1 2 2 Genealogia do Saber
1.4. Abordagem Experiencial: transformando a atitude de conhecer
O sujeito, que a ciência moderna lançara na diáspora do conhecimento irracional, regressa investido da tarefa de fazer erguer sobre si uma nova ordem científica (SANTOS, 1996: 43). Somos igualmente atores e espectadores das transformações que possibilitam novas modalidades de relações entre nós próprios e o mundo, de modo que qualquer relato será sempre duplamente parcial: singular, uma vez que o que podemos compreender depende de nossa situação, sempre local, no mundo, e não definitivo, por dizer respeito a um acontecimento da nossa contemporaneidade (PEDRO, 1996: 96).
No discurso moderno o espaço é visto como algo genérico, abstrato, meramente constituído por uma relação funcional, matemática e quantitativa entre suas partes e elementos resultando em uma arquitetura autônoma, ideal, dissociada de qualquer sensibilidade – em relação ao contexto ou aos seus usuários (MONTANER, 2001: 31). A idéia de mundo como um sistema ecológico, por sua vez, passa a tratar o espaço físico como um lugar a partir de uma visão fenomenológica36, ou seja, da indissociabilidade entre homem e ambiente. O conceito de lugar, ao contrário do conceito de espaço, considera a experiência humana, tornando o espaço um lugar de vivências, sensações, de caráter único, particular e qualitativo (Quadro 5). “... o lugar é definido por substantivos, pelas qualidades das coisas e dos elementos, pelos valores simbólicos e históricos; é ambiental e está relacionado fenomenologicamente com o corpo humano”
história. Pues según palabras de George Kubler “la história es demasiado imprecisa y breve para poder ser considerada simplesmente como una sucessión temporal, estructurada mediante períodos de identica consistancia”).
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(MONTANER, 2001: 32). Lefebvre (1991) fala da arquitetura como algo que é produzido e reproduzido a partir da interação dos indivíduos e da interpretação que cada um dá ao espaço a partir de sua experiência no lugar e sua história de vida.
A arquitetura produz corpos vivos, cada um com atributos distintos. O fundamento ativo de um tal corpo, sua presença, não é visível nem legível como tal, nem é objeto de qualquer discurso, pois reproduz a si mesma dentro daqueles que usam o espaço em questão, dentro de suas experiências vividas. (LEFEBVRE, 1991: 300)
Segundo Tuan (1983), o espaço só é concreto ou real quando interagimos com ele, pois a realidade se constitui a partir das nossas experiências – pensamento e sentimento. “O que começa como espaço indiferenciado transforma-se em lugar à medida que o conhecemos melhor e o dotamos de valor. (...) O espaço transforma-se em lugar à medida que adquire definição e significado” (TUAN, 1983: 06; 151). O significado ou interpretação que damos ao espaço ao idealizá-lo ou experienciá-lo varia com tempo, a cultura e a nossa própria experiência de vida, memórias, imaginação, que vão, de certo modo, direcionar as nossas sensações no lugar atribuindo-lhe conotações qualitativas. Considerando a arquitetura como um lugar de existência da pessoa, suas propriedades e fenômenos se criam exatamente da presença da pessoa e sua vivência no lugar – a pessoa é o sujeito da experiência.
A Abordagem Experiencial, desenvolvida pelos pesquisadores do ProLUGAR, baseia-se na abordagem atuacionista proposta por Varela, Thompson e Rosch (2003) e no
pressuposto de que “não é possível ter acesso a uma realidade independente do observador, pois ela não é algo pré-determinado, estático e imutável, mas o resultado de uma explicação que não é independente do observador” (RHEINGANTZ et al, no prelo: 10). Desse modo, compreende a relação pessoa-ambiente como uma interação que se dá de forma biunívoca num processo constante. “... caracteriza a experiência do homem no lugar, ou o modo como a um só tempo cada lugar influencia a ação humana; como a presença humana dá sentido e significado a cada lugar” (RHEINGANTZ et al, no prelo: 10). O lugar não existe sem o ser humano, assim como o ser humano não pode existir dissociado de um lugar – suas ações estão impregnadas pela sua experiência no lugar e o lugar constituído a partir de suas necessidades e aspirações, derivadas da sua experiência de vida.
Essa abordagem pressupõe uma visão ecológica de um mundo onde pessoa e ambiente, observador e objeto observado, são inseparáveis (RHEINGANTZ, 2004), em contraposição a visão behaviorista: “Os behavioristas ignoram largamente a interação mútua e a interdependência entre um organismo vivo e seu meio ambiente natural, o qual
também é, ele próprio, um organismo” (CAPRA, 2006: 167). A compreensão que os cientistas têm a respeito do mundo não é necessariamente como ele é, mas sim como cada indivíduo o percebe, razão pela qual atualmente sugere-se o conceito de
interpretação em substituição ao de representação. "O que observamos não é a natureza
em si, mas a natureza exposta ao nosso método de questionamento" (HEISENBERG, 1959: 42) 37. Desse modo, recupera-se o senso comum, pois, assim como, sujeito e mundo estão continuamente modificando-se e influenciando-se, o entendimento do mundo pela cognição está continuamente se fazendo, constituindo configurações provisórias, mais do que verdades definitivas (PEDRO: 1996).
... a cognição não é a representação de um mundo que existe de maneira independente, mas, em vez disso, é uma contínua atividade de criar um mundo por meio do processo de viver. As interações de um sistema vivo com seu meio ambiente são interações cognitivas, e o próprio processo da vida é um processo de cognição (CAPRA, 1996: 197).
O aprendizado da vida deve dar consciência de que a “verdadeira vida”, para usar a expressão de Rimbaud, não está tanto nas necessidades utilitárias – às quais ninguém consegue escapar –, mas na plenitude de si e na qualidade poética da existência, porque viver exige, de cada um, lucidez e compreensão ao mesmo tempo, e, mais amplamente, a mobilização de todas as aptidões humanas (MORIN, 2003: 54).
Segundo Maturana e Varela (1995), pessoa e meio são partes de um mesmo processo vital – idéia da autopoiese – a partir da circularidade de sua interação. A pessoa constitui
seu próprio mundo na sua prática de viver, de modo que age a partir da forma como percebe o mundo e percebe o mundo a partir de suas ações, ou seja, sua experiência e história. Varela et al (2003: 210) propõem que cognição é atuação: “uma história de
acoplamento estrutural que produz um mundo”, ou seja, o ser humano não se transforma para se adaptar ao meio mas, simplesmente, abandona situações que não se adéquam, em face de outras mais satisfatórias ao entrelaçamento entre homem e meio. “... o mundo e a pessoa que o percebe, especificam-se mutuamente” (VARELA et al, 2003: 176). Pode ser vista, portanto, como uma deriva natural e não uma evolução (VARELA et al, 2003: 201).
Como toda ação humana se dá nesse entrelaçamento, toda ação é ação incorporada: (1) pelas emoções e sentimentos da pessoa; (2) pelo contexto biológico, psicológico e cultural – local, história, experiência – indissociáveis do ser humano (VARELA et al: 2003: 177; RHEINGANTZ et al, no prelo: 13). Desse modo, pode-se dizer que o processo cognitivo funciona como um elo que associa pessoa – dotada de emoções e sentimentos –, lugar – vivenciado pelo homem – e situação/ocasião – tempo, momento da experiência
37 Tradução livre da autora (lo que observamos no es la naturaleza en sí misma, sino la
do homem no lugar (Quadro 5): “O mundo se efetiva na conexão e na articulação dos acontecimentos e ocorrências temporal e espacialmente simultâneas, bem como, nas possibilidades ativadas em cada situação vivenciada” (ALCANTARA, 2008: 19). Isso porque nem a pessoa, nem o tempo ou o lugar são permanentemente os mesmos, estão em contínuo processo de transformação a partir da interação e experiência mútua.
Cheguei à conclusão que seja o que for que espaço e tempo signifiquem, lugar e ocasião significam mais; pois espaço, na visão do homem, é lugar, e tempo, na visão do homem, é ocasião. Mantidos fora do mecanismo esquizofrênico do pensamento determinista, tempo e espaço permanecem como abstrações congeladas. (VAN EYCK, 1961: 238 apud FORTY, 2000: 271)
Quadro 5 – Processo Cognitivo
A cognição e o ato de conhecer são, portanto, ações incorporadas, conscientes da experiência de vida do observador – seu background – que guia suas interpretações,
emoções, sensações e sua interação com um determinado lugar ou ambiente. “O observador acontece no observar e, quando morre o ser humano que o observador é, o observador e o observar chegam ao fim”. (MATURANA: 2001: 126) O observador “não pode produzir explicações ou afirmações que revelem ou conotem nada independentemente das operações através das quais ele ou ela gera suas explicações e afirmações” (MATURANA: 2001: 127). Todas as ações operadas pelo ser humano fazem parte da dinâmica de estados do organismo, sendo fenômenos semelhantes, mas que se estabelecem a partir de diferentes relações, fazendo surgir as distinções do observador. Por isso, “Se queremos compreender qualquer atividade humana, devemos atentar para a emoção38 que define o domínio de ações no qual aquela atividade acontece e, no
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Cabe ressaltar a diferente conotação usada pelo autor entre emoção e sentimento, também compartilhada por Damásio (1996: 145), ressaltada por Rosa Pedro (1996: 130) e Denise Alcabtara (2008: 16). Para os autores, a emoção se dá como alterações no corpo, reações que podem se dar de forma mecânica, como relações de causa e efeito no processo biológico. Já o
processo, aprender a ver quais ações são desejadas naquela emoção” (MATURANA: 2001: 130).
De acordo com Varela, Thompson e Rosch (2003), a ciência é uma explicação da experiência humana no mundo, e não de uma realidade independente do homem. Na mesma linha de raciocínio, Maturana (2001: 128) observa que “pensar é agir no domínio do pensar, andar é agir no domínio do andar (...), e explicar cientificamente é agir no domínio do explicar científico” (MATURANA: 2001: 128). Em outras palavras, a ciência passa a ser constituída a partir de ações humanas como conhecer, observar, explicar – ações incorporadas – e se origina de questões particulares, curiosidades, paixões do pesquisador . Estas questões particulares se desenvolvem em função direta da perspectiva do pesquisador, associadas à sua experiência. Em função de sua experiência e de seus interesses, diferentes pesquisadores, mesmo aplicando os mesmos procedimentos em uma determinada experiência ou situação, tendem a ter diferentes interpretações e explicações de suas experiências sejam elas meramente vivenciais ou científicas. Conforme Maturana, (2001: 134), “há tantos tipos diferentes de explicação quantos diferentes critérios usarmos (...) para aceitar os diferentes tipos de reformulação (...) como explicações”.
A atenção e a incorporação das emoções, sensações e estímulos produzidos durante a observação, bem como a indissociabilidade entre pessoa e ambiente são as principais contribuições da abordagem experiencial ao estudo das relações pessoa-ambiente. Com base no pressuposto de Latour (2001: 338) – “não existe um mundo lá fora, não porque inexista um mundo, mas porque não há uma mente lá dentro” – e no entendimento de que os comportamentos e as ações observados não se resumem a uma relação de causa e efeito, a abordagem experiencial busca compreender as razões que justificam os comportamentos observados, inclusive as emoções embutidas nestas ações. A abordagem experiencial se ocupa “do modo como o observador pode orientar suas ações na sua situação local, admitindo-se que essas situações locais mudam constantemente em função da atividade do observador” (RHEINGANTZ, 2004: 07). Desse modo, a abordagem experiencial pode vir a contribuir para superar o distanciamento da tradição
behaviorista nas relações pessoa-ambiente, e busca compreender as razões e
motivações dos comportamentos dos seres humanos em sua interação com o ambiente (RHEINGANTZ et al, no prelo).
sentimento, combina a reação emocional ao afeto da pessoa e os motivos pelos quais certas sensações emergiram dessa experiência, como memórias de outras experiências. Como exemplo, podemos citar a tensão causada ao entrar no espaço penal: a tensão é a reação do organismo causada pela lembrança de episódios agressivos que envolvem esse ambiente, pelo sentimento de medo.
Segundo Thompson (1999, 2001), o indivíduo se constitui a partir de sua interação com o mundo, suas coisas e com as outras pessoas. “No caso humano, o corpo vivo precisa completar a si mesmo não só nas coisas do mundo, mas em outros seres humanos” (THOMPSON, 1999: 09)39. Em outras palavras, a consciência do observador não está em sua mente, mas é inerente ao corpo e às suas relações interpessoais – empatia
cognitiva. “A empatia, como a percepção, é uma forma de experiência direta: da mesma
forma que o senso de percepção nos mostra as coisas do mundo em si, e não a representação das coisas, a empatia nos mostra a experiência do outro, e não a representação dela” (THOMPSON, 1999: 12).40 Na mesma linha de raciocínio, Alcantara (2008: 46) sugere que “Ao interagir empaticamente com os outros sujeitos à sua volta, a atuação passa a ser um sistema único de elementos autônomos ligados intrinsecamente”.
A abordagem experiencial da relação pessoa-ambiente, adotada na presente pesquisa, permite que se identifiquem os atributos qualitativos e as associações entre a conformação espacial do lugar/ambiente e as experiências dos indivíduos, possibilitando intervenções e projetos novos que, de fato, sejam pertinentes em relação aos desejos de seus usuários e ao contexto/programa estudado. A experiência do pesquisador no lugar traz informações mais significativas do que a interpretação distanciada ou a representação, por permitir àquele uma interação com o ambiente e a constatação de suas próprias sensações no lugar. A empatia cognitiva permite proximidade com os usuários na aplicação dos métodos de pesquisa e sua observação atenta, fatores fundamentais para o profundo entendimento do contexto estudado – que foge à realidade do pesquisador. Essa abordagem é fundamental para o desenvolvimento da pesquisa por proporcionar ao pesquisador a vivência no ambiente penal e uma profunda apreensão de sua rotina e realidade através da experiência compartilhada de funcionários e presos no lugar. Apresentados os fundamentos teóricos da pesquisa, será explicitada a sua forma de aplicação no Capítulo 2 – Materiais e Métodos, a seguir.
39 Tradução livre da autora (In the human case, the lived body must complete itself not simply in
things or the world, but in other human beings.)
40 Tradução livre da autora (Nonetheless, empathy, like perception, is a form of direct experience:
just as sense perception gives us the worldly thing itself, not a representation of the thing, so empathy gives us the experience of another, not a representation of it).