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Van de Ven (2007) destacou a importância de elucidar o conceito de processos, pois influência não somente o método de pesquisa a ser adotado, mas também interfere nos resultados finais do estudo.

Para Langley (2007), o pensamento de processos considera os fenômenos de estudo em uma perspectiva dinâmica, em termos de movimentos, atividades, eventos, mudanças e evolução temporal. Busca entender “como” e “por quê” as coisas, pessoas, estratégias e organizações evoluem ao longo de tempo. Van de Ven (2007) definiu o processo como uma sequência de eventos e atividades que descrevem como o fenômeno de estudo muda ao longo do tempo. Essa definição direciona para uma perspectiva histórica e centraliza-se nos incidentes, nas sequências de atividades ou etapas que se desdobram ao longo da duração de uma entidade. O processo, sobretudo, é representado por uma sequência de eventos, configurando ocorrências descontínuas representativas de uma mudança qualitativa.

Assim, esse modelo possibilita responder às questões de pesquisa baseadas em compreender "como o objeto de análise surge, desenvolve ou termina ao longo do tempo" (VAN DE VEN; SMINIA, 2012), sendo congruente com a pergunta problema deste estudo, a saber: Como ocorre o processo evolutivo da identidade no nível organizacional de uma cooperativa de coleta seletiva de resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos?

Van de Ven e Sminia (2012) assinalaram que as questões que remetem ao passado, tais como "o que aconteceu" ou "como chegamos aqui", remetem a uma perspectiva de reconstrução histórica. A reconstrução do passado se baseia em uma sequência de eventos unique que foram vivenciados. Essa sequência direciona para uma explanação conceitual, na qual a narrativa ganha destaque. Ela, então, possibilita identificar uma sequência de eventos unique que leva a um respectivo resultado. A narrativa é o método de análise adotado nesta pesquisa e que será discutido nas próximas subseções.

Além do mais, essa sequência de eventos pode ser configurada das mais variadas formas, conforme Van de Ven (2007). Dentre os modelos contemplados pelo autor, dá-se destaque para o modelo de progressão cumulativa. A progressão cumulativa assume que os elementos encontrados em eventos anteriores são adicionados ou desenvolvidos nos eventos subsequentes. Entretanto, vale destacar que o processo cumulativo completo raramente ocorre, em virtude de haver perdas de memória, desvio e erros ao longo do processo. Van de Ven (2007) assinalou para a progressão cumulativa parcial.

A Figura 9 ilustra três tipos de progressão cumulativa, a saber: i) adição; ii) substituição; e iii) modificação. O primeiro implica que dois eventos podem coexistir ao mesmo tempo; o segundo, que o evento 2 substitui o 1; e, por fim, o terceiro sugere que o evento 1 é revisto e modificado para o 2 (VAN DE VEN, 2007).

Figura 9 - Progressão cumulativa

Fonte: Adaptado de Van de Ven (2007, p. 199)

Para o processo de construção coletiva da identidade, acredita-se que pode haver uma combinação entre os modelos de progressão cumulativa de substituição, adição e modificação.

Sabendo que o processo é configurado por uma sequência de eventos ocorridos ao longo do tempo, faz-se necessário distinguir de forma clara o que é um incidente, e o que é um evento em um modelo de processos. Segundo Van de Ven (2007), os incidentes são observações operacionalmente empíricas, enquanto os eventos são um conjunto de conceitos abstratos ou conjunto de incidentes codificados. Assim, os incidentes são representados por um conjunto de atividades de fácil observação (ou primeira ordem), sendo traduzido dentro de uma sequência de eventos uma construção mais abstrata (ou segunda ordem).

A identificação dos incidentes neste estudo foi guiada a priori pelo modelo conceitual (capitulo 4). Os incidentes, sobretudo, estão relacionados aos elementos de ordem formal e simbólica componentes da identidade no nível organizacional, obtidos mediante a interpretação dos dados brutos. Com os incidentes claramente definidos, o próximo passo consistiu em

estabelecer os eventos e seu significado teoricamente. Aqui são contempladas várias estratégias que podem ser empregadas, podendo ser: indutivo, dedutivo e abdutivo (VAN DE VEN, 2007).

A estratégia adotada para a definição dos eventos que marcam o processo de construção coletiva da identidade de cooperativas de coleta seletiva de resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos foi o indutivo. Nela, o pesquisador, com base nas informações que constituem os incidentes, criou conceitos representativos do respectivo evento. A Figura 10 ilustra o modelo operacional, no qual os eventos são configurados com base na inclusão, alteração e exclusão de elementos de ordem formal e simbólica, definidos pelos membros organizacionais e agentes externos da audiência, e, a posterior, há uma categorização deles que promulga a identidade no nível organizacional.

Figura 10 - Modelo operacional: Processo de construção coletiva da identidade

TEMPO

CONTEXTO

PROCESSO DE CONSTRUÇÃO COLETIVA DA IDENTIDADE

RESULTADO DO PROCESSO NO T(n) EVENTO 1 AUDIÊNCIA ORDEM FORMAL ORDEM SIMBÓLICA IDENTIDADE PROMULGADA 1 CATEGORIZAÇÃO EVENTO 2 AUDIÊNCIA ORDEM FORMAL ORDEM SIMBÓLICA IDENTIDADE PROMULGADA 2 EVENTO 3 AUDIÊNCIA ORDEM FORMAL ORDEM SIMBÓLICA IDENTIDADE PROMULGADA 3 CATEGORIZAÇÃO CATEGORIZAÇÃO

Van de Ven e Poole (1995) e Van de Ven (2007) assinalaram que a mudança pode ser analisada mediante quatro teorias administrativas primitivas, a saber: i) ciclo de vida; ii) teleológica; iii) evolutiva; e iv) dialética. Essas teorias foram classificadas, de acordo com: a) unidade de análise, podendo ser uma ou várias entidades; b) o modo de mudança, podendo ser prescritivo ou construtivo; e c) motores, que são os diferentes ciclos que envolvem os processos de mudanças (ver Figura 11).

Figura 11 – Teorias de processos da mudança organizacional

Fonte: Van de Ven (2007, p. 203)

 No ciclo de vida, a unidade de mudança concerne a uma única entidade; a mudança é iminente e intrínseca à organização. O modo de mudança é prescritivo, pois a mudança ocorre de acordo com o que está pré-estabelecido, quer seja por normas, quer seja por programas internos. O processo de mudança se dá mediante uma sequência de estágios, a saber: começo, crescimento, colheita e término;

 No teleológico, a unidade de mudança concerne a uma única entidade, a qual aqui apresenta um propósito e é adaptativa. O modo de mudança é construtivo. O processo de

mudança é mediante a formulação, implementação, evolução e modificação dos objetivos iniciais; é uma sequência repetitiva;

 No evolutivo, a unidade de mudança concerne a várias entidades ou população, e o modo de mudança é prescritivo. O processo de mudança é configurado pela variação, seleção e retenção. A variação se refere ao surgimento de uma nova forma de organizar, emergindo de uma mudança aleatória. A seleção advém da competição por recursos escassos ou pelo próprio ambiente que seleciona as organizações mais aptas. A retenção são forças que perpetuam ou mantêm as formas organizacionais; e

 No dialético, a unidade de mudança concerne a várias entidades, e o modo de mudança é construtivo. O processo de mudança é fomentado por um conflito entre a tese e a antítese, na qual direcionam para síntese ou estabilidade (VAN DE VEN; POOLE, 1995; VAN DE VEN, 2007).

Neste estudo, a unidade de mudança é uma entidade, a Coopermiti, na qual as narrativas tecidas se referem a identidade dela e o modo de mudança é construtivo.

Quanto ao motor, refere-se à sequência de eventos que explica como o processo de mudança ocorre. No caso aqui estudado, é o teleológico. Nele, a mudança é configurada em uma perspectiva estratégica, mediante a formulação, implementação, evolução e modificação dos objetivos iniciais. Bulgacov e Bulgacov (2009) propõem um modelo para estudar a estratégia em uma perspectiva processual. A estratégia de uma organização deve ser entendida em termos de conteúdo, processos e resultados, considerando os mais variados conceitos das teorias organizacionais.

Nesse modelo, os autores consideram fatores relacionados ao processo estratégico, a saber: i) ambiente geral e operacional; ii) cultura e práticas de gestão; iii) recursos e habilidades; iv) pessoas e politicas institucionais; v) relações interorganizacionais; vi) formas de gestão e estruturas; vii) fontes e formas de conhecimentos; e viii) implementação e uso de conhecimento. Quanto ao conteúdo se refere aos produtos e serviços ofertados e resultados (BULGACOV; BULGACOV, 2009). Observa-se nesse modelo que estudar o processo estratégico é complexo pois envolve uma abordagem multidisciplinar. Ainda, tais fatores apontados no modelo de Bulgacov e Bulgacov (2009) são comtemplados a priori, quer seja na teoria da identidade organizacional, quer seja na ecologia organizacional, para a definição da identidade.

O processo de construção coletiva da identidade é configurado por eventos, sendo estes formados pela inclusão, exclusão e alteração de elementos de ordem formal e simbólico promovidos, ora por membros organizacionais, ora por agentes externos. Qualquer que seja a natureza da alternância desses elementos componentes da identidade no nível organizacional há um processo que envolve a sua implementação e evolução dentro da organização. O ciclo que configura o motor teleológico ocorre em cada evento do processo de construção, sendo disparado pela implementação que tenha como propósito a inclusão, exclusão e alteração de elementos de ordem formal e simbólico e seus resultados no sistema organizacional que podem apresentar as mais diversas naturezas e que altera a identidade da organização.

Vale ressaltar que esse modelo visa explicar como os processos de mudança ocorrem, e não uma ontologia de processos. A dificuldade de realizar estudos com uma ontologia de processos decorre do fato de que a abordagem essencialista predomina os estudos nas teorias organizacionais.