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chamam socialistas de fascistas e comunistas de moderados

I.VII Liberdade de expressão na ordem do dia: No inverno de 1975, estava no auge o

debate sobre a Lei de Imprensa. O Expresso avaliava que dois aspectos estavam a entravar a sua aprovação. O Conselho de Ministros era favorável à realização de eleições para o Conselho de redação dos jornais e polémico à permanência ou não da Comissão Ad-hoc para a imprensa, rádio e TV, mesmo após a Lei de Imprensa.

O Ministro Magalhães Mota propôs a adoção de um sistema proporcional de listas nos jornais, como análogo ao sistema adotado pela Lei Eleitoral já votada em Conselho de Ministros. O PCP defendia de forma “intransigente” a permanência da Comissão. Por sua vez, o PS e o PPD eram contrários. Na opinião de O Expresso, “no limite o PS poderia admitir a Ad Hoc, com possibilidade de recurso das suas deliberações” (EX, N 106, 11/1/75).

A Lei de Imprensa foi promulgada em fevereiro do ano seguinte, quando consagrava o “direito de informar e ser informado” e “a liberdade de expressão do pensamento pela imprensa”. Os abusos da liberdade de imprensa apenas poderiam ser apreciados pelos tribunais, o que impedia a punição por organismos administrativos, como a Lei Ad Hoc, que na prática deixava de existir, mas que do ponto de vista da lei, ainda sobreviveria até 29 de novembro de 1975 (Mesquita, 1994:365). Outras tentativas vieram, no sentido de bloquear a liberdade de imprensa no decurso revolucionário.

Na Lei de Imprensa estava bem explícito que o diretor do periódico seria designado “pela empresa proprietária, com voto favorável do conselho de redação, quando existe, cabendo recurso para o Conselho de Imprensa” (CD25AUC, 26/2/75). Ao diretor, caberiam a “orientação, superintendência e determinação do conteúdo.”Porém, ao se definir as funções dos Conselhos de Redação, a Lei era evasiva, pois a eles se reservava o direito, ou mesmo o dever de “cooperar com o director nas linhas de orientação”. Mas o

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que seria essa cooperação? E se não se chegasse a um acordo, quem decidiria? Era uma questão crucial.

Merece destaque o facto de a Lei não mencionar a relação política e administrativa da direção e do corpo redacional com os demais sectores envolvidos na produção jornalística, como os publicitários, gráficos e administrativos. Dois meses depois, o documento do Conselho da Revolução ‘Via de transição para o socialismo’, de 11 de Abril, afirmava o “princípio de controle organizado de produção e eficiência” (CD25AUC, 11/4/75; Medina,1993: 204). Assim, estava fincada a pedra angular da autogestão para todas as atividades.

Já nos primeiros meses do processo revolucionário, “multiplicaram-se os conflitos entre as administrações e as direcções com as comissões de trabalhadores e os conselhos de redacção entretanto eleitos” (Mesquita, 1994: 362). O ápice desses conflitos e o mais emblemático deles, sem dúvida, foi o que veio a ser denominado como ‘Caso República’, no primeiro semestre de 1975, que redundou na crise do IV Governo Provisório, com a subsequente saída do PS. O ‘Caso República’ ilustrou bem a luta ideológica que se estabeleceu nas frentes de esquerda, que abarcavam do PS aos grupos mais extremados, entrincheirados principalmente entre os gráficos13.

Após o 11 de Março, com a derrota da direita militar e a consequente partida do General Spínola para a Espanha, os alinhados aos comunistas e às esquerdas avançavam na O “caso República” será abordado no próximo capítulo nacionalizados, enquanto o socialismo se tornava a meta societária declarada” (Agee e

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. linha de poder. “A banca, os seguros e muitos outros sectores-chave da economia foram Traquina, 1987:37) Assim, passaram a ser propriedade do Estado: Diário Popular,

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o Jornal do Comércio, A capital, o Comércio do Porto, o Século, e, em parte, o Diário de Lisboa. O Diário de Notícias já era dependente do Estado antes da revolução.

A autogestão dos trabalhadores estava em pauta, e o limite da autogestão para atividades intelectuais, entre as quais o jornalismo, era um campo nebuloso. A autogestão insere-se na esfera da democracia direta e é um dos temas mais caros da literatura no campo das esquerdas14. Questionava-se: quem imprime o jornal teria o mesmo poder decisório de quem o redige? Era a velha discussão entre trabalho manual versus trabalho intelectual. E a esquerda revolucionária fazia uma leitura rasa sobre o tema, o que redundou em uma visão mais próxima do anarquismo libertário, como se as divisões entre trabalho intelectual e manual pudessem ser diluídas da noite para o dia.

O Ministro de Comunicação Social, comandante Correia Jesuíno, sobre os órgãos estatizados, estava longe de ter uma posição clara. Disse que veria com “muita simpatia se existisse uma certa diversidade de tendências entre eles, mas não no sentido de ligações partidárias. Os órgãos de informação estatizados não devem submeter-se a partidos, mas isso não impede que possa haver um determinado periódico orientado por pessoas com uma visão mais esquerdista do mundo e da vida, enquanto o possa ser por pessoa com uma visão mais conservadora (…) Não estou a ver a necessidade de que as administrações sejam mudadas automaticamente, quando há governos que caiam e novos governos se implantam (…) Há alguns grupos de trabalhadores que, pelas funções que desempenham, não deveriam interferir na política editorial, mas que, todavia, o

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Um dos marxistas que mais se distinguiram na análise desse tema foi Antonio Gramisc, segundo o qual “em qualquer trabalho físico, mesmo no mais mecânico e degradado, existe um mínimo de atividade intelectual criado (...) não se pode separar Homo Faber do Homo Sapiens”. A concepção dialética da história (1987). Civilização Brasileira, Rio de Janeiro:7,8). Porém, estava longe de se afirmar que esta separação cultural e histórica que remonta antigas civilizações seria resolvida de forma simples.

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fazem. Considero que é um problema grave e terá de ser resolvido, mas reconheço que essas situações se têm verificado” (RE, 1/4/75: p.12).

Por sua vez, em finais de Abril, o Sindicato dos Jornalistas aprovou documento no qual “se mostra claramente até que ponto os próprios jornalistas tinham se envolvido na cada vez mais aberta luta pelo poder. Ilustrava também o peso das teorias leninistas da imprensa nos círculos ligados à profissão.”E, mais além, fora o documento: “os jornais devem definir-se como órgãos de combate antifascistas, anticolonialistas e antiimperialistas, colocando-se assim intransigentemente ao serviço dos interesses e das lutas dos trabalhadores, operários, camponeses, massas populares e explorados” (Agee e Traquina, 1986: 38)