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Instituição da República: a Visão Progressista

Evolução da Arquit et ura Penal no Brasil

5. EVOLUÇÃO DA ARQUITETURA PENAL NO BRASIL

5.3. Instituição da República: a Visão Progressista

Em 1889 se inicia o período republicano, a necessidade de se romper com o passado traz a solicitação de um novo Código Penal, elaborado por Batista Pereira, aprovado e publicado em 1891 (BITENCOURT, 2000: 42). Feito apressadamente, o Código mostrou- se defasado em relação ao código do Império, por não levar em conta as novas idéias influenciadas principalmente pelo positivismo. O início do século XX é marcado por um forte movimento nacionalista mundial derivado do estabelecimento da república e a arquitetura passa a ter importante papel neste contexto, sendo usada muitas vezes como representação do poder do Estado através das instituições (BRUAND, 2003), entre elas a prisão, que passou a se apresentar em enormes unidades que abrigavam todo o tratamento penal (JOHNSTON, 2000: 142).

Em São Paulo, a construção da Penitenciária do Estado de São Paulo tem como propósito suprir o déficit carcerário, bem como atender ao Código de 1890 e aderir às idéias da Escola Positiva de Direito. Em 1909 o governo do Estado de São Paulo

promove um concurso público para a escolha do seu projeto (AZEVEDO, 2005: 10). O projeto de arquitetura, de autoria de Samuel das Neves, é construído por Francisco de Paula Ramos de Azevedo. A principal referência é a Prisão Fresnes, adotando o partido tipo telephone-pole plan ou blocos paralelos, que consiste em um edifício com um

corredor central de onde irradiam os corredores de celas perpendiculares (Figs. 132 e 133).

Fig. 132 – Penitenciária do estado de São Paulo

Fonte: Google Earth

Fig. 133 – vista aérea da Penitenciária do Estado de São Paulo

Fonte:

A Penitenciária do Estado, inaugurada em 1921, busca ser um modelo, segundo os mais modernos padrões científicos da época, integrando uma nova estrutura de organização social. Adota-se a prisão celular e o regime progressivo, que acredita na regeneração do delinqüente a partir da reflexão, da disciplina e do trabalho, Como mostra a frase de Herculano de Freitas cunhada em sua entrada: "Instituto de Regeneração - Aqui o trabalho, a disciplina e a bondade resgatam a falta cometida e reconduzem o homem à comunhão social" (AZEVEDO, 1997: 06). Além da função social e econômica, o novo estabelecimento apresenta uma função científica. A adoção do sistema progressivo, como mencionado anteriormente, torna a pena mais individualizada, sendo então necessária a observação constante do preso, assim como estudos criminológicos e psicológicos para aplicação de penas adequadas a cada indivíduo. Tal fato incentiva o

desenvolvimento – pioneiro no Brasil – dos estudos na área, atraindo estudiosos de todo o mundo.

... São Paulo tinha, literalmente, como um de seus cartões postais um presídio: o Carandiru. Digno de nota no Brasil e nas Américas, a ponto de fazer parte de sua rotina o recebimento constante de visitantes (...) até mesmo de Levi Strauss, o Carandiru176 causava tamanha impressão favorável (...) que Stefan Zweig, amigo de Sigmund Freud, escreveu em livro sobre suas impressões ... (CANCELLI: 2005: 154).

Na inauguração, o edifício apresenta dois pavilhões que seguem o projeto original. Neste ano, o número de presos não passa de 280, bem abaixo de sua capacidade. Em função do crescimento ininterrupto do número de detentos a edificação é ampliada, com a construção do terceiro pavilhão – um bloco idêntico aos anteriores –, inaugurado em 1929. Cabe mencionar que na década de 1940, o aumento populacional associado à proliferação do uso de drogas como a cocaína e a heroína e, principalmente, ao estabelecimento do Estado Novo, implicando em crescente número de presos políticos, a penitenciária chega à sua capacidade máxima – em torno de 1235 presos (NOGUEIRA, 1940:23). O elevado número da população carcerária começa então a dificultar o andamento das pesquisas, estudos e análises, por impossibilitar o tratamento mais individualizado, proposto inicialmente.

Em Ribeirão das Neves, MG, no ano de 1938, é inaugurada a Penitenciária José Maria Alkimim, segundo Vaz (2005: 173), a mais antiga do estado. A edificação apresenta a linguagem arquitetônica Art Deco (Fig. 135) e usa o modelo de blocos paralelos (Fig. 134), o mais característico de seu período histórico. A unidade tem capacidade para 600 presos, distribuídos em dois pavilhões de cinco andares. O projeto original apresenta equipamentos comuns como: oficinas, cinema e capela, localizados nas extremidades de cada pavilhão em blocos de 2 pavimentos – hoje desativados, funcionando somente a capela, por questões de segurança. O bloco mais próximo da entrada abriga a administração, cozinha, lavanderia, o controle de pessoal e os equipamentos de saúde da unidade. Posteriormente, foi construído ao fundo da edificação, junto ao campo de futebol, um bloco com oficinas de trabalho (Fig. 136). Os espaços entre os blocos são usados como pátios para banho de sol, permitindo a separação dos presos (Fig. 136).

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Fig. 134 – Penitenciária José Alkimim Fonte: Google Earth

Fig. 135 – Penitenciária José Alkimim, logo após a sua inauguração

Fonte: VAZ, 2005: 173

Fig. 136 – Penitenciária José Alkimim, vista de um dos blocos de celas e o muro do pátio Fonte: VAZ, 2005: 179

Fig. 137 – Penitenciária José Alkimim, cela. Fonte: VAZ, 2005: 184

Durante o estado Novo é sancionado Código Penal (1940) ainda hoje utilizado no Brasil sob algumas reformas. No Rio de Janeiro, no ano de 1941, é criada a Colônia Penal Cândido Mendes que se instala – após passar por uma grande reforma – no antigo Lazareto da Ilha Grande (Fig. 138), próxima ao Porto do Abraão – também usado anteriormente como presídio militar – para abrigar o crescente número de presos políticos (SANTOS, 2007: 1191). Com a extinção da Colônia Agrícola de Fernando de Noronha (1938-1942), destinada aos presos políticos, estes são transferidos para a Colônia Penal Cândido Mendes (Fig. 139) e para o Complexo Penitenciário da Frei Caneca (SENNA, 1996: 119).

Fig. 138 – Lazareto da Ilha Grande Fonte: SANTOS, 2007: 1180

Fig. 139 – ruína galeria de celas do Instituto Penal Candido Mendes, RJ.

Fonte: http://www.viajane.com.br/imagens/ fotos/ilhagrande/prisao01m.jpg

Sobre este complexo, também construído em 1941, há poucas informações disponíveis, e segundo Johnston (2000), foi denominado, na época, de Cidade Penitenciária. Consta de oito pavilhões ligados por um corredor central com capacidade para 1650 presos. Seu modelo foi, provavelmente, inspirado no modelo de Fresnes e fazia parte do conjunto de grandes obras do governo Vargas (Figs. 140 e 141). Segundo a Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro (SEAP)177, esta edificação foi construída a

partir do primeiro raio da Casa de Correção (1834) ali localizada, correspondente ao bloco mais próximo à entrada do complexo, posicionado diagonalmente aos outros.

Fig. 140 – foto aérea do Complexo Penitenciário Frei Caneca

Fonte: Google Earth

Fig. 141 – Complexo Penitenciário Frei Caneca. Fonte: Jornal do Brasil, 23/03/2003, p. C3

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A década de 40 é marcada pela implantação das primeiras unidades prisionais destinadas às mulheres, buscando atender ao decreto Lei nº 3971 de 274/12/1941 que solicitava a construção de uma penitenciária exclusiva para o sexo feminino. Até então as mulheres são presas em alas de unidades masculinas, sob o mesmo regime penal. – mantendo algum contato com presos do sexo masculino, dependendo da unidade. A partir da década de 20, cresce o número de presos – inclusive do sexo feminino – e são realizados estudos e levantamentos sobre as prisões no Rio de Janeiro buscando uma fundamentação para uma reforma penitenciária. Nesse período a imagem feminina ainda é associada à idéia de moralidade, a mulher como um ser mais puro, a mulher do lar, levada a criminalidade por instintos negativos – como a neurose e a sexualidade (LIMA, 1983: 34; MOKI, 2003: 05). Os crimes mais comuns eram: a prostituição – fichado como vadiagem; aborto – crime em defesa da honra; ou infanticídio – sob influencia puerperal (QUINTINO, 2005: 46). A prisão feminina deve funcionar como um reformatório da moral que se fundamenta: (1) na prática religiosa – inclusive exorcismos; (2) ensino de atividades domésticas – bordar, pintar, lavar, passar, etc; (3) repressão dos instintos sexuais vistos como instintos negativos.

Lemos Brito (1924) afirma que a proximidade com as mulheres aumenta o fardo da abstinência sexual dos homens encarcerados, trazendo risco para a segurança das unidades;178 propõe que as unidades femininas apresentem tratamento diferenciado a partir da natureza da mulher (SOARES; ILGENFRITZ, 2002: 54). Candido Mendes (1928) propõe que a prisão feminina ofereça atividades agrícolas compatíveis com a natureza feminina em unidades isoladas das masculinas (LIMA, 1983: 34). Em 1929 as autoridades defendem a separação das presas por tipo de crime, fato que se deve principalmente à idéia de que prostitutas eram mulheres cheias de vícios e doenças que poderiam ser transmitidos às outras presas – vistas ainda como mulheres honestas que praticaram crimes a favor da honra (QUINTINO, 2005: 46).

No Rio de Janeiro, é inaugurada em 1942 a Penitenciária Talavera Bruce, a primeira prisão feminina brasileira (SANTOS, 2006: 02). Inicialmente administrada por freiras, tinha como foco a reeducação da mulher – centrando suas atividades em tarefas do lar, como: lavar, passar, tricotar, bordar – além de usar a redenção e o exorcismo (LIMA, 1983: 34). Essa foi a primeira unidade a apresentar uma ala materno-infantil no Brasil

178 C.f. Lemos Brito (1924 apud SOARES; ILGENFRITZ, 2002: 57) “a ciência penitenciária tem

sustentado sempre que as prisões de mulheres devem ser inteiramente separadas das destinadas a homens. É que a presença das mulheres exacerba o sentimento genésico dos sentenciados, aumentando-lhes o martírio da forçada abstinência.”

(1966) e a segunda no mundo (Jornal Só Isso, agosto de 2008: 01). Em Belo Horizonte, MG, é construída em 1948, e inaugurada em 1955, a Penitenciaria Estevão Pinto (Fig. 142), primeira unidade prisional feminina do estado (VAZ, 2005: 134). A unidade se constitui de um bloco principal de acesso que abriga a administração e serviços intermediários e três blocos de celas e equipamentos internos, como: oficinas, salas, refeitório e auditório, que se voltam para o pátio interno (Fig. 143), configurando um espaço semelhante ao do modelo “quadrado oco” (VAZ, 2005: 136). Essa tipologia é muito aplicada em conventos, mosteiros e escolas.

Fig. 142 – Penitenciária Estevão Pinto Fonte: Google Earth

Fig. 143 – Penitenciária Estevão Pinto, vista do pátio interno.

Fonte: VAZ, 2005: 138

Em São Paulo, a Casa de Detenção – popularmente conhecida como “Carandiru”, por se localizar no bairro de mesmo nome, e que também abriga a Penitenciária do Estado – retratada em livros, músicas e filme, é inaugurada em 11 de setembro de 1956, durante o governo estadual de Jânio Quadros (1955-1959), pretendendo sanar o problema da superpopulação carcerária (NOGUEIRA, 1940: 24). Tem como finalidade abrigar presos que aguardam julgamento – configurando o perfil de presos políticos – com capacidade inicial para 3500 detentos. Inaugurada no primeiro ano da presidência Juscelino Kubischek, apresenta projeto anterior, integrando o conjunto dos grandes projetos institucionais da “Era Vargas”, enaltecendo a soberania do governo, a identidade nacional e a constante necessidade de controle da ordem pública.

A arquitetura imponente do conjunto de edifícios de linguagem Art Déco é típica daquele regime ditatorial, com dimensões exageradas, de fácil linguagem, pragmática, com a organização pavilhonar (Fig. 144). A simetria de sua composição arquitetônica, valorizando os acessos centralizados, o predomínio de cheios sobre vazios, em sua volumetria, acentuada pela articulação de volumes definidos, geometrizados e

simplificados tornam fácil sua rápida associação com os edifícios públicos da época. A Casa de Detenção apresenta o modelo arquitetônico conhecido como “quadrado oco”: planta quadrada com pátio interno; apresenta um corredor central com celas (de 6 m²) voltadas para os dois lados – pátio interno e exterior.

Fig. 144 – Vista geral da Casa de Detenção, SP Fonte: Governo Estadual de São Paulo

Com o passar do tempo, a massa carcerária aumenta consideravelmente, especialmente depois do regime militar instaurado em 1964. Os presos políticos são tantos que a população carcerária passa de 3300 presos em 1963, para 6600 em 1965, só no estado do Rio de Janeiro (SENNA, 1994: 122). Com a constante superlotação nos estabelecimentos penais o estabelecimento sofre uma reestruturação e sua capacidade aumenta para 6300 presos. Conhecido como o maior presídio da América Latina, chegou a ter uma população móvel de 9000 presos, fato que, associado à sua proximidade do meio urbano e às constantes rebeliões, trouxe a sua desativação e implosão (2002- 2005).

Também representativa deste período, é a Penitenciária Lemos Brito, inaugurada em 1956 em Salvador, BA, segundo a Lei nº 832, de 10 de agosto de 1956. A edificação segue o modelo panóptico e se configura por um anel de celas com três pavimentos (Figs. 145 e 146). Poucas são as informações sobre essa unidade, que ficou conhecida recentemente por uma ação que flagrou um preso com 280 mil Reais na cela, além de

equipamentos eletrônicos. Suas proporções exageradas, e o elevado número de presos dificultam a vigilância e a manutenção da segurança.

Fig. 145 – Penitenciária Lemos Brito, BA, 1956

Fonte: Google Earth

Fig. 146 – Penitenciária Lemos Brito, BA, 1956 Fonte: http://www.picturapixel.com/blog/ ?s=nossa+vergonha&submit=Go