2.2 TEORIA ATOR-REDE: UMA SOCIOLOGIA PARA REAGREGAR O SOCIAL
2.2.5 Abordagem 5: Consequências Políticas da Teoria
Já se comentou sobre a artificialidade da divisão da apresentação da ANT em abordagens. Entretanto, há uma justificativa para a utilização das cinco abordagens neste trabalho: as abordagens criam um passo-a-passo no sentido de apropriação da metodologia. Na cronologia da elaboração da ANT, a conceituação das consequências da teoria foi uma etapa que surgiu por último. Natural que as consequências da aplicação da teoria também sejam o último passo para a compreensão da ANT como teoria e como metodologia.
A proposta das abordagens tem como objetivo fundamentar passos metodológicos na aplicação da ANT. É a partir dos fundamentos das abordagens que
52 Beware, then, of this chapter, but beware even more of any text about actor-network theory that
se construiu a hipótese desta tese e a proposta metodológica da tese, como será possível verificar no próximo capítulo.
Inicia-se com a apresentação dos conceitos de semiótica material e relacionalidade. Com base nesses conceitos se discute consequências da teoria e, principalmente, o que se poderia chamar de propostas finais. O plural é utilizado porque se depara com a possibilidade de se desenvolver mais de uma linha autoral, como demonstrou Law (2007) ao comentar sobre o processo de diáspora da ANT afirmando que não há uma única proposta que possa representar o pensamento da teoria. Neste item se destaca Law (2007) que discute o conceito de política ontológica e Latour (2012) que discute a proposta de reagregação do social53.
A despeito da diversidade de propostas, permanece como a característica fundamental da ANT o fato de que escrever textos sobre o mundo é mais do que necessário, é a essência da teoria. Para Law (2007), usar a ANT é escrever relatos e afirma que fazer um texto e explicar a ANT em tópicos é perder o sentido da própria teoria. Latour (2012) parece ter uma proposta um pouco mais pragmática, ou mais ativa, uma vez que propõe que se deve avaliar os impactos dos relatos com os atores envolvidos. Para Latour (2012), o controle de qualidade dos textos ANT deve ser escrupuloso o suficiente para verificar se poder e dominação são explicados pela multiplicidade de objetos para os quais se atribuem um papel muito importante e que são movidos por veículos empiricamente invisíveis.
O desafio de desenvolver esta abordagem é explicar como a utilização dos conceitos da teoria utilizados em um relato de caso se transformam em consequências políticas.
2.2.5.1 Teoria Ator-Rede 1990 por Law (2007)
Na abordagem 3, apresentou-se uma explicação de Law (2007) que propôs quatro momentos na construção da ANT. Nesta seção, se retoma esta cronologia para apresentar o quarto momento – o momento da relacionalidade pós-estruturalista caracterizado pelo uso dos conceitos de semiótica material ou relacionalidade
53 Para se situar cronologicamente a produção da ANT, o texto original desta referência de Latour é de
semiótica-material. Passado esse último momento, Law (2007) considera que a teoria atingiu um nível de reconhecimento ou estabilização da ANT que o autor chama de ANT 1990.
Portanto, no momento de relacionalidade pós-estruturalista, com o conceito de relacionalidade semiótica material, a teoria chega ao ponto de maturidade. A partir deste ponto de estabilidade, a teoria sofre um processo que Law (2007) chama de diáspora, da qual um dos produtos finais é o conceito de política ontológica.
Mas se anteciparam conceitos. Seguir-se-á a discussão que Law (2007) oferece. Primeiro, se apresenta o conceito de relacionalidade pós-estrutural e, depois, o conceito de ANT 1990 juntamente com o conceito de relacionalidade semiótica material. Por fim, é discutida a política ontológica.
2.2.5.2 Relacionalidade pós-estruturalista
Para Law (2007), ao dividir com o pós-estruturalismo uma série de preocupações intelectuais quais sejam: a descrição detalhada de relações precárias, uma preocupação com materialidade nos seus diferentes tipos e, por último, como tudo isso se junta ou não, a ANT poderia ser considerada uma versão empírica do pós-estruturalismo.
Para explicar o pós-estruturalismo, Murphy (2005) afirma que dos quatro dogmas básicos do estruturalismo, o pós-estruturalismo concorda apenas com o primeiro que é a rejeição do argumento de que a consciência subjetiva é a explicação e a propulsora dos significados, das práticas e das ações. Os outros dogmas do estruturalismo que o pós-estruturalismo nega são que os significados, as práticas e as ações só podem ser explicados pelo estudo das relações entre os elementos das estruturas ou sistemas e que a oposição binária é a chave para entender relações estruturais entre elementos, por exemplo, significante/significado, cru/cozido; masculino/feminino. Também há uma tendência a apenas preocupar-se com análises sincrônicas, ou seja, estudar as relações entre elementos de uma estrutura apenas no momento. É sobre este último dogma que se estabelece a mais importante crítica ao estruturalismo devido a sua inabilidade de realizar análises diacrônicas ou de explicar as mudanças das estruturas e sistemas ao longo do tempo (MURPHY, 2005).
Law (2007) destaca a semelhança entre os conceitos de discurso, ou
episteme, de Michel Foucault cuja estratégia produtiva e caráter relacional não estão
distantes do pedido da ANT de explorar o caráter estratégico, relacional e produtivo de ator-redes únicos, de pequena escala e heterogêneos. Como, por exemplo, o relato das vieiras na baia e Saint Brieuc e o relato da descoberta das causas do antraz por Pasteur. Law (2007) também afirma que tendo oferecido descrições históricas de traduções que aconteceram, mas não diagnósticos a partir de sínteses epistêmicas de época, a lógica da ANT permanece semelhante com a lógica de Foucault, bem como a filosofia nômade de Deleuze.
Portanto, este último momento, que é o da influência do pós-estruturalismo somado aos três outros já apresentados – estudos de sistemas, novas abordagens da sociologia da ciência e apresentação do conceito de tradução, leva ao reconhecimento da ANT como uma abordagem distintiva da teoria social. Law (2007) marca esse momento de estabilização chamando a teoria de ANT 199054.
2.2.5.3 ANT 1990
Para explicar o que é a ANT 1990, Law (2007) lança mão do conceito de relacionalidade semiótica-material; da possibilidade de erosão de fundamentos da sociologia, ou dualidades, ocasionada pelo emprego da semiótica material, bem como daquilo que substituiu tais fundamentos e que o autor chama de durabilidade.
Para explicar o conceito de relacionalidade semiótica-material, Law (2007) refere-se mais uma vez aos estudos de caso exemplares e cita seu próprio estudo sobre o domínio dos mares pelos portugueses onde desenha uma rede complexa de elementos – navios, velas, marinheiros, navegadores, lojas, condimentos, ventos, correntes, astrolábios, estrelas, armas, efemérides, presentes, duplicatas, que formatados pela rede permitiram tornar Lisboa um ponto de passagem obrigatório (LAW, 1986). Crucial para o sistema foi a tecnologia que desenhou um tipo específico de navio que circulava pelo mundo, porém mantinha sua forma – um móvel imutável (LAW, 2007).
Para Law (2007), o texto sobre o domínio dos mares pelos portugueses emprega todos os principais conceitos da ANT 1990. Trata-se de uma rede onde os elementos se definem e se moldam uns aos outros (relacionalidade semiótica), onde ocorre a mistura de atores humanos e de outros tipos (heterogeneidade), onde há a presença abundante de coisas materiais e não só sociais (materialidade) e cada elemento precisa exercer seu papel ou tudo ficará solto (insistência no processo e na sua precariedade), onde o poder é efeito da configuração da rede. Específico deste caso, o barco explicado como móvel imutável, é uma explicação baseada na atenção ao espaço e a escala que explicam como atores distantes são traduzidos por redes que se estendem.
Segundo Law (2007), o que é novo para a ANT, neste caso, é o interesse por história política em grande escala. Referindo-se ao caso, este mostra como diferenças são geradas em uma lógica relacional semiótica, ou seja, como se trabalha em uma rede, como os elementos mantem-se juntos, como se formatam os componentes da rede e como ela cria periferia e centro. Para Law (2007), em um mundo de materialidade semiótica todas as ações são relacionais e produtivas.
Outra consideração sobre semiótica material é a declaração de Law (1999, p. 3) que diz que a ANT “[...] é uma aplicação cruel da semiótica”. Para o autor, isto significa dizer que as entidades adquirem sua forma e seus atributos como resultados do relacionamento com outras entidades e que materialidade relacional e performatividade são duas características que podem descrever a teoria.
Para Law (2007), ao se adotar o conceito de relacionalidade acontece uma erosão de conceitos fundacionais; conceitos do tipo humano e não-humano, significado e materialidade, pequeno e grande, macro e micro, social e técnico, natureza e cultura. Estes conceitos se desfazem na medida em que é possível explorar conexões estranhas e heterogêneas que conectam e expõem atores surpreendentes e de lugares inusitados. E as consequências não são simples. Para a ANT, por exemplo, humano e não humano tem uma baixa importância analítica inicial porque no conceito da teoria “[...] pessoas são efeitos relacionais que incluem o humano e o não humano [...]” (LAW, 2007, p. 8).
Há dualismos contenciosos, como a distinção entre pequeno e grande. É contencioso porque o princípio relacional funciona tanto para a grande quanto para a pequena escala. Além disso, sendo grande ou pequeno, a rede que permite o ator agir
é sempre uma rede onde a maior parte daquilo que permite o ator agir está escondida e, consequentemente, o ator não conhece ou reconhece totalmente (LAW, 2007).
Porém, há dualismos menos contenciosos, como o tecnológico e o social que estão inseridos um no outro. O que significa que não é possível estudar o social sem explorar a relacionalidade material. Respondendo a pergunta dos sociólogos sobre o porquê da ANT se preocupar tanto com minucias materiais, Law (2007) contra-ataca perguntando por que os sociólogos tem tão pouca noção sobre como o social se forma e como permanece agregado. Enquanto a ANT explora o “como” do social, a sociologia usualmente explora o “porquê” do social (LAW, 2007).
Mas há um problema. Para a ANT, o que substitui os fundamentos que não servem mais como conceito de análise? Nesse sentido, o que a teoria pode dizer a respeito das regularidades que estabilizam as redes? Para Law (2007), a única possibilidade é explorar a lógica da arquitetura de rede e olhar para configurações que possam conduzir para a estabilidade. Law (2007) fala de diferentes tipos de durabilidade. A durabilidade material onde a estabilidade não está nos materiais, mas na configuração da rede porque arranjos sociais não corporificados tendem a manterem-se, comparativamente àqueles que dependem de interação presencial. A durabilidade estratégica, onde as estratégias são desenhadas, a partir de elementos materiais, com objetivo de manutenção da rede55. Na estabilidade discursiva, por sua
vez, a diversidade de discursos permite que uma organização se mantenha de pé por duas maneiras, quais sejam, primeiro, o discurso define as condições de possibilidade das redes de relação, permitindo, dificultando ou impossibilitando maneiras de ordenar tais redes e, segundo, a diversidade permite uma troca de discursos de acordo com a necessidade.
Para Law (2007), essa é a descrição da estabilidade originada pela configuração desenvolvida dentro da ANT 1990. Entretanto, se a teoria recebeu críticas ao propor o conceito de simetria radical que propunha a equiparação de humanos e não humanos, ou natureza e sociedade, com a semiótica material e a estabilização da teoria, a ANT passa a receber críticas não nos seus fundamentos, mas nos papéis nos quais se reconhece e que desempenha. A controvérsia já não agrega em termos de discussão dos fundamentos da teoria. Porém, parte da resposta de Law às críticas demonstra o caminho que, na sua visão, a teoria vai tomando. Para
o autor, o seu interesse é saber como as tradições semiótico-material articularam novas ferramentas intelectuais, sensibilidades, questões e versões de políticas.
Apresentada a explicação de Law (2007) para a ANT que chama de 1990, ou em um nível estabilizado, onde se aprofunda a questão da semiótica material, agora se pode passar para a discussão do conceito de política ontológica.
Porém, antes se faz uma breve síntese histórica. A ANT começa muito modestamente com artigos de um pequeno grupo de cientistas interessados em estudos de ciência e tecnologia. Os primeiros achados lhes permitem avançar propondo novos conceitos e debates. Um deles com a sociologia das ciências ou do conhecimento científico. A ontologia passa a ser uma palavra levada e conta nos estudos sociais. A teoria discute poder, dominação, irreversibilidade da tecnologia. A teoria se estabiliza, passa por um momento de crítica e revisão e segue avante. A ANT se dissolve em áreas em um processo de diáspora. Propõe uma nova sociologia derivada de um novo conceito de social e elabora uma proposta política fundamentada em conceitos com bases pós-estruturalistas, sendo o principal deles a semiótica material que é apresentada na sequência.
2.2.5.4 Semiótica material e política ontológica
Nesta seção, se discorre sobre a gênese do poder no âmbito das associações ou das redes semiótico-materiais. A questão do poder já surgiu em outros momentos desta revisão. A sociologia da tradução produziu, nas análises das intrincadas redes de interações, narrativas sobre o poder (Callon, 1986).
O que se pretende com esta seção é resgatar as posições da ANT sobre dominação, poder e política. O objetivo é construir um entendimento do que seja a proposta da política ontológica para que se possa, à luz destes conceitos, refletir sobre aspectos políticos de processos de planejamento e avaliação que levam em consideração visões de futuro.
Novamente, respeitando a cronologia e a construção da teoria, se começa com Callon (1986) que, com a sua proposta de simetria radical inaugura o movimento de valorização da ontologia. Ao iniciar o texto do artigo seminal sobre tradução, Callon (1986) expressa claramente sua preocupação fundamental – a questão do poder.
Embora tenha proposto para a sua análise o nome de sociologia do poder, o nome resultante foi sociologia da tradução. Também é uma abordagem sobre questões de poder o texto de Latour (1998) sobre associações.
Ainda, o livro A Sociology of Monsters organizado por John Law (1991) traz ensaios sobre poder, tecnologia e dominação. Na obra, Callon (1991) discute a formação de redes tecno-econômicas buscando entender os papéis que atores e intermediários desempenham neste tipo de rede heterogênea, bem como busca entender o processo de criação de espaços unificados e como estas ligações conseguem obter longevidade.
Porém, o fato é que, embora a produção da ANT tenha discutido questões de poder e tenha sido reconhecida como uma abordagem válida e estabilizada, também recebe críticas que vão da acusação de ser gerencialista, de eliminar qualquer coisa que não possa ser traduzida em termos de rede e que não é consciente da sua própria política e, em particular, não é consciente das agendas políticas das suas próprias histórias (LAW, 2007).
O livro Actor Network Theory: and After é resultado de uma espécie de reflexão e reposta a estas críticas. Segundo Mol (1999), Law é o criador do termo ontologia política. Mas é a própria autora que escreve um capítulo para situar a teoria na questão política, de acordo com o movimento de reformulação da ontologia. Para Mol (1999), a ANT e outras abordagens semióticas demonstraram que a realidade é múltipla porque é produzida e resultado de uma variedade de práticas. Sendo múltipla, oferece diferentes opções entre as várias versões de um objeto e possibilita a pergunta sobre qual versão escolher. Porém, há outras possíveis questões: onde estas opções poderiam estar situadas, o que está em jogo quando uma das possibilidades é escolhida. Além disso, a autora afirma que é possível que se queira saber em que extensão se apresentam opções entre as diferentes versões da realidade quando não existe um versão exclusiva e se estas versões conflitam em algum lugar e se dependem uma das outras em outros lugares (MOL, 1999).
Para responder essas inúmeras perguntas Mol (1999) constrói uma argumentação que inicia explicando o termo política ontológica. Ontologia, no significado filosófico do termo, refere-se ao que é real, às possibilidades nas quais se vive. Entretanto, o termo política sugere que tais possibilidades não são dadas e que a realidade não precede as práticas com as quais se interage, mas ao contrário, a
realidade é formatada por estas práticas. Portanto, política se traduz por um caráter aberto e de contestação destas práticas formatadoras da realidade (MOL, 1999).
Porém, Mol (1999) faz algumas considerações fundamentais que permitem discutir ANT e a questão das representações de futuro. Para a autora, “[...] sempre se assumiu que ‘realidade’ não é inteiramente imutável”56 (MOL, 1999, p. 75, grifo do
autor). Essa é a questão tanto para a tecnologia quanto para a política que consideram que o mundo deve ser dominado, mudado, controlado. No âmbito destas duas categorias existe a pergunta, que está em aberto, de como moldar a realidade, uma vez que no futuro ela será diferente. Ao mesmo tempo, se reconhece que se constrói a realidade a partir de blocos permanentes que serão descobertos pela pesquisa científica.
Há outras considerações sobre presente e futuro que auxiliam a discutir a questão do futuro na ótica da ANT. Para Mol (1999), as divisões claras entre presente e futuro têm sido corroídas juntamente com as divisões entre o que é bem definido e o que ainda está para ser formado, entre os blocos de construção da realidade e as maneiras pelas quais eles podem ser ajustados. Como consequência, a realidade, na sua dimensão ontológica perdeu elementos que lhe garantiam o seu estável e dado caráter universal. A realidade passa a ser historicamente, culturalmente e materialmente localizada.
A pergunta “localizada onde?” é de fundamental importância. A autora diz que no caso dos estudos sociais das ciências, a realidade está localizada nos laboratórios que produzem novas ontologias, novas realidades nas formas de vacinas, microchips, telefones, ratos modificados geneticamente e outros objetos. E aqui se usa o plural. Para a autora, se ontologia passa a ser ontologias, no plural, a realidade, por ser determinada historicamente, culturalmente e materialmente localizada em novas ontologias, então ela, agora, é múltipla, no singular (MOL, 1999).
O conceito de multiplicidade da realidade precisa ser explicado. Para Mol (1999), há três conceitos importantes envolvidos com o processo de construção da realidade: perspectivismo, construtivismo e desempenho. Para a política ontológica, o conceito chave é o de desempenho. Perspectivismo significa a negação da verdade singular, objetiva, monolítica. Dada a existência de diferentes experts ou sujeitos, com diferentes olhares, habilidades, históricos e hábitos particulares é possível afirmar que
eles olham o mundo de diferentes pontos de vista. A realidade não é múltipla, mas há perspectivas que se excluem mutuamente, enquanto que o objeto permanece singular, intangível, intocado.
O segundo conceito que Mol (1999) explica é o construtivismo. Este estabelece que a verdade é o resultado de um processo de produção, de apoio, de oposição e de como as versões alternativas foram desacreditadas. Dele, há uma versão social, sobre grupos relevantes de pesquisadores, por exemplo, e uma versão material, as lentes pelas quais a teoria da luz se fez durável, outro exemplo. O problema, segundo Mol (1999), é que para o construtivismo sempre haveria, no passado, a possibilidade de construir outras versões da realidade. Há versões vencedoras e vencidas. E o segredo do sucesso da visão vencedora estaria em intrincadas histórias sociais e não nas leis da natureza. De novo há uma pluralidade de realidades. Mas projetadas no passado.
Para Mol (1999), para falar de realidade múltipla é necessário falar de intervenção e desempenho. Estes conceitos sugerem que a realidade é feita e determinada ao invés de ser observada. A realidade é manipulada com o uso de diferentes ferramentas em diferentes práticas. Porém a realidade são as múltiplas versões de um objeto.
Um exemplo é o da anemia. Existem três formas de caracterizar a anemia: pelo exame clínico do paciente a partir do qual o médico, por meio de perguntas e respostas, dá um diagnóstico; pelo exame laboratorial do sangue do paciente cujo resultado confrontado com os valores de uma faixa ideal de percentual de hemoglobina fornecido pelas estatísticas da população fornece um diagnóstico positivo ou negativo e, terceiro, pelo método patofisiológico que seria identificar exclusivamente naquele indivíduo quais seriam os valores mínimos de hemoglobina no sangue necessária para não caracterizar a doença. Três versões ou desempenhos diferentes para a mesma doença que não são alternativas. Três aspectos da mesma realidade que não se perdem no tempo (MOL, 1999).