2.4 OUTRAS ABORDAGENS DA DEFICIÊNCIA
2.4.1 Foucault e Deficiência: Biopoder, Biopolítica e Governo
A abordagem foucaultiana da deficiência entende que há uma relação causal entre impedimento e deficiência. Ou seja: a categoria impedimento emerge, e em muitos aspectos persiste, com o fim de legitimar as práticas governamentais que a geraram em primeiro lugar.
Em muitas abordagens, há uma clara contraposição entre deficiência e normalidade. A generalização da normalidade como ideal decorreu de um processo de normalização de todos os aspectos da vida social. Tanto o conhecimento sociológico quanto o médico utilizaram o termo ‘normal’ como o conhecemos no interesse de medir, classificar e disciplinar os indivíduos de forma a que estes se conformassem à normalidade.
Conforme Miskolci (32):
A norma desvaloriza o existente para corrigi-lo. O termo anormal implica referência a um valor, é um termo apreciativo. Normal vem de normalis, norma, regra. Normal também significa esquadro e, assim, etimologicamente, normal é aquilo que não se inclina nem para a esquerda nem para a direita, portanto é aquilo que é como deve ser; e, no sentido mais usual, o que se encontra na maior parte dos casos de uma espécie ou o que constitui a média numa característica mensurável. Em suma, a individualidade, por caracterizar-se por um afastamento da média, é facilmente qualificada de patológica (p.110).
Foucault (33) trata do poder disciplinar, que nasce como uma tecnologia de poder que trata o corpo do homem como uma máquina, objetivando adestrá-lo para transformá-lo em um instrumento útil aos interesses econômicos. O poder disciplinar, ou a disciplina, não é um aparelho de Estado nem uma instituição. É, sobretudo, uma técnica de poder que funciona como uma rede, a qual vai atravessar todas as
instituições e aparelhos do Estado de forma sutil e discreta, para que não seja percebida. Foucault (33) utiliza a ideia do sujeito útil e dócil, decorrente do instrumento de poder disciplinador que atua no corpo dos homens para adestrar e docilizar o sujeito por meio da vigilância e punição.
[...] esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõe uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar ‘disciplinas’. Muitos processos disciplinares existem há muito tempo: nos conventos, nos exércitos, nas oficinas também. Mas as disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos XVII e XVIII fórmulas gerais de dominação. Diferentes da escravidão, pois não fundamentam numa relação de apropriação dos corpos; é até elegância da disciplina dispensar essa relação custosa e violenta obtendo efeitos de utilidade pelo menos igualmente grandes (p. 133).
O corpo do indivíduo é tratado, pelo poder disciplinar, como máquina para adestrar e transformar esse corpo. A disciplina é, portanto, um tipo de poder que se dá sobre o corpo individualizado.
No final do século XVIII começa a se instituir o que Foucault (33) denominou biopoder, o conjunto de práticas e discursos que instituem a sociedade burguesa e a organizam. Nessa primeira fase, o corpo e a espécie passam a ser considerados paralelos e a espécie humana, a ser contabilizada, classificada, torna-se objeto de estimativas e pesquisas quantitativas. Os governos paulatinamente se preocupam mais com a “população”, seus fenômenos e variáveis próprios, como a natalidade, a mortalidade, a esperança de vida e a incidência de doenças. Nesse momento da história, Foucault destaca, os primeiros demógrafos começam a mensurar esse fenômeno em termos estatísticos (34).
Como estes fenômenos começaram a ter relevância, um novo tipo de medicina se desenvolveu, cuja principal função era a higiene pública. As instituições centralizaram o poder dessa nova medicina, normatizaram o seu conhecimento e coordenaram o cuidado distribuído sob os seus auspícios. Houve campanhas para educar o público e medicalizar a população. Com o objetivo de lidar com acidentes, doenças e várias anormalidades, a biopolítica estabeleceu instituições de caridade e mecanismos economicamente racionais, tais como seguro médico, poupanças individuais e coletivas, fundos, entre outros (33).
Uma vez que os fenômenos desta biopolítica tornaram-se pertinentes apenas em nível de massa, parâmetros coletivos foram estabelecidos. Nesse sentido, esse
novo campo do saber envolveu a introdução de mecanismos cujas funções incluíam prognósticos, estimativas, estatísticas e mensurações gerais, cujo propósito é a intervenção no aspecto de generalidade desses fenômenos. Mecanismos regulatórios foram estabelecidos para prescrever normas, ajustar ao equilíbrio, manter uma média e compensar as variações dentro da “população geral” (33).
Segundo Tremain (35), nos últimos dois séculos, em particular, um vasto aparato erguido para assegurar o bem-estar da população em geral ocasionou a emergência do tema da deficiência no discurso e na existência social. Entre os itens que compreendem esse aparato estão asilos, programas de apoio à renda, avaliações da qualidade de vida, benefícios compensatórios para trabalhadores, programas educacionais especiais, programas de reabilitação, próteses, serviços de home care e exames de diagnóstico pré-natal. Essas práticas, procedimentos e políticas (e uma série de outras) criaram, classificaram, codificaram, gerenciaram e controlaram anormalidades sociais por meio das quais algumas pessoas foram separadas das outras e objetivadas como fisicamente deficientes, loucas, aleijadas, doentes mentais, retardadas e surdas.
Ao longo dos últimos trinta anos, pessoas classificadas como “deficientes” desenvolveram concepções sociopolíticas de deficiência, a fim de combater abordagens medicalizadas. Essas concepções politizadas de deficiência e as crescentes consolidações e visibilidade do movimento social que as geraram precipitaram mudanças sociais importantes, incluindo a desinstitucionalização de milhares de pessoas encarceradas em asilos e hospitais em todo o mundo. O movimento das pessoas com deficiência teve também um importante impacto na academia, na qual o campo interdisciplinar dos estudos sobre deficiência floresceu (35).
Foucault argumenta que, nos tempos mais recentes, as práticas de divisão, classificação e ordenamento em torno de uma norma tornaram-se o mecanismo principal pelo qual as pessoas são individualizadas, são compreendidas cientificamente e, inclusive, a forma como elas compreendem a si mesmas. De fato, o poder do estado moderno em produzir uma rede crescente de controle social é inextricavelmente interligado e dependente de sua capacidade de gerar uma especificação da individualidade. A normalidade tornou-se o mecanismo para identificar os indivíduos e para fazer com que eles próprios se identificassem, com o objetivo de torná-los governáveis (35).
Uma compreensão da capacidade de biopoder para classificar as pessoas dessa forma traz luz às observações de Foucault sobre o duplo significado de indivíduo (subject) que são aplicáveis às circunstâncias relacionadas aos indivíduos com deficiência. Para Foucault, ser um indivíduo é, por um lado, ser objeto de outra pessoa por controle e dependência e, por outro, estar preso à própria identidade por consciência ou autoconhecimento. Ambos os sentidos do termo implicam uma forma de poder que subjuga e domina. Seu trabalho sobre biopoder e sobre a natureza dualística do indivíduo pode auxiliar a descobrir como as pessoas com deficiência são gradual, progressiva, real e materialmente constituídas por meio de uma multiplicidade de organismos, forças, energias, desejos e pensamentos (35).
Ao relacionar o biopoder e sua abordagem ao tema do governo, Foucault argumenta que o poder é mais uma questão de governo, isto é, a “direção da conduta”, do que uma questão de confronto entre adversários. Foucault chama de governo o ponto de contato entre o modo como se dá essa condução e esse conhecimento, e o modo pelo qual os indivíduos se conduzem e conhecem a si próprios. O termo governo é utilizado por Foucault para designar a maneira de moldar, guiar, dirigir a conduta dos indivíduos ou dos grupos: governo das crianças, das almas, das comunidades, das famílias, dos doentes, dos loucos, das mulheres. Portanto, governo não é empregado por Foucault exclusivamente no mesmo sentido que adquire na Modernidade – o de gestão e de administração dos Estados –, mas apoia-se na significação que o termo tinha no século XVI, qual seja: um modo de “estruturar o eventual campo de ação dos outros”, como a “conduta da conduta” (36,37).
A definição de governo como conduta da conduta pode significar guiar, direcionar e conduzir. Governo é entendido por Foucault tanto em um sentido amplo quanto restrito. Tanto diz respeito à relação da pessoa consigo mesma ou com outras pessoas – quando envolve alguma forma de controle ou direcionamento –, dentro de instituições ou nas comunidades, bem como nas relações referentes ao exercício da soberania política (37).
Em outras palavras, quando relações de poder são construídas como governo, isto é, como direção da conduta, as práticas governamentais devem ser entendidas de forma a incluir não apenas proibições e punições geradas pelo estado e as redes globais de estratificação social, econômica e política. Devem congregar também tecnologias de normalização que facilitem a objetivação do sujeito como
surdo, criminoso, louco, e assim por diante; e também técnicas de autoaperfeiçoamento e autotransformação, tais como programas de perda de peso e dietas para emagrecimento, injeções de botox, colocação de próteses mamárias e reabilitação. A despeito do fato de o poder parecer ser meramente repressivo, o exercício do poder mais efetivo, de acordo com Foucault, consiste em guiar as possibilidades de conduta e colocar em ordem os possíveis resultados. A dissimulação dessas práticas e os limites dessa possível conduta permitem a formação discursiva nas quais essas práticas são naturalizadas e legitimadas. Isso quer dizer que a produção desses aparentes atos de escolha (esses limites da conduta possível) na vida diária dos sujeitos possibilita a consolidação de estruturas hegemônicas (35).
Essa concepção de poder (a conduta da conduta) contrasta fortemente com as concepções jurídico-discursivas de poder que a maioria das teorias de deficiência toma por base. Cabe relembrar que, na perspectiva jurídica, o poder é construído como algo fundamentalmente repressivo, que pertence a uma autoridade externa centralizada e que reina sobre outros, tais como um grupo social, uma classe, uma instituição ou um Estado. O “modelo social”, que tem sido predominante no movimento de pessoas com deficiência desde o final dos anos 1970, é um exemplo paradigmático da concepção jurídica de poder que prevalece nos estudos sobre o tema (35).
Como visto nas subseções anteriores, o “modelo social” é a articulação formalizada de um conjunto de princípios que um grupo de ativistas do Reino Unido desenvolveu com o objetivo de contrapor concepções individuais ou médicas da deficiência (10). Os proponentes do modelo social argumentam que, em razão das concepções medicalizadas da deficiência representarem esta situação como consequências prejudiciais de um déficit intrínseco ou de uma falha pessoal, tais concepções fracassam em distinguir o impairment (impedimento) de disability (deficiência). De fato, essa distinção motivou o modelo social de deficiência.
Em relação ao modelo social, outrossim, impedimento e deficiência são arrogadas como categorias conceitualmente distintas, entre as quais não há relação causal. Impedimento não é igual a deficiência nem é causa dela. Em outras palavras, os proponentes da teoria explicitamente argumentam que (i) deficiência não é uma consequência necessária do impedimento; e (ii) o impedimento não é uma condição suficiente para a deficiência. Entretanto, uma premissa implícita
estabelece que (iii) o impedimento é uma condição necessária para deficiência. Note-se: os defensores dessa hipótese não argumentam que pessoas que são excluídas ou discriminadas com base na cor da pele são, em virtude desse fato, deficientes, nem argumentam que o racismo é uma forma de deficiência.
Observe que, se a premissa fundamental (isto é, necessária) do modelo social – o impedimento – é combinada com as reivindicações precedentes, segundo as quais as práticas governamentais modernas produzem – isto é, formam e definem – os indivíduos os quais elas posteriormente representam pela definição dos limites de sua possível conduta, então se torna mais evidente que os indivíduos produzidos são os que têm impedimentos, porque esta identidade atende a determinados requisitos de arranjos sociais e políticos contemporâneos.
Pessoas intersexuais, socialmente estigmatizadas, que podem ter sido cirurgicamente “corrigidas” na infância, não parecem ser consideradas deficientes. Pelo contrário, nos termos do modelo social, apenas pessoas que têm ou que presumem ter um impedimento contam como deficientes. Assim, a separação estrita das categorias de deficiência e impedimento que esse referencial teórico apregoa parece ser uma quimera (35).
Relacionando os elementos ‘biopoder’, ‘indivíduo’ e ‘governo’, podemos identificar como a análise foucaultiana de poder em relação à deficiência difere da concepção jurídica frequentemente empregada no modelo social. Embora o poder moderno pareça regular a vida política em termos puramente negativos (repressivos) pela proibição e pelo controle dos indivíduos, ele de fato os governa guiando, influenciando e limitando sua conduta de forma que estejam de acordo com o exercício de sua liberdade. De fato, parece que a identidade do indivíduo do modelo social (pessoa com impedimentos) é, na verdade, definida, em grande medida, pelos arranjos políticos contestados pelo próprio paradigma (35).
A análise foucaultiana demonstra que a concepção jurídica assumida pelo modelo social e pela maioria das teorias de deficiência obscurecem as limitações produzidas pelo biopoder moderno. Segundo essa análise, as práticas governamentais pelas quais os indivíduos são induzidos e separados de outros produzem a ilusão de que eles têm um antecedente prediscursivo ou natural (o impedimento). Este, por sua vez, fornece a justificativa para a multiplicação e expansão dos efeitos regulatórios dessas práticas. Em uma abordagem foucaultiana, seria importante demonstrar que há uma relação causal entre impedimento e
deficiência, qual seja: a categoria impedimento emerge, e em muitos aspectos persiste, com o fim de legitimar as práticas governamentais que a geraram em primeiro lugar (35).