3. TEORIA DO ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL
3.3. O Adimplemento Substancial: Noção Jurídica
Na exegese da Teoria do Inadimplemento Substancial, percebe-se que o julgamento
do caso Boone versus Eyre se pautou exatamente nos princípios afetos aos contratos,
especialmente naqueles de natureza constitucional, considerando a parcela inadimplida de
escassa importância para que fosse resolvido o contrato, entendendo, o julgador, que a avença
poderia ainda ser cumprida quanto às demais obrigações firmadas entre as partes, sob pena, de
modo contrário, de seu desfazimento onerar de forma excessiva o credor.
Assim, a citada teoria surge para afastar o uso indistinto do direito de resolução por
parte de um dos contraentes, preterindo desfazimentos desnecessários em prol da preservação
do pacto, mediante a busca pelo reequilíbrio da relação que fora alterada.
233 BRASIL, Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Apelação Cível Nº 406.006.4/2-00/SP, rel. Des.
Francisco Loureiro. Publicado em 19/10/2006
234 FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de direito civil: obrigações. 10.ª ed. Salvador:
Andrea Cristina Zanetti, estudiosa no assunto, assevera, após a adaptação do instituto
nos ordenamentos influenciados pela tradição romana-germânica, que o adimplemento
substancial consiste, desta forma, no:
“(...) inadimplemento ínfimo, ou de escassa importância que desautoriza, e, destarte, funciona como um limite, à faculdade resolutória dada ao credor, bem como impossibilita o uso de defesas como a exceção do contrato não cumprido, já que o descumprimento em questão não possui gravidade suficiente para colocar em risco ou corromper o sinalagma contratual.235”
Em síntese, a aplicação da teoria como solução jurisprudencial significa a análise
judicial em face da “valoração da gravidade do descumprimento em relação à função
econômica-social de um determinado contrato, para chegar à equação do princípio
contratual”
236.
Ensina Eduardo Luiz Bussata, exatamente com relação a este ponto, frisa que deve
ser levado:
“(...) em consideração o caso concreto em si, e partindo de um juízo de aproximação entre o programa contratual e o conteúdo da prestação realizada pelo devedor, verificar se tal conteúdo, ainda que inexato, perfaz a função econômico-social do contrato, o que importa dizer, satisfaz a utilidade normal da prestação.237”
Rubens Limongi França entende, por sua vez, que:
“A finalidade precípua é garantir, alternativa ou cumulativamente, conforme o caso, em benefício do credor ou de outrem, o fiel e exato cumprimento da obrigação principal, bem assim, ordinariamente, constituir-se na pré-avaliação das perdas e danos e em punição do dever inadimplente.238”
Werter R. Faria ensina, outrossim, pontua que:
“(...) em caso de impossibilidade (no cumprimento da prestação) é imprescindível investigar, cuidadosamente, o obstáculo que se interpôs ao cumprimento. Não raro, o impedimento torna a prestação mais gravosa, difícil e, até, definitivamente irrealizável.239”
235 ZANETTI, Andrea Cristina - Princípio do equilíbrio contratual. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 295. 236 ZANETTI, Andrea Cristina - Princípio do equilíbrio contratual. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 295.
237 BUSSATTA, Eduardo Luiz - Resolução dos contratos e teoria do adimplemento substancial. 2.ª ed. São
Paulo: Saraiva, 2008, p. 116.
238 FRANÇA, Rubens Limongi - Teoria e prática da cláusula penal . São Paulo: Saraiva, 1988, p. 6. 239 FARIA, Werter R. Mora do devedor - Porto Alegre: Sergio antonio Fabris Editor, 1981, p. 25.
Portanto, busca-se, nesse passo, quando da aplicação judicial da teoria ao caso
concreto, a efetividade do contrato, com a invocação, especialmente, dos princípios da função
social e da boa-fé objetiva.
Em suma, o adimplemento substancial consiste em afastar a resolução do contrato
tendo em vista os princípios que o regem.
Assim, a Teoria do Adimplemento Substancial baseia-se em princípios doutrinários,
ainda que já tenha sido positivada em determinados ordenamentos jurídicos, posto que seu
exórdio é a própria construção jurisprudencial, sendo que, atualmente, o julgador analisa quais
as obrigações determinadas já foram cumpridas e se o descumprimento contratual foi
suficiente para afetar, de modo drástico, o objeto do contrato, vedada a extinção imperativa da
obrigação por inadimplemento, sob pena de configurar sacrifício demasiado ao credor.
A situação que se tem em vista é aquela que o devedor não executa perfeitamente os
termos do contrato ou não atinge plenamente os fins propostos, porém o cumprimento de parte
do contrato encontra-se próximo, consideravelmente, do seu resultado final.
A teoria - ou princípio, como tratada por alguns juristas - do adimplemento
substancial repele, nesses casos, a resolução do negócio quando o adimplemento foi realizado
de modo substancial, isto é: a parte inadimplida é considerada mínima em relação ao todo.
Concludentemente, Eduardo Luiz Bussatta ensina que:
“A doutrina e a jurisprudência têm ressaltado a necessidade de que o incumprimento deve ser importante, grave, de não escassa importância, de grande magnitude, em razão de que o contrato é orientado pelo princípio da conservação, bem como seria contrário à boa-fé contratual o exercício do direito subjetivo de resolver o contrato em tais casos. Defende Carlos Miguel Ibáñez que o incumprimento deve ser valorado de acordo com o expressamente pactuado pelas partes, isso para as hipóteses de existir clausula resolutiva expressa. Em não havendo, têm-se proposto dois critérios: o subjetivo, baseado na vontade presumida das partes; e o objetivo, que atende à interdependência das obrigações, de forma que somente haverá direito à resolução quando o inadimplemento afete uma obrigação que era substancial à estrutura do contrato.240”
Por conseguinte, o direito de resolução do contrato por parte do credor, atualmente,
tem sido relativizado pelos julgadores, pois seu exercício de forma indistinta poderá ocasionar
maior desequilíbrio do que o que já fora configurado pela mora do devedor. Nesses casos, o
240 BUSSATTA, Eduardo Luiz - Resolução dos contratos e teoria do adimplemento substancial. 2.ª ed. São