2.3 ALINHAMENTO TEÓRICO: ONTOLOGIAS NA CONCEITUAÇÃO, NA
2.3.1 Da Possibilidade de Conhecer o Objeto Futuro
A abordagem conceitual surge da discussão teórica sobre o objeto principal da pesquisa que é o futuro. O caráter ontológico do futuro se fortalece com a utilização da ANT. Nos processos sociológicos de antecipação e expectativa, bem como nos EF se constroem e se utilizam tais ontologias (imagens, visões, protótipos, simulações, tecnologias em desenvolvimento entre outros). Neste trabalho, chamou-se de futuros esperados o processo de construção destes futuros enquanto ontologias. A abordagem conceitual estabelece relações entre as teorias na explicação do objeto futuro, de seu processo de construção e de seu uso. Entendida de forma mais ampla, é uma abordagem sobre como as construções do mundo social e do mundo técnico se relacionam com o processo de construção dos futuros.
A primeira questão é entender o que é o futuro. Para muitos autores não é possível acessar o futuro, se está sempre no presente gerando e gerenciando representações do passado e do futuro (MICHAEL, 2000). Para Sardar (2010), é possível fazer previsões sobre futuros alternativos formatando visões ou inventando futuros preferidos. Segundo Rowland e Spaniol (2015), na prática, os futuros múltiplos coexistem com o futuro singular.
Brown, Rappert e Webster (2000), concordando com a ideia de diferentes futuros, afirmam que é importante saber como e porque certas visões de futuros são estabilizadas e outras não. Para saber como os atores procuram engajar-se e gerenciar as promessas e os riscos que estão implícitos nos seus futuros, Brown, Rappert e Webster (2000) apontam para o discurso do risco, para a reflexividade e para a indeterminação do futuro como três aspectos do discurso da sociedade ocidental. Para Godet e Durance (2011), a prospectiva estratégica propõe a escolha e construção de um futuro, entre tantos possíveis.
No questionamento da abordagem epistemológica e pragmática dos EF, Poli (2011) afirma que seria possível conhecer ontologicamente o futuro, no singular, enquanto fato da realidade. A explicação de Poli (2011) começa com os conceitos de
facta (o que a ciência estuda – fatos e coisas que já aconteceram) e futura (produtos
cognitivos, ideias, expectativas esperanças e medos) que, entendidos apenas desta maneira, isolam o futuro no âmbito cognitivo ou epistemológico. Para entender a ontologia do futuro é necessário se aprofundar no conhecimento do presente. Poli
(2011) propõe um presente aumentado, denso, que ganha duração e profundidade, bem como uma rica e complexa série de estruturas que ligam passado, presente e futuro.
O conceito que permite isso é o de disposição. Introduzido no conceito de
futura permitiu retirá-lo do âmbito das atitudes cognitivas, mentais e emocionais.
Disposições são fatos ancorados no futuro que se tornam reais quando ativados adequadamente. Podem ser reconhecidas como componentes efetivos de entidades reais não importando se tais capacidades estejam em um estado de manifestação ativa ou de latência. O que mais interessa são as disposições relacionadas às capacidades para a mudança de indivíduos, grupos e sociedades (POLI, 2011).
Por outro lado, questiona-se a dificuldade de perceber a ação dos objetos ou sua visibilidade. Para Gells e Smit (2000, p. 132), as “[...] Imagens do desenvolvimento futuro, juntamente com avaliações da situação atual, são frequentes em estratégias que guiam firmas, investimentos públicos e aquisições de consumidores”. As especulações são acompanhadas de imagens de futuro, tanto para a especulação sobre como será a forma da tecnologia, quanto para as tecnologias estabelecidas.
É nesse contexto que a ontologia e, por consequência a ANT, torna-se um conceito adequado para que se possa entender o futuro. Porém, a ANT é anti- essencialista, não reconhece os dualismos; não diferencia ciência (conhecimento) de tecnologia (artefato); fato e ficção são resultados da atividade coletiva (CRAWFORD, 2005). Seguir os atores é a máxima da teoria ANT, sendo que atores também podem ser objetos. Na visão empirista, objetos são muito mais complicados, entrelaçados, múltiplos e complexos (LATOUR, 2006). Para a ANT, os objetos são reais e socialmente construídos ao mesmo tempo (HEUR; LEYDESDORFF; WYATT, 2015).
A ANT inova e se distancia de outras explicações sociológicas ao afirmar que os objetos também agem. Tanto sociedade como poder são derivados de um processo onde humanos e objetos interagem; dominação e poder precisam ser produzidos, feitos, compostos. A ANT chamou a atenção porque sua explicação leva em conta que os agregados sociais não conseguem existir somente por forças sociais, mas necessitam da participação dos objetos. Por isso, a teoria substitui o conceito de vínculo social por associação e sociedade por coletivo, o projeto passa a ser reunir novas entidades heterogêneas ainda não reunidas. Também resulta daí as incertezas em relação à natureza dos objetos (LATOUR, 2012).
Sendo fundamental perceber a ação dos objetos, de como induzem humanos e não humanos a agir, é necessário, uma vez que não são facilmente visíveis, força- los a apresentar descrições de si próprios ou os roteiros de ação. Porém, há situações onde os objetos se tornam visíveis. Nos processos de inovação, no uso de um manual, em acidentes e rupturas, na pesquisa histórica e por fim na ficção, onde objetos atuais são inseridos em estados onde podem fazer sentido (LATOUR, 2012).
Esta visão do objeto da ANT pode ser relacionada a perspectiva ontológica do futuro. São exemplos, o uso de protótipos de ficção científica que exploram a sinergia entre autores de ficção científica e futurologistas (BELL et al., 2013), a verificação da intensidade que os negócios se desenvolvem e como estas tecnologias moldam as pessoas (BIRTCHNELL; URRY, 2013), a busca de novos formatos de deliberação que estejam conectados com a questão da participação dando ênfase à materialidade dos futuros (DAVIES et al., 2015) e a captura da experiência de criação de futuros experimentais e o aumento da capacidade de desenvolver a prospectiva social através de uma exibição participativa e de uma plataforma social online (KELLIHER; BYRNE, 2015).
Para Brown, Rappert e Webster (2000), a tarefa seria analisar o que certos enquadramentos particulares de futuro trazem como consequências. O futuro é um objeto contestado, de ação social e material. Como um território, o futuro desejado é colonizado, a partir do presente, por atores que se engajam em atividades retóricas, organizacionais e materiais. Brown, Rappert e Webster (2000) propõem analisar o futuro, não no seu conteúdo ou o que ele trará, mas o processo de sua construção e gerenciamento, por quem o fará e sob quais condições.
Sendo necessária uma explicação social e material, cabem aqui as explicações da ANT. Com o conceito de associação também se explica o conceito de poder. Este não é uma propriedade de nenhum elemento, mas sim de uma cadeia ou de uma associação estabilizada. Poder e dominação são os nomes dados a essas estabilizações e não a explicação de como chegaram a constituir-se como tal. Eficiência, verdade, rentabilidade e interesse são propriedades das redes e não é necessário ir atrás de causas fora das redes. A realidade é uma cadeia de associações e será mais real quanto maior for seu tamanho (LATOUR, 1998). Da mesma maneira é a realidade futura.