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HISTÓRIAS EM TORNO PARADA DA DIVERSIDADE

1. Sexualidades, movimentos e o surgimento das Paradas

Pensar Paradas como uma manifestação pública massiva requer pensar também através de quais possibilidades e condições históricas e sociais surgem estes grandes eventos que tomam as ruas das grandes cidades em diferentes partes do mundo para comemorar o “orgulho de ser homossexual” e para lutar por “direitos para os sujeitos LGBT”. A associação destes eventos com os movimento homossexual moderno é quase sempre “invocada” como origem e contexto em que as Paradas, como modelo de manifestação pública, se difundem em contextos diversos. Inevitável assim não refletir sobre a própria história e surgimento destes movimentos sociais em diferentes países ao longo do século XX, aludindo aos seus processos e dinâmicas internas de transformação ao longo do tempo. Alguns autores apontam para a pertinência de pensarmos que o aparecimento do moderno movimento homossexual está relacionado a uma série de experiências e resistências no começo do século XX, em que surgem novos discursos e práticas (médicos e jurídicos, principalmente) articulados em torno de um novo tipo de indivíduo, engendrados por estes mesmos discursos: o indivíduo “homossexual”.

Michel Foucault e sua produção são referência importante neste sentido por tratar a sexualidade de maneira diferente, distinguindo sua aproximação deste objeto de investigação das demais compreensões existentes então, informadas muitas vezes pelas ciências do campo psicológico ou por saberes jurídicos ou médicos. O autor efetua uma modificação na compreensão a respeito das sexualidades ao concebê-la não mais como um assunto de cunho individual e restrito, (sobre o qual não se fala), mas sim como uma configuração histórica de um dispositivo de poder-saber, que se articula a partir do discurso e do desejo, modelando corpos e subjetividades (BENTO, 2006, p. 78). Ao tratar a sexualidade como um dos diferentes regimes ou dispositivos de subjetivação na sociedade

moderna o autor avança na possibilidade de pensarmos a sexualidade como um dos modos centrais de “conformação” de sujeitos. Preocupado com a hipótese repressiva, Foucault sugere em História da

sexualidade I (1988) que não se trataria tanto de saber o que se disse

sobre a sexualidade, mas de saber o que se disse a partir de que posições e de quais instituições, saber como o discurso sobre o sexo se produz e se perpetua, “criando” novos sujeitos do discurso.

Uma das produtivas oposições informadas por estes discursos,

a dicotomia entre homossexualidade/heterossexualidade, foi

posteriormente analisada por Eve Sedgwick em seu Epistemologia do

Armário (2008 e 1990), influenciada justamente pela produção

Foucaultiana. Sedgwick, ao questionar a dicotomia

homossexual/heterossexual como matriz para a conformação de identidades modernas – presentes como principal mote de articulação para o movimento LGBT moderno -, evidencia a característica problemática destas oposições a partir de uma perspectiva queer. Seria incoerente conceituar o “homossexual”, mesmo no movimento de direitos dos LGBT pelo viés identitário, sem considerar as formas modernas de conceituar o desejo pelo mesmo sexo. Nesse exercício, problematizar a aparente simetria entre homossexual/heterossexual poderia ser um movimento central nestes debates, num intuito de evidenciar a verdadeira assimetria dessa oposição, demonstrando até mesmo a recente elaboração destas duas categorias, sendo a definição do “heterossexual” posterior à definição do que seria uma pessoa “homossexual” (SEDGWICK, 2008, p. 42-43). Mesmo afirmando a contingência na formulação dessas duas “categorias de pessoas” e sua aparente oposição, Sedgwick não deixa de apontar que a identificação com estas categorias tenha o poder de mobilizar taticamente aqueles

que se sentem parte de uma minoria.10

10 “Questionar a auto-evidência natural dessa oposição entre gays e héteros como tipos

distintos de pessoas não é, porém, desmanchá-la. Talvez ninguém devesse querer fazê-lo. Grupos substanciais de mulheres e homens nesse regime de representação descobriram que a categoria nominativa “homossexual”, ou seus quase-sinônimos mais recentes, tem um poder real de organizar e descrever sua experiência de sua própria sexualidade e identidade, de modo suficiente para fazer com que sua auto-aplicação (mesmo que apenas tática) seja, pelo menos, digna dos enormes custos que a acompanham.” (SEDGWICK, 2008, p.43)

Pontuando assim a emergência bastante recente da categoria “homossexual” na modernidade e os limites de tomá-la como categoria auto-evidente não estão excluídos da análise destes autores os efeitos reais da exclusão e do preconceito sob o qual vivem indivíduos que se “identificam” com que estas categorias, como modos de vivenciar e compreender, dentro de um sistema de representações dado, suas práticas amorosas e sexuais. Assim a homossexualidade, enquanto categoria e em suas variantes, articulada ao longo dos debates identitários no interior dos movimentos sociais, teve o poder de mobilizar e organizar homens e mulheres em diversas partes do mundo em diferentes períodos históricos de suas lutas. Não estão descartadas as evidências da existência de movimentos de luta pelos direitos dos homossexuais desde o final do século XIX (LAURITSEN & THORSTAD, 1974) no que poderia ser chamado como a “primeira onda” dos movimentos homossexuais modernos, profundamente marcados pelas lutas contra a patologização da homossexualidade e em debates em favor do socialismo ou na luta contra Estados totalitários emergentes na primeira metade do século XX. Alguns autores apontam para a necessidade de resgatar a história destes primeiros movimentos estabelecidos entre 1860 e 1940 em países como França, Alemanha e Rússia, como parte de uma história e de um “acúmulo político” que se refletissem nas mobilizações da “segunda onda” destes movimentos, surgidos a partir das lutas por direitos civis e na organização de grupos de luta de homossexuais, mulheres e negros nos anos sessenta, principalmente nos EUA e na Europa (LAURITSEN & THORSTAD, 1974).

Os novos movimentos sociais da secunda metade do século XX ganharam relevo e se organizaram principalmente durante os anos sessenta, setenta e oitenta, impulsionando novas formas de mobilização em que a resistência nas ruas contra expressões de violência e repressões de todo tipo, foram mote principal para o surgimento e organização de muitos grupos em diversas partes do mundo. Notoriamente reconhecido como um dos marcos históricos nas lutas LGBT, quase sempre demarcado e recordado por grupos do movimento LGBT, constantemente se remete ao episódio ocorrido nas imediações do bar Stonewall Inn, na cidade de Nova York, como a data de referência para o começo do significativo movimento gay norte- americano e para o surgimento de uma nova onda de mobilizações em torno dos debates sobre sexualidades. Com influências significativas na

maneira como o movimento viria a se manifestar ao longo dos próximos anos, o incidente ocorrido neste bar no dia 28 de junho de 1969 se configurou como uma invasão policial para prender e agredir os frequentadores habituais do lugar, principalmente gays, travestis e lésbicas. O procedimento realizado pelos invasores, as conhecidas “batidas policiais”, era uma praxe recorrente e vinha sendo realizado sem grandes conflitos até a noite em que os freqüentadores saíram às ruas e enfrentaram os policiais com pedras e pedaços de madeira, deflagrando um conflito de rua de grandes proporções e com reverberações sociais nos anos posteriores.

No ano seguinte, na costa oeste dos Estados Unidos, na região da cidade de São Francisco, iniciou-se uma tradição de luta por direitos para os homossexuais através de grandes manifestações públicas, que ficaram conhecidas como Gay Prides Parades, organizados por grupos (como o Mattachine Society fundado em 1950) inspirados nas lutas por direitos civis do movimento negro e pelo movimento feminista organizados então, assim como pelas iniciativas populares e esforços contra a Guerra do Vietnã. Assim é que a rebelião de Stonewall contra a polícia – um evento que é hoje comemorado com a Passeata Anual do Orgulho Gay em diversos países do mundo – simboliza o advento de

um novo movimento social (GREEN, 2003 p. 24).11

Notam-se algumas diferenças entre as Paradas em suas configurações em diversos países, de modo que estas manifestações se mostram um tanto diferentes do modelo que se popularizou no Brasil posteriormente, com presença de carros de som e trios elétricos e com um desenvolvimento “dançante” e festivo dos participantes ao longo das avenidas. Também marcadas por seus aspectos festivos, em algumas das Paradas dos Estados Unidos e Inglaterra os participantes se organizam através de grandes marchas por vias públicas de grandes cidades, compostas por vários setores agrupados em sucessivas seções, colunas estas muitas vezes definidas por atividades profissionais (policiais, enfermeiros, professores, etc.) ou então por marcadores identitários (“ursos12”, transgêneros, lésbicas, BDSM13, etc.), onde se

11

Pesquisadores realizaram extensas pesquisas sobre o contexto de surgimento destes movimentos em suas dinâmicas particulares. Conferir D´EMILIO (1998).

12 O termo “urso” é aqui utilizado para definir um estilo determinado entre os segmentos

destacam carros alegóricos e outros elementos decorativos e performáticos que compõem os eventos.

Em outras partes do mundo, como Argentina, Nicarágua, México e Porto Rico também viriam surgir, como fruto de modificações sociais ao longo dos anos sessenta e setenta, vários grupos e movimentos de gays e lésbicas: El Grupo Nuestro Mundo e a Frente de Liberación Homosexual de la Argentina (do qual fez parte Néstor Perlongher, antropólogo argentino radicado no Brasil) e a Frente Homosexual de Acción Revolucionaria no México, entre outros grupos, como aponta James Green (2003). Mesmo com o florescimento destes movimentos e grupos em diferentes contextos o modelo de manifestação pública massiva, com marchas e passeatas para a comemoração do orgulho e da diversidade sexual não se estendeu e difundiu como tática de luta privilegiada em todos estes países.

Ainda que atualmente muitas vezes estes eventos sejam considerados “quase sinônimos” de movimentações vinculadas aos movimentos de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Trangêneros no Brasil (denotando outras formas de mobilização realizadas por estes grupos ativistas antes da existência dos eventos massivos atuais), somente nos anos noventa as Paradas surgem como meio de manifestação pública privilegiada por grupos ativistas e se difundem como modelos de manifestação em diversas partes do país, ainda que de forma bastante distinta das Paradas em outras partes do mundo. Abordarei um pouco deste processo e suas particularidades no contexto de Florianópolis a seguir.