2. INTEGRAÇÃO DE CLIENTES NO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DE
2.2 O CLIENTE NAS PRINCIPAIS ABORDAGENS PARA GESTÃO DO PDP
2.2.2 Abordagem Stage-Gate de desenvolvimento de produto
Proposta por Cooper (2001, 2007), esta abordagem para o PDP no decorrer do tempo foi se adaptando à realidade das empresas, evoluindo desta maneira para sua terceira geração. A primeira teve início na década de 1970, a segunda começou a ser praticada nas empresas na década de 1990 e, nesta última década (século XXI), desenvolveu-se uma terceira geração. Para efeitos explicativos, apresenta-se a estrutura geral da abordagem Stage- Gate e, em seguida, as particularidades contempladas em cada uma das três gerações.
A essência da abordagem Stage-Gate, segundo Cooper (2001), concentra-se nas duas formas que a empresa pode obter ganho no PDP. A primeira é definir os projetos certos, mediante a aplicação de técnicas de gestão de portfólio em que os novos projetos são avaliados, selecionados e priorizados. A segunda é executar os projetos selecionados corretamente, dando ênfase no levantamento adequado de informações sobre os clientes, no desenvolvimento do projeto eficiente e com o trabalho de uma equipe multidisciplinar.
O método Stage-Gate (COOPER, 2001) é um sistema para gerenciar e acelerar esforços de desenvolvimento de novos produtos. Nesse sentido, o PDP é um processo sistemático que se inicia com a ideia de um novo projeto e finaliza no lançamento do produto. Para isso, o autor argumenta que a gestão do PDP deve buscar atingir sete metas: 1) qualidade na execução do PDP; 2) dar foco e prioridade ao PDP; 3) execução de atividades simultâneas; 4) formação de uma equipe multidisciplinar; 5) forte orientação ao mercado por meio da identificação e análise da voz do cliente; 6) maior grau de pesquisa e levantamento de informações nas atividades anteriores ao desenvolvimento e; 7) produto com vantagem competitiva.
Com o objetivo de atingir as metas acima citadas, Cooper (2001) apresenta que o Stage-Gate é um processo para gerenciar o PDP com a finalidade de melhorar sua eficiência e eficácia. O autor divide o processo de desenvolvimento de um novo produto em estágios identificáveis, podendo ser, quatro, cinco ou seis estágios, dependendo de cada organização e da complexidade de cada projeto.
Cada estágio consiste de um conjunto de atividades em paralelo desenvolvidas por pessoas de diferentes áreas funcionais da empresa. Os estágios-chave, apresentados na Figura 2.3, consistem em: Descoberta, Pesquisa Preliminar, Pesquisa Detalhada, Desenvolvimento, Teste e Validação e Produção e Lançamento.
Figura 2.3 Estrutura Stage Gate para o processo de desenvolvimento de produto (COOPER, 2001).
Da Figura 2.3, precedendo a cada estágio existe um “gate” ou ponto de decisão. Os gates servem como pontos de controle da qualidade e como pontos de decisão para parar o projeto ou evoluir para o estágio seguinte. A estrutura de cada gate é similar e consiste de um conjunto de entregas desejadas – por exemplo, o resultado de um conjunto de atividades completadas –; critérios segundo os quais o projeto é revisado – por exemplo,
checklists –; e resultados definidos – incluem um plano de ação aprovado para o estágio
seguinte e uma lista de entregas com respectivas datas.
Antes de finalizar o projeto, esta abordagem recomenda realizar uma análise crítica das forças e fraquezas e uma discussão do que pode ser aprendido deste projeto e como o próximo pode ser mais bem executado.
O Stage-Gate de primeira geração consiste no processo de revisão de fases. Foi amplamente direcionado pela engenharia e pelos testes em laboratórios para garantir o sucesso de um conjunto de tarefas-chave (COOPER, 2001). Assim, a metodologia foi mais de mensuração e controle desenhado para garantir que o projeto fosse desenvolvido em conformidade e que seja completado no tempo.
O Stage-Gate de segunda geração é multidisciplinar. O processo é mais holístico. Existe maior ênfase no front-end, com mais atividades e entrada de maior quantidade de informação de clientes (COOPER, 2001). Especifica atividades em estágios e melhores práticas, e é construído em um processamento em paralelo.
Descoberta Estágio 4 Estágio 1 Estágio 5 G1 G2 Estágio 2 G3 Estágio 3 G4 G5 Pesquisa Preliminar Pesquisa Detalhada Desenvolvimento Teste e Validação Produção e Lançamento Avaliação
Já o Stage-Gate de terceira geração é uma evolução natural em empresas nas quais o processo Stage-Gate de segunda geração tenha sido implantado com sucesso. Cooper (2007) apresenta seis características para esta geração:
1) Flexibilidade. O processo Stage-Gate não é rígido, permitindo que cada projeto seja encaminhado de acordo com seu nível de risco e suas necessidades. Assim, estágios podem ser omitidos e gates combinados, fazendo com que as decisões sejam realizadas levando em consideração o pleno entendimento dos riscos associados.
2) Fuzzy Gates. Os gates podem ter várias condições ao longo do seu processo. Portanto, nem sempre a decisão pode ter duas alternativas, “continuar” ou “parar”.
3) Fluidez. As atividades não são atadas a estágios específicos, mais que isso, é permitida a sobreposição de estágios. Também existem gates que permitem a passagem para o estágio seguinte, denominado de gate condicional (aprovar para o estágio seguinte na ausência de informação completa).
4) Foco. Os projetos podem ser descontinuados nos gates e recursos são realocados para os melhores projetos. Assim, busca-se uma efetiva gestão de portfólio de projetos.
5) Facilitador. Denominado de Mestre gate é a pessoa que garante que o processo Stage-Gate seja conduzido de forma eficiente. Atua como referência, capacita as pessoas e faz deste processo um ambiente de melhoria contínua.
6) Forever Green. O Stage-Gate é considerado perene. As atividades são constantemente renovadas, redesenhadas e melhoradas com a experiência da prática.
O cliente na abordagem Stage Gate
Cooper (2007) argumenta que para maximizar a produtividade do PDP, a abordagem Stage-Gate de terceira geração considera sete princípios. Esses princípios são resultados da pesquisa sobre melhores práticas no PDP realizada pela American Productivity & Quality Center (APQC). Esses resultados revelam que empresas que utilizam esses princípios alcançam resultados superiores no desempenho de seu PDP, mas por outro lado, empresas com baixo desempenho no seu PDP tendem a ignorá-los. Esses princípios são: foco no cliente; forte ênfase no front-end antes de iniciar o desenvolvimento; desenvolvimento em espiral referido à interação com os clientes durante o desenvolvimento; abordagem holística e
equipes multifuncionais eficazes; medição, responsabilidade e melhoria contínua; foco e gestão eficaz de portfólio; e processo enxuto, flexível e adaptável.
Dos sete princípios, os três primeiros estão relacionados diretamente com o cliente. Pode-se dizer que na abordagem Stage-Gate, de terceira geração, o cliente cumpre um papel ativo em grande parte do processo. No estágio de geração de ideias ou estágio de descoberta é recomendado que a empresa fabricante faça participar seus clientes potenciais com finalidade de identificar problemas, lacunas e oportunidades emergentes para novas soluções.
No estágio de pesquisa preliminar, no qual há uma necessidade por informações técnicas e de mercado, é recomendado que a empresa procure buscar informações de mercado e dos clientes por meio de pesquisas e entrevistas com clientes potenciais.
No estágio pesquisa detalhada, objetiva-se mensurar necessidades, preferências e desejos dos clientes e o dimensionamento do mercado. A diferença do estágio anterior é que neste há a participação de um número maior de clientes. É recomendado realizar pesquisas tradicionais de mercado, dentre elas, o survey. As informações aqui obtidas servirão para o início do desenvolvimento do projeto de produto.
No estágio de desenvolvimento em si, são recomendados testes contínuos do produto e o aperfeiçoamento do conceito do produto, utilizando modelos de prototipagem rápida com a finalidade de conhecer a reação do cliente e buscar feedback. É neste estágio que a abordagem Stage-Gate considera que o desenvolvimento do projeto deve acontecer de forma iterativa entre a equipe de desenvolvimento e clientes-chave, no ciclo de construir, testar e melhorar.
No estágio de teste e validação, o produto resultante é posto em prova sob as condições de uso do cliente com a finalidade de conhecer seu desempenho em situações reais. Cooper (2007) cita que este teste, na maioria das vezes, é realizado nas instalações dos clientes.
No último estágio, dependendo do plano de marketing da empresa e do tipo de produto, clientes são convidados a participar. Práticas de integração de clientes citadas na abordagem Stage-Gate, porém não detalhadas, incluem:
Utilizar a voz do cliente para descobrir novas oportunidades de negócio. Esta prática ocorre com ajuda de princípios de etnografia na observação de clientes no seu ambiente real e de entrevistas presenciais.
Interagir com os Usuários Líderes para conhecer as necessidades não articuladas do mercado na fase da descoberta.
Uso do survey para confirmar necessidades de mercado levantadas.
Teste beta do produto realizado pelos clientes parceiros no ambiente real de uso do produto.
Uso de clientes parceiros para a integração como testadores na fase do desenvolvimento. Para isso, recomenda-se o uso de grupos focados nos clientes (quando o número de clientes for superior a dez participantes) e oficinas com clientes (quando o número de clientes for menor que dez participantes).
Conhecer o valor do produto. Técnica experimental que consiste na interação dos clientes com o produto. O objetivo é que os clientes expressem seus pareceres, interesses e dificuldades no uso do produto.