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4 BIOÉTICA E DEFICIÊNCIA

4.3 INFANTICÍDIO E DEFICIÊNCIA

4.3.2 Aborto “Pós-Nascimento” (Giubilini e Minerva)

Giubilini e Minerva (88) publicaram, em 2013, um artigo no qual defendem haver razões para a realização do que eles denominam “aborto pós-nascimento”, para situações em que o aborto é permitido, mas que não foi possível ter informações suficientes para realizá-lo durante a gestação.

Segundo os autores, a presença de anormalidades importantes no feto ou risco à saúde física ou psicológica da mãe são situações frequentemente apontadas

como razões válidas para o aborto12. Às vezes, as duas situações estão conectadas,

quando, por exemplo, a mulher alega que ter uma criança com deficiência pode representar um risco para sua saúde mental. Ter um filho pode, por si só, ser um fardo insuportável para a saúde psicológica da mulher ou de seus filhos já existentes, independente da condição do feto. Isso pode ocorrer, por exemplo, quando a mulher perde seu parceiro após descobrir as condições da gravidez e, por causa do abandono, sente que não será capaz de cuidar sozinha dessa possível criança (88).

Os autores argumentam que uma importante questão filosófica emerge quando as mesmas condições que justificariam um aborto tornam-se conhecidas somente após o nascimento. Eles prosseguem afirmando que, nesses casos, é necessário avaliar os fatos a fim de decidir se a mesma argumentação que é aplicada para justificar a morte de um feto humano pode também ser aplicada de forma consistente para amparar a morte de um recém-nascido (88).

Essas questões podem surgir quando a anormalidade não foi detectada durante a gestação, ou ocorre durante o parto, como a asfixia perinatal, que pode causar dano cerebral grave e resultar em impedimentos físicos e mentais severos comparáveis àqueles para os quais uma mulher poderia vir a solicitar um aborto13.

Além disso, as anormalidades do feto nem sempre são ou nem sempre podem ser diagnosticadas por meio de screening pré-natal. Mesmo doenças congênitas comuns para as quais as mulheres frequentemente são submetidas a exames para sua detecção podem passar incólumes. Os autores citam como exemplo a síndrome de Down: registros europeus de 18 países entre 2005 e 2009 revelaram que apenas 64% dos casos foram diagnosticados por meio de exame pré-natal. Esse percentual indica que, considerando apenas as áreas da Europa analisadas, 1700 crianças nasceram com a síndrome sem que seus pais tivessem ciência antes do nascimento. Uma vez nascidas, não há outra opção para os pais a não ser ficar com as crianças, o que às vezes é exatamente o que eles não teriam feito se a doença tivesse sido diagnosticada antes do nascimento (88).

12A legislação brasileira não permite o aborto nas situações citadas. Entretanto, em países em que o aborto é legalmente permitido, essas justificativas podem ser consideradas suficientes para levá-lo a cabo.

Os autores afirmam que criar uma criança com síndrome de Down pode ser um fardo pesado para a família e para a sociedade como um todo, se o Estado é responsável por fornecer a assistência necessária a esse indivíduo. Nesses termos, o fato de um feto ter o potencial de se tornar uma pessoa que terá (no mínimo) uma vida razoável não é razão para a proibição do aborto (nos países em que o aborto é permitido). Portanto, para os autores, quando as mesmas circunstâncias que justificariam o aborto ocorrem após o nascimento, deveria ser permitido o que eles denominam de “aborto pós-nascimento”. A despeito do oxímoro, eles propõem denominar essa prática de “aborto pós-nascimento”, em vez de “infanticídio”, para enfatizar que o status moral do indivíduo a ser morto é comparável ao do feto (no qual o aborto no senso tradicional é realizado). Além disso, eles defendem que a morte de um recém-nascido poderia ser eticamente permitida em todas as circunstâncias nas quais um aborto seria permitido. Isso inclui os casos em que o feto poderia ter (minimamente) uma vida razoável, mas o bem-estar da família está sob risco. Da mesma forma, a escolha da expressão “aborto pós-nascimento” no lugar de “eutanásia” é justificada na medida em que o melhor interesse de quem morre não é necessariamente o critério principal para a escolha, ao contrário do que ocorre na eutanásia (88).

Nessa perspectiva, ambos, feto e recém-nascido, são seres humanos e pessoas potenciais, mas nenhum dos dois constitui uma pessoa no sentido de serem “sujeitos com direito moral à vida”. De maneira similar à Singer, os autores consideram “pessoa” um indivíduo capaz de atribuir à sua própria existência algum valor básico de tal forma que ser privado de existir represente uma perda para esse indivíduo. Isso significa que muitos animais não humanos e indivíduos humanos com “retardo mental” são pessoas, mas que todos os indivíduos que não estão em condição de atribuir valor à sua própria existência não são pessoas. Para eles, apenas ser humano não é, por si só, uma razão para atribuir a alguém o direito à vida. Muitos indivíduos não são considerados sujeitos de direito à vida: embriões sobressalentes, nos quais é permitida a pesquisa com células-tronco embrionárias; fetos para os quais o aborto é permitido; criminosos para os quais a pena de morte é permitida (88).

Para justificar o “aborto pós-nascimento”, os autores argumentam que (i) o recém-nascido e o feto são moralmente equivalentes; e (ii) o feto e o recém-nascido são pessoas potenciais, não são ainda consideradas pessoas e, por isso, os

interesses das pessoas reais são mais importantes que os interesses de pessoas meramente potenciais. O bem-estar de pessoas reais poderia estar ameaçado por uma nova criança (ainda que saudável) requerendo energia, dinheiro e cuidados que a família pode não ter condições de suprir. Em alguns casos, o nascimento dessa criança pode ser evitado por meio do aborto, mas em outros casos isso não é possível. Nesses casos, argumentam os autores, não há razões para impedir o aborto pós-nascimento (88).

Corroborando essa visão, Engelhardt (89), bioeticista estadunidense, afirma que as crianças não são pessoas no sentido pleno. Para ele, as crianças devem existir em e por meio de suas famílias. Assim, os pais, de forma conjunta com um médico que os assiste com informações, são os adequados para decidir sobre tratar um recém-nascido com deficiência quando (i) não há apenas pouca probabilidade de uma vida humana plena, mas também a probabilidade de sofrer se a vida é prolongada; ou (ii) o custo de prolongar a vida é muito grande. Engelhardt (89) argumenta, ainda, que é razoável falar do dever de não tratar uma criança com deficiência quando isso só vai prolongar uma vida dolorosa ou só levaria a uma morte dolorosa. Ele baseia sua reivindicação sobre a noção jurídica de uma “vida injusta”. Essa noção sugere que há casos em que a não-existência seria melhor do que a existência, dadas as condições em que uma pessoa deve viver. A vida pode ser vista como um prejuízo, em vez de como um presente.

Os autores (88) refletem ainda sobre a adoção como uma alternativa ao aborto pós-nascimento. Eles apontam que uma possível objeção ao argumento por eles defendido é de que esse tipo de medida deveria ser realizada apenas em pessoas potenciais que nunca teriam uma vida digna de ser vivida. Dessa forma, pessoas potencialmente saudáveis e felizes poderiam ser adotadas caso a família não tenha condições de cuidar delas. Por que deveríamos matar um recém-nascido saudável quando doá-lo para adoção não viola o direito de ninguém, e possivelmente aumenta a felicidade das pessoas envolvidas (adotante e adotado)?

Mas para Giubilini e Minerva (88), o que realmente importa não é o interesse de pessoas potenciais, mas de pessoas reais. Nesse sentido, é preciso considerar que a mãe pode sofrer estresse psicológico por ter entregue o seu filho para adoção. Embora eles reconheçam que tanto o aborto pós-nascimento quanto a ‘doação’ para adoção sejam acompanhados por tristeza e sentimento de perda, eles afirmam que não há como presumir que a adoção é menos traumática para a mãe que deu à luz

do que o aborto pós-nascimento. Segundo eles, aqueles que se entristecem com a morte têm que se conformar com a irreversibilidade da perda, mas mães naturais frequentemente sonham que seus filhos retornarão para elas, tornando difícil aceitar a realidade da perda, por que elas nunca estarão totalmente convencidas se essa perda é ou não algo irreversível.

Por fim, os autores afirmam que não reivindicam que o aborto pós-nascimento seja melhor alternativa que o aborto. Abortos realizados nos estágios iniciais da gestação são a melhor opção, tanto por razões físicas quanto psicológicas. Contudo, se uma doença não foi detectada durante a gestação, se alguma coisa deu errado durante o parto, ou se circunstâncias econômicas, sociais ou psicológicas mudam de tal modo que cuidar do filho torna-se um fardo insuportável para alguém, então deveria ser dada às pessoas a chance de não serem forçadas a fazerem algo que elas não são capazes de fazer (88).

O artigo de ambos, publicado online, foi alvo de uma reação violenta, inclusive com ameaças de morte, o que, segundo Peter Singer, que assina um editorial no mesmo periódico em que o artigo foi publicado, não deve ser visto com surpresa (90). O próprio Singer relata que, cerca de 40 anos atrás, quando defendeu em seu livro Ética Prática o infanticídio de recém-nascidos com deficiência grave, seu trabalho recebeu forte oposição, incluindo ameaças de bomba e a impossibilidade de falar na Alemanha entre o final dos anos 1980 e início dos anos 1990.

Os autores, em uma carta aberta publicada no blog do Journal of Medical Ethics (91), afirmam terem se surpreendido com a reação provocada pelo artigo, pois entendiam que a publicação seria lida apenas por colegas bioeticistas que estão familiarizados com o tema e seus argumentos. Eles afirmam que nunca tiveram a intenção de sugerir que o aborto pós-nascimento se tornasse legal. Para eles, as leis não são apenas sobre argumentos éticos racionais, mas envolvem muitos outros aspectos práticos, emocionais e sociais que são relevantes para a formulação de políticas. Eles afirmam que não são police makers, mas filósofos, que lidam com conceitos, não com política e legislação.