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Ao entrar em campo também comecei a me indagar sobre quais instrumentais teóricos estava utilizando para vivenciar e refletir sobre as relações em contexto etnográfico. Isso me remeteu a um artigo de Roberto Cardoso de Oliveira (2006) a respeito da formação dos antropólogos - que geralmente lemos em cursos de formação básica em antropologia - em que o autor sugere a relação de aproximação etnográfica possível somente se existe um contato anterior, mais prolongado, com a própria teoria e com os métodos de pesquisa antropológicos; um tipo de olhar e aproximação que se constrói somente no estudo mais detalhado destas teorias e métodos pelo antropólogo em formação. Roberto Cardoso de Oliveira aponta a necessidade de “domesticar” o olhar através da teoria antropológica, numa articulação entre o olhar, o ouvir e o escrever, na construção do saber antropológico.

Ele comenta que enquanto no olhar e no ouvir “disciplinados” – a saber, disciplinados pela disciplina – realiza-se nossa percepção, será no escrever que o nosso pensamento antropológico exercitar-se-á da

forma mais cabal, como produtor de um discurso que seja tão criativo como próprio das ciências voltadas à construção da teoria social. (CARDOSO DE OLIVEIRA, 2006). Isso porque, a partir do momento que nos sentimos preparados para a investigação empírica, o objeto, sobre o qual dirigimos nosso olhar, já foi previamente alterado pelo próprio modo de visualizá-lo. (CARDOSO DE OLIVEIRA, 2006). Explicita assim a necessidade de imergir em algumas discussões teóricas e metodológicas para somente então “ir a campo” e, através da escrita posterior, exercitar o pensamento acerca das informações colhidas, constituindo um discurso sobre o que foi observado e percebido.

A “preparação de meu olhar” para encarar os objetos de pesquisa se iniciou em minha formação em antropologia na graduação, no acompanhamento e orientação paciente de professores que eram também antropólogos, que me incentivaram para que elaborasse um trabalho de conclusão de curso que dialogasse com a área de conhecimento. Ao longo da formação no mestrado, nas aulas, palestras e cursos com os professores do Programa de Pós-Graduação, tive acesso a uma série de debates e teorias antropológicas clássicas e contemporâneas assim como acessei as contribuições das teorias contemporâneas provindas de outras vertentes sociais e das ciências. Deste modo o texto que se segue é uma tentativa que busca mesclar estas referências teóricas que “domesticaram”, nas palavras de Roberto Cardoso de Oliveira, meu olhar para o objeto de pesquisa que investiguei.

Essa mescla aqui, no caso, é composta por referências antropológicas que nos remetem para a produção intelectual norte- americana mais recente preocupada com as inter-relações entre as dimensões da cultura, seja em suas manifestações lingüísticas e também nas práticas sociais de indivíduos concretos. Neste exercício busquei também problematizar as noções de universalismo e particularismo implicadas na dinâmica própria de investigações etnográficas, apontando sua produtividade e seus limites, a partir das evidências encontradas em campo. A mescla teórica aqui é composta também da articulação entre conhecimento antropológico com algumas das vertentes atuais das teorias feministas, de gênero e dos estudos a respeito da sexualidade. Estas teorias, que intensificam o processo de “desconstrução” de categorias caras às ciências humanas, auxiliam no sentido de infiltrar no referencial antropológico uma

abordagem que questione seus próprios pressupostos, visando à fértil produtividade em colocarmos diferentes paradigmas (antropológicos, feministas, queer7, etc..) sob tensão e diálogo de tal forma que se constituam “ciborgues conceituais e múltiplos”, realizando formas de conhecer antes não vislumbradas, e mutuamente “ampliando” epistemologicamente o panorama destes saberes, tal como apontam pesquisadoras feministas como Marilyn Strathern (2006) e Donna Haraway (2000). Estas vertentes teóricas permeiam os capítulos do trabalho, se articulando de formas diferentes de modo a auxiliar, como ferramentas conceituais, na reflexão a respeito de determinadas questões em pauta.

No primeiro capítulo busca-se analisarem-se as histórias e trajetórias no contexto da Parada da Diversidade, traçando um histórico para o surgimento do evento na cidade, visando mencionar algumas das movimentações e eventos de visibilidade LGBT ocorridos na cidade antes da Parada propriamente dita. Busco-se também ressaltar o contexto em que surgem as “Paradas do Orgulho LGBT” no Brasil e o processo de disseminação deste modelo de manifestação pública pelo país, que culminou e influenciou, em certo sentido, o surgimento da Parada de Florianópolis. Trata-se de realizar uma análise das relações e agenciamentos estabelecidos entre os indivíduos pertencentes às esferas do ativismo LGBT e do empresariado GLS/GLBT na cidade no contexto de preparação da Parada. Ali abordo um pouco das histórias de alguns grupos e ONGs do movimento LGBT local, tanto de grupos mais antigos como de formações de coletivos recentes envolvidos nas atividades da Parada, numa dinâmica em que se observa que alguns grupos deixam de participar do evento ao mesmo tempo em que novos coletivos passam novamente a intervir na semana, organizando inclusive a Semana da Diversidade de 2010.

Debatem-se brevemente alguns dos processos de

institucionalização destes grupos bem como seus modos de

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O termo inglês queer tinha, originalmente, uma conotação negativa, era utilizado como injúria contra aqueles que rompiam normas de gênero e sexualidade. Nas palavras de Guacira Lopes Louro, o queer designa “a diferença que não quer ser assimilada ou tolerada, e, portanto, sua forma de ação é muito mais transgressiva e perturbadora.” (Louro, 2001, p.546) O termo queer aqui se relaciona tanto a corrente teórica quanto aos contextos de movimentos sociais contemporâneos que defendem culturas sexuais marginalizadas e tomam o termo queer como nomeação e parte de suas diretrizes conceituais e políticas.

intervenção social e ação política. No contexto das configurações empresariais GLS/GLBT aborda-se o processo de constituição da AEGLBT/SC e os empreendimentos comerciais vinculados à associação. São analisadas também as iniciativas da associação referentes ao que definem como fortalecimento do turismo GLS na região, na consolidação da cidade de Florianópolis como destino turístico voltado ao público GLBT, num contexto em que o carnaval gay da cidade conta como origem importante neste processo. No segundo capítulo são exploradas a relações entre empresários e ativistas e suas respectivas impressões recíprocas, ao lidarmos com concepções distintas a respeito da parada, tomada por um âmbito enquanto ato político e por outro enquanto evento turístico vinculado aos empreendimentos GLS/GLBT. Primeiramente são explicitados os contextos etnográficos em que a pesquisa se desenvolveu, isto é, os espaços de interação entre agentes e de constituição do próprio evento: a Semana da Diversidade promovida pela AEGLBT/SC em 2009, a Semana da

Diversidade promovida por dois grupos ativistas LGBT (Roma E Gozze8)

em 2010, e os dias de realização do evento nestes dois anos.

A partir destas descrições, busca-se no terceiro capítulo realizar uma análise da Parada da Diversidade como evento permeado por discursos e práticas, tomando-a como um evento performático que é “disputado” a partir de diferentes interpretações a objetivos, dependendo dos agentes envolvidos. São abordados os significados ali presentes que lidam com as discussões sobre a “eficácia” da Parada. Busquei evidenciar como o caráter do evento está constantemente em negociação entre estes campos de forças, transitando entre os limites da “festa” e da “política”, a partir do momento em que entram em choque as narrativas e performances distintas sobre o evento, provindas sejam das esferas do ativismo ou do empresariado. Dependendo dos agentes envolvidos e das circunstâncias conjunturais, algumas das representações se sobressaem, implicando em diferentes interpretações a respeito do evento, seja como manifestação festiva e/ou política, contexto no qual se catalisam justamente representações sociais a respeito da população LGBT e sobre seus direitos. Com evento

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Não abordarei neste momento as histórias e dinâmicas destes dois grupos citados, deixando para realizar este intento ao longo do trabalho, bastando por hora que se mencione que seus nomes não correspondem à siglas, mas sim às nomeações específicas que os próprios ativistas deram aos coletivos dos quais fazem parte.

comunicativo e extra-cotidiano a Parada está envolve e influencia, como parte de sua manifestação e constituindo seus significados, em processos sociais de transformação social a respeito das compreensões sobre sujeitos e direitos LGBT.

Por fim, no terceiro e último capítulo, são abordados os diferentes mecanismos pelos quais são representados os sujeitos LGBT na Parada da Diversidade, na consolidação de um debate sobre direitos humanos específicos para os novos sujeitos que “surgem” no debate sobre identidade naquele contexto. Numa discussão a respeito dos modos de subjetivação, sujeitos e identidades no contexto do evento, buscam-se abordar a trajetória de consolidação de identidades igualitárias a partir das narrativas do movimento LGBT, os processos de classificação a partir de diferenças na esfera do consumo e do empresariado GLS/GLBT, e as influências dos debates pós- estruturalistas nestes dois contextos. Abordando também os paradoxos em torno da elaboração de direitos e cidadania LGBT no evento, procura-se evidenciar como os discursos e práticas em torno destes direitos e sujeitos pode se constituir como um ponto de expansão nas modernas narrativas a respeito da cidadania ao mesmo tempo em que desafiam seus limites.