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1.2 INSTABILIDADE E REFORMA

1.2.1 A VUNERALIBIDADE EXTERNA DA EUROPA

Durante as décadas de 1960 e 1970, a projeção externa dos órgãos supranacionais construídos na Europa ganharia destaque, tanto na Europa, devido à solidificação desses órgãos e o aprofundamento da integração, como no mundo ocidental, devido à essencial importância e influência. Mesmo a campanha para a criação da Associação Europeia de Livre Comércio (AELC) em janeiro de 1960 pelos Sete (Áustria, Dinamarca, Noruega, Portugal, Suécia, Suíça e Reino Unido), promovida, especialmente, pelo Reino Unido, que se via minimizado na Europa pela CEE, resultou em infrutíferas tentativas de se criar uma grande zona de comércio, envolvendo os países da OECC. A ausência de compromissos políticos maiores não agradava os Estados Membros da CEE e, contando com o fracasso do plano britânico, aprovariam em 1973 a adesão de Reino Unido, Irlanda e Dinamarca, em seu primeiro alargamento.

Os principais problemas para a CEE se originariam a partir do conturbado campo econômico entre o fim da década de 1960 e início de 1970. De acordo com Eichengreen (2007) a instabilidade cambial do período, em especial a revalorização do Deutsche Mark e a desvalorização do Franco (visando dar maior competividade ao setor agrícola, que vinha perdendo renda), deixaram claros a fragilidade da PAC e os problemas que o Mercado Comum poderia vir a enfrentar, uma vez que a estabilidade cambial era fator essencial para o aumento do volume comercial, dos investimentos e a manutenção da baixa inflação que garantiria estabilidade ao sistema.

Os europeus estavam compreensivelmente mais relutantes do que os americanos para ver Bretton Woods cair. Eles temiam que as taxas de câmbio voláteis interferissem na expansão do comércio intra-europeu.

Eles temiam as consequências para o PAC. Eles temiam que o corte da linha de âncora cambial faria a inflação se espalhar, minando a moderação salarial, que havia apoiado a rentabilidade, o investimento e o crescimento. Tudo isso os tornaram relutantes em aceitar o desaparecimento de um enquadramento monetário percebido como parte integrante da idade de ouro. (EICHENGREEN, 2007, p. 246).

Ainda de acordo com Eichengreen (2007, p. 246), foi reconhecido que o aumento na mobilidade de capitais minara qualquer possibilidade de um sistema parecido com o que fora Bretton Woods, o que forçaria os Estados Membros a eliminar a flutuação das taxas de câmbio por meio de uma união monetária, caso quisessem evitar que as flutuações influenciassem negativamente o desempenho econômico.

Isso seria especialmente importante naquele momento, devido à conclusão de que

haveria pouca disposição dos EUA em subordinar sua política macroeconômica doméstica em favor da manutenção da estabilização cambial, enquanto na Europa os países estariam mais dispostos a tal medida.

A primeira tentativa para contornar a instabilidade cambial, segundo Clemens et al. (2008, p. 201), viria por meio do Plano Werner, proposto pelo grupo de trabalho liderado pelo Primeiro Ministro luxemburguês, Pierre Werner em outubro de 197021, sendo enfatizada a possibilidade da realização de uma União Econômica e Monetária (UEM) ainda na década de 1970, devendo ser irreversível ao incluir taxas de câmbio fixas, “harmonização das políticas orçamentais, fiscais, monetárias e creditícias” e uma única autoridade monetária, abarcando um fundo de cooperação monetária, além da criação de um fundo de desenvolvimento regional. Segundo os autores:

Como condições para o funcionamento de tal união monetária foram mencionadas a convertibilidade completa e irreversível das moedas sem flutuações cambiais, bem como a completa liberalização dos movimentos de capitais. Por razões psicológicas e políticas, uma moeda única deveria ser introduzida a fim de demonstrar a irreversibilidade do processo, em vez da manutenção de símbolos monetários nacionais. (CLEMENS ET AL., 2008, p. 201).

Isso implicava a completa perda de soberania em assuntos econômicos e monetários e, imediatamente, levantou discussões especialmente dos lados francês e alemão; as taxas de câmbio fixas e o estreitamento das margens de câmbio incomodavam o Bundesbank, que temia a desestabilização dos preços, enquanto a oposição política, então o partido CDU, acreditava que tal concessão poderia relaxar as enervadas relações da época entre Willy Brandt e Georges Pompidou. O que passou a incomodar o presidente francês, de acordo com Dinan (2014, p. 130), por sua vez, foi a proposta de “rever o Tratado de Roma, a fim de criar novas instituições a nível europeu e transferir o poder para o Parlamento para contrapor a perda de autoridade nacional sobre os assuntos econômicos e monetários”.

Embora o plano tenha sido (com pouca convicção) ratificado na cúpula de Paris em outubro de 1972, ele nunca seria aplicado devido ao pouco apoio que obtivera, tendo em vista os diferentes interesses dos Estados Membros em relação tanto à política cambial e monetária, quanto fiscal em um ambiente externo recessivo. A crise

21 O trabalho deste grupo, segundo Dinan (2014, p.128-9), fora fortemente dividido entre os chamados

“monetaristas” e “economistas”. Os primeiros advogavam os interesses belgas e franceses (países com déficits em suas balanças comerciais), ao asseverar que “a união monetária traria convergência econômica”, enquanto os últimos, ao representar os superavitários alemães e holandeses, arguiam que “a convergência da política econômica, deveria preceder a união monetária”. Estava claro que, enquanto franceses e belgas almejavam usufruir das benesses econômicas sem pagar o preço de políticas domésticas mais rigorosas, alemães e holandeses não queriam socorrer esses, sob o risco de trazer instabilidade ao próprio país, levando Willy Brandt, então chanceler pelo SPD, a intervir e fazer a balança pender em favor desses últimos.

do dólar em 1971, conforme constata Dinan (2014), faria com que uma onda de recursos vindos dos EUA inundasse a Alemanha, obrigando-a a ver o Deutsche Mark se valorizar e sugerir que o restante da Comunidade fizesse o mesmo, deixando suas moedas flutuarem. Entretanto, se tal movimento já tornara as exportações alemãs não competitivas, a França não se arriscaria: enquanto Alemanha e Holanda empregaram taxas flutuantes, os outros países impuseram controles de capitais, o que tornaria impossível manter qualquer paridade entre as moedas.

A segunda onda da crise de estabilidade ocorreu em agosto, quando os EUA pararam oficialmente de converter dólar em ouro, o que eliminaria qualquer possibilidade de estreitar as taxas de câmbio dentro do cronograma estabelecido pelo Plano Werner. Uma alternativa foi o acordo Smithsoniano, assinado em 1971 pelo Grupo dos Dez22 e que seria operacionalizado pelo Bank for International Settlements (BIS), estabelecendo uma margem de flutuação de ±2,25% para cima ou para baixo (formando o “Túnel da Cobra” para os Membros da CEE), o que pareceu, segundo Dinan (2014, p. 131), colocar a Comunidade “de volta aos trilhos”. Contudo, para Clemens et al. (2008), desde seu início o sistema sofrera com a especulação dos mercados financeiros, e não conseguiria se provar como alternativa, sendo logo abandonado por alguns signatários, representando a crise do petróleo em 1973 a pá de cal sobre o acordo, uma vez que, segundo Eichengreen (2007), os governos não foram capazes de impor políticas austeras que garantissem a paridade das moedas.

Levaria mais cinco anos até que o presidente de Comissão Europeia, Roy Jenkins, procurasse os meios de revitalizar a integração europeia, ajudando pessoalmente os países a conciliarem suas taxas de câmbio, chegando a pedir, em um encontro em Bonn em 1977, a intervenção do então Chanceler alemão Helmut Schimdt, que não pensava em se comprometer com tal assunto. Contudo, em 1978, a acentuada preocupação de Schimdt em relação às constantes depreciações do dólar que, segundo Dinan (2014, p. 166), reduziam a competitividade das exportações alemãs e ameaçavam os empregos no país, o levou a pensar profundamente sobre um sistema monetário europeu que amortecesse os impactos das ações americanas à economia alemã, principalmente depois da troca de acusações com o então presidente americano Jimmy Carter23. Mais do que isso, Dinan (2014, p. 166) pontua que esta seria a forma do Chanceler “demonstrar aos EUA que a Europa queria e

22 Alemanha, Bélgica, França, Holanda, Itália e Reino Unido eram os representantes da Comunidade Europeia, contando o grupo ainda com Canadá, EUA, Japão, Suécia e Suíça.

23 De acordo com Dinan (2014) Schimdt entendia que a recuperação econômica dos EUA ocorria às expensas das economias europeias, e pretendia minorar os impactos causados pelas ações dos americanos.

estava apta a responder à pobre liderança dos EUA em assuntos econômicos internacionais”.

A época, Valéry Giscard d'Estaing havia substituído Georges Pompidou na presidência da França e assumiria a liderança do projeto ao lado de Schimdt. Esse posicionamento francês decorreu, segundo Gillingham (2003) da nova proposta política de Giscard que pregava a austeridade:

O Plano Barre veio na esteira de ciclos caracterizados por desvalorizações seguidas de aumentos dos salários, gastos do governo, inflação, as falhas no controle de capitais e regimes de crédito restritivo para limitar ainda mais as desvalorizações. Assim, representou um ponto de viragem fundamental no pensamento econômico francês estabelecido. No futuro, apenas os socialistas e comunistas de esquerda se oporiam a política do franco forte, que, removendo as vantagens de uma moeda depreciada, forçaria os produtores franceses a competir, manter os salários em linha, e colocar uma tampa sobre a inflação. (GILLINGHAM, 2003, p. 133).

Para Dinan (2014, p. 166), “a vantagem para a França de ligar o fraco franco ao forte Deutsche Mark era óbvia, especialmente se a Alemanha arcasse com os custos de manter a paridade entre eles”, se tornando uma “iniciativa franco-germânica”. Contudo, os demais Membros, conforme pontuado por Eichengreen (2007, p. 284), ponderavam sobre a dominância do Deutsche Mark na Europa como consequência natural do compromisso da Alemanha com a estabilidade de preços, além da falta de habilidade dos demais para tanto. Desta forma, para sua viabilidade, segundo Gillingham (2003), um sistema do tipo deveria envolver um arcabouço funcional suficientemente forte para proteger a vulnerabilidades econômicas de cada país – especialmente da França.

Schmidt e Giscard d'Estaing trabalhariam secretamente em um plano entre janeiro e fevereiro de 1978 a ser apresentado no Conselho de Copenhague. A proposta, bem recebida por Jenkins em 1978, apregoava a criação do Sistema Monetário Europeu (SME) que funcionaria, conforme observado por Dinan (2014, p.

167), por meio de “um mecanismo de taxas de câmbio usando uma grade de paridade e um indicador de divergência com base em uma unidade artificial de conta formada por uma cesta das moedas participantes, ponderadas de acordo com seus valores”, servindo, como anotado por Clemens et al. (2008), como uma referência monetária abstrata a Unidade Monetária Europeia (UME), a ser sustentada por algo em torno de 15-20% das reservas dos bancos centrais de cada país. Tal medida envolvia, naturalmente, as autarquias e organismos nacionais que deveriam tanto concordar com as paridades, quanto adaptar suas políticas fiscais, não confiando apenas na

intervenção dos governos com moedas fortes para a manutenção do sistema que entraria em vigor em março de 1979.

Mais do que assumir a liderança do trabalho conjunto entre os Estados Membros, a Alemanha teve um papel fundamental na concepção, articulação e operacionalização do SME, em especial em relação à disposição em bancar a participação da Itália e da Irlanda, uma vez que a proposta de utilizar os recursos do Fundo de Desenvolvimento Regional para este fim fora vetada por França e Reino Unido. De acordo com Gillingham (2003, p. 134), o SME tenderia a ser mantido “por força de uma especial relação franco-alemã permitindo aos dois marcharem na vanguarda de um processo que os outros seguiriam em sua própria velocidade”. Ainda de acordo com Gillingham (2003, p. 134), isso revelava a vontade da Alemanha de manter “um sistema monetário para disciplinar as economias vizinhas, uma vez que as nações em questão adotaram a desinflação como o objetivo preeminente da política”. De fato, segundo Eichengreen (2007, p. 286), “com as moedas europeias agora ancoradas ao Deutsche Mark, a inflação caiu, embora gradualmente, de 10%

em 1980 para 8% em 1982, 6% em 1984 e 2% em 1986”, em média para os países participantes do SME.