3 A RELIGIÃO EM XEQUE: A LAICIDADE E O DISCURSO RELIGIOSO NA
5.1 O ABUSO DE PODER NAS ELEIÇÕES: FORMAS TÍPICAS E ATÍPICAS LIMITES
JURISDICIONAL
O abuso de poder no plano eleitoral brasileiro se apresenta ora como formas típicas (legislativamente tipificadas), largamente reconhecidas por doutrina e jurisprudência, ora como figuras atípicas, que, quando admitidas, o são com certa resistência e mediante uma série de ressalvas.
Conforme delineado no segundo capítulo, as formas típicas, expressamente consignadas no ordenamento jurídico brasileiro, são o abuso de poder econômico, político e nos meios de comunicação social. Quanto a estas modalidades, não existem maiores celeumas.
Diferente é o que sucede com as formas anômalas (ou atípicas) de abuso de poder, dentre as quais se encontra o abuso de poder religioso, cuja doutrina e jurisprudência ainda concebem de forma refratária.
Contudo, seja sob a forma típica ou atípica, é imperativo que sejam adotados mecanismos de controle dos abusos de poder no contexto eleitoral.
Quanto ao momento do exercício do controle dos abusos de poder eleitoral, este pode ser prévio (ou preventivo), como também pode ser posterior (ou repressivo), conforme já tenha ou não sido deflagrada a prática abusiva.
O controle prévio é estabelecido na legislação, fazendo parte, portanto, das regras do jogo eleitoral. É o que sucede, por exemplo, com a hipótese de restrição de elegibilidade em razão de parentesco, consanguinidade ou afinidade (§7º, art. 14, CF/88). Deste modo, o legislador constituinte, verificando a potencialidade da interferência na regularidade do pleito, se antecipa e restringe – exercendo, portanto, controle preventivo – a participação de certas pessoas na corrida eleitoral. O mesmo ocorre nas hipóteses previstas no art. 1º, da LC 64/90.
Por sua vez, o controle posterior (ou repressivo) ocorre após a deflagração do abuso de poder mediante a instauração de processo na Justiça Eleitoral. Somente é aferível a partir de casos concretos, quando se verificará se houve ou não comprometimento da normalidade das eleições, da igualdade de oportunidade entre os candidatos a cargos eletivos e/ou a liberdade de escolha do candidato por parte do cidadão.
O controle repressivo do abuso de poder nas eleições é norteado pelos princípios da gravidade das circunstâncias e da impersonalidade.
O princípio da gravidade das circunstâncias é extraído da alteração provocada pela Lei Complementar nº135, de 2010, que alterou a redação do art. 22, XVI, da LC 64/90, afastando a potencialidade de alteração do resultado do pleito como elemento para a configuração do ato abusivo, estabelecendo que, ao invés dela, há necessidade apenas de investigar a gravidade das circunstâncias no entorno do suposto ato abusivo.
Neste sentido, a nova redação do supracitado dispositivo estabelece que “para a configuração do ato abusivo, não será considerada a potencialidade de o fato alterar o resultado da eleição, mas apenas a gravidade das circunstâncias que o caracterizam” (LC nº135, 2010).
Conforme lição de Marcos Vinicius Furtado Coêlho (2011), a gravidade das circunstâncias, enquanto cláusula aberta, se assemelha da ideia contida no princípio da proibição do excesso ou da razoabilidade e proporcionalidade, que impõe ao julgador que somente enquadre uma situação como abusiva de poder eleitoral se o fato for significante, ou seja, se houver repercussão social.
[…] a regra é a prevalência da vontade popular. A exceção é a desconstituição desta vontade, com a cassação do mandato, no caso de prova robusta e incontestável que o mandato foi colhido apenas porque a vontade popular foi corrompida e deturpada por práticas reiteradas de abuso de poder econômico ou político, é dizer práticas ilícitas que possuem potencialidade suficiente para desequilibrar a disputa eleitoral (COÊLHO, 2010, p.259).
Com isso, é possível afirmar que a legislação conferiu uma importância maior a uma análise qualitativa das evidências, do que mera aferição quantitativa (correspondência aritmética entre o ato abusivo e o resultado eleitoral), até por conta da dificuldade de apuração da quantidade de pessoas (o voto é secreto) que foram corrompidas pelas práticas abusivas (COÊLHO, 2011, p.146).
A alteração legislativa, substituindo a aferição de potencialidade pela gravidade das circunstâncias, também tem o condão de afastar a impunidade em situações em que não se conseguia efetivamente comprovar que a conduta eleitoral dos agentes envolvidos detinha potencial suficiente para corromper a lisura do certame. Afastou-se, portanto, uma aferição dotada de larga margem de subjetividade – a da potencialidade – para centralizar a discussão sobre a gravidade do contexto fático, extraído da robustez das provas colhidas no curso do Processo Eleitoral.
Com essa nova compreensão, vale ressaltar, mesmo que a conduta eleitoral abusiva praticada (próprio candidato ou por terceiros) não resulte em vitória nas eleições, ainda assim,
o agente poderá ser punido em razão da gravidade das circunstâncias em que as indigitadas medidas foram praticadas.
A atual jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral é também neste sentido, o que pode ser observado, dentre outros, nos AgR-RO: 288605 RO, Rel. Min. Henrique Neves da Silva, julgado em 25/06/2014, Publicado no DJE, Tomo 142, em 04/08/2014, p.49 (que trata de discussão sobre ocorrência de abuso de poder econômico) e no RO nº 172365 – Brasília/DF, Rel. Min. Admar Gonzaga, j. em 07/12/2017, publicado no DJE, Tomo 40, em 27/02/2018, p.126-127 (que versa sobre abuso de autoridade e de poder político).
Ao seu turno, o princípio da impersonalidade indica que todo aquele que pratica o abuso de poder deverá ser responsabilizado, posto que “o ordenamento jurídico pátrio não agasalha o princípio da personalidade, punindo tanto o praticante quanto o beneficiário do ato (art. 22, XIV, da LC nº 64/90)” (GARCIA, 2000, p. 26).
Inclusive, vale ressaltar que o beneficiário de tais atos não é necessariamente um candidato, podendo ser também um partido político (BIM, 2002), sendo esta uma previsão normativa já consagrada no caput do art. 22, da Lei das Inelegibilidades (LC nº 64/90) (BRASIL, 1990).
Uma vez comprovada a ocorrência de abuso de poder no pleito eleitoral, o beneficiário será responsabilizado, ainda que porventura não tenha autorizado ou nem tido ciência da conduta abusiva (BIM, 2002). Isto porque, tenha ou não o beneficiário dado azo à prática abusiva, foi comprometida a lisura e a regularidade do pleito, autorizando a imputação de medidas repressivas.
Neste sentido é a sólida jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral brasileiro, quando estabeleceu o entendimento de que uma vez configurado o abuso de poder, “é irrelevante para a procedência da ação de impugnação de mandato eletivo a comprovação da participação direta dos beneficiários nos atos e fatos caracterizadores da prática ilícita” (BRASIL, 1999, p.171).
5.2 ABUSO DE PODER RELIGIOSO NAS DISPUTAS ELEITORAIS: DEFINIÇÃO. O