dá as boas-vindas às novas participantes. 2019. Disponível em:

https://www.acnur.org/portugues/2019/09/11/projeto-empoderando-refugiadas-da-as-boas-vindas-as-novas- participantes/. Acesso em: 29 jul. 2020.

75ANDRADE, Marisa. Mulheres refugiadas e o mercado de trabalho: um estudo no município de São Paulo.

com a implementação de políticas públicas dirigidas para refugiados, especialmente para as mulheres refugiadas, com o objetivo de qualificar o atendimento a essas pessoas, com respeito e sensibilidade.

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