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CAPÍTULO 2. AS ESCOLHAS DE REFERENCIAIS POSSÍVEIS

2.5 A VULNERABILIDADE SOCIAL

Primeiramente, convêm esclarecer o conceito de vulnerabilidade: "A vulnerabilidade social é uma zona intermediária, instável, que conjuga precariedade do trabalho e a fragilidade dos suportes de proximidade." (Castel, 1998, p.24). O conceito de vulnerabilidade social foi desenvolvido, a partir de uma concepção de sociedade salarial francesa, apesar desta concepção de sociedade salarial não ter sido incorporada historicamente à realidade brasileira. Considera-se que a vivência da vulnerabilidade existe entre os universitários por aproximações do conceito com as zonas de fragilidade enfrentadas no processo de transição.

A questão social, que caracteriza a crise da sociedade salarial, reside num amplo e variado processo de vulnerabilidade, mas não revela, no caso francês, uma situação de exclusão nos vários graus e tipos. Ela é fruto de um percorrer histórico que leva à ampliação e à consolidação de direitos coletivos, relativos à seguridade social e ao trabalho. Condição de segurança e contraditoriamente de insegurança do sujeito pretende-se com esta discussão sobre a vulnerabilidade, como que constituindo-se em um campo legítimo e legal de reivindicações, para os futuros trabalhadores brasileiros.

No debate sobre a vulnerabilidade, o enfoque norte-americano é abertamente político-ideológico. Na acepção norte-americana, o termo é, progressista, pois é inspirado nas tradições que fundamentam as políticas de bem- estar social. De um lado, blaming the victim2, aberta e feroz culpabilização das

pessoas que se encontram em precárias condições sociais e econômicas, pois, nessa vertente interpretativa, esta situação é vista como fruto de sua própria e única (ir)responsabilidade.

O debate francês, a seu turno, baseia-se em conceitos como exclusão, relegação, desqualificação ou desfiliação social. Afirma que não se trata apenas

daqueles que não puderam pagar o preço do progresso, ficando à margem de uma sociedade que se modernizava. Mas também dos que ocupam posições centrais no sistema produtivo do qual foram desconectados. As propostas, enfatizam a necessidade da presença estatal, que tem como responsabilidade primeira fornecer os recursos materiais e culturais que promovam a (re)inserção social e econômica dos grupos marginalizados (Kowarick, 2003).

Segundo Castel (1998), as situações marginais aparecem ao fim de um duplo processo de desligamento: em relação ao trabalho e em relação à inserção relacional. Todo indivíduo pode ser situado com a ajuda deste duplo eixo, de uma integração pelo trabalho e de uma inserção relacional. Distinguimos três gradações em cada um desses eixos: trabalho estável, trabalho precário, não-trabalho; inserção relacional forte, fragilidade relacional, isolamento social. Acoplando estas gradações duas a duas obtemos três zonas, ou seja, a zona de integração (trabalho estável e forte inserção relacional, que sempre estão juntos), a zona de vulnerabilidade (trabalho precário e fragilidade dos apoios relacionais) e a zona de marginalidade, que prefiro chamar de zona de desfiliação para marcar nitidamente a amplitude do duplo processo de desligamento: ausência de trabalho e isolamento relacional.

Por conseguinte, a partir da segunda metade da década de 1980, já não se diz mais os “expelidos pelo dinamismo do progresso”, as proposições se calibram em torno do que se convencionou chamar de nova pobreza. Nova pobreza porque a vulnerabilidade deixa de afetar só os grupos periféricos para se tornar um problema que desaba sobre as camadas que ocupam os estratos inferiores da pirâmide social, mas se trata agora também de suas bases.

O movimento de precarização econômica e social afeta a vida de grande número de pessoas, que no período de expansão econômica, tinha um emprego, mesmo sem ter a qualificação necessária. Esta vulnerabilidade social é tratada aqui como o resultado negativo da relação entre a disponibilidade de recursos (materiais ou simbólicos) dos universitários e o acesso à estrutura de oportunidades sociais, econômicas e culturais que provêm do Estado, do mercado e da sociedade civil.

Dentre os riscos relativos ao trabalho, segundo Castel (1998), temos o trabalho precário, em penosas condições, insalubre, mal remunerado, ou ainda a própria ausência do trabalho. A vivência em constante situação de desemprego pode levar a pobreza, a perda de status, perda de disciplina temporal e rotina diária, desagregação da vida familiar, incluindo o divórcio e várias formas de comportamento anti-social, como o roubo, tráfico, vandalismo e violência.

Defende-se a existência de uma significativa equação entre o risco social e a situação de vulnerabilidade dos trabalhadores contemporâneos. Tal como outros aspectos da sociedade, o trabalho está sofrendo enormes transformações. Uma forma de compreender como as mudanças do trabalho afetam a vida das pessoas em sociedade é confrontar as perspectivas de carreiras atuais com as do passado, e compreender que as trajetórias profissionais são radicalmente diferentes, no espaço de uma única geração (Sennett, 1999).

Esta fragilidade atinge principalmente aqueles em início de carreira. A principal questão social é a da inserção profissional, conforme corroboram diversas pesquisas de Pochmann, 1998, 2002, 2003, 2004a, 2004b e 2007; Dupas, 1999; Harvey, 2005; Antunes, 2005; Castel, 1998 e 2005.

A inserção ocupacional atualmente desenvolvida pode produzir processos de vulnerabilidade dos universitários no enfrentamento das condições de transição, revela a influência da educação superior nestes processos de inscrição do sujeito na condição de trabalhador, e a necessidade da psicologia em pesquisar quais são as condições que podem gerar as zonas de fragilidade e risco subjetivo percebido e sentido como vulnerabilidade.

Esta reflexão inicial remeteu o autor a consubstanciar sua pesquisa em outra realidade, em um país europeu, comumente caracterizado como mais desenvolvido, que, no entanto, também apresenta facetas da complexidade do mundo do trabalho global e que envolve os jovens do ensino superior. A diferença se verifica na vivência da transição escola-trabalho e passa-se a descrevê-la no próximo capítulo.