CAPÍTULO 4: ANÁLISE DE CORPUS EM AULAS DE METODOLOGIA DE
4.2 ABORDAGEM SOBRE CONCEITOS DE LÍNGUA E LINGUAGEM
A aula que resolvemos transcrever abaixo se refere ao assunto Língua e
Linguagem, ocorrida durante três aulas de quarenta e cinco minutos cada. A
à formação dos futuros decentes, pois toda formação que se preze ao exercício docente, necessita de conhecimentos básicos acerca da língua materna.
(...)
L1- P > Boa Noite gente, hoje vamos falar sobre língua. O que é língua. (sv) L2-
L3-
A1 > (sv) Assim, eu acho que língua é a maneira que cada um tem de
expressar de maneira livre, da forma que eu sei, do lugar onde estou. (sv) L4- P > Certo, o que mais? (++) Alguém para ajudar A1 (...) (# #)
L5- A2 > (sv) falou tudo já, [>>>]
L6- P > não, não, de jeito nenhum. Língua é muito mais. Vamos! (++) L7- A3 > (sv) diga aí o que é língua (++)
L8- L9- L10- L11- L12-
P > (sv) Falem gente, vocês precisam me a:::ju:::::dar Eu tô aqui pra avaliar
vocês. Se vocês não me ajudarem fica difícil (sv) falar alguma coisa. (+) () Bem, se vocês não querem falar, então vou fazer a chamaDA até a mente de vocês resolverem colaborar, ou ainda a preguiça (sv) de vocês permitir esse ato. Aluno1 (...)
L13- P > (sv) Aluno 2 (sv) L15- A2 > (sv) Presente! (sv) L16- P > (sv) Aluno 3 (sv) L17- A3 > (sv)Presente! (sv) L18- P > (sv) Aluno 4 (sv) L19- A4 > PRESENTE PROFESSORA! (sv) () L20- L21- L22-
P > (sv) Calma, A4 a sala é tão pequena que já vi você aí, inclusive
concentre-se em pensar alguma coisa para responder. Aluno 5 (sv) () [Nenhum aluno estava preocupado em realizar a atividade solicitada]. L23- A5 > (sv) Presente!
L24- P > Aluno 6, Aluno 6 (sv) Vocês não calam a boca não, né? L25- A4 > (sv) Faltou professora, TÁ VENDO não???
L26- P > realmente não, se tivesse vendo ele estaria aqui! (). Aluno 7 L27- A2 > (sv) Também faltou professora.
L28- P > (sv) O que foi que houve, o ônibus do povoado não foi buscá-los. (sv) L29- A2 > (sv) Não! Tá chovendo. [Os alunos justificaram a ausência dos
L30- L31- L32-
colegas que moram nos povoados e faltaram por causa das condições das estradas e os ônibus não trafegam nas estradas quando chove, pois corre o risco de ficar atolado]. (sv)
L33- L34-
P > (sv) Ahã, é mesmo! Aluno 8. Esse aqui também é do povoado. Faltou.
Aluno 9 L35- A9 > (sv)Presente professora L36- P > (sv) Aluno 10 L37- A10 > (sv) Presente L38- P > (sv) Aluno 11 L39- A11 > (sv) Presente L40- P > (sv) Aluno 12 L41- A12 > (sv) Presente
L42- P > Aluno 13, esse aqui acho que desistiu. (sv) L43-
L44- L45- L46-
A5 > (sv) desistiu mesmo professora ele disse que não quer ser mais
professor não, disse que trabalhar no “trampo” é melhor (), () [A aluna
quis se referir “trampo” trabalhar em empresas terceirizadas pela Petrobrás em outras cidades do país]
L47- L48-
P > (sv) Pois é! Pelo menos ele desistiu há tempo, pior é ir para uma sala
de aula e esteja se realizado com o que está fazendo. Aluno 14 L49- A14 > (sv) Presente. L50- P > (sv) Aluno 15 L51- L52- L53- L54- L55-
A4 > (sv) essa é outra professora, só pensa em namorar, acho que ela
fugiu, e não vem mais pra escola. [“fugir” para eles é sair de casa sem se
casar ou sem a autorização dos pais, normalmente esses acontecimentos ocorrem nas madrugadas quando todos estão dormindo e ninguém vê nada]
L56- L57- L58-
P > (sv) Então! Prontos? Quem poderia começar a falar para nós o que
LÍNGUA? (+) Vamos? (++). Tá vendo estavam preocupados em falar sobre a vida dos colegas, esqueceram da atividade.
L59- Axx > (sv) Falem qualquer coisa aí ()
L60- L61-
A4 > (sv) Qualquer coisa () () [a turma acha engraçada a resposta dos
colegas e continuam rindo da resposta] (sv)
L63- L64-
A5 > (sv) Eu nã::o. [Nesse momento existe um grupinho de meninas que
está falando sobre uma colega] Ôi é BABADO ()
L65- L66-
P > (sv) Língua é um código linguístico, agora o que é um código
linguístico? (++) (++) (++) O que é um código? Ahã. L67- A1 > (sv) Não é um código, são vários.
L68- L69- L70-
P > (sv) Certo, isso, tá vendo que vocês sabem falar alguma coisa
proveitoso sobre as questões colocadas, o que mais? (+) Então qual é o nosso código? Linguístico? O nosso específico.
L71- A1 > A língua Portuguesa. (sv) L72-
L73-
P > Isso a Língua Portuguesa, muito bem! Ok! Nesse mesmo sentido como
é que nós expressamos, a nos---sa, o--- nosso português? L74- A1 > falando. (sv) L75- L76- L77- L78- L79- L80- L81- L82- L83- L84- L85- L86- L87- L88- L89-
P > Pois é! Falando! Então por isso, que quando A2 falou que a língua é um
negócio da boca e vocês acharam engraçado, porque é de fato um órgão, um membro que faz parte de nosso organismo que faz desenvolver uma comunicação uma linguagem, não é nem uma comunicação, (sv) porque CO:MU:NI:CA:ÇÃO, nós vamos ver (+) daqui a pouco, não é só isso. Já a LINGUAGEM, a partir da língua nós transmitimos nosso código linguístico que é a LP, aí sim a língua ela vai ser (+) trabalhada, pelo ponto, pelo fato (sv) de você entender que você fala aquele tipo de LM, então como podemos não saber qual é a nossa língua materna a língua portuguesa. Por que língua materna? Porque é a nossa língua mãe, é a língua de onde nós nascemos (++) por isso que nós temos a língua materna, () língua portuguesa e as línguas estrangeiras são as línguas de outros lugares, outros países, (+) sabendo nós que a nossa língua é a língua materna, língua portuguesa, eu posso dizer com isso que eu não, que eu não necessito aprender outra língua?
L90- Axx > (sv) N:::ÃO! (sv) Vixe! Oh negocinho enjoado...
L91- L92- L93- L94- L95-
P > Então nós temos uma possibilidade e devemos também aprender uma
outra língua (+) o espanhol, o inglês, o francês, o alemão, o italiano, o aramaico, o grego, enfim, o hebraico, são línguas que nós aprendemos para se comunicar com outras pessoas daquele mesmo código linguístico de outros países, né?
L96- A1 > (sv) de outros países? L97-
L98-
P > (sv) Exatamente! Então, língua é o mecanismo que pos:si:bi:li:ta e faz
gerar o nosso código linguístico. (++) O que é língua mais? L99- A4 > (sv) Tá bom professora, já foi, já disse tudo.
L100- L101- L102- L103- L104- L105-
P > Não, de jeito nenhum, é por isso que vocês, no curso normal existe
uma preocupação muito grande em aprender todas as metodologias de ensino das disciplinas, e dentre todas as metodologias existe a de língua portuguesa. Quando a gente falou aqui, o ano passado o que vocês estudaram em português e vários de vocês responderam substantivo, adjetivo, pronome, verbo, pá, pá, pá (...)
L106- A2 > (sv) Verbo? Eu não lembro de ver não professora.
L107- A4 > Foi mesmo, também não, acho que foi pulado essa página () L108- L109- L110- L111- L112- L113-
P > (sv) Bem, se vocês não estudaram não posso fazer nada, mas essas,
esses assuntos deverão ser ensinados por vocês nas séries iniciais do ensino fundamental quando vocês forem professores. E:: ssa, essa intuição do ensino da língua portuguesa ela não é muito aceitável no curso normal porque o ensino é sistemático do uso de regras. Porque o objetivo do curso é o quê? (++)
L114- A2 > Ahã, hein, o que professora? L115- P > Qual é o objetivo do curso normal? L116- A6 > Formar professores
L117- L118-
P > (sv) Isso! Formar professores e se vocês estão aqui para serem
formados professores vocês devem ter uma perspectiva de quê? L119- A > (++) (++) É? () Perspectiva? [>>>>] O que?
L120- P > (sv) qual é a perspectiva? O que vocês pretendem? (sv) L121- A4 > Ah! Entendi! (/) Trabalhar é claro né? () BABADO (/) L122- A1 > (sv) Aprimorar os (sv) conhecimentos professora. L123- P > (sv) Aprimorar! Muito bem! O que mais, (ahã) L124- A1 > Ir pra faculdade
L125- P > (sv) Ir pra faculdade. E ao sair, depois do quarto ano? logo depois? (sv) L126- A4 > (ahã) Ah! não sei, não sei não professora. (ahã)
L127- A1, A2 > Arrumar () (...) ... emprego
L129- (sv), Então quando vocês saírem daqui! (# #) L130- A4 > Hoje professora? ()
L131- P > (sv) Engraçadinha! (sv) () () Não sei o que VOCÊ vem fazer aqui! L132-
L133- L134-
P > (sv) Quando vocês saírem daqui FORMADOS, OBVIAMEN:::TE vocês
já saem PRE:PA:::RA::::DOS, para uma sala de aula. Por isso, a formação do curso normal deve ser visto com grande (sv) seriedade, NÃO É A4? (sv) L135- A4 > (sv) Porque eu professora? Pelo menos sou verdadeira e direta () L136- L137- L138- L139- L140- L141- L142- L143- L144- L145-
P > (sv) Imagine por quê? Se você não sabe, (//) Acho que suas gracinhas
não levaram ninguém a lugar nenhum, inclusive VOCÊ e essa (sv) sua concepção errada sobre o curso e sua formação. Bem pessoal continuando, podemos perceber (sv) que as METODOLOGIAS, podem e devem ser consideradas para a boa preparação das aulas. Estudar a gramática é importante, mas vocês devem se preocupar também em como aprender a ensinar a gramática às crianças. [Na verdade o que acontece
neste momento torna-se como fator comum nas aulas, o sinal toca e os alunos nem espera a professora sair da sala, não se importam para o que está seno dito e começam a ir embora ignorando a professora na sala].
As possibilidades que contemplam a análise destes turnos de fala no agir dos sujeitos da sala de aula são inúmeras. Para compreender ativamente o processo da interação, consideramos as observações no campo sociológico necessárias para ampliarmos a ideia de que
Toda situação inscrita duravelmente nos costumes possui um auditório organizado de uma certa maneira e consequentemente de um certo repertório de pequenas fórmulas correntes. A fórmula esteriotipada adapta- se, em qualquer lugar, ao canal de interação social que lhe é reservado, refletindo ideologicamente o tipo, a estrutura, os objetivos e a composição social do grupo [...] Assim, encontram-se diferentes formas de
construção de enunciados nos lugares de produção de trabalho.
(BAKHTIN, 1999, p. 126, grifo nosso)
Nesse sentido, o contexto da sala de aula que imaginamos, inevitavelmente técnico-tradicional, não está distante do observado. No enunciado abaixo, presenciamos o início das atividades pela professora.
(...)
L1- P > Boa Noite gente, hoje vamos falar sobre língua. O que é língua. (sv) L2-
L3-
A1 > (sv) Assim, eu acho que língua é a maneira que cada um tem de
expressar de maneira livre, da forma que eu sei, do lugar onde estou. (sv) L4- P > Certo, o que mais? (++) Alguém para ajudar A1 (...) (# #)
L5- A2 > (sv) falou tudo já, [>>>]
L6- P > não, não, de jeito nenhum. Língua é muito mais. Vamos! (++) L7- A3 > (sv) diga aí o que é língua (++)
L8- L9-
P > (sv) Falem gente, vocês precisam me a:::ju:::::dar Eu tô aqui pra avaliar
vocês. Se vocês não me ajudarem fica difícil (sv) falar alguma coisa. (...)
A postura da professora, dos alunos, as conversas paralelas, as posições das carteiras sinalizam para o enquadramento e a circunscrição na transmissão dos discursos organizados por um sistema de atividade humana determinada pela professora. Para Foucault (2009),
a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório. (2009, p. 9)
Quando a professora estava instigando os alunos a falarem sobre o conceito de língua, após algumas tentativas, apenas A1 responde:
(...)
L2, L3 > “Assim, eu acho que língua é a maneira que cada um tem de expressar
de maneira livre, da forma que eu sei, do lugar onde estou”
(...)
L4 P > “Certo, o que mais? (++) Alguém para ajudar A1 (...)
Surpreendentemente tínhamos estranhado a professora não ter interferido na resposta de A1 para instigá-lo a desenvolver melhor sua resposta ou até mesmo motivar os demais da sala em participar. Mas logo notamos, como na L4, que ela preferiu que os demais alunos participassem a partir da resposta de A1 – se ela opinasse, talvez pudesse desmotivar os demais da turma nas interações.
O agir da professora consistiu em respeitar a diversidade de interações que poderia surgir entre os demais alunos mediante contexto abordado em sala. Para Cicurel (No prelo, 2010), o agir do professor é válido quando “une seconde manière de connaître ce monde consiste alors à recueillir les discours des acteurs sur ce qu‟ils ont fait afin de voir quel est le sens que les acteurs attribuent aux événements qu‟ils ont vécu”37
.
Porém, a ressalva que a professora faz sobre a participação dos demais alunos é decorrente de não estarem preocupados com a aula – entram e saem frequentemente, atendem ao celular, “retocam a maquiagem” 38
. Após a fala de A1, foi surpreendente a posição de A2
(...)
L5 A2 > (sv) falou tudo já, [>>>] (...)
A transferência de responsabilidade ocorria a cada instante, pois ninguém se preocupava em interagir junto com a professora. Dessa relação, no ambiente da sala de aula, é destacado o enunciado como produção dos interactantes que se constituem por diálogos, segundo Marcuschi (2005) do tipo assimétrico, pelo fato de que
um dos participantes tem o direito de iniciar, orientar, dirigir e concluir a interação e exercer pressão sobre o(s) outro(s) participante(s). É o caso das entrevistas, dos inquéritos e da interação em sala de aula. (MARCUSCHI, 2005, p.16, grifo nosso)
37
Uma segunda maneira de conhecer este mundo consiste então em recolher os discursos dos interactantes sobre o que falaram a fim de notar qual é o sentido que eles atribuem aos acontecimentos que viveram. (Tradução nossa).
38
À luz desse entendimento, compete ao professor agir sobre esses pilares verbais, por ser a pessoa que inicia, orienta, dirige e conclui os discursos em sala. Contrariamente, o que pode também acontecer é um aluno dizer conclusivamente sobre o tema do assunto e a reação dos demais pode diversificar, como por exemplo:
(i) os demais alunos ficam intimidados a falar;
(ii) suas falas poderão servir de “enchimento de saco” para os demais; (iii) supõe-se que ninguém vai falar mais ou que a aula irá terminar;
Nesse sentido, como na turma existiam apenas dez alunos, nessa aula – dentre eles, somente cinco interessados –, a professora retoma a palavra da seguinte maneira:
L8, L9 > “vocês precisam me ajudar”, eu tô aqui pra avaliar vocês. Se vocês
não me ajudarem fica difícil (sv) falar alguma coisa.” (grifo nosso)
Ela faz um convite às interações verbais quanto à participação no conteúdo, mas sem resultados. A falta de participação ainda era visível. Como se não bastasse, a professora precisou impor sua fala, controlando o discurso, evidenciando seu poder institucionalizado de avaliadora no processo ensino- aprendizagem. O instrumento de linguagem passou a ser desenvolvido por meio das condições de controle social, ou seja, se os alunos participassem, ou não, da aula interacionalmente a formalização avaliativa já estaria acontecendo.
Contrariando o que pensa Cicurel (2010), a partir do momento que os alunos não participam das interações, a professora deve direcionar e formular um conjunto de conhecimentos que os motivem a aprenderem e formar suas consciências sociais mediante tema da aula. Segundo a autora, o agir do professor deveria ser
le point de rencontre entre les intentions et buts du professeur, et l'interaction telle qu‟elle émerge en classe, face à des individus qui
réagissent en créant une situation imprévue. L‟agir professoral se compose, d'une part, de ce que le professeur prévoit pour sa classe et, d'autre part, de l'appropriation de ces contenus par les élèves. (CICUREL, 2010).39
Assim, as intenções não partiram da professora, mas de dois ou três alunos que ainda persistiam nos diálogos sobre o tema língua, enquanto a professora iniciava a sequência da chamada. O importante, agora, na visão da professora, era o cumprimento dos procedimentos institucionais.
L10, L11, L12 > (+) () Bem, se vocês não querem falar, então vou fazer a
chamaDA até a mente de vocês resolverem colaborar, ou ainda a preguiça (sv) de vocês permitir esse ato.
A professora marca e conduz sua voz, em seu argumento, especificando seu entendimento pelo assunto, mas não socializa com os alunos quando paralisa o conteúdo da aula para realizar a chamada aluno por aluno. Abaixo, o fragmento conversacional do controle de presença dos alunos feito pela professora no espaço da sala de aula: (...) L13- P > (sv) Aluno 2 (sv) L15- A2 > (sv) Presente! (sv) L16- P > (sv) Aluno 3 (sv) L17- A3 > (sv)Presente! (sv) L18- P > (sv) Aluno 4 (sv) L19- A4 > PRESENTE PROFESSORA! (sv) () L20- L21-
P > (sv) Calma, A4 a sala é tão pequena que já vi você aí, inclusive
concentre-se em pensar alguma coisa para responder. Aluno 5 (sv) ()
39
O ponto de encontro entre as intenções e objetivos do professor está em como a interação se manifesta na sala de aula, perante indivíduos que reagem criando uma situação imprevista. O agir do professor é composto, por um lado, daquilo que prevê na sala de aula e, por outro, da apropriação dos conteúdos pelos alunos. (tradução nossa).
L22- [Nenhum aluno estava preocupado em realizar a atividade solicitada]. L23- A5 > (sv) Presente!
L24- P > Aluno 6, Aluno 6 (sv) Vocês não calam a boca não, né? L25- A4 > (sv) Faltou professora, TÁ VENDO não???
L26- P > realmente não, se tivesse vendo ele estaria aqui! (). Aluno 7 L27- A2 > (sv) Também faltou professora.
L28- P > (sv) O que foi que houve, o ônibus do povoado não foi buscá-los. (sv) L29-
L30- L31- L32-
A2 > (sv) Não! Tá chovendo. [Os alunos justificaram a ausência dos
colegas que moram nos povoados e faltaram por causa das condições das estradas e os ônibus não trafegam nas estradas quando chove, pois corre o risco de ficar atolado]. (sv)
L33- L34-
P > (sv) Ahã, é mesmo! Aluno 8. Esse aqui também é do povoado. Faltou.
Aluno 9 L35- A9 > (sv)Presente professora L36- P > (sv) Aluno 10 L37- A10 > (sv) Presente L38- P > (sv) Aluno 11 L39- A11 > (sv) Presente L40- P > (sv) Aluno 12 L41- A12 > (sv) Presente
L42- P > Aluno 13, esse aqui acho que desistiu. (sv) L43-
L44- L45- L46-
A5 > (sv) desistiu mesmo professora ele disse que não quer ser mais
professora não, disse que trabalhar no “trampo” é melhor (), () [A aluna
quis se referir “trampo” trabalhar em empresas terceirizadas pela Petrobrás em outras cidades do país]
L47- L48-
P > (sv) Pois é! Pelo menos ele desistiu há tempo, pior é ir para uma sala
de aula e esteja se realizado com o que está fazendo. Aluno 14 L49- A14 > (sv) Presente. L50- P > (sv) Aluno 15 L51- L52- L53- L54-
A4 > (sv) essa é outra professora, só pensa em namorar, acho que ela
fugiu, e não vem mais pra escola. [“fugir” para eles é sair de casa sem se
casar ou sem a autorização dos pais, normalmente (sv) esses acontecimentos ocorrem nas madrugadas quando todos estão dormindo e
L55- ninguém vê nada] (...)
Os turnos de fala acima apresentados demonstram o tempo “perdido” para essa tarefa, aproximadamente vinte e cinco minutos, pois, como a turma é pequena, seria dispensável a realização do controle de presença, sem precisar interromper a discussão sobre língua. Observa-se que o poder efetivamente perpassa os sujeitos prevalecendo, nas interações verbais, a posição hierárquica da professora. Não queremos afirmar que a professora é autoritária na sala de aula, pelo contrário, a relação dela com a turma é harmoniosa.
Durante o controle da chamada, foi-nos revelada outra preocupação entre os participantes do curso. Dentre os quatorze alunos que estavam matriculados, apenas dez frequentavam assiduamente as aulas, porém desses, somente quatro ou seis interagiam nos conteúdos. Quando a professora retomou a aula, os convidou a falarem sobre o assunto, mas não obtinha resultado.
(...) L56- L57- L58-
P > (sv) Então! Prontos? Quem poderia começar a falar para nós o que
LÍNGUA? (+) Vamos? (++). Tá vendo estavam preocupados em falar sobre a vida dos colegas, esqueceram da atividade.
L59- Axx > (sv) Falem qualquer coisa aí () L60-
L61-
A4 > (sv) Qualquer coisa () () [a turma acha engraçada a resposta dos
colegas e continua rindo da resposta] (sv)
L62- A2 > (sv) Vá você, gosta tanto de falar, é um “negoço” da boca () L63-
L64-
A5 > (sv) Eu nã::o. [Nesse momento existe um grupinho de meninas que
está falando sobre uma colega] Ôi é BABADO ()
(...)
A desmotivação nas participações era muito visível, as brincadeiras que existiam na sala eram frequentes, como constatamos nas L59, L60, L61, L62, 63, 64. Pelos enunciados transcritos, notamos que os interesses eram bastante variados. Quando, na linha 62, A2 indicou uma colega para falar sobre o conceito de
língua, ela mesma (A2) respondeu, ocasionando risos por causa de sua resposta inusitada.
Quando a A2 afirmou ser a língua “um negócio da boca” abriu um precedente para risos e brincadeiras, na sala de aula, sem demonstrar, pelo menos aparentemente, interesse real pelo conhecimento no assunto. Dentre os fatores que influenciam esse comportamento, pode estar atribuído ao desestímulo em estudar ou querer ser professor. Mas essas deduções não passam de considerações observáveis a partir do comportamento de A2 na sala de aula.
No contexto de produção das falas em sala de aula, a professora poderia se utilizar do tema língua para estimular a participação dos alunos intervindo no turno de fala para mostrar a importância de seu estudo. Em relação a essa atividade, Bronckart (2008, p. 87) diz que
o agir linguageiro se traduz em um texto, que pode ser definido como toda
unidade de produção verbal que veicula uma mensagem organizada e
que visa a produzir um efeito de coerência sobre o destinatário, ou, então como unidade comunicativa de nível superior, correspondente a uma determinada unidade de agir linguageiro. (grifo do autor)
O autor apresenta alternativas para os alunos nos resultados da produção conceitual sobre língua entre a professora e eles. Para existir a conceitualização do termo língua, é preciso que a professora defina os conhecimentos temáticos sobre o tema da aula. (Cf. BRONCKART, 2008).
Kerbrat-Orecchioni (2006) explica essa relação quando apresenta dois tipos de relações: a vertical e a horizontal. Na primeira, a relação é autoritária – da professora – e não tem participação com as conversações acima transcritas, pela assimilação e conhecimento dos assuntos, entre os alunos discutidos; a segunda relação, horizontal, é dos alunos, que dominam a fala e o espaço da sala de aula, sem permitir que a professora reinicie o assunto da aula.
O grande desafio da professora estava em conseguir que os alunos participassem das aulas. Após alguns minutos, ela interferiu nas conversas paralelas e continuou a aula sobre o conceito de língua:
(...) L65- L66-
P > (sv) Língua é um código linguístico, agora o que é um código
linguístico? (++) (++) (++) O que é um código? Ahã. L67- A1 > (sv) Não é um código, são vários.
L68- L69- L70-
P > (sv) Certo, isso, tá vendo que vocês sabem falar alguma coisa
proveitoso sobre as questões colocadas, o que mais? (+) Então qual é o nosso código? Linguístico? O nosso específico.
L71- A1 > A língua Portuguesa. (sv) L72-
L73-
P > Isso a Língua Portuguesa, muito bem! Ok! Nesse mesmo sentido como
é que nós expressamos, a nos---sa, o--- nosso português? L74- A1 > falando. (sv) L75- L76- L77- L78- L79- L80- L81- L82- L83- L84- L85- L86- L87- L88- L89-
P > Pois é! Falando! Então por isso, que quando A2 falou que a língua é um
negócio da boca e vocês acharam engraçado, porque é de fato um órgão, um membro que faz parte de nosso organismo que faz desenvolver uma comunicação uma linguagem, não é nem uma comunicação, (sv) porque CO:UM:NI:CA:ÇÃO, nós vamos ver (+) daqui a pouco, não é só isso. Já a linguagem, a partir da língua nós transmitimos nosso código linguístico que é a LP, aí sim a língua ela vai ser (+) trabalhada, pelo ponto, pelo fato (sv) de você entender que você fala aquele tipo de língua materna, então como podemos não saber qual é a nossa língua materna a língua portuguesa. Por que língua materna? Porque é a nossa língua mãe, é a língua de onde nós nascemos (++) por isso que nós temos a língua materna, língua portuguesa e as línguas estrangeiras são as línguas de outros lugares, outros países, (+) sabendo nós que a nossa língua é a língua materna, língua portuguesa, eu posso dizer com isso que eu não, que eu não necessito aprender outra língua?
L90- Axx > (sv) N:::ÃO! (sv) Vixe! Oh! negocinho enjoado... (...)
O enunciado discursivo na sala de aula, entendido como enunciação individual dos sujeitos, não é neutro, porque as palavras não as são, elas constituem