3. TEORIA DO ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL
3.4. Princípios que orientam a Teoria do Adimplemento Substancial
3.4.1 Abuso de direito e Enriquecimento sem causa
A obrigação assume intrinsecamente, no contexto estudado, um caráter patrimonial
e, assim, havendo descumprimento por parte do devedor, obviamente, passar a existir um
desequilíbrio na relação entre prestações e contraprestações assumidas pelas partes, as quais
foram delineadas, em sua origem, tendo em vista o aspecto pecuniário.
Todavia, o valor venal principiado no termo contratual passa a não ser puro e
simplesmente o mesmo, já que sucede de ser acrescido, dado à mora, das quantias apuradas
como prejuízos.
Nisso, na perseguição pelo reequilíbrio da relação alterada, há de se observar que
deve ser vedado o enriquecimento ilícito, o qual imprime a noção de alguém está se
locupletando de algo que deveria ser de outrem.
Fernando Noronha explicita que o enriquecimento ilícito:
“(...) contrapõe-se à responsabilidade civil, na medida em que esta tem por função reparar danos, isto é, reduções ou diminuições registradas no patrimônio, ao passo que o enriquecimento sem causa tem por finalidade remover de um patrimônio os acréscimos patrimoniais indevidos – indevidos porque – segundo a ordenação jurídica de bens, deveriam ter acontecido noutro patrimônio (ao qual estavam juridicamente reservados).245”
Para Mário Júlio de Almeida Costa, “na base do instituto do enriquecimento sem
causa, como o seu próprio nome já denuncia, encontra-se a ideia de que pessoa alguma deve
locupletar-se injustificadamente”
246.
Segundo Cristiano Chaves Farias e Nelson Rosenveld, “a ideia é a de repor o
patrimônio do credor ao que era anteriormente, mas transferir-lhe os acréscimos que
aconteceram em outro patrimônio
247.
245 NORONHA, Fernando - Direito das Obrigações. Vol. I. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 421.
246 COSTA, Mário Júlio de Almeida - Direito das obrigações. 12.ª ed. Coimbra: Almedina, 2014, p. 489-490. 247 FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de direito civil: obrigações. 10.ª ed. Salvador:
Positivando o tema, o Código Civil português, em seu artigo 473, n.º 1, preconiza
que “aquele que, sem causa justificativa, enriquecer à custa de outrem é obrigado a restituir
aquilo com que injustamente se locupletou”
248.
A respeito, Mário Julio de Almeida Costa, comentando o dispositivo da legislação
civil portuguesa, entende que o enriquecimento pressupõe a existência simultânea de três
requisitos, quais sejam: “1) a existência de um enriquecimento; 2) que esse enriquecimento se
obtenha à custa de outrem; 3) a falta de causa justificativa”
249.
O abuso de direito tem com fundamento legal o artigo 187, do Código Civil
brasileiro, o qual determina que “também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao
exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela
boa-fé ou pelos bons costumes”
250.
Cristiano Chaves Farias e Nelson Rosenveld referem que:
“O abuso do direito é considerado um ato ilícito objetivo pelo novo Código Civil (art. 187), pois a sua aferição independe da constatação da culpa pela violação formal de uma norma, sendo suficiente a antijuridicidade da conduta, a violação material dos fins dados pelo ordenamento jurídico. Em verdade, o abuso do direito como modo de controle da legitimidade do exercício de direitos subjetivos e potestativos é uma das vertentes da atuação do princípio da boa-fé sobre as relações obrigacionais.251”
Andrea Cristina Zanetti assim conceitua:
“O abuso de direito caracteriza-se pelo exercício irregular de um direito subjetivo, ou seja, o sujeito usa o poder que lhe é conferido por norma de direito positivo – a qual visa à tutela de terminados interesses legítimos – de forma desvirtuada.252”
Por conseguinte, o abuso de direito se verifica quando o titular de um direito, ao
exercê-lo, extrapola os limites éticos da relação, sem motivação alguma.
Sílvio Rodrigues pronuncia-se no sentido de que “o abuso de direito ocorre quando
o agente, atuando dentro das prerrogativas que o ordenamento jurídico lhe concede, deixa de
248 CÓDIGO Civil. [Em linha] Legifrance, 2006. [Consult. 09 de Jun. 2016]. Disponível em
https://www.legifrance.gouv.fr/content/download/1966/13751/.../Code_41.pdf..
249 COSTA, Mário Júlio de Almeida - Direito das obrigações. 12.ª ed. Coimbra: Almedina, 2014, p. 491. 250 CÓDIGO Civil Brasileiro. [Em linha] Planalto, 2016. [Consult. 09 de Jun. 2016]. Disponível em
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm.
251 FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de direito civil: obrigações. 10.ª ed. Salvador:
JusPodivm, 2016, p. 551.