• Nenhum resultado encontrado

5.2 Habilitando-se para o cuidado domiciliar

5.3.1 Abrangendo o cuidado domiciliar nos aspectos do paciente e da família

O cuidado domiciliar não é apenas o cuidado do paciente, envolve o cuidado de toda a família. As enfermeiras referem que este não é um cuidado como muitos entendem - internação domiciliar, o cuidado domiciliar não é apenas um hospital em casa, mas sim um local onde são realizados os procedimentos mais complexos, desde que com recursos disponíveis, até uma simples orientação com objetivo de prevenção e promoção à saúde.

Quando a enfermeira tem clareza de que estes aspectos são importantes para o cuidado, bem como para o resultado do cuidado, ela vai à casa preparada, com objetivos pré-definidos, ou seja, com suas ações sistematizadas de tal forma que considera tudo importante, e só depois avalia que conseqüências os aspectos

ou elementos encontrados estão intervindo ou não no seu cuidado e no resultado que ela espera do cuidado.

Pra mim é cuidar do todo, da família, do contexto inteiro. Bem holístico bem complexo.

(...) que nem no meu caso eu cuido da família inteira. Entendeu? Então, literalmente eu cuido da família inteira. Então tenho que saber desde que se a babá está esterilizando direito, se a diarista está fazendo a higiene correta com álcool 70% e não com álcool 40% ou 98%, até a lavagem da mão do pai que chega da rua, entendeu? Então você pega o relacionamento entre marido e mulher, o respeito, a mulher aprender a deixar o pai ajudar. Então você trabalha não é só questões de saúde, mas é uma questão comportamental, a questão da família como um todo. Na minha área específica não tem tanto.

Para mim trata-se de uma especialidade da área de saúde, que tem como principal objetivo desenvolver a assistência à saúde ao indivíduo acometido de uma enfermidade, tendo como cenário o lar do paciente e sua rede de apoio (família, amigos, vizinhos), visa à manutenção da qualidade de vida do doente, que estará em família, o que contribui para a sua recuperação.

Ela entende que a família é parte integrante da recuperação do paciente, tanto para ajudar literalmente nos cuidados quanto como parte da própria recuperação do paciente, pois quando existem conflitos na família o paciente se envolve intensamente e diretamente nesses conflitos, porque é parte da família, assim as preocupações ou problemas decorrentes desses conflitos interferem no processo saúde-doença do paciente, ou podem gerar novos problemas que são evitados quando a enfermeira percebe como as relações entre os integrantes acontecem, prevendo suas influências, com isso avalia e toma decisões visando à qualidade de vida do paciente e família.

O cuidado da família ainda é importante, uma vez que, quando uma pessoa da família adoece, todos os outros integrantes da casa sofrem, e muitas vezes eles interiorizam todas as suas angústias pessoais para si mesmos, não compartilham entre eles com medo de causar mais sofrimento para o doente ou para as outras pessoas da família e com isso inicia um processo de adoecimento emocional de determinado integrante, e de todos eles individualmente, assim a enfermeira precisa mostrar-se confiante e aberta para ajudar. E quando a procura ou abertura da família não acontece espontaneamente, ela precisa crias condições para cuidar da família.

A família é parte integrante da recuperação e necessita de cuidados sim, pois se não é dada à devida atenção à mesma, o sucesso da recuperação do doente é comprometido.

O histórico familiar deve ser sempre observados, pois se torna mais fácil quando se compreende o contexto familiar. A recuperação do paciente pode ser prejudicada quando a família não é consolidada.

É preciso compreender que na casa as relações de trabalho da enfermeira são outras, a família é que dita as regras, é ela que aceita ou não o cuidado. Com isso, é preciso um olhar para o todo, para toda a família, pois esta muitas vezes está sobrecarregada e necessitando de cuidados. Ou então não está sobrecarregada, mas dependendo de como acontece às relações entre os integrantes da família, isto pode interferir no cuidado. Esta interferência pode ser tanto positiva quanto negativa, cabe à enfermeira identificar como as relações acontecem e motivar para que continuem acontecendo às influências positivas e intervir nas influências negativas.

Conversando com o doente e a família, dá para descobrir muita coisa, como se alimentam, como vivem, quem mora junto na casa, como dividem as tarefas e se estão fazendo certo ou não.

No cuidado domiciliar é importante ouvir a família, pois eles trazem muitas informações que são valorosas para o desenvolvimento do cuidado, mas não se pode esquecer de ouvir o paciente também, é preciso respeitar as suas vontades e decisões. É comum voltar todas as orientações para a família quanto ao cuidado do paciente, escutar somente o que a família diz e decidir somente com a família a continuidade do cuidado. A enfermeira quando tem uma prática competente, escuta também o paciente e o insere no cuidado não como um agente passivo, que apenas executa o que é determinado por ela (enfermeira), pela família ou por ambos, mas sim como um agente ativo no seu cuidado, com responsabilidades assumidas por ele pela busca do autocuidado, respeitando suas opiniões e decisões.

Lá tem regras também, lá tem uma pessoa cultural dessa família, que você tem que respeitar, é a família que aceita ou não aceita o seu cuidado, o próprio ser que está sendo cuidado, ele tem vontade, né, não é uma coisa imposta, não pode ser uma coisa imposta.

Um outro aspecto muito bem lembrado pelas enfermeiras é a compreensão do cuidador familiar, muitas vezes ele não se assume como tal, mas é uma pessoa líder na família que resolve todas as questões referentes ao cuidado de seu familiar e também da família como um todo. A enfermeira identifica este cuidador e ele será seu maior aliado, seu braço direito quando ela não estiver na casa. Será ele que passará todas as informações a ela e que será o responsável por fazer que o cuidado seja contínuo.

Com isso, não se pode esquecer, que este cuidador também é um ser humano com potencial para ter seu processo saúde-doença afetado, precisando a enfermeira em algumas vezes direcionar seus cuidados a este cuidador, para que ele não adoeça, pois muitas vezes o paciente e a família estão muito bem cuidados, mas o cuidador está totalmente fragilizado. O cuidador pode desenvolver tanto alterações físicas, por ter que dar banho ou carregar seu familiar, por exemplo, como alterações psicológicas, pelas preocupações e sobre carga emocional.

É importante que o cuidador se identifique como pessoa e proceda com o autocuidado, para que possamos também cuidá-lo, isto é de extrema importância e contribui com os resultados.

Outra coisa importante é saber identificar o cuidador e orientá-lo de maneira adequada a sua linguagem, para que ele entenda e consiga praticar o cuidado de forma adequada. Muitas vezes, é o enfermeiro quem percebe a situação que a família se encontra, se o cuidador tem a vontade de cuidar realmente e os conflitos que existem na família.

Assim é papel da enfermeira, identificar estas alterações e, se possível prever antes que elas aconteçam para não permitir que o cuidador passe desta posição para condição de paciente.

Diante disso quando a enfermeira compreende a importância desses elementos no cuidado domiciliar, compreende a amplitude que é o desenvolvimento deste cuidado, visando a qualidade de vida do paciente e família, ela tem uma atuação diferenciada no domicílio. Pois para identificar como essas relações acontecem e ter esse olhar extenso, ela utiliza-se de habilidades e conhecimento e tem uma atitude competente.