1.2 INSTABILIDADE E REFORMA
1.2.1 REUNIFICAÇÃO E REFORMA
A partir da década de 1980, o PIB da economia alemã cresceria bem mais lentamente, acompanhado pela inflação que se arrastava desde a década anterior, refletindo, de acordo com Braun (1990, p. 170), “o impacto deflacionário de demanda da dramática alta do preço do petróleo, depois do final de 1978 e as políticas econômicas e financeiras restritivas”. De acordo com Carlin (2002), mesmo depois de intensificar sua produção com capital, tendo em vista a escassez de trabalho qualificado durante a década a competitividade externa da economia alemã cairia em cerca de 12% em relação aos seus principais competidores. Para o autor, a diminuição das margens de lucro em face do aumento dos salários e da diminuição dos preços de exportação poderia explicar essa situação caso a variação da taxa de lucro se mantivesse constante.
Entretanto, a partir de 1983 a recuperação na taxa de lucro demonstraria, segundo Carlin (2002, p. 477), que “diferente das maiores economias europeias e os EUA, a Alemanha manteve, durante os anos 1980, uma estrutura industrial que era altamente correlata à estrutura das exportações mundiais”. Além disso, deve-se ainda pontuar a rápida apreciação do dólar em relação ao Deutsche Mark a partir de 1980, o que constituiria importante fator para a recuperação das exportações, depois das consecutivas valorizações do Deutsche Mark desde a década de 1970. De fato,
segundo dados do Banco Mundial, em relação ao PIB o consumo interno – tanto privado (3%) quanto público (2%) – entre 1979 e 1985 subiria, mas não a níveis sustentáveis capazes de garantir o crescimento a longo prazo. De acordo com Braun:
Desde o início de 1983, a economia Federal alemã experimentou uma recuperação, desencadeada pela demanda interna, mas depois sustentada pela demanda externa, que empurrou para cima o superávit externo atual para mais de 2 por cento do PIB em 1985, e baixos preços das matérias-primas (especialmente o óleo mineral). Devido ao fato de que este período também foi período de ajustes e de desinflação, a recuperação econômica foi fraca em comparação com experiências passadas. (BRAUN, 1990, p. 170).
A partir de 1987, a inflação subiria acompanhada pelo PIB e pelos investimentos, até 1989, momento em que uma mudança abrupta ocorreria na economia alemã. De acordo com Eichengreen (2007), sem qualquer discussão em relação à estrutura política, econômica e legal ideal para a antiga República Democrática Alemã (RDA), as instituições da RFA foram simplesmente “importadas”
para o leste. Inicialmente, depois dos protestos em Berlim, que clamavam pela vinda do Deutsche Mark24, Kohl e sua contraparte, Lothar de Maizière, primeiro ministro democraticamente eleito naquele país, assinaram, em maio de 1990, um acordo propondo a unificação econômica e monetária dos dois países. Ainda segundo o autor, a conversão monetária e todo o sistema financeiro ocorreria de uma vez, incialmente, com a moeda já em 2 de julho, e depois com a instalação de filiais bancárias. Com a ratificação do “Tratado 2+4” em 3 de outubro, as duas “Alemanhas” voltariam a ser, politicamente, uma só.
Se as estruturas política e legal foram aparentemente fáceis de implementar no Leste, a situação econômica se agravaria rapidamente, conforme o processo de privatização ia se desenvolvendo. Este processo seria incumbência da Treuhandanstalt (literalmente, instituição de confiança), a qual, conforme identificado por Hölscher e Hochberg (1998), mantinha uma hipótese otimista a respeito da competividade das quase nove mil empresas a serem privatizadas. Era esperado que, de todas as empresas a serem privatizadas pela Treuhand, 30% estivessem em plenas condições de concorrer imediatamente após a unificação monetária, enquanto 50%
precisariam de uma longa fase de reestruturação e 20% estavam à beira da falência.
De acordo com Eichengreen (2007), a região seria atingida por uma grave recessão com o produto real caindo em 30% entre 1990 e 1991 e a produção industrial quase 50%.
24 “Kommt die D-Mark, bleiben wir. Kommt sie nicht, gehen wir zu ihr”. (Venha o Marco, e nós ficamos. Se não vier, nós iremos a ele).
De fato, quando se leva em consideração a produtividade das empresas orientais, der Heyden (1995) argumenta que as empresas já estavam pagando excessivamente aos trabalhadores, temendo uma migração em massa para o ocidente. De acordo com Sander e Schmidt (1993), por volta de 1989, com o fim dos agrupamentos cooperativos de trabalho, os administradores se sentiram livres para aumentar tanto os seus próprios salários, quanto dos empregados, o que era incentivado pelos sindicatos, sem muita resistência por parte do governo. Para Eichengreen (2007, p. 321), a possibilidade de uma migração em massa preocupava os sindicatos, que temiam que a mão de obra mais barata dos alemães orientais depreciasse os níveis de salários vigentes no ocidente, minando sua posição de barganha, passando a argumentar que essa atitude seria uma forma de demonstrar
“simbólica solidariedade social”.
Contudo, isso passaria a ser um problema quando os novos níveis salariais da região fossem comparados com sua produtividade, que mal chegava a 1/3 do Oeste.
Além das plantas e equipamentos antiquados, a inserção do Deutsche Mark (precipitada ou não), com a convertibilidade de 1:1, quando, de acordo com Hölscher e Hochberg (1998), a paridade real era de 1:8, dissiparia qualquer competitividade dos produtos produzidos naquela região. Como resultado, de acordo com os autores, a região passaria a ser extremamente dependente de importações, uma realidade constrangedora quando se leva em consideração que a extinta RDA, além de possuir relativa autossuficiência, exportava seu excedente para os outros países componentes da URSS, não representando as importações mais de 20%. Antes da reunificação, a RDA exportava para os outros países comunistas parte considerável de toda sua produção de bens. Sem qualquer possibilidade de competir, já entre 1991 e 1992, os estados orientais dependiam dos estados ocidentais para suprir 74% de seu consumo, ao passo que, de tudo que era exportado pela Alemanha, apenas 2% eram produtos do leste do país.
Havia pouca demanda para o que era produzido, uma vez que os consumidores agora tinham acesso aos produtos do oeste. À conversão de um-para-um entre o Östmark e o Deutsche Mark aplicadas para o pagamento de salários, os salários de 1989 teriam sido igualmente um terço do nível dos alemães ocidentais. Mas os salários estavam subindo antes da conversão de moeda ocorrer. Os contratos negociados no primeiro semestre de 1990 asseguraram acréscimos de 17 por cento. (EICHENGREEN, 2007, p. 322).
Segundo Eichengreen (2007), com os níveis salariais alcançando 80%
daquelas praticados no Oeste e a produtividade apenas 46%, o Pacto de Solidariedade
I25, aprovado em 1993 e outras medidas de transferência de renda foram essenciais para evitar uma potencial migração, haja vista a iminência de desemprego em massa.
Uma medida dessa magnitude seria possibilitada, segundo Eichengreen (2007, p.
322), pelos tamanhos relativos das economias desses países: “em termos econômicos, a RDA era menos do que um décimo do tamanho da RFA”, podendo, esta última, “elevar os padrões de vida do Leste por mais da metade, transferindo
‘meros’ 5% de sua renda nacional”.
A ausência de políticas que garantissem o desenvolvimento econômico, atreladas às incertezas em relação aos direitos de propriedade naquela região, levaram as decisões sobre investimentos dependerem cada vez mais de subsídios, o que encorajava, de acordo com Sinn (2000, apud. Eichengreen, 2007, p. 327), decisões de investimentos não economicamente viáveis a longo prazo. Logo, segundo Eichengreen (2007), o crescimento da região cairia a níveis ainda menores do que o do Oeste, com o desemprego estabilizando em 18%. Em comparação à URSS, o autor chama a atenção para o fato de o fraco desempenho econômico da região fazer com que ela se comportasse mais como uma economia já estabelecida do que com uma em transição.
A realidade da Alemanha reunificada estava bem distante de um projetado segundo Milagre. Apesar da discussão existente sobre a ausência deste segundo milagre, Abelshauser (2014) argumenta que os processos de reconstrução (depois da Segunda Guerra) e de reunificação foram, fundamentalmente, diferentes, e esperar que as reformas liberais e monetárias propostas em ambos os casos surtissem resultados parecidos seria um erro, uma vez que em ambos os processos as reformas se deram de maneiras diversas, além de ocorrerem reformas sociais distintas e auxílio externo no primeiro caso (Plano Marshall).
A ausência do projetado “Novo Milagre” tornou-se clara quando, depois do crescimento de 5,11% do PIB entre 1990 e 1991, segundo dados do Banco Mundial, a economia alemã entrou em recessão em 1992, apesar da manutenção nos níveis de consumo. Embora o consumo total tenha alcançado, em 1993, 75,5% do PIB, a recessão seria precipitada pela queda nos níveis de formação bruta de capital fixo, que entre 1992 e 1993, apresentaram um decréscimo 4,2%, de acordo com dados do Banco Mundial. De acordo com a Instituto Alemão para Pesquisas Econômicas (DIW do alemão) (1996), os investimentos haviam sido grandes responsáveis pelo crescimento da economia até 1994, quando seu abrupto decréscimo e a ausência de estímulos governamentais (especialmente no âmbito monetário) levaram a
25 Para uma breve análise, vide Kraft e Kraft (2014).
deterioração da economia26. Com a queda na participação do consumo e investimentos no PIB demarcadas em 1994, a recuperação da economia viria por meio do setor externo, com as exportações se recuperando em 7,1% e passando a representar 21,1% do produto – ponto ressaltado como essencial pela DIW (1996) para que se recuperasse o crescimento.
Fonte: Elaboração própria com dados do Banco Mundial.
Este momento de instabilidade durante o período de reunificação passaria demarcando uma característica interessante da economia alemã, a partir de 1994. As exportações ditariam o ritmo de crescimento do país, com os níveis de consumo interno e investimentos estáveis ou, eventualmente, declinando. De fato, enquanto a homologação do Tratado de Maastricht em 1992 representaria um grande avanço em relação à integração dos mercados, com a barreiras sendo cada vez mais suprimidas, a adesão de Áustria, Finlândia e Suécia em 1995 significaria novos mercados externos a serem explorados. Além disso, já no princípio da década de 1990, os países da antiga URSS começaram a reformar suas economias e, para tanto, demandavam bens da Alemanha, constituindo-se, de acordo com o DIW (1997)27, importante pilar para a manutenção do crescimento do país – em 1996, ano em que houve queda no consumo (-0,5%), gastos do governo (-2%) e investimentos (-1,5%), o salto de 12,3% do valor
26 De acordo com o DIW (1997) as políticas contracionistas para aumentar a competitividade dos produtos alemães nos mercados estrangeiros depreciavam a demanda doméstica e forçavam parceiros comerciais a se ajustar.
27 Para uma análise mais profunda, vide DIW (1998).
Gráfico 3
Economia Alemã: Variação % Anual PIB, Investimentos, Consumo e Exportações (1985 – 1995)
-8%
-6%
-4%
-2%
0%
2%
4%
6%
8%
10%
12%
14%
1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 PIB Investimentos Exportações Consumo
de exportações garantiu o crescimento de 1,85% do PIB, segundo dados do Banco Mundial.