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Abordagem do tema das necessidades de saúde no campo da saúde coletiva no

No Brasil, alguns autores da Saúde Coletiva tematizaram, ainda na década de 1990, acerca das necessidades humanas de saúde: Mendes-Gonçalves (1992), Eduardo Stotz (1991), Lilia Schraiber e Mendes Gonçalves (1996) e Matsumoto e Cecílio (1999). Por isso, as concepções dos mesmos sobre tal conceito encontram-se aqui sumariamente recuperadas. Convém esclarecer que a delimitação desses autores não decorre de uma análise exaustiva do campo da saúde coletiva, no que tange a uma recuperação histórica do tema das necessidades e dos primeiros autores a ele relacionados, o que fugiria ao propósito deste texto, uma vez que isso exigiria um esforço à parte, dadas a amplitude e a natureza interdisciplinar deste campo (PAIM, J.S; ALMEIDA FILHO, N., 1998). Esses autores são recordados por considerarmos que suas ideias são de grande influência ainda hoje nesse campo, quando se aborda o tema em questão.

Mendes-Gonçalves (1992) examinou o tema das necessidades de saúde como parte de seus estudos sobre os processos de trabalho em saúde. Ele definiu as necessidades humanas como sendo os carecimentos que o homem possui como ser natural. Essas necessidades, ainda que existam como uma condição natural do homem, são sempre necessidades sociais e históricas, na medida em que o homem é também por sua própria natureza um ser social e histórico (MENDES-GONSALVES, 1992).

As necessidades são, afirma o autor, sempre produzidas por esse homem em contextos sociais e momentos históricos que se modificam, alterando consequentemente as necessidades que ele possui. As necessidades de saúde são necessidades sociais e como tais surgem no decorrer da história do homem. Na forma que hegemonicamente se

caracterizam hoje – necessidades de saúde como necessidades de serviços médicos – ,elas desenvolvem-se no âmbito das necessidades colocadas pelo capitalismo (MENDES-GONSALVES, 1992).

Eduardo Stotz (1991) debruçou-se sobre o assunto na tentativa de fundamentar teórica e metodologicamente o conceito de necessidades de saúde como um conceito operacional a ser utilizado pela área do planejamento em saúde. Ele afirma que as necessidades de saúde são sempre necessidades individuais, a fim de distinguir- se, segundo ele, de outras interpretações do campo da saúde coletiva que, ao definir as necessidades como sendo sociais, excluíram o sujeito individual como um sujeito portador de necessidades. Para esse autor, as necessidades são individuais, pois são vividas, percebidas e expressas na forma de dificuldades e requerimentos pelas pessoas para a reprodução de suas vidas. Afirma ainda que, “estritamente falando, necessidades de saúde estão relacionadas aos processos biopsíquicos de gestação, crescimento e desenvolvimento de indivíduos humanos” (STOTZ, 1991, p. 449).

Ainda que sejam individuais, continua Stotz (1991), as necessidades são sociais porque somente podem ser satisfeitas socialmente; os processos vitais (biológicos e individuais) não existem separadamente dos processos sociais dos quais os indivíduos fazem parte. É possível pensar as necessidades enquanto necessidades humanas, genéricas, mas sua historicidade se manifesta apenas quando referidas aos indivíduos (STOTZ, 1991).

Lilia Schraiber e Mendes-Gonçalves (1996), refletindo sobre as necessidades de saúde e a Atenção Primária, designaram como necessidades de saúde as soluções e/ou correções que os usuários visualizam para seus problemas de saúde, que se encontram no resultado dos serviços de saúde que buscam, tornando esses próprios serviços também necessidades (SCHRAIBER; MENDES-GONÇALVES, 1996, p. 30).

Considerando que essa solução antevista pelas pessoas para seus problemas se constitui mediante o conhecimento prévio de outros carecimentos exitosamente respondidos pelo modo como estão organizados os serviços de saúde, a nova busca por esses serviços, motivada pela referida antevisão, se constituirá, em geral, na reafirmação desses mesmos serviços e sua organização. Nesse contexto, Schraiber e Mendes- Gonçalves afirmam que “a produção e distribuição efetiva dos serviços será não apenas resposta a necessidades, mas, imediatamente, ‘contexto instaurador de necessidades’ em que se institui um movimento circular entre a organização da produção, a oferta ou

distribuição de serviços e o seu consumo” (SCHRAIBER; MENDES-GONSALVES, 1996, p. 30).

Por fim, Matsumoto e Cecílio (1999) elaboraram uma taxonomia que tentou dar conta dos vários enfoques de necessidades de saúde e que, ao mesmo tempo, fosse descritiva e operacional. Com isso, agruparam as necessidades em quatro grandes conjuntos: (1) necessidades de boas condições de vida, (2) garantia de acesso a todas as tecnologias que melhorem e prolonguem a vida, (3) necessidade de ter vínculo com um profissional ou equipe de saúde e (4) necessidade de autonomia e autocuidado na escolha do modo de “andar a vida” (MATSUMOTO; CECÍLIO, 1999).

O primeiro agrupamento de necessidades (ter boas condições de vida) decorre do consenso de que a maneira como se vive traduz diferentes necessidades de saúde. Isso pode ser percebido a partir de uma perspectiva funcionalista, enfatizando fatores inerentes ao ambiente, que determinam o processo saúde-doença (tal qual proposto por Leavell e Clark: História Natural da Doença); e também a partir de formulações de autores marxistas que dão ênfase aos distintos lugares ocupados por homens e mulheres no processo produtivo e sua inferência nos modos de adoecer e morrer.

O segundo agrupamento (necessidade de se ter acesso e de poder consumir toda a tecnologia de saúde que seja capaz de melhorar e prolongar a vida) é compreendido pelo autor a partir dos conceitos de tecnologia leve, leve-dura e dura, propostas por Merhy (1997) e nega qualquer hierarquia dessas tecnologias. Advoga que o valor de uso de tais tecnologias são sempre definidas pela necessidade de cada pessoa, em cada singular momento da sua existência.

O terceiro agrupamento (criação de vínculos a(e)fetivos entre cada usuário e uma equipe e\ou um profissional) reconhece que esse vínculo implica uma relação de confiança e referência, “uma relação contínua no tempo, sendo pessoal e intransferível, calorosa; encontro de subjetividades”.

Quanto ao último agrupamento (a necessidade de cada pessoa ter graus crescentes de autonomia no seu modo de viver), Matsumoto e Cecílio (1999) referem-se à autonomiacomo a possibilidade dos sujeitos de reconstruírem os sentidos de suas vidas, incluindo a luta pela satisfação de suas necessidades.

Ainda que as ideias dos autores referidos acima sobre o tema das necessidades não se resumam nas considerações trazidas, com elas o leitor pode minimamente observar que, resguardadas algumas diferenças entre eles, sobressai o

enfoque que considera as necessidades como necessidades sociais e históricas. Isso pode estar associado à influência que a tradição do pensamento marxista, fonte filosófica onde se alicerça esse enfoque, teve na constituição do campo da saúde coletiva no Brasil.

Pelo exposto até aqui, ressaltamos que a presente investigação afilia-se ao enfoque teórico que trata as necessidades de saúde como sendo necessidades sociais e históricas, seguindo o pensamento helleriano e a tradição do pensamento marxista desenvolvido no campo da saúde coletiva.

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