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A longa e turbulenta travessia à outra margem do rio

II.IV Aberturas e conflitos no bloco do poder: Entre avanços e recuos, o governo

Geisel é reconhecido pela distensão. A busca de institucionalização do regime militar, via abertura política, não foi inicialmente determinada “de fora para dentro”, isto é, não foi fruto do crescimento inusitado das pressões vindas da sociedade civil. Por meio de algumaa mudanças, o objetivo era solucionar certas contradições existentes no próprio sistema de poder, que diziam respeito ao papel das Forças Armadas enquanto “Poder Dirigente”. Ao mesmo tempo, a distensão não foi um projeto acabado desde o seu início, mas um objetivo estratégico definido, acompanhado de orientações institucional táticas

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gerais para alcançá-lo, esboçadas pelo núcleo que assumiu o governo em 1975 (Starling, 1984; Gaspari, 2003 e 2004).

No bipartidarismo criado pelos militares em 1965, o governo, pela primeira vez, apesar da censura aos meios de comunicação e a inexistência da liberdade de expressão e de organização da sociedade, foi derrotado nas urnas em 1974, com expressivas vitórias do MDB. Ainda em 1974, os empresários iniciavam a campanha contra a estatização, abrindo profundas frestas nas relações entre o regime e sua importante base de sustentação social. Ao mesmo tempo, a fase do “milagre econômico” do governo Médici, no qual o país experimentou crescimentos de cerca de 10% anual do Produto Interno Bruto – PIB -, caminhava para o fim. O governo Geisel colocava a causa central dos problemas da economia brasileira na crise internacional do petróleo.

Para Oliveira (1977:107-108), o modelo económico entrou em crise, sobretudo pelo facto de que o padrão de acumulação, tendo por base os bens de consumo (Departamento III – que teria como condição de crescimento e expansão o mercado interno) e entra em contradição com o controle externo da propriedade do capital, utilizado no Departamento III, que queria continuamente o retorno de lucros, visando à circulação internacional do capital. O que estava colocado era quem iria financiar o processo de acumulação interna de capital, o que gerou outros impasses na economia: se o carro chefe passasse para o Departamento I (bens de capital e insumos), haveria necessidade de importações de tecnologias específicas, entre outras. Para isso, era preciso criar excedentes na balança comercial e, a essa altura, o endividamento externo era crescente.

Na política, o governo sofreu um forte desgaste perante a sociedade civil com o fechamento do Congresso Nacional, em 1º de Abril de 1977. Investido de plenos poderes, Geisel editou um conjunto de reformas institucionais que ficaram conhecidas como

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“Pacote de abril”: “Foram eventos de outra ordem que também marcaram decisivamente a conjuntura dos dois últimos anos de seu governo, num sentido determinante para o processo de distensão. Seria um conjunto de manifestações que Martins e Cruz reconheceriam depois como ‘o verdadeiro despertar da sociedade civil’, colocando novos problemas para o núcleo no governo. Além disso, a surda luta nos bastidores do sistema de poder em torno da sucessão presidencial de que até então se tinha notícia mais por indícios do que por explicitações, mais por conjecturas do que por pleno conhecimento – também ela salta à luz do dia e passa a ser travada à vista de todos” (Starling, 1984: 52). O governo Geisel confrontou-se desde o seu início com opositores internos alinhados com a extrema-direita militar, que geraram inúmeras crises dentro das Forças Armadas, revoltados com a proposta de abertura política acenada pelo presidente. Esses opositores atuavam com o respaldo de comandos – sobretudo, em São Paulo, área do II Exército – a repressão, ora voltada contra o PCB, seguia em sua mórbida batida, sem limites ou normas (Cruz e Martins, 1983: 53).

O ano de 1977 fora o ano chave no processo de transformação do regime (Idem: 54). Sobre o Pacote de Abril, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB - em unanimidade de seus conselheiros, reagira com veemência e, em nota de repúdio, classificava a medida palaciana de “crescente desfiguração do Estado de Direito” e reclamava o fim do AI-5, que deveria vir acompanhado de “ampla reforma constitucional a ser feita por assembléia constituinte eleita especialmente para esse fim” (Ibidem: 55-56). A abertura começava a produzir efeitos positivos na imagem do governo e contribuir para que Geisel fizesse seu sucessor, João Baptista Figueiredo, sem a interferência dos grupos da extrema-direita militar:

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“É em nome da abertura que a quase totalidade da grande imprensa vai aderir ao candidato oficial, denunciando como aventura golpista a hipótese de resistência militar. É a promessa de abertura que aplaina o caminho para o realismo dos segmentos ditos liberais do empresariado que, fugindo a qualquer contato com Euler, vão ao encontro de Figueiredo na qualidade de futuro presidente, expondo os seus pontos de vista, formulando suas demandas e propostas... os setores liberais que haviam fustigado o governo pouco tempo antes aplaudem o projeto de abertura, nele enxergando a saída possível e desejável para o impasse político em que se debatia o país” (Ibidem: 60).

Mesmo no final do governo Geisel, após a abolição do AI-5, aprovada em Dezembro de 1978, permaneceu a Lei de Segurança Nacional, que permitia a apreensão e a suspensão de jornais e revistas. No governo Figueiredo, foi sancionada a lei nº 7.170, que abolia a interferência da Lei de Segurança Nacional na legislação da imprensa. “Mas apenas com a promulgação da nova Constituição que a imprensa recuperou suas garantias de livre expressão” (Abreu, 2003: 64).

Na contraditória e nada linear tentativa de manter uma aparência democrática ao país, Geisel preservara a Lei de Segurança Nacional, mantivera dezenas de Atos Institucionais e Complementares, que perderiam apenas os dispositivos que contrariassem a Constituição; não revogava o Pacote de Abril, nem a Lei Falcão, e ainda criava o Estado de Emergência: “Esse instrumento que dispensava a aprovação do Congresso facultava ao presidente suspender todas as garantias individuais; suspender todas as liberdades públicas; intervir nos sindicatos; suspender imunidades parlamentares; atribuir às Forças Armadas todos os poderes de política e entregar ao julgamento de tribunais militares todos os que forem presos durante a sua vigência” (Cruz e Martins, 1983: 60). Sobre a

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reforma partidária de 1979, houve uma grande surpresa no rol dos atores políticos. Surgia o Partido dos Trabalhadores. O PT fora o destaque.

O regime militar recorreu à fragmentação do sistema partidário para aumentar as chances de vitória do partido do governo. Os políticos, reforçando de bom grado essa tendência, aprovaram uma legislação eleitoral altamente permissiva, que levou ao Congresso com 19 partidos (Skidmore, 2000: 43).

Sobre o projeto de distensão de Geisel ressalta-se que “para que esse projeto se concretizasse, fazia-se necessário que o governo permitisse a livre manifestação do eleitorado, a revitalização do sistema partidário e a liberalização da imprensa, como instrumentos de recuperação da legitimidade política” (Abreu, 2003: 45).

A economia dava seus sinais de abalo: “A crise do petróleo serviu como importante fator de desnudamento do modelo econômico adotado pelo regime militar e foi o motor de aglutinação dos opositores e descontentes com a política dominante de repressão e censura” (Idem: 46).

Em sustentação ao projeto de abertura, o regime suspendeu a censura prévia do O Estado de São Paulo, o mais respeitável diário do país à época, em Janeiro de 1975; e da revista Veja, em Junho de 1976.

O empresariado nacional, com destaque aos reunidos na Federação da Indústria do Estado de São Paulo – Fiesp - recorrera à imprensa para veiculação de suas opiniões e ideias. Assim, os empresários participavam de debates promovidos pelos jornais, nos quais analisavam a economia e o então modelo de desenvolvimento (Ibidem).

O empresariado foi o último segmento social a alinhar-se nas trincheiras oposicionistas aos militares no poder, na gestão do pacto nacional que teve como elemento unificador a redemocratização do país, que uniu a esquerda e os setores liberais, que, alguns anos

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depois iriam se aglutinar no movimento das “Diretas Já”. Os empresários ressentiam-se de retração da economia, do direcionamento dos investimentos estatais para as próprias empresas do Estado e para as multinacionais.

“A aproximação da imprensa com os empresários nacionais foi uma busca contra a desnacionalização da economia brasileira e contra a centralização do poder. Para ele, o empresariado nacional estava interessado na abertura política, na redemocratização do país, como meio de assumir maior poder de decisão em questão que afetavam a economia” (Ismar Cardona para Abreu,2003: 55).