SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.1. DELINEAMENTO DA PESQUISA
3.1.1. Abordagem qualitativa
A abordagem qualitativa iniciou com uma pesquisa informal de dados que abrange sujeitos da pesquisa, coleta de dados e análise de dados. A partir da pesquisa informal definiu- se as unidades de análise da abordagem qualitativa, ou seja, os docentes que desejasse entrevistar para atingir os objetivos do presente estudo.
3.1.1.1. Pesquisa informal de dados
A pesquisa informal corresponde, de acordo com Triviños (1987), a uma técnica utilizada pelo pesquisador para o levantamento de informações através de um diálogo, com questões gerais, pré-elaboradas, que fazem sentido para a pesquisa e são sustentados pelo conhecimento tácito e teórico do pesquisador. Para Vergara (2015), entrevista informal é menos estruturada possível e só se distingue da simples conversação porque tem como objetivo básico a coleta de dados. Na entrevista informal, pode haver perguntas incluindo dados e opiniões a respeito de determinados eventos sendo possível obter insights sobre o processo a partir das respostas fornecidas (YIN, 2015).
A realização da pesquisa informal ocorreu por meio de uma técnica adaptada do marketing denominada cliente oculto. O cliente oculto é uma técnica qualitativa, em forma de observação participante onde o pesquisador (cliente oculto), interage com o sujeito sendo observado (HUDSON et. al, 2001), sem que o sujeito perceba que esta participando de uma pesquisa (CALVERT, 2005).
A respectiva técnica atende ao objetivo do estudo, na qual o pesquisador levantou dados das atividades empreendedoras realizadas pelos docentes. Os sujeitos não sabiam que estavam participando de uma pesquisa. Os dados da pesquisa informal compuseram um banco de dados que foi utilizado ao longo do estudo. A seguir são apresentados detalhadamente os sujeitos, a coleta de dados e análise dos dados da pesquisa informal.
3.1.1.1.1. Sujeitos da pesquisa informal
Os sujeitos desta etapa são compostos por estudantes de graduação da UFSM-FW, regularmente matriculados e selecionados por conveniência, visto que a coleta ocorreu de acordo com a facilidade de contato com os alunos. Estipulou-se como meta entrevistar 40% dos alunos de cada curso, percentual mínimo estabelecido pelo autor, amostra caracteriza-se como não probabilística intencional e por conveniência, que supõe um procedimento de seleção informal (SAMPIERI; COLLADO; LUCIO, 2013), conforme os alunos forem encontrados circulando pela instituição, seja nos intervalos das aulas, corredores e lancherias.
A Tabela 4 apresenta o total de alunos de cada curso e o total de alunos contemplados na pesquisa informal. O número total de alunos é o mesmo adotado na abordagem quantitativa, foram desconsiderados os alunos que se encontram com algum dos motivos a seguir: abandono, transferência, cancelamento de matrícula e em estágio.
Tabela 4 – Totais da pesquisa informal
Nome do curso Número de alunos Alunos pesquisados
Agronomia 288 115
Engenharia Ambiental e Sanitária 229 91
Engenharia Florestal 160 63
Jornalismo 144 58
Relações Públicas 55 22
Sistemas de Informação 152 61
Totais 923 410
Fonte: elaborado pelo autor, com base no portal de indicadores da UFSM(2016).
3.1.1.1.2. Coleta de dados da pesquisa informal
Para a coleta de dados desta pesquisa elaborou-se uma lista de questionamentos no intuito de nortear a coleta de informações, que são apresentados no Quadro 3. O objetivo da coleta informal de dados é levantar informações a respeito de atividades empreendedoras realizadas pelos docentes nos respectivos cursos, procurando identificar quem são os docentes que as adotam, o que eles fazem, como eles fazem e quais as expectativas e sugestões em relação a isso, na percepção dos alunos.
Quadro 3 – Roteiro para a pesquisa informal Identificação Curso Semestre do aluno Informações sobre atividades Professor indicado O que faz? Como faz?
Sugestões e expectativas acerca do empreendedorismo Fonte: elaborado pelo autor.
A coleta de dados foi realizada com base em uma adaptação da técnica apresentada por Aaker, Kumar e Day (2001, p. 223) definida como observação direta, popularmente denominada de cliente oculto, que consiste “na colocação de observadores disfarçados de clientes para avaliar como os consumidores se aproximam de determinado produto”. A opção pela observação não participante busca a maior espontaneidade do observado, pois as pessoas costumam modificar seu comportamento das maneiras mais imprevisíveis ao perceberem que estão sendo observadas (AAKER; KUMAR; DAY, 2001).
Para o estudo considerou-se que os discentes representam clientes, visando credibilidade e fidedignidade das informações a serem levantadas, com a menor interferência possível do pesquisador, coordenadores ou demais docentes, utilizou-se alunos de graduação dos diversos cursos para efetivar o contato e levantar os dados junto aos acadêmicos de cada curso. Os alunos seguiram um roteiro (Quadro 3) e semanalmente enviaram ao pesquisador, por email, as informações levantadas. Após atingir a meta estipulada os dados foram analisados.
3.1.1.1.3. Análise de dados da pesquisa informal
Os dados coletados foram tabulados em uma planilha Excel® (Office 2016) e agrupados por nome de docente. Para cada docente foram inclusos os dados referentes ao número de alunos que o mencionaram, as atividades que o mesmo desempenha, como ele realiza essas atividades, as percepções dos alunos sobre essas atividades e por fim, sugestões dos alunos. Para análise,
e a fim de evitar constrangimentos e comparações entre os docentes, os nomes dos docentes foram substituídos por letras, evitando que os mesmos sejam identificados por outrem, além do pesquisador.
Após tabulação ocorreu a verificação dos dois docentes mais mencionados pelos alunos em cada curso de graduação, Agronomia, Engenharia Ambiental e Sanitária, Engenharia Florestal, Jornalismo, Relações Públicas e Sistemas de Informação (Apêndice E). esses docentes foram convidados a participar da pesquisa e formaram as unidades de análise da abordagem qualitativa.
3.1.1.2. Unidades de análise da abordagem qualitativa
As unidades de análise, de acordo com Sampieri, Collado e Lúcio (2013), constituem os participantes, objetos, eventos ou comunidades de estudo, que depende da formulação da pesquisa e dos alcances do estudo. Para Richardson (2011) essa ideia sugere que a unidade de análise em geral, é uma pessoa, mas também podem ser cidades, instituições, entre outros.
Tal enfoque evidencia coerência em se adotar o indivíduo como unidade de análise, quando o foco de estudo está relacionado ao comportamento dos sujeitos da pesquisa, especificamente em relação características e atitudes empreendedoras.
Atualmente a unidade da UFSM-FW possui 88 docentes. Neste estudo as unidades de análise foram compostas por docentes, visto que, para Perkmann, King e Pavelin (2011) é preciso ter atenção com a qualidade do corpo docente de uma universidade, pois essa qualidade está positivamente relacionada com o envolvimento da academia no patenteamento, na capacidade empreendedora da universidade e de seus acadêmicos, dessa forma, os professores que possuem maior envolvimento são aqueles que irão transmitir essa capacidade e motivação em sala de aula, formando assim jovens comprometidos com o desenvolvimento de um país.
Para tal, entrevistou-se 12 docentes, sendo dois docentes de cada um dos seis cursos de graduação da unidade. A definição dos docentes participantes ocorreu a partir do resultado da pesquisa informal, descrita anteriormente.
3.1.1.3. Coleta de dados da abordagem qualitativa
Para coleta de dados da abordagem qualitativa entrevistou-se 12 docentes, sendo os dois docentes mais mencionados pelos alunos na pesquisa informal, de cada curso de graduação da UFSM-FW. Utilizou-se entrevista semiestruturada, com a utilização de um roteiro previamente
elaborado (Apêndice A), composto por perguntas abertas onde o entrevistado teve a possibilidade de discorrer sobre o tema proposto, sem respostas ou condições prefixadas pelo pesquisador (MINAYO, 2012), perguntas básicas sobre o tema proposto (TRIVIÑOS, 1987).
As entrevistas semiestruturadas iniciaram com perguntas amplas, para que o entrevistado se sentisse à vontade para falar, além disso, o pesquisador, entrevistador, não interferiu na fala dos entrevistados. As entrevistas foram profundas, com duração média de uma hora e ocorreram no mês de outubro de 2016, foram realizadas em locais de preferência do entrevistado, gravadas, transcritas e posteriormente analisadas. As entrevistas só foram realizadas mediante o consentimento do entrevistado (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – Apêndice C), foi realizado um agendamento prévio com cada um, em que foi apresentado o objetivo da pesquisa, momento no qual estabeleceu-se um comprometimento entre as partes, entrevistador e entrevistado.
A escolha da técnica de entrevista se baseia na visão de Belk, Fischer e Kozinets (2013), que sugerem que a entrevista vem se popularizando como forma de coleta de dados qualitativos, em pesquisas sobre comportamento nas ciências sociais, seja ela considerada aberta, em profundidade ou semiestruturada. Para Triviños (1987) a entrevista semiestruturada é caracterizada por questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses que se relacionam ao tema da pesquisa. Triviños (1987, p. 152) afirma que a entrevista semiestruturada “favorece não só a descrição dos fenômenos sociais, mas também sua explicação e a compreensão de sua totalidade.”.
Para a realização das entrevistas utilizou-se um roteiro de entrevistas (Apêndice A), previamente elaborado, que teve como base para sua elaboração a problemática e o objetivo de pesquisa, bem como o suporte teórico adotado para este estudo. As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas. Após a transcrição ocorreu a análise dos dados.
3.1.1.4. Análise dos dados da abordagem qualitativa
Para análise dos dados coletados, na perspectiva qualitativa, adotou-se a técnica de análise de conteúdo. Especificamente nas ciências sociais, em estudos qualitativos, existem diversos métodos estruturados em vários níveis de análise, cuja escolha segue o princípio da adequabilidade (CRESWEL, 2014). Dentre os quais, evidenciam-se os métodos de análise de conteúdo – Silverman (2009), Bardin (2011) – como alternativas úteis para se estudar as falas ou escritas, na tentativa de descrever e interpretar seus conteúdos e sentidos, e, em última análise, construir uma compreensão sobre as mesmas.
A análise dos dados deve ser estruturada pelos procedimentos de organização, tratamento e análise dos dados coletados para compreendê-los, atender às questões de pesquisa, e gerar conhecimento (SAMPIERI; COLLADO; LUCIO, 2013; CRESWEL, 2014).
A análise de conteúdo foi realizada com ênfase em análise categorial e de enunciação. A análise categorial é estruturada a partir dos relatos dos entrevistados, sendo as categorias de análise estabelecidas de forma a representar, a partir da frequência de aspectos similares entre os relatos da maioria dos entrevistados, similitudes entre suas características comportamentais e sua percepção sobre o fenômeno que esta sendo estudado (BARDIN, 2011), no caso, a atitude empreendedora, diante da perspectiva de educação empreendedora.
Nesse sentido, foram estruturados os seguintes passos de análise para a presente pesquisa, quanto à abordagem qualitativa:
1. Leitura flutuante;
2. Protocolo de entrevistas;
3. Análise de conteúdo: categorial e de enunciação
A seguir apresentam-se os passos da análise para a técnica de análise de conteúdo.
Passo 1 - Leitura flutuante;
A leitura flutuante ocorre no momento em que o pesquisador começa a conhecer o texto proveniente das falas, consistindo em tomar contato exaustivo com o material coletado e transcrito (MINAYO, 2012). O termo flutuante é uma analogia a atitude do psicanalista, pois pouco a pouco a leitura se torna mais precisa, em função de hipóteses e com base nas teorias que sustentam o material (BARDIN, 2011).
Segundo Richardson (2011) a leitura flutuante possibilita que o pesquisador tenha um contato inicial com o material, dessa maneira, conhecendo a estrutura da narrativa, tendo as primeiras orientações e impressões em relação a mensagens dos documentos.
Passo 2 - Protocolo de entrevistas
O protocolo ou sumarização de entrevistas consiste em uma redução sistemática da extensão da informação, sem prejuízo dos conteúdos relevantes. Essa etapa reduz a
heterogeneidade expressiva e o volume dos textos, preparando o material para a continuidade do tratamento da informação, com vistas a sua conversão em categorias de falas.
Uma característica comum observada na fala espontânea é a repetição de falas, isto é, as pessoas voltam a dizer o mesmo que já disseram, sob outra forma, ou literalmente. Além disso, são frequentemente interpolados na conversação conteúdos cuja temática é alheia ao tema central da entrevista, que pode custar a ser retomado. E, depois de uma longa sequência de interpolação, quando da retomada do assunto principal, este é frequentemente reintroduzido por uma repetição do que já foi dito (MADEIRA et al., 2011), o protocolo reduz a extensão dessas informações.
O protocolo de entrevistas é o procedimento de resgate dos aspectos mais relevantes na perspectiva do pesquisador, preservando-se a fidelidade ao relato dos entrevistados, no sentido de facilitar os processos e técnicas de análise, sua relação com a caracterização das categorias de análise, por meio do agrupamento e visualização panorâmica das entrevistas (MINELLO, 2014).
Passo 3 - Análise de conteúdo
A análise de conteúdo para Bardin (2011) é um dos instrumentos mais úteis para a investigação de textos e é adaptável a um vasto campo de aplicação; ou seja, quaisquer comunicações escritas ou faladas são suscetíveis de serem decifradas pelas técnicas de análise de conteúdo. Bardin (2011, p. 47) define análise de conteúdo como “um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando a obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens”.
Para Richardson (2011) a análise de conteúdo é fundamental na área de ciências humanas e tem-se transformado em um mecanismo importante para o estudo da interação entre os indivíduos. A técnica de análise de conteúdo, para Minayo (2012), proporciona ao pesquisador compreender o que está por trás das manifestações informadas no momento da coleta, podendo ir além das aparências do que está sendo comunicado.
A análise por categorias é muito utilizada, pois “funciona por operações de desmembramentos do texto em unidades, em categorias segundo reagrupamentos analógicos” (BARDIN, 2011, p.199). As categorias de análise, para Bardin (2011), podem ser criadas a priori ou posteriori, ou seja, a partir da teoria ou após a coleta de dados.
Para o presente estudo utilizou-se categorias de análise a posteriori que facilitam a identificação de dados novos e diversificados, extraídos do relato dos entrevistados, e, possibilitam a ampliação do escopo da análise, mantendo-se o cuidado de preservar a perspectivas dos mesmos (MINELLO, 2014).
Para Bardin (2011) a análise categorial exige inicialmente uma classificação de elementos em suas características distintas, e, posteriormente, o reagrupamento segundo os critérios previamente definidos, onde as categorias reúnem grupos de elementos com características comuns. Para tanto optou-se pela análise de enunciação. Essa técnica busca compreensão do ponto de vista do entrevistado.
A análise de enunciação é o processo de segmentar os textos das entrevistas, já sumarizadas, em unidades menores, que podem ser orações, sentenças, parágrafos e até mesmo tópicos. A granularidade da categorização vai depender exclusivamente da aplicação a que se destina a segmentação (PARDO, NUNES, 2003). Para Madeira et al. (2011), segmentar o texto em proposições significa dividir o material da fala em estruturas predicativas desse tipo, tão simples e curtas quanto possível. A análise de enunciação “apoia-se numa concepção da comunicação como processo e não como dado” (BARDIN, 2011, p. 215).
O processo de análise de enunciação é dividido em codificação inicial, categorização e inferência (BARDIN, 2011). A codificação inicial consistirá na leitura flutuante das entrevistas com os docentes, buscando identificar uma unidade de registro, ou seja, uma unidade a se codificar, que pode ser uma frase, um tema ou palavra. No processo categorial posteriori adotou-se critérios léxicos, atribuindo sentido às palavras dos entrevistados. A análise lexical tem como material de análise as próprias unidades de vocabulário, ou seja, as palavras portadoras de sentido, como substantivos, adjetivos e verbos, relacionados ao objeto de pesquisa (BARDIN, 2011). E na fase inferencial os dados foram analisados com base na teoria, proporcionando sentindo à interpretação. Para Triviños (1987) a análise de conteúdo é composta por um conjunto de técnicas, para tanto, o pesquisador necessita possuir amplo campo de clareza teórica. Ou seja, não é possível a inferência se o pesquisador não dominar os conceitos básicos das teorias.
A presente pesquisa pretende adotar duas técnicas de análise de conteúdo, categorial e de enunciação (BARDIN, 2011), visto que, são consideradas relevantes para o estudo da interação entre os indivíduos e podem proporcionar ao pesquisador compreender o que esta por trás das manifestações informadas nas entrevistas, podendo ir além das aparências do que foi comunicado. Nesse sentido, a utilização de categorias de análise, pode facilitar a identificação
de novos dados, a partir dos relatos dos entrevistados com base na teoria. Para tal, a análise categorial é estruturada a partir dos relatos dos entrevistados (categorias a posteriori).
Diante disso, optou-se para este estudo pela adoção de categorias de análise a posteriori que foram estabelecidas de forma a representar, a partir da identificação de aspectos similares dos relatos dos entrevistados e de similitudes na percepção dos entrevistados sobre o fenômeno em questão.
Na Figura 7 apresenta-se os procedimentos da abordagem qualitativa.
Figura 7 - Processo metodológico da abordagem qualitativa
Fonte: elaborado pelo autor.